Adaptação da obra literária "Se nada der certo, casa comigo até os 30?", de Karina Halle.


CAPÍTULO NOVE


Edward

– JÁ CHEGAMOS? JÁ CHEGAMOS? JÁ CHEGAMOS?

– Ai, meu Deus, é tão bonito!

– Foda! Temos que parar, gente. Gente! Ostras! Precisamos de ostras! Jake, por que não estamos parando?

– Edward, me lembre mais uma vez: por que você não trouxe a gente de helicóptero? Poderíamos ter evitado esta longa estrada pro inferno. Me sinto como o Chevy Chase com sua família sacal no filme Férias frustradas.

Aí estão Mike, Tanya, Isabella e Jacob, respectivamente, reclamando uns com os outros, enquanto subimos pela costa até Sea Ranch. Até aqui, a viagem tem sido linda, mais ainda do que quando a sobrevoo, mas a estrada é longa, cansativa, sinuosa, e, quando o azul profundo do Pacífico encontra as colinas ventosas defronte ao Sea Ranch, nós seis estamos loucos para sair do Suburban de Jacob.

Não parece que demos muita sorte com o clima, mas já deveríamos contar com isso. O final de outubro pode ser imprevisível na costa, e enquanto descarregamos nossas coisas do carro e as levamos para o rancho modesto de dois quartos, situado em um penhasco baixo, o nevoeiro está tão denso quanto o cozido da minha avó e tolda tudo, exceto alguns metros à nossa frente.

– Caramba! Que frio – Bella pragueja quando uma brisa úmida e gelada levanta o cabelo ao redor do seu rosto. Seu nariz já está vermelho, o que é uma fofura.

– Vocês não estão contentes de não estarmos acampando? – Leah grita, puxando sua jaqueta de couro junto ao corpo ao correr de volta pro carro pra pegar mais alguma coisa.

Minha própria jaqueta de couro, graças a Bella, está prestando um belo serviço me mantendo aquecido, ainda que pareça estar atravessando uma nuvem de inverno por aqui. Fico tentado a tirá-la e colocá-la sobre os ombros dela, mas Mike sai da casa e grita para ela que trará o resto. Por um instante estou quase impressionado, porque esta deve ser a coisa mais cavalheiresca que já ouvi o idiota do meninão dizer a ela até agora, mas não me deixo levar. Ainda não acho que ele seja o cara pra ela e imagino que depois deste final de semana não terei dúvidas a respeito.

Mas não sei por que me preocupo. A esta altura, não há nada que possa fazer a respeito.

Depois que trazemos tudo para dentro, temos a disputa pelos quartos e pela privacidade. Mike de imediato reivindica um quarto, e estou prestes a reivindicar o outro quando decido que Leah e Jacob deveriam ficar com ele, já que foi ela quem organizou a coisa toda. O chalé é de uma colega sua de trabalho, e não vamos pagar nada pela estadia.

Tanya queixa-se em altos brados ao meu lado:

– Não posso dormir num sofá! – resmunga, gesticulando para o que parece um ótimo sofá-cama sob uma claraboia, em frente à ampla expansão do Pacífico envolto em nevoeiro. – Minhas costas.

Ela, às vezes, tem dor nas costas. Elas parecem ter se originado da época em que tirou o apêndice, então não tenho por que acreditar que inventa essa merda para conseguir o que quer. Sabe como é, assim ela não precisa lavar os pratos, levar o lixo para fora ou ir trabalhar. Não sei quantas vezes deixei-a na minha cama e fui trabalhar, enquanto ela ficava em casa. É claro que há um mal-estar na empresa de charter por ela ser minha namorada, e agora eles têm que contratar outra temporária para cobrir a recepção.

Tanya nem queria vir nesta viagem. Quando começamos a namorar, ela era bem aventureira e esportiva. Fizemos muitas viagens de carro para percorrer trilhas, fizemos stand up paddle, até chegamos a semanalmente subir numa parede de escaladas numa academia. Mas nos últimos meses ela mudou um pouquinho. Gostaria de dizer que foi para melhor, mas... não foi. Desconfia mais de mim e do que eu faço, em especial quando se trata de outras mulheres, em especial quando se trata de Isabella, e sua intolerância atinge grau 11. Ela me inferniza mais em relação ao futuro, e, quanto mais o futuro se aproxima, menos certeza tenho em relação a ele.

