CAPÍTULO IX

A aurora atravessou as cortinas, acinzentada e cheia de brumas. Isabella virou a cabeça no travesseiro e mordeu o lábio até sangrar. Edward dormia a seu lado, a respiração irregular combinando com as batidas surdas de seu coração.

Esgueirando-se para fora da cama, Isabella ficou algum tempo de pé, olhando o rosto do homem a quem tanto odiava, e foi invadida por uma onda de amargura. Pois era ele quem dormia agora o sono dos justos e ela quem passara a noite em claro. Paciência! O que faria agora? Recuar, aceitando a derrota, que na verdade fora sua, ou continuar, aceitando uma posição degradante? A decisão não era difícil, pois não tinha o mesmo caráter que Tanya.

Fugir...

Voltando à sua cabina, ela tomou um banho e se vestiu. Depois reuniu os acessórios de toalete e mais algumas roupas, colocando tudo numa maleta. Seu coração estava amargurado, pois revivia aquela noite distante, quando também partira para longe, levando seus trapos, e enfrentando, pobre e só, o mundo desconhecido, com dinheiro para a passagem de trem e uma vaga numa pensão barata.

Sentia que ia chorar, mas agora era o seu coração que sangrava. Em que embrulhada tinha se metido! Que esforço inútil o dela, tentando se vingar do grego, por tudo o que ele a havia feito sofrer! Teria sido bem melhor se tivesse passado uma esponja no passado, pois tudo aquilo acontecera há tanto tempo e sua vida havia se tornado despreocupada e feliz.

Agora teria que voltar, não para recomeçar, é verdade, pois ainda possuía sua casa e Alice ainda estava lá, tomando conta dela. Mas teria que procurar um emprego e dar explicações aos amigos e conhecidos. E Alice? O que pensaria destes acontecimentos lamentáveis? Isabella sabia muito bem que teria uma série de problemas para enfrentar, mas preferia, sem a menor sombra de dúvida, voltar à antiga vida do que permanecer como propriedade de Edward... pois era isso o que seria dali para a frente.

— Pretende ir a algum lugar? — perguntou ele friamente. E Isabella, virando-se, viu que Edward estava encostado ao batente da porta. Ele tinha aberto a porta sem que ela percebesse e os olhos iam de seu rosto para a maleta aberta na cama.

— Vou abandonar você. — Muito pálida mas controlada, Isabella desviou o olhar do rosto irônico do marido. — Vou voltar para casa... para a Inglaterra — acrescentou, ao ver que ele franzia levemente o cenho.

— Acho que não.

Isabella deu meia-volta para encará-lo de frente.

— Não pode me obrigar a ficar com você. Este iate está ancorado e não há força no mundo que me impeça de desembarcar. E é exatamente isto o que pretendo fazer.

Edward deu alguns passos para dentro da cabina.

— Eu fui informado de que você se casou comigo por causa do meu dinheiro. Quanto acha que vai conseguir se me abandonar agora?

— Não estou interessada no seu dinheiro — respondeu ela, e Edward olhou-a, intrigado.

— Uma cavadora de ouro não se regenera em uma noite. Eu gostaria que você me explicasse melhor as coisas.

Isabella deu as costas para ele e afastou as cortinas. O mar estava sereno, espelhando as nuvens cinzentas do céu. Os pequeninos e alegres caíques coloriam a paisagem marinha, e, no porto, homens vestidos de preto, consertavam suas redes de pesca. Um garotinho moreno observava um homem que batia violentamente um polvo nas pedras, para amacíar a carne antes de cozinhá-la. De um veleiro próximo, ela podia escutar risadas bem-humoradas. Um dia comum, com um começo comum...

Mas para ela o dia havia começado bem mais cedo, com a exigência do marido para um ajuste de contas... um amargo ajuste de contas... Seu desejo por ela tinha se transformado numa paixão incontrolável; seu objetivo tinha sido subjugá-la, do mesmo modo que os maridos gregos costumavam subjugar as esposas. Ele tinha vencido e agora, muito arrogante, olhava-a com um brilho orgulhoso no olhar. Isabella percebeu então que o ódio que sentia por ele a consumiria até o final de seus dias. Não poderia esquecer que, por duas vezes na vida tinha sido levada à mais abjeta humilhação por aquele homem...

Assim, não era absurdo que alimentasse um desejo de vingança e que tivesse agarrado a oportunidade quando ela surgira tão inesperadamente. Acreditou que o tivesse na palma da mão, tendo sido iludida por sua bondade aparente, por sua aparente aceitação de que ela não se entregava a ele por causa de inibições. Seria cômico se não fosse trágico, ela pensar que poderia controlar aquele homem com tanta facilidade.

— Eu lhe fiz uma pergunta, Isabella. — Edward ainda a estava olhando, imperturbável, e seus olhos se encontraram quando ela voltou-se para enfrentá-lo. Ainda estava muito pálida e sentia-se embaraçada. Precisou de todo o seu autocontrole para afastar do pensamento a noite de amor que passara com o marido.

— Não tenho vontade de ser uma... uma verdadeira esposa para você — ela respondeu com dificuldade, baixando os olhos enquanto falava.

— Um casamento platônico com um milionário. Era isto o que sempre teve em mente?

Dito daquela maneira, aquilo parecia um absurdo completo, mas, como poderia explicar-lhe sem revelar toda a história e quem era ela? Isto, em nenhum momento Isabella pretendera fazer, pois estava convencida de que, no instante em que soubesse que era ela a insignificante e feia Marie Denali, instantaneamente deixaria de amá-la. E era através de seu amor que pretendia chegar à vingança total; só através deste amor ela poderia castigá-lo.

— Edward — disse ela, tentando manter a calma e a dignidade. — Agora as palavras não são só inúteis como desnecessárias. Nosso casamento foi um erro; quero pôr um fim nele. Por favor, não