CAPITULO 11: …Prelúdio de um Adeus …
Há três anos, Sora havia sido convidada a participar num evento junto a estilistas de todo o mundo. A sede havia sido na cidade de Nova York, e sua coleção era uma mistura entre o estilo da moda ocidental e oriental tradicional, e estando em um país com tanta diversidade cultural, aquela proposta causou êxtase.
Devido ao êxito obtido, os convites a diferentes eventos sociais como convidada especial não demoraram em chegar, e Sora, sendo uma mulher de negócios que sabia que socializar no meio era a melhor estratégia para fazer contatos e fazer crescer sua empresa... Mas também uma pessoa sumamente amável que gostava de conviver e conhecer gente nova, foi a cada um deles.
Em um desses eventos, graças a Michael, ex-namorado de Mimi, que havia lhe ajudado durante sua estância na cidade, conheceu Tetsuya Igarashi, um jovem escritor de descendência americana-japonesa que se encontrava trabalhando em sua nova obra. E segundo comentários de Michael, era um bom amigo seu, tinha um grande futuro como novelista no mundo da literatura.
Quem sabe era um grande partido porque havia sido criado nos EUA e isso lhe fazia muito mais desenvolto, comparando-o com o formalismo que caracterizava a educação de seu país, e apesar de seu sofisticado porte, Tetsuya era um homem simples e sincero que pouco pensar em suas palavras e ações, e atuava de acordo com seus sentimentos, os quais não tinha nenhum medo de mostrar... Sora não demorou muito em perceber que não era só um homem agradável e divertido, mas também um excelente ser humano, pessoa com a qual podia sustentar uma amena conversa e abordar nela qualquer tema que seria sem dúvida, inteligentemente debatido até deixar ambas as partes satisfeitas... E para Sora aquela personalidade era totalmente nova e ansiava conhecer mais sobre aquele homem.
O mesmo efeito causou Sora em... Igarashi havia ficado encantado com a sincera e amável personalidade de Sora, que fazia um perfeito equilíbrio com sua forma de ser desenvolta e segura de si mesma. Poucas mulheres nesse meio, onde as aparências eram de grande importância, tinham aquele anjo que destilava Sora com sua presença sem fazer esforço algum. E apenas ao conhecê-la, não pôde e não quis, dissimular o grande interesse e atração que sentia por ela, então durante a estância de Sora em Nova York, dedicou todo seu tempo a cortejá-la até que seus esforços deram fruto... E ao voltar ao Japão, Sora apresentou-o aos seus amigos como seu namorado... Tetsuya Igarashi... Com quem depois de um ano de relação, ficou comprometida, após viverem cinco meses juntos.
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"I... Igarashi?"
Yamato simplesmente não podia acreditar e pedia que seus olhos estivessem brincando... Mas por mais que quisesse, não podia negar a realidade... Por que de todos os homens que haviam passado pela vida de Sora... Tinha que ser precisamente Tetsuya Igarashi que devia regressar?! Sobre tudo quando este homem em particular havia estado a ponto de casar com sua ruiva... Porque para ele, isso era agora, SUA Sora...
Ao perceber a presença do velho amigo de Sora, o homem se aproximou sorrindo com a naturalidade e confiança que o caracterizava quando se encontrava com alguma pessoa que lhe agradava, e quando Sora os apresentou há alguns anos, Yamato havia lhe simpatizado apesar de ser tudo ao contrário dele.
"Ishida! Nossa que surpresa! Não esperava te ver tão cedo..."- disse enquanto lhe dava um abraço fraternal, sem levar em conta o desconcerto do loiro que não saía de seu assombro, e que fazia um grande esforço por parecer tranqüilo e cortez, esboçando um ligeiro sorriso, quando na verdade queria lhe deixar bem claro que não permitiria que se aproximasse de sua ruiva... mas sabia que isso era impossível, se algo tinha Igarashi que o incomodava um pouco... era sua excessiva amabilidade e batê-lo seria como bater num homem com óculos... simplesmente, não se fazia.
No meio do abraço e apesar de seu desconserto, Yamato observou inquisitivo a Sora, que não fez muito esforço para saber que aquele penetrante olhar que seu amante lhe dirigia queria dizer 'Que diabos ele está fazendo aqui?' e 'Poderia tirá-lo de cima de mim?'... Mesmo sabendo que não era totalmente adequado, devido ao encontro entre seu ex e seu atual, Sora não pode evitar soltar um pequeno risinho, ao ver, por um lado, a normal efusividade de seu ex-noivo e pelo outro, o rosto perplexo de Yamato que nunca havia se acostumado com a extrovertida personalidade de Tetsuya... quem sabe porque simplesmente eram muito diferentes... ou quem sabe porque Yamato jamais o aceitou completamente, ao contrário de Tetsuya...