Quero fazer isto dar certo. Não quero que todo o tempo que investi neste relacionamento resulte em nada. Estou numa idade em que não se espera que a pessoa ainda esteja à procura de sua cara-metade. Diabos, com exceção deste meu grupo essencial aqui, a maioria das pessoas que conheço já está casada, com filhos.

Não quero romper com Tanya e descobrir que poderíamos ter dado um jeito, que era apenas uma fase difícil, que ela poderia ter voltado a ser como era, aos dias felizes, com muito sexo. Não quero desistir. Não sem um motivo.

Meus olhos deslocam-se para Bella, e sei o que ela vai dizer para as reclamações de Tanya. Quero lhe dizer que ela não precisa fazer isso.

– Tudo bem – diz Bella, sorrindo para Tanya. – Mike e eu podemos ficar com o sofá, a gente não liga.

E ainda que tenha sido Mike quem tenha reivindicado o quarto, ele não parece se incomodar. Dá de ombros da sua maneira vaga e diz:

– É, tranquilo, cara.

– Obrigada – Tanya diz rápido, sem de fato olhar para Bella.

Isabella sabe que Tanya não gosta dela, e tenta fazer das tripas coração pra dar um jeito nisso. Quero lhe dizer que não adianta, que Tanya tem ciúmes do nosso relacionamento e, por mais que ela bajule e seja simpática, nada mudará.

O engraçado é que Isabella também não está bajulando. Só quer que gostem dela. Isso é uma coisa que comentei com ela ao longo dos anos, algo do qual ela ainda não se livrou. Tem segurança em uma porção de coisas, mas ainda clama por aprovação. Às vezes, tudo o que quero é puxá-la de lado e dizer que ela não precisa ser a filha que vai preencher o vazio deixado pelo irmão, ou ser dona do melhor negócio do bairro, a garota mais bonita da sala. Ela já é tudo isso e a única aprovação de que necessita é a sua própria.

Tento encontrar o olhar de Bella, mas ela está ocupada, trazendo sua sacola metálica para o sofá. Joga-se nas almofadas, e pula pra cima e pra baixo, sorrindo para Mike como se dissesse que, de qualquer modo, o sofá era uma opção melhor. Seus seios, que parecem mais espetaculares a cada dia que passa, sacodem para lá e para cá, e desvio os olhos antes que alguém repare. São mais hipnóticos do que uma lâmpada de lava.

Depois que estamos todos instalados, com nossas coisas guardadas, juntamo-nos em torno da grande mesa ao lado da cozinha e abrimos as cervejas e os vinhos. Já está escuro lá fora; tivemos que deixar a cidade às cinco e meia, porque Bella precisava dar o horário de fechar a loja. O mercadinho mais próximo fica em Gualala, a apenas dez minutos, mas ninguém quer sair naquele nevoeiro espesso e gelado.

Ainda bem, todos nós comemos comida para viagem no caminho para cá, então estamos satisfeitos com os potes de molho de tomate condimentado feito por Tanya e sacos de tortillas.

Por alguma razão, talvez por ser raro os três casais se reunirem como agora, é um tanto embaraçoso estarmos sentados em volta da mesa, bebendo. Normalmente, Jacob e eu conseguimos falar merda, mas ele anda esquisito e também calado. Talvez só esteja cansado e preocupado. Quase nunca deixa o bar por todo um fim de semana, e sei que está pensando na equipe que ficou no comando.

– Que tal um strip pôquer? – sugiro animado.

Tanya revira os olhos:

– Ninguém quer te ver pelado.

– Como é que é? – Ergo as sobrancelhas. – Isso é novidade.

– Eu quero – diz Leah, ansiosa.

Sorrio e levanto minha cerveja para ela:

– Aí está uma boa menina. Obrigado, Leah.

