XI.

Peter acordou tarde no dia seguinte. Teve um sono calmo, reparador. Infelizmente, quando se levantou, percebeu que Olivia já havia despertado e não se encontrava ali. Encontrou Charlie e Raoul, mas nem sinal dela ou de Bernard. Percebendo que Peter dera pela falta dos dois, Raoul se adiantou à pergunta que ele talvez não se aventurasse a fazer.

-Meu irmão e Olivia foram à missa. Ela queria muito ver os vitrais à luz do dia.

Peter ficou em silêncio, mas aquilo o contrariou. Tinha vontade de tomar satisfações com o rapaz, mas sabia que não tinha nenhum direito sobre Olivia. Reconhecia que se apegara a ela, tanto e com tal intensidade que lhe era impossível ficar indiferente aos avanços de outro homem. Não saberia explicar a exata natureza de seus sentimentos, mas intimamente a percebia como alguém que lhe pertencia exclusivamente. A ideia de dividi-la com alguém era bastante desconfortável.

Comeu algumas frutas que Raoul lhe ofereceu. De vez enquanto olhava para Charlie, que nada dizia. Os dois se encaminharam para fora da barraca e começaram a arrumar as mercadorias. Peter resolveu dominar seu impulso de ir atrás de Olivia e decidiu ajudá-los.


Cerca de uma hora depois os dois regressaram. Peter ficou chocado ao ver o rosto iluminado da jovem. Ela parecia tranquila e à vontade como ele nunca a vira. Caminhavam lado a lado, conversando. Subitamente sentiu raiva de si mesmo, pois teve medo de estar perdendo a sua afeição. O beijo da véspera veio à sua mente. Não, ela sentia alguma coisa por ele, do contrário não teria correspondido com tanta intensidade. Levantou a cabeça e seus olhos se encontraram. Ela não parecia nada perturbada.

Eles não se falaram durante todo o dia, mas ao anoitecer ela saiu da barraca usando o vestido que ganhara da família Debuisson. Usava os cabelos soltos, enfeitados por uma guirlanda de pequenas margaridas. Todos os quatro olharam para ela. Bernard Debuisson abriu um grande sorriso. Peter sentiu raiva, tanta raiva que deu as costas e se enfiou no meio da multidão que se dirigia para a praça. Precisava sair dali. Não conseguia entender a si mesmo. Olivia nunca lhe parecera tão bonita como hoje; ao mesmo tempo isso deixava seu coração agoniado.


Quando deu por si já estava na grande praça. Algumas moças e rapazes dançavam numa roda, batendo palmas. Tiras compridas de pano colorido esvoaçavam, presas no alto de mastros, enfeitando o lugar. Ao redor do grande espaço aberto, podiam ser ouvidos gritos de comerciantes apregoando suas mercadorias. Uma poeira leve pairava sobre todo o lugar. Saltimbancos com roupas remendadas exibiam sua destreza. Uma representação teatral dominava aquele espaço.

Peter se aproximou. Tratava-se da representação de uma peça de Adam de la Halle, dramaturgo do século anterior, natural de Arras. Peter via mal, pois havia muita gente. Os espectadores se acotovelavam , tentando acompanhar o espetáculo. Peter acabou desanimando. Tornou a lembrar de Olivia, com seu melhor vestido e a cabeça adornada com flores. Desejou ardentemente que ela estivesse a seu lado. De repente julgou tê-la visto. A moça era muito parecida, mas a luz não era muito boa. Hesitou, pois o vestido não parecia o mesmo. Em vez de castanho avermelhado, parecia negro. Olivia não tinha nenhum vestido preto. Mesmo assim resolveu seguir a moça, para tirar a dúvida. A ideia que ela tivesse ido ao seu encontro causou-lhe um calor bom dentro do peito.

Seguiu seu vulto por uma viela enlameada, onde o cheiro de carne ensopada se misturava com urina e o óleo das lamparinas queimando dentro das casas. Após caminhar por alguns minutos, dentro de um emaranhado de ruas estreitas e mal iluminadas, percebeu que perdera a moça de vista. Viu muita gente reunida numa espécie de largo que se abria inesperadamente. A moça desparecera mesmo, mas as pessoas se aglomeravam em torno de uma apresentação menor estava sendo feita.

Uma melodia soou ao fundo, sinistramente familiar. Ele já escutara aquilo antes e aqueles acordes faziam com que ele se sentisse mal, infeliz, quase desesperado. Só não entendia o motivo.

Subitamente olhou para os atores e começou a prestar atenção.

"Gentis damas e nobres senhores, quereis saber a verdade sobre o mundo?"

As pessoas da plateia riram do ator, com um traje surrado de bufão que falava de maneira tão solene.

"Pois saibam que o mundo é um espelho, sim um espelho."

Com um gesto teatral, ele recuou e deixou que vissem o cenário rudimentar. Do lado direito um castelo estilizado, pintado de azul ferrete; do outro lado, simetricamente disposto, o mesmo cenário, pintado de vermelho. As pessoas riam, sem vislumbrar a relação entre aquelas palavras e o cenário ingênuo.

Peter viu, assombrado, dois homens que eram na verdade o mesmo homem, só que cada um vivendo em sua parte daquele mundo duplicado. Os atores usavam a mesma máscara, em cores diferentes. As duas versões do mesmo homem - um nobre poderoso - tinham mulher e filho. Enquanto ambos viviam em seus mundos, o homem do universo azul, que era alquimista, descobriu que o mundo era espelhado, e que do outro lado viviam as mesmas pessoas, só que outras.

Pouco após a descoberta, o filho do alquimista adoece e morre. Mergulhado em desespero e cheio de piedade da esposa, o alquimista atravessa o espelho e rouba o duplo de seu próprio filho.

As pessoas que assistiam, não pareciam estar gostando da situação absurda. Aquilo em nada evocava as representações a que estavam acostumados. Só Peter percebia que aquilo era feito para ele, só ele poderia compreender a exata dimensão daquela trama absurda. Alarmado, Peter sentiu como se tivesse sido esbofeteado. A música de fundo, aquela representação bizarra, aquele argumento perturbador, tudo isso apontava para uma certeza: aquilo era uma armadilha. Uma armadilha especialmente criada para ele. Lembrara da melodia porque a ouvira antes, quando tinha sido levado para o outro lado, o lado onde nascera e no qual evitava pensar, sob o risco de ficar louco.

Sentiu um misto de medo e repulsa. Instintivamente, começou a recuar, de forma lenta, como se nada tivesse percebido. Seus instintos lhe diziam que tinha pouca chance de escapar. Da outra vez conseguira fugir por milagre.

Tratou de se esgueirar entre os espectadores. Quando conseguiu sair do miolo da multidão, enveredou pela primeira rua mal iluminada que encontrou diante de si. Após uns poucos passos, ouviu um ruído. Das sombras, saíram duas silhuetas. Aqulilo não o surpreendeu. Deduziu que estava sendo vigiado há algum tempo. Horrorizado, reconheceu a moça que confundira com Olivia. Ela ergueu a cabeça de forma altiva, como se estivesse desafiando alguém. Era Olivia, só que outra. Não parecia tímida ou assustada. Toda ela era autoconfiança. A outra pessoa deixou-o ainda mais nervoso, pois não havia dia em que não lembrasse de seu rosto e nem pesadelo seu onde ele não surgisse. Reconheceu seu pai, o verdadeiro.