Capítulo 10

Sobre deveres de casa e pedidos de ajuda

Severus Snape nunca havia se questionado sobre a durabilidade dos materiais dentro de um quadro.

Oras, era claro para ele que nada daquilo era real - a sua atual morada era uma mistura de mágica e memórias, mas de certa forma não era isso o que constituía a verdadeira realidade também?

Ele teria que pensar mais sobre o assunto.

Ou talvez isso realmente não importasse, ponderou Snape, já que ele tinha a impressão de que descobriria todas essas respostas em muito breve, mesmo sem ter de fazer muito esforço.

Continuou andando de um lado para o outro em sua pequena 'jaula', tentando em vão gastar seu excesso de energia. Mais uma vez se perguntou se tinha tomado a decisão correta com a menina.

Isso não importava. Ele tinha tomado a única decisão possível.

Afinal de contas, essa menina não era simplesmente mais uma aluna. Ela não era simplesmente a filha de Harry Potter ou, por mais que lhe doesse admitir, ela não era somente a neta de Lily Evans.

Ela era Lily Luna - era assim que ele havia se acostumado a chamá-la em sua cabeça, Lily Luna, o sobrenome Potter convenientemente esquecido apenas para ser recordado nos raros momentos em que ela o aborrecia ou em que ele sentia a necessidade de lhe impor a sua autoridade de professor.

Para Severus Snape, aquela menina logo tinha se tornado um ser separado dos Potter, uma pequena menina que parecia estar sempre cheia de energia vibrante, com seus cabelos vermelhos cor de fogo, como os de Lily, e os olhos castanhos que frequentemente pareciam negros perante a pouca iluminação daquele corredor sombrio.

Lily Luna era sua única aluna agora, sua inteligência e seu talento para poções sempre o surpreendendo. Tão parecida com a avó.

Tão diferente.

Severus Snape nunca admitiria, mas para ele, Lily Luna o lembrava de uma noite sombria e um espelho secreto, o qual Dumbledore uma vez o havia pedido para ajudá-lo a proteger. Uma foto de uma família que nunca existira - um homem de cabelos negros e nariz particularmente avantajado, uma linda mulher ruiva de olhos verdes e uma pequenina, uma pequenina com o mesmo sorriso da mãe se revelando por entre seus dentes brancos, cabelos vermelhos esvoaçantes e marcantes olhos negros.

Se apressou a se sentar e assumir uma postura relaxada em sua cadeira quando ouviu os pequenos passos apressados. Respirou fundo e forçou seu corpo a relaxar, se confortando no fato de que a menina estava bem, que ela estava ali."Está atrasada." murmurou, assistindo a pequena ruiva sentar em frente ao quadro com sua usual displicência, um muxoxo de desapontamento saindo de seus lábios.

"Desculpa, estava na biblioteca." Lily murmurou, tentando colocar ordem em seus cabelos esvoaçantes.

Severus teve de se interromper um minuto, respirando fundo antes de assumir sua postura neutra e controlada.

"E você fez o que eu te pedi?" perguntou, arqueando a sobrancelha. Lily suspirou.

"Sim, eu fiz o resumo dos doze livros que o senhor me pediu mas…" A ruiva parecia visivelmente contrariada, como se debatesse consigo mesma se devia fazer a pergunta ou não. Por fim, a curiosidade venceu sua necessidade de ser educada. "Por que o senhor não me contou quem era o senhor Alexius Fairbanks? Isso não ia economizar muito mais tempo?"

Severus Snape suspirou. "Até poderia economizar tempo, senhorita Potter," disse, quase como se seu sobrenome fosse uma ofensa. "mas aí a senhorita não iria ter merecido suas respostas."

"Você tá igualzinho a tia Hermione." Lily soltou um muxoxo, fazendo com que Snape arqueasse uma sobrancelha. Com um suspiro, Lily pegou o pergaminho e começou a ler. "Bem, segundo os livros que o senhor me deu para ler, Alexius Fairbanks nasceu no Canadá, em Quebec, no ano de 1899. Ele teve uma vida tranquila lá até que, no ano de 1905, aconteceu um grande incêndio na casa onde ele morava com seus pais. As investigações da época diziam que era apenas um acidente, e alguns meses depois ele, o único sobrevivente da catástrofe, veio morar com seus avós paternos aqui, na Inglaterra. Aos onze anos, recebeu a carta de Hogwarts e começou a estudar… Ele parecia ter uma vida escolar meio comum, até que… até que ele saiu de Hogwarts."