– Você não tem com o que se preocupar – Isabella diz para Tanya com um sorriso sarcástico. – Edward é o rei do pôquer. Ele vai é tirar as suas roupas.

Tanya parece irritada com isso. Sei que é por sentir que deveria me conhecer melhor do que Bella.

– Eu topo – Jacob diz, e vai até a pilha de jogos em uma das prateleiras ao lado da lareira. – Ou que tal Monopoly?

– Só se você quiser que todo mundo brigue com todo mundo – diz Leah, e todos murmuram, concordando.

Muitas brigas começaram e amizades foram postas à prova a partir do movimento de pequenos peões e dinheiro de papel. Olho para Bella e subo e desço depressa as sobrancelhas.

– Que pena que não tem o jogo Happy Days – digo pra ela, que dá uma risadinha.

Quando tínhamos 23, 24 anos, ela quebrou o tornozelo e ficou em repouso. Eu e Jacob íamos até sua casa algumas noites por semana e revíamos todas as temporadas de Friends, ainda que tivéssemos assistido à série religiosamente na adolescência. Um dos nossos episódios favoritos (além daquele do sofá novo de Ross e as calças de couro dele) foi um em que Joey sugeriu que jogassem a versão strip de um jogo de tabuleiro porque eles não tinham baralho.

Jacob, porém, tem baralho, mas, quando joga as cartas na mesa, quase derrubando uma cerveja, olha para todos nós e diz:

– Isto aqui parece um episódio de Friends. Três garotas, três caras, a maioria de nós grandes amigos.

– Bom, todos nós sabemos que Jacob e Isabella tiveram um casinho quando eram jovens e estúpidos – Leah diz, mas não está incomodada com isso. Sorri para eles seu grande sorriso com falha nos dentes e depois dirige os olhos brilhantes para mim: – E você, Edward? Também bebeu nessa fonte?

No geral, quando alguém questiona a validade platônica de minha amizade com Isabella, é fácil dar risada. Mas aqui, esta noite, é pra lá de esquisito. Posso sentir os olhos de Tanya me perfurando; Bella está ficando corada e desvia o olhar, e Jake tem aquela mesma expressão assassina de quando me pegou conversando com Bella na festa de aniversário dela.

– Você está se referindo ao Jacob, certo? – tento brincar. É uma brincadeira segura.

Leah não se impressiona.

– Não, embora às vezes eu me pergunte sobre as conversas que vocês têm tarde da noite – diz, e então agita os dedos na direção de Jake antes de se voltar para mim. – Você e Isabella nunca tiveram um caso?

– Não – respondo, depois faço uma careta. – Ela é nojenta.

– Cale a boca – Bella pressiona de volta. – Você não daria conta disto aqui mesmo que tentasse.

Tudo bem, agora fico tentado a entrar no jogo.

– É mesmo?

Bella levanta o queixo e olha para Leah:

– Nunca tivemos um caso. Tenho alguns padrões, você me entende.

– Ai – agarro o peito dramático. – Dói como uma facada.

– Amo Bryan Adams. – Mike observa, como é óbvio que amaria.

– Vai ver você só não é o tipo dele. Já pensou nisso? – Tanya diz em tom de gozação.

A boca de Bella chegar a abrir, mas para seu crédito ela deixa passar. Sou partidário de a minha namorada me defender, mas havia uma insinuação em suas palavras que beirava a sacanagem.

– Não sou nem um pouco o tipo dele – Bella diz calma, antes de tomar um último gole de vinho, como se tentasse enterrar o que mais tivesse a dizer.

Capturo seu olhar por um instante, e algo se passa entre nós, algo a ver com um pedido de desculpas da minha parte em relação a Nadine. Também gostaria de poder lhe dizer que ela é meu tipo. Meu único tipo. Mas, em vez disso, me concentro no baralho.

– Bom, isso foi quase constrangedor – Jake tripudia, mas eu o ignoro. – Então, por que não tornar esta noite de fato constrangedora jogando strip Monopoly?

– Nem pensar – diz Tanya. – Somos todos adultos aqui, não deveríamos jogar jogo de tabuleiro.