"Vamos, Tetsuya... Não acha que já foram suficientes mostras de camaradagem?"- comentou a ruiva enquanto o apartava de seu amigo que suspirou aliviado ao ver-se livre dele.
"Tem razão, querida... Desculpa, Ishida. Acho que tomei muita liberdade contigo. Verdade? Mas é que me surpreendeu muito te ver depois de tanto tempo... a última vez... me parece que foi quando Sora e eu te pedimos que fosse um dos nossos padrinhos de nosso casamento, não?"- comentou Tetsuya sinceramente sem medir suas palavras.
"Sim... mas você não foi o mais surpreso... ao menos não está tanto como eu... te asseguro."- disse Yamato tratando de parecer tranqüilo e amável, mas o fato que chamasse Sora de 'querida' não lhe agradava. "E... o que te traz por aqui?... Para ser sincero... não imaginei que algum dia voltaria a te ver... depois de... bom, você sabe."- perguntou diretamente, sabendo que aquilo não seria levado a mal pelo homem de cabelo negro.
"Que bom que perguntou, me permita..."- Igarachi caminhou até a mesinha da sala onde pegou um livro e voltou para lhe dar a Yamato.
'Céu Escarlata... Em busca de um Amor contra o Destino' vinha escrito na capa com letras douradas junto com seu nome abaixo do título do livro, que tinha como ilustração um perfil que lhe parecia curiosamente familiar, olhando um lindo céu azul... Yamato levantou o olhar até Tetsuya, que sorridente respondeu.
"Se deu conta, verdade?... Essa é a Sora."- então Yamato desviou a vista até a ruiva, que algo ruborizada pela vergonha, se limitou a aceitar com a cabeça. Não era de se surpreender depois de tudo, pois no tempo em que ficaram juntos, soube que Sora estava ajudando-o com algumas idéias para a obra que agora tinha em suas mãos e Igarashi lhes mostrava ao fim terminada orgulhosamente.
Tetsuya lhe indicou que continuasse vendo o livro, e após passar uma página em branco e outra com o título do livro, vinha uma pequena dedicatória que dizia : 'Para Sora Takenouchi... o Amor encarnado em Mulher'... palavras com as que secretamente Yamato estava de acordo, mas ainda assim não podia em sentir-se irritado ao ver que outro homem lhe dedicasse... O que se propunha Igarashi rememorando seu velho romance?... Quem sabe havia voltar para reviver velhos amores. Não podia suportar essa idéia... mas mesmo que agora não quisesse aceitar, ele havia sido parte importante na vida de Sora, pois por nada em seu momento havia aceitado ser sua companheira de toda a vida.
"Nossa... Pois. parabéns... Acho que isso te trouxe novamente ao Japão, não?... A apresentação de seu livro... espero que seja excelente."- perguntou o loiro esperançado em saber se Igarashi tinha alguma intenção de voltar com Sora.
"Entre outras coisas... mas a mais importante é..."- disse Tetsuya sem concluir olhando fixamente Sora, que não pôde evitar ruborizar-se como fazia cada vez que se via em seus suaves olhos azuis. "De fato a apresentação vai ser na França, meu editor disse que seria uma boa idéia e estive promovendo-o nas últimas semanas... Foi uma sorte que nos encontramos lá, verdade?"- disse Tetsuya a Sora pelos ombros e lhe dando um beijo na testa sob o desconcerto do loiro. "E como lhe prometi que veria lhe presentear o primeiro exemplar quando estivesse pronto..."
Sora não sabia o que dizer com as palavras e ações de seu ex na presença de Yamato... era verdade que durante sua estada na França casualmente haviam se encontrado enquanto passeava pelo Jardim do Luxemburgo, mas eles estavam tão ocupados que não puderam ter mais que uma pequena conversa e ao menos para ele esse não era um detalhe relevante, por isso jamais havia mencionado... Mas ao sentir o olhar questionante de Yamato sobre ela, quase lhe reprovando que tivesse omitido seu encontro com Tetsuya... soube que para ele sim era um importante detalhe a mencionar.
"Foi... mera casualidade..."- tratou de se desculpar mas ele a olhava de uma forma tão dura e fria, como se pensasse que estava lhe enganando e ela sabia que se algo que o loiro não suportava, eram as mentiras.
"Ah... sei..."- foi a máxima e fria resposta por parte dele... Yamato estava com ciúme, não ia negar mas tão pouco ia demonstrar, muito menos na frente de Tetsuya. "Bom, tenho que ir, seguramente vocês tem muitas coisas que 'rememorar', verdade?"- disse sem poder evitar recalcar suas últimas palavras olhando friamente para a ruiva.
"E como, por isso queria convidar a Sora para jantar essa noite. Ouvi falar que 'Konoha' tem uma das melhores mesas da região... Gostaria de ir, preciosa?"- inocentemente Tetsuya havia escolhido precisamente aquele lugar que ela supunha, tinha para ambos um significado especial, pois ali havia iniciado seu 'romance', e ao menos Sora sentia que não podia ir de novo a esse lugar se não fosse com Yamato... mas também não podia rejeitar o convite de Tetsuya.
"Eh... para dizer a verdade... preferiria ir a outro lugar... Konoha é um lugar muito exclusivo, ao que só gosto de ir a ocasiões 'muito' especiais..."- dizer isso e com toda a intenção, seus olhos pousaram-se em Yamato, esperando que ele entendesse ao que se referia."E é indispensável ir formalmente e..."
"Não fale mais nada, se há algo que não suporto é me vestir tão formalmente... Então procuraremos um lugar menos formal e mais intimo... O que acha? Como nos velhos tempos."- isso era algo que Yamato não podia suportar, tinha que sair dali ou terminaria batendo em Igarashi... que seguramente não tinha a menor idéia do que suas palavras o faziam morrer de ciúmes.
"Bom, lhes desejo que tenham uma noite 'muito' agradável... Igarashi, te desejo toda a sorte do mundo com seu livro."- disse tratando que o homem não notasse sua raiva e o sarcasmo que havia posto ao princípio, após lhe apertar a mão, olhou para Sora que parecia querer lhe dizer algo, mas antes de poder, ele se limitou a sorrir e lhe dar um beijo no rosto como fazia cada vez que se despedia dela. "Nos vemos...Sora."- disse se despedindo dela enquanto a frieza de suas palavras e de seus olhos azuis a estremeciam.
Sem dizer mais nada, Yamato saiu do apartamento com uma mistura de sentimentos que não lhe permitiam formar um só pensamento coerente em sua mente. Só de pensar na mínima possibilidade de que Sora e Igarashi pudessem reiniciar seu romance nestes precisos momentos, o faziam sentir ciúmes como nunca. Porque isso significava que apesar de tudo o que haviam passado juntos... Sora não correspondia seus sentimentos e jamais faria.
Se fosse assim, então ele não ficaria para observar como a mulher que amava voltava para os braços de outro homem... e muito menos se teria que retomar seu papel de 'amigo incondicional'... sobre tudo quando já havia sido sua... e se isso ia acontecer, preferiria se afastar da vida de Sora a partir desse mesmo momento e para sempre.
Sora contemplou a porta ainda depois de que Yamato desaparecesse por ela... não fez falta que em algum momento ele se mostrasse irritado, só lhe bastou ver seus intensos olhos azuis para se dar conta de que estava machucado, e o conhecia muito bem para saber que o pior que alguém podia fazer é lastimá-lo... sobre tudo se ele havia oferecido cegamente sua amizade.
"Yamato."- imersa em seus pensamentos, murmurou o nome do homem que havia ido embora silenciosamente ferido.
"Querida... Aconteceu algo?"- Tetsuya apenas a tocou pelo ombro, mas conseguiu sobressaltá-la, tirando-a de seus pensamentos.
Então Sora o observou detenidamente com seus grandes olhos escarlate...
Na sua frente estava Tetsuya Igarashi, um homem alegre que jamais ocultava seus sentimentos e expressava abertamente cada um de seus pensamentos, terno e seguro de si mesmo que jamais havia medito esforços para lhe mostrar o quanto a amava.
E atrás da porta, havia ido embora Yamato Ishida, um homem que em inumeráveis ocasiões havia sido acusado de ser frio e calculista que não mostrava seus sentimentos por aqueles que não o conheciam, e que ignoravam que essa era sua máscara para ocultar seu lado mais sensível e que na realidade ansiava proteger aqueles que dava e recebia afeto, e evitar assim que alguém o lastimasse de novo.
"Yamato..."- sem dizer mais nada e sob a surpresa de Tetsuya, Sora saiu correndo atrás dele... não podia deixá-lo ferido se sentindo traído por uma das poucas pessoas que havia outorgado sua confiança e mais valioso ainda... sua amizade.
Tinha que falar com ele... Explicar-lhe... Dizer-lhe que fosse o que estivesse pensando sobre Tetsuya e ela, não era verdade... E correu tão rápido como não havia feito em muitos anos, sentindo que com cada passo que dava, o desespero a fazia sentir mais longe de seu homem. Pois ela sabia que Tetsuya era o passado... mas ele... Yamato, era seu presente e quem sabe também seu futuro... Esse futuro ao que não lhe pôde dar alcance dentro do edifício obrigando-a a correr pela rua, sem lhe importar como seu corpo ia molhando a cada passo debaixo da chuva que havia começado a cair sem que se desse conta.
"Yamato! Espera!"- gritou com todas as forças que pode, mas, estava segura de que havia escutado, ele não se deteve..
O loiro seguia seu caminho com apenas uma coisa em mente... se afastar e curar sua ferida buscando um pouco de refugio na solidão.
"Yamato, espera por favor!"- sentiu como uma cálida mão envolveu a sua e evitando que seguisse seu caminho, provocando que seu coração se agitasse ao reconhecê-la apenas pelo tato.
Ao virar, se encontrou com uma Sora que respirava agitadamente e que estava pálida e desalinhada com seu precioso cabelo vermelho como o fogo molhado, grudando ao seu rosto e cobrindo sutilmente parte de sua cara; totalmente ensopada dos pés a cabeça... e apesar disso, para ele continuava tão linda como sempre... até então, ao vê-la assim, pode perceber que a chuva caia ao seu redor, a qual não havia sentido até então e que havia deixado nas mesmas condições que ela.
"Yamato... não é o que pensa... entre Tetsuya e eu já não..."- a ruiva tentou lhe explicar, mas ele impediu que continuassem falando colocando um dedo sobre seus suaves lábios.
"Shhh... não diga nada, por favor."- murmurou ele estranhamente tranqüilo em contraste com a angustia que ela sentia. "Sora... não tem porque me dar explicações de nada... no fim das contas, você é livre para sair com quem quiser... ou de voltar com ele, se for o caso... Depois de tudo, somos amigos, não?"- disse com uma calma e serenidade que desconcertou a Sora.
"Ma... Mas... preciso que saiba que..."- novamente tentou lhe explicar, mas o olhar indiferente de Yamato ao seu desespero a faziam duvidar de suas palavras... Por acaso não lhe importava?
"Sora... em verdade, não é necessário... depois de tudo... o que aconteceu entre nós foi apenas um acordo, não?... Jamais existiu algo mais que amizade implicado nisso... Por isso, não tenho porque me meter em seus assuntos pessoais..."- disse ele enquanto acariciava suavemente seu rosto ao mesmo tempo em que Sora não queria acreditar o que estava escutando.
Yamato finalmente beijou sua testa, enquanto esperava que ela não notasse que uma lágrima havia caído de seus olhos, e estas se confundiram com a chuva que havia ensopado seu rosto... e é que simplesmente... não podia lhe reclamar nada porque ele não tinha esse direito, e apesar de tudo, o único que desejava era que fosse feliz... e se odiou por tomar essa postura que antes lhe parecia uma saída covarde para deixar de lutar pelo que ama... e agora o mesmo estava tomando a saída da covardia... Por que não ficar e lutar por ela? Lhe dizer que a ama e o que mais deseja no mundo é passar o resto de seus dias ao seu lado e conceber esse filho que ela tanto ansiava, mas não por obrigação, sim como mero fruto do amor... depois de tudo, ele não era um covarde que fugia ao primeiro problema... mas a verdade, é que já estava cansado de tudo isso, lhe amar, tê-la em seus braços e saber que não era sua, era muita tortura para ele... Ter tudo e ao mesmo tempo, nada... Quanto tempo podia suportar viver assim?
"Yamato, por favor... entenda, entre Tetsuya e eu não há nada." - um ligeiro murmuro saiu dos lábios de Sora que havia baixado o rosto ao sentir a caricia do loiro sobre sua pele. "Entenda que eu te..."- mas ao levantar a vista, Yamato já não estava mais ali, havia subido num táxi deixando-a na chuva.
E ali parada na chuva, o viu se afastar sentindo como esse sonho no qual estava vivendo... logo, assim do nada, parecia simplesmente acabar...