Snape fez um sinal para que Lily prosseguisse, o que ela fez, depois de respirar fundo. "Bem, os livros exaltam a inteligência de Fairbanks. Aparentemente, ele conseguiu ficar muito rico com a venda de alguns itens mágicos que ele criou - até que, de repente, tudo sumiu. Ele parou de produzir e as pessoas começaram a murmurar que ele era amaldiçoado ou algo nesse sentido. Foi um grande desastre. Depois… bem, encontrei algumas menções vagas sobre ele fazer parte de uma seita que seguia os ensinamentos de Herpo, o Sujo; seja lá o que isso significa."

Lily parou e encarou Snape, como se aguardando que ele mencionasse alguma coisa. Nada.

Com um suspiro, ela retornou os olhos para o pergaminho em sua frente. "Bem, como eu disse, ele desapareceu por um tempo e retornou a alguns anos atrás, poucas semanas depois do final da Batalha de Hogwarts. Foi examinado por alguns bruxos do ministério, mas não apresentou nenhum traço de maldição Imperius ou de outros feitiços que possam ser usado por bruxos das trevas. Sua varinha foi examinada mas nada de suspeito foi ligado a ele, sendo assim, considerado 'inocente' dois anos depois de seu reaparecimento." Lily concluiu, erguendo os olhos para fitar o professor. "O motivo pelo qual eu realmente não entendo por que o senhor Scamander acredita que esse homem saiba explicar o que aconteceu comigo ou mesmo o desaparecimento daquele livro."

"O que a senhorita precisa manter em mente é que os livros que a senhorita leu foram todos da área livre da biblioteca. As informações contidas neles são, portanto, razoavelmente irrelevantes." Snape se ergueu e começou a andar dentro do quadro. O movimento sempre o ajudava a se concentrar. "Ainda assim, é definitivamente informação que a senhorita precisa ter - exatamente por ser informação tão básica que é de livre acesso." Lily, que havia aberto a boca para questionar os motivos pelo qual o homem a fizera passar dois dias na biblioteca pesquisando informação 'irrelevante', murchou visivelmente. Snape conteve um sorriso, respirando fundo e assumindo o tom de voz professoral que era tão familiar e confortável para ele. "Assim sendo, temos que ler nas entrelinhas do que foi escrito. Como a senhorita pesquisou, não foi encontrado nada que apontasse Fairbanks como praticante das Artes das Trevas, mas as suspeitas foram tão grandes na época que não podemos ignorar a possibilidade de que o homem tenha encontrado uma forma de burlar os testes ou até mesmo de falsificar os resultados."

"Mas ninguém mencionaria isso?" Lily murmurou, curiosa.

"Não, claro que não. Suspeitas não são fatos, senhorita Potter, e existem leis para protegerem a 'honra' de um bruxo. Agora, a senhorita mencionou uma possível conexão entre Fairbanks e Herpo, o que encontrou quando pesquisou sobre a história de Herpo?"

As bochechas de Lily ganharam uma tonalidade avermelhada e a ruiva estava encarando os seus próprios sapatos quando murmurou algo ininteligível. Com um brusco, "Seja clara, senhorita Potter." Snape interrompeu seus murmúrios, fazendo com que a ruiva suspirasse.

"Erh, bem." Começou, passando a mão pelos cabelos vermelhos. "Eu não tive tempo de pesquisar."

Snape respirou fundo e fez um sinal afirmativo com a cabeça. "Então acredito que a senhorita já tenha um dos tópicos da sua próxima pesquisa - mas vou adiantar alguns outros. Herpo ficou conhecido não só por suas contribuições a magia das trevas, mas também por sua personalidade vingativa. Dizem que, quando decidia que alguém era seu inimigo, esse alguém ia encontrar em sua casa uma pedra envolvida em um tecido negro com um dragão Rabo Córneo Húngaro recortado no centro."