– Só porque você é uma "adulta" – Bella diz, fazendo aspas no ar com os dedos – não significa que não possa se divertir. Porra, não me sinto com 30 anos. Acabei de fazer 30, é um fato, mas mesmo assim. Sinto-me com 25. Na verdade, não, sinto-me com alguma idade indeterminada. E tudo bem. Detestaria sentir a minha idade, se isso significar que não posso mais me divertir.

– Provavelmente você pensaria diferente se tivesse filhos – Tanya observa com uma inclinação de cabeça.

Bella ri:

– Não mesmo. Ainda somos apenas seres humanos numa experiência de aprendizado que acho que nunca terá fim. – Ela faz uma pausa, respirando fundo. – Sou muito diferente da pessoa que era há dez anos, e mesmo assim tem muitas coisas que continuam iguais. Meu cérebro é o mesmo, meus pensamentos também podem ser.

– Todos nós nos sentimos assim – Leah garante a ela. – Tenho 33, e não ajo como a minha idade. Que seja. E não tem nada a ver com o fato de não ter filhos ou não ser casada.

– E não é como se você tivesse filhos – digo para Tanya, observando o óbvio e me sentindo mal que ela pareça estar provocando Bella.

Ela me olha com calma:

Ainda não.

Ah, babaca.

– Tudo bem, agora as coisas estão constrangedoras – Jacob diz, quase animado.

É impossível não lhe dar razão. Todos nós pegamos nossas bebidas, e é graças ao alheamento de Mike (que não parou de entoar "Cut like a Knife") que a tensão é quebrada quando ele diz:

– E aí, vamos ou não jogar Monopoly?

Pela primeira vez, me vejo dizendo que o Monopoly é uma excelente ideia, e logo somos todos uns putos de uns gananciosos, lutando pelo melhor imóvel. Como a maioria das partidas desse jogo, esta se arrasta por horas e horas. Leah é a primeira a perder tudo, então se põe a beber e tenta armar estratégias para todo mundo.

Tanya, porém, é a primeira a desistir.

– Vou pra cama, está muito tarde – diz, enquanto reprime um bocejo e sai da cadeira.

Olho todas as casas que ela alinhou nas propriedades e seu maço gigante de dinheiro colorido.

– Mas você está ganhando. Você é praticamente o Donald Trump.

– Estou cansada – ela diz brusca, bocejando de novo.

Parece mesmo cansada, seu cabelo ainda mais loiro contra o lindo rosto pálido, e imagino que sejam 11 da noite.

– Posso assumir suas posses? Quero dizer, se esta fosse a vida real...

– Esta é a vida real. Você vem pra cama. Agora, Edward. – Ela lança um olhar para Bella, como se enfatizasse a última palavra.

Ainda me incomoda muito quando ela fica me dando ordens, especialmente na frente de amigos. Sei que é um pouco jeitão de homem das cavernas, e talvez estúpido, ser tão orgulhoso em relação a coisas tão insignificantes, como o modo com que falam com você, mas acho que, afinal de contas, tem um pouquinho do meu pai em mim.

Percebo que todos estão me olhando, especulando se vou me levantar e seguir minha namorada. Engulo em seco, e depois a olho nos olhos.

– Não estou cansado. Acho que vou ficar mais um pouco. Não vou me demorar demais.

Seguro seu olhar porque não sou homem de abaixar a crista. Mas, puta que pariu, ela dificulta as coisas. Seu maxilar inferior está tão tenso que tenho quase certeza que ela vai me morder ou pulverizar seus dentes inferiores.

– Tudo bem. – Ela vira e entra no quarto. A seu favor, ela não bate a porta.

Jacob está me olhando com uma expressão de "o que deu nela?". Nos últimos tempos, Tanya e eu não temos saído tanto com ele, então ele não tem testemunhado o declínio atual do nosso relacionamento.

Este é o declínio, certo? Foda-se, já não sei mais. Espero até que a partida recomece, com a cabeça entre as mãos, tentando pensar. Estou bêbado demais para pensar.

