XI.
Peter estava otimista, pois o filho estava melhorando. Seria eternamente grato a Walter por todo o esforço que fizera. Ele visitava o garoto todos os dias. Chegava logo depois do café e só saía quando a mãe do menino chegava, na hora do almoço. Ela estava voltando ao trabalho na Divisão Fringe.
Às vezes ficava lendo para o garoto, ou contando histórias que aprendera do outro lado. Seu grande desejo era levar Angie para o irmão conhecer. Resolveu ter uma conversa que há muito estava adiando.
-Preciso falar com você.
-Sim, Peter. O que está havendo? Desde que você voltou, mal conseguimos nos ver. Você poderia vir jantar comigo uma noite dessas. Aquele homem – ela estava se referindo a Walter- pode ficar um pouco sozinho, não?
-Não vai ser possível. Estou com a casa cheia.
-Casa cheia?
Ele respirou fundo e se preparou para uma reação desagradável.
-Quando retornei ao outro universo, eu descobri que Olivia, você sabe, a minha namorada , estava grávida quando eu parti.
-E daí?- ele notou uma ponta de agressividade na voz.
-Eu tenho uma filha, uma menina. Ela tem seis anos. Eu a trouxe comigo.
-Por quê?
-O que quer dizer?
-Pegou uma criança que mal conhece e colocou dentro da sua vida? Você é um sentimental...
-Quando você engravidou , eu larguei tudo e fiz do nosso filho o centro da minha vida. E você pareceu gostar.
-Não compare o meu filho com a filha dela.
-Tem mais uma coisa, Olivia também está morando em minha casa.
Ela ficou branca.
-Não acredito que tenha feito uma coisa dessas comigo. Você não tem um pingo de consideração, nem por mim, nem pelo seu filho.
-Da próxima vez que minha mãe vier comigo, trarei Angie e você vai tratá-la muito bem. Quero que ela conviva com o irmão.
Ele se retirou sem dar tempo a ela de replicar.
Peter resolvera finalmente levar Angie para conhecer o irmão . Olivia ficou muito tensa com a ideia de sua filha em casa da outra. Mas tinha confiança na mãe de Peter. Tinha certeza que Angie não seria destratada. Lamentavelmente, as coisas não correram tão bem como Peter imaginara.
Quando chegaram, o Secretário estava visitando o neto. Peter e Elizabeth sabiam que aquilo não podia ser coincidência.
Angie ficou encarando a outra Olivia. De repente falou:
-Você é gêmea da minha mãe?
Olivia continuou sentada perto do filho sem dizer nada.
-Quem é essa menina ?- indagou o Secretário.
Peter, talvez por instinto, segurou com maior firmeza o braço da filha. Elizabeth foi quem respondeu.
-É filha de Peter.
Ele ficou escarlate.
-Que história é essa de filha?
Angie percebeu que falavam dela e ficou colada no pai.
-Minha e de Olivia. O senhor sabe muito bem de quem se trata.- o tom de Peter era áspero.
O Secretário de Defesa olhou para a mãe de seu neto. Notou pela fisionomia que ela também não estava satisfeita.
-E a mãe deu a criança para você sem criar problemas?
Peter e Elizabeth ficaram calados. Foi a vez de Olivia falar. As palavras pareciam espetar sua boca.
-A mãe está morando com ele, assim como o seu alternativo, senhor.
Peter ficou exasperado.
-Lembre-se que Walter esteve trabalhando duro para curar o nosso filho. Não fale dele com pouco caso. E quanto a Olivia, é problema meu.
Voltou-se para o pai e disse:
-Não se meta conosco, ou vai se arrepender.
O Secretário estava indignado. Ficou de pé. Olhou para a neta com dureza. Ele só via ali a filha da mulher que ele não suportava, que exercia influência sobre seu filho mesmo estando em outro universo.
-Devia ter imaginado que você aproveitaria a oportunidade para reatar com sua antiga amante. Mas trazê-la para cá, junto com sua filha bastarda, é o cúmulo. A sua ligação com essa mulher parece uma doença.
Quando Peter ouviu o pai chamar Angie de bastarda avançou em sua direção, mas antes que o pior acontecesse, Elizabeth se interpôs entre os dois.
-Parem com isso. Respeitem o estado do menino.
O Secretário se retirou bastante aborrecido. Elizabeth tranquilizou o filho:
-Ele não vai fazer nada.
Mas Peter já tinha resolvido.
-Eu quero ir para casa.
Beijou o filho e saiu levando Angie pela mão.
Chegou em casa. Walter estava na cozinha tomando sorvete.
-Onde está Olivia?
-Descansando, eu creio.
Peter deixou a menina com Elizabeth e entrou no quarto sem bater. Precisava vê-la. Olivia não estava dormindo. Quando ele entrou, ela olhou-o, interrogativamente. Ele sentou na beira da cama . Olivia não estava entendendo nada, mas ficou arrepiada quando ele tocou seu rosto com a ponta dos dedos. Os dedos eram macios e quentes. Não teve forças para afastá-lo. Então ele se inclinou e beijou-a na boca, lentamente, até deixá-la sem fôlego. Ela sentiu uma espécie de eletricidade percorrer seu corpo todo. Depois ele deitou a cabeça entre seus seios e sentiu paz, proximidade. Inconscientemente ela afundou os dedos em seus cabelos escuros, percebeu que alguma coisa o afligia.
-O que houve?
-Ele estava lá. Disse coisas horríveis. Tive medo que viesse para cá e fizesse algum mal a você.
- E o menino?
-Estava dormindo, está melhorando.
-Vai ficar tudo bem. Precisa ter fé.
Ele ergueu a cabeça para olhá-la. Olivia acariciou o seu pescoço e atraiu-o de volta para perto de seu rosto. Mergulharam em um novo beijo.
-Mamãe?
Os dois se separaram rapidamente e viram Angie e Elizabeth pela porta entreaberta.
-Afinal, o que ele falou?
Elizabeth não queria entristecê-la com a grosseria do ex-marido.
-É melhor deixar esse assunto de lado.
-Não, eu quero saber. Peter está muito aborrecido.
-Não sei se você sabe que meu ex-marido é extremamente afeiçoado a ela. Ele sempre quis ver os dois juntos. Queria muito que eles tivessem outro filho. Porém as coisas não saíram como ele esperava.
-Eu imaginei que fosse assim.
-Ele julgava que você era um problema do passado. A existência de Angie e a sua presença mexeram com ele. Ele acha que você e Peter estão juntos, entende o que quero dizer?
-Nós não estamos.
-Foi o jeito que ela falou que passou essa impressão. Creio que a mãe do meu neto está um pouco decepcionada.
-Peter me falou que eles estão separados há anos.
-É verdade, mas ela ainda tinha esperança.
-Vai me dizer o que aconteceu, Elizabeth?
El hesitou, mas acabou dizendo a verdade.
-Ele chamou a neta de bastarda.
- O quê?- Olivia teve um sobressalto.
- Peter ficou com muita raiva. Fiquei com medo que ele agredisse o pai.
-Ele é um miserável. Tenho muita pena do Peter.
-Eu sei. E só você pode ajudá-lo. Ele continua apaixonado por você.
Olivia ficou calada. Pensou em protestar mas lembrou das coisas que tinham acontecido nas últimas semanas. E do que Elizabeth viu no quarto. Preferiu então ficar calada do que parecer hipócrita.