Lily piscou. "Eu vi o tecido! Bem, não sei se tinha um dragão nele, mas era negro."

"Vamos assumir que tinha, já que Scamander sugeriu que os professores McGonagall e Nook procurassem Fairbanks."

"Mas o que isso teria a ver comigo? Quer dizer, dragões não cantam, cantam?"

Snape meneou a cabeça. "Esse não é o ponto, Lily. Agora, nós temos um livro sumido - 'As Maldições do Século XX', correto?" Lily assentiu em silêncio, seus olhos fixos em Snape. "O próximo passo é tentar entender por que a pessoa que roubou o livro e deixou a pedra para trás, assumindo que existia essa pedra, seria conectada a você. Para isso, sugiro que você pesquise sobre Herpo e suas descobertas. Sugiro também que pesquise sobre todos os bruxos das trevas do século XX, o que acredito que você deve encontrar na biblioteca. Além disso, seria útil ter uma melhor compreensão sobre maldições e como elas funcionam. E algumas informações sobre os dragões Rabo Córneo Húngaro e suas conexões a maldições. Caso haja tempo, uma redação extra sobre unicórnios."

Lily soltou um muxoxo. "Não tem como eu fazer tudo isso até amanhã!"

Snape franziu o cenho. Parecia que Lily talvez não estivesse entendo a importância de entender melhor o que estava acontecendo - afinal de contas, a vida dela estava em jogo! "Bem, imagino então que não exista tanta urgência…"

Lily suspirou. "Tá, tá bom. Vou dar um jeito."

"Muito bem." Severus Snape sentiu seus músculos relaxarem - talvez a menina entendesse a sua situação no fim das contas. Seus olhos assistiam a ruiva arrumar a sua mochila e se afastar, arrastando a mochila no chão. Enquanto seus passos soavam cada vez mais distantes, Snape decidiu que talvez precisasse fazer algumas pesquisas por conta própria.

Até porque... Existiam alguns lugares que a ruiva não podia ir, ou pelo menos não devia… mas poucos lugares em Hogwarts eram inacessíveis para Severus Snape agora.


Lily Luna decidiu que estava muito cansada para se preocupar.

Erguendo os olhos de um dos três livros que estava tentando ler, olhou para o exterior da janela, um suspiro de exaustão deixando seus lábios.

Entre seus trabalhos para Hogwarts, as aulas e suas redações para Severus Snape, ela estava tão exausta que mal conseguia se mover.

E não estava nem na metade.

Assistindo o sol se pôr, a ruiva teve plena certeza de que nunca conseguiria dar conta de tudo aquilo sozinha - nem mesmo se passasse a noite inteira em claro.

Mas quem poderia ajudá-la? Em quem ela confiava o suficiente para pedir ajuda com uma situação dessas?

A resposta seria simples, se a situação não fosse algo que seus pais não pudessem saber: Teddy Lupin sempre era a sua primeira escolha, mas por mais que ele fosse de confiança, ele certamente contaria para seus pais.

Tivera sorte com Snape - Lily tinha a impressão de que o professor não gostava muito de seu pai - mas certamente tio Neville contaria tudo para ele. James e Albus… bem, James nunca seria uma boa opção para pesquisar as coisas em uma biblioteca, mas Albus… Albus certamente era uma boa opção.

Com a ideia clara em sua mente, Lily pegou os livros que tinha escolhido para a pesquisa e saiu da biblioteca com recomendações severas da Madame Pince para tomar cuidado com o material.

Albus Potter estava saindo da sua aula de feitiços conversando animadamente com Scorpius, quando percebeu que Lily o estava aguardando no final do corredor.

Cenho franzido em preocupação, gesticulou para Scorpius ir na frente enquanto ele se encaminhava na direção da irmã. "Tudo bem, Lils?"

Mordendo o lábio - ainda debatendo se tudo aquilo era uma boa escolha ou não - Lily começou a confessar tudo o que tinha acontecido com ela nos últimos dias.

Enquanto Albus não era o tipo de pessoa que gostava de se envolver em situações que poderiam envolver a quebra de regras, ele gostava da irmã e todas as coisas que ela estava falando estavam acendendo uma luz de alarme dentro de sua cabeça.