Quando volto a levantar a cabeça, vejo Bella me olhando. Ela não desvia o olhar. Não consigo lê-lo, embora seus olhos estejam tão grandes e castanhos que imploram para que eu tente entendê-la. Pode ser que esteja com pena de mim, lamentando que eu esteja com uma pessoa desse tipo. Pode ser que ela consiga ver o quanto estou infeliz por dentro. Ou pode ser alguma outra coisa.

Arrependimento. Seus próprios arrependimentos por mim e por si mesma.

Sei que este é um pensamento mágico, mas é o que quero ver. Quero que ela perceba que nós dois não estamos com quem deveríamos estar. E, se ela já souber disso, quero que saiba que não é tarde demais. Ou será que é?

•••

Na manhã seguinte, somos todos saudados por um sol intenso e a promessa de um dia melhor.

Para mim, tinha se tornado mais promissor, ainda mais quando Tanya me acordou com um boquete, como um pedido de desculpas pelo seu comportamento na noite anterior. É difícil dizer não para um bom boquete, e ainda mais difícil ignorar um pedido de desculpas sincero. Ela não tem sido muito amistosa com eles; nós dois temos que lidar com um excesso de orgulho.

Infelizmente, apesar de o nevoeiro ter se dissipado, e lá pelo meio-dia o sol resplandecer sobre o todo-poderoso Pacífico, a energia boa não dura. Isabella e Leah querem ir até Gualala buscar alguns mantimentos, e digo que quero ir com elas. O caminho é agradável, e acho que sou um pouco superprotetor com as meninas, ainda que não devesse ser. Tanya não quer ir, e aí começa o problema. Ela não quer ir e acha que, por isso, eu também não deveria ir.

– Por que você está sempre querendo estar com ela? –pergunta, mal contendo a voz, enquanto Bella e Leah saem pela porta.

– Não é nada disso – digo a ela, ignorando a pontada de culpa. É como se estivesse espetando os meus rins.

– Você sabe que a maioria dos caras não é amigo das meninas desse jeito.

Estreito os olhos para ela:

– Desse jeito como, exatamente?

Ela me olha por um segundo e depois desvia o olhar:

– Nada. Vá, divirta-se.

Entro no assento do motorista, já que estou mais acostumado a dirigir o Suburban de Jake, enquanto Bella pega o lugar ao lado. Leah está no banco de trás com a cabeça para fora da janela aberta, como um cachorro feliz com o sol.

Há um breve momento radiante quando olho para Isabella e sinto que somos só eu e ela contra o mundo. Posso fingir que Leah nem está aqui. É apenas o rosto lindo de Bella, e aqueles olhos grandes e curiosos, enquanto ela analisa todas as colinas naturais e ondulantes à sua volta. Em outra vida, num sonho, eu teria parado o carro e transado com ela em um desses campos, deixando o litoral selvagem tomar conta de nós e trazer à tona todos esses desejos secretos.

Mas não é um sonho, e minha fantasia precisa parar por aí.

Ficamos em Gualala mais tempo do que pretendíamos. A cidade não tem nada, apenas um bando de construções dos dois lados da Highway One, mas possui aquela característica peculiar, cansada, desprotegida, que a maioria dos vilarejos da costa tem. Compramos mantimentos suficientes para um jantar, um café da manhã e dois almoços, além de toda a provisão de cerveja e salgadinhos. Depois, damos uma olhada nas lojas. A maioria está fechada por causa do inverno que se aproxima.

Meu café da manhã foi escasso, levando-se em conta que tudo que tínhamos era um pão de forma e um resto de manteiga. Então, quando Leah começa a resmungar sobre o quanto está faminta, entramos no restaurante Bone's para um lanchinho rápido com uma defumadíssima carne de peito bovino e algumas cervejas. Mesmo através das janelas sujas e borrifadas de sal, a vista do oceano por sobre as casas e colinas é assombrosa, e antes que a gente perceba o tempo escorre por entre os dedos.

Quando voltamos ao chalé, percebo que o clima mudou um pouco. Embora os sacos de mantimentos e a bebida que colocamos sobre o balcão pareçam satisfazer Mike, que remexe dentro deles como um esquilo voraz, Jacob e Tanya estão putos.

– Por que demoraram tanto? – Jake pergunta. Pensei que ele estivesse falando com Leah, mas na verdade olhava para mim.

– Tomamos um lanche – explico com um alçar de ombros, sem entender o motivo de ele estar tão bravo. É porque eu estava com sua namorada e seu carro?

– Você podia ter telefonado. – Ele me encara como se achasse que estou mentindo.

– Tudo bem, mamãe – digo a ele. – Lá não tem sinal. Nossa! Trouxemos comida e bebida pra vocês. Que tal comer um pouco e dar uma relaxada?

Ele levanta as mãos e pega uma cerveja na caixa, como se não estivesse sendo irracional:

– Só estava perguntando.

Enquanto isso, Tanya está quieta, o que é terrível. Sei que a qualquer minuto ela vai explodir. Também sei que isso não vai acontecer enquanto estivermos perto dos outros, então também pego uma cerveja e puxo um banquinho, planejando jamais deixar este assento enquanto viver.

Aguento seu tratamento de silêncio pela hora seguinte e vejo Mike fritar algumas salsichas para ele e Jake, mas aí preciso ir ao banheiro. Estou abastecido com duas cervejas e a ponto de arrebentar. Espero até ver Tanya conversando com Leah lá fora no pátio, seus rostos voltados para o sol. Então me levanto e vou. Posso mijar bem rápido. Você aprende esse tipo de coisa quando cresce com um irmão como Emmett, que se vangloriava das horas no banheiro e atormentava você com o desentupidor de privada, caso tentasse atrapalhar.

Estou puxando o zíper ao mesmo tempo em que saio do toalete, mas lá está ela, mão no quadril, camisa xadrez branca e rosa amarrada na cintura, o cabelo loiro puxado para trás, exibindo a linha entre as sobrancelhas e a leve expressão de escárnio nos lábios.

– Ei, baby – digo a ela, dando-lhe meu sorriso descontraído.

Isso só a deixa mais furiosa. Cai matando em cima de mim, falando bem alto que a estou evitando e agindo como se ela fosse um fardo, e que nunca lhe demonstro qualquer respeito. Não tenho certeza de quais partes disso não sejam verdade, mas uma delas tem que ser. E, por causa disso, meio que me sinto um idiota. E também não protesto demais.

– Quando a gente voltar pra casa, precisamos ter uma conversa – ela diz, antes de sair ventando, e seu rabo de cavalo quase bate no meu rosto.

Não posso discutir quanto a isso. Precisamos mesmo ter uma conversa. Só não sei como vai ser ou o que vou dizer. Me pergunto por quanto tempo posso deslizar pela vida com nada além de negativas. O que eu sei é que preciso escapar desta situação por um tempo. Pego outra cerveja e saio para fora, deixo meus pés me levar por uma trilha de cascalho, atravesso campos esbranquiçados e flores silvestres murchas até que estou pelos joelhos numa vegetação de dunas e o vento quase me carrega. Estou na extensão selvagem e aparentemente infindável de uma praia de areia cinza que se perde na bruma do oceano, como se não fosse nada além de uma aparição.

Sento-me num tronco e tiro a tampa da cerveja na beirada da madeira. Minha mente meio que entra num estado quase meditativo enquanto contemplo as ondas baterem na praia, vezes sem fim. O som, a força, tudo isso me leva entorpecido para um lugar onde quero estar.

– Vou causar problema se conversar com você? – uma voz familiar irrompe em meus pensamentos incoerentes.

Levanto os olhos e vejo Isabella ao meu lado e, atrás dela, o sol que se põe no horizonte. Está iluminada por trás e resplandece como um anjo. Não posso impedir o sorriso quando ele se abre no meu rosto.

– Provavelmente – digo a ela, e então aceno com a cabeça para o tronco. – Sente-se. O que está fazendo aqui?

Ela levanta a mão e vejo que está com o celular.