"E você tem certeza de que não quer envolver nosso pai nisso, Lils? Ele certamente entende mais sobre bruxos das trevas do que todos nós."

Lily suspirou, passando a mão pelos cabelos ruivos. "Eu sei, Al, mas eu já dei muitos problemas para o papai… Quer dizer, você viu a minha primeira semana aqui?"

"Aquilo foi um acidente e, se você está certa, um ataque contra você. Papai nunca te culparia por causa disso - e além do que você realmente deveria parar de dar ouvidos para o que os outros estão falando. A gente te ama, Lils - e esse pessoal adora fazer fofocas, especialmente quando eles acham que podem machucar alguém com elas."

"Eu sei, eu sei…" Encarando os sapatos, Lily tentou pensar sobre algo mais para dizer… "A verdade é que… às vezes… eu acho que eles estão certos. Eu acho que realmente não sou digna de ser uma Potter… Ou que talvez eu nem seja uma mesmo."

"Você está louca?" Albus arregalou os olhos verdes, sua voz falhando devido a surpresa. "Lils, pelo amor de Merlin! Você é a cópia da mamãe, sem contar que todo mundo que te conhece sabe o quão parecida você é com o papai. Mesmo que não fosse filha de sangue - o que é ridículo você até mesmo suspeitar, quero dizer, céus. Alguém teria comentado alguma coisa, certo? - mas mesmo assim, você foi criada com a gente, Lils. Você é nossa irmã e-"

"E você e o Jamie são incríveis, cada um do seu jeito, mas ainda assim, incríveis! James tem aquela personalidade dele, quero dizer, todo mundo ama o Jamie. E ele é muito bom em quidditch igual ao papai, e… bem, você é um gênio e é idêntico ao papai. Todo mundo sabe que você é filho dele. E eu…"

"E você é igual a mamãe. Você pode não ter o… bem, o charme de James, e eu realmente não me considero um gênio, mas bem. Você pode não ser igual a mim, mas Lils, ninguém quer que você seja. A gente gosta de você porque você é a Lily - só isso. Se os outros não enxergam isso, bem, eles não importam."

Lentamente, quase como se estivesse envergonhado, Albus abriu os braços e envolveu a irmã, beijando sua cabeça afetuosamente. "Você é minha irmãzinha, Lils. É claro que eu vou te ajudar, mas não quero você pensando essas coisas tá?"

Lily abriu um sorriso e meneou a cabeça afirmativamente. "Obrigada, Al. Você é o melhor!"

Albus revirou os olhos, mal contendo um sorriso ao perceber o retorno da exuberância natural da irmã. Embora a ruiva não se sentisse à vontade com câmeras ou grandes multidões, era claro para ele que isso era uma coisa que ela e James tinham em comum.

"Muito bem. Vou pesquisar e digo para você o que eu achar. Você disse que o professor Snape está te ajudando?"

Lily fez um sinal afirmativo com a cabeça. "Sim, ele está. Ele tem um quadro em um corredor do terceiro andar e estava me ajudando a recuperar as notas."

"Muito bem, vou com você me encontrar com ele amanhã." Albus prometeu, afagando os cabelos da irmã afetuosamente. "Vou levar tudo o que eu conseguir encontrar."

"Vai levar o quê para onde?"

Os dois irmãos deram um pulo, se virando em direção a voz com expressões quase idênticas de culpa.

Foi com alívio que reconheceram Hugo Weasley, cuja expressão de desconfiança e curiosidade preocupou aos dois imediatamente.

N/A: Olá a todos!

Desculpem por não ter postado semana passada! Para aqueles que não me seguem no twitter - arrobarissagomes - eu tive uma crise de sinusite meio ruim, na verdade ainda estou com bastante dor de cabeça . Mas não quis ficar duas semanas sem postar...

Peço desculpas caso tenha algum erro de ortografia nesse capítulo, eu revisei mas tá meio ruim de ficar lendo . Vou revisar de novo quando minha cabeça parar de doer...

De qualquer forma, espero que vocês tenham gostado desse capítulo! Finalmente, as perguntas começaram a ter respostas - e Severus Snape espiar para ajudar a Lily? Mm, acho que isso vai render heim! ^^

Como sempre, adoraria ouvir os comentários de vocês!