– Tirando fotos. Você sabe, para a loja. Como inspiração para futuras vitrines, essas coisas.

Ela se senta ao meu lado e começa a percorrer as fotos. Olho algumas tomadas artísticas de conchas, piscinas de maré e madeiras trazidas pelo mar cintilarem na tela; e então olho seu perfil, vejo mechas de cabelo chocolate se moverem pelo seu rosto. Estou morrendo de vontade de prendê-las atrás das orelhas para poder vê-la melhor.

É uma mulher muito linda. E uma grande mulher. De certa maneira, é esquisito pensar assim porque a conheço desde que tínhamos 21 anos. Éramos apenas moleques nessa época, ela com seu cabelo azul, eu com minhas besteiras. Agora ela ganhou carne, curvas de verdade que você tem vontade de agarrar, apertar e brincar, e um rosto que está mais definido e em paz do que nunca. Todos os dias, todos os anos, parecem uma evolução para a pessoa que ela é agora, a mulher sentada ao meu lado, principalmente quando voltamos para onde todos nós começamos.

Não posso acreditar que tenho feito parte da sua vida todo esse tempo. Ela olha para mim, firmando os olhos contra a luz.

– O que você acha?

Sei que está falando das fotos, mas digo:

– Acho que tenho sorte de te conhecer há tanto tempo.

Ela joga a cabeça para trás ligeiramente e sorri.

– É mesmo?

– É mesmo.

– Isso é surpreendente – ela observa.

– Por quê?

Ela levanta um ombro.

– Sei lá. Às vezes me pergunto se você sabe a sorte que tem. – Franzo o cenho para ela, que continua: – Não estou me referindo a mim. Estou me referindo à sua vida. A tudo.

– Inclusive namorada? – É uma pergunta relevante.

Ela esfrega as mãos uma na outra e se debruça para começar a brincar com areia, correndo-a pelos dedos.

– Talvez. Se você estiver feliz, então tem sorte.

– E se não estiver?

Ela faz uma pausa para refletir:

– Então, você pode mudar isso.

– Não tenho certeza que possa.

Ela olha para mim:

– Sei que a Tanya não gosta de mim. Mas também sei que raramente vejo vocês dois juntos. E você e eu... Bom, tenho andado ocupada. Você também. Não sei bem o que anda acontecendo na sua vida. Não sei como ela te trata. A gente costumava conversar sobre esse tipo de coisa... mas agora não sei nada sobre o seu relacionamento. Só sei que não se pode fazer julgamentos precipitados sobre as pessoas. Algumas parecem muito pentelhas com todo mundo, mas são solidárias, boas e leais com aqueles que amam. Se Tanya for assim com você, não daria pra eu saber, e explicaria por que ainda está com ela.

Quando ela para de divagar, volta a contemplar o oceano:

– Ou talvez eu só esteja falando sem conhecimento de causa.

– Não – digo devagar. – Isso faz sentido. Mas... Não sei de fato o que dizer. Só espero que isto seja uma fase que passe logo, entende? Um período difícil. E a gente vai sair dele. Sinto que... a esta altura da vida, você tem que estar preparado pra parar com os joguinhos e ficar sério. Precisa saber se cada pessoa que aparece na sua vida vai ficar lá a longo prazo.

Ela parece se imobilizar com isso.

– Você está sério a respeito dela? Casamento e tudo mais? – pergunta baixinho.

– Não – me vejo dizendo num impulso. E não posso voltar atrás porque é uma completa verdade.

– Mesmo que descubra que é só um período difícil?

Respiro profunda e lentamente, enquanto o peso de milhões de decisões despenca sobre mim.

– Não sei – digo e me levanto. Preciso me afastar dela e do rumo que a conversa parece tomar. – Mas sei que as coisas ficariam melhores se tivessem se resolvido de outro jeito. – Fico quieto e olho nos olhos dela. – Para nós dois.

Então, deixo-a no tronco, na praia, o vento em seu cabelo, antes que faça alguma coisa da qual possa me arrepender.


Aoooooooi pessoinhas! Esses dois... vou te falar viu! Haja paciência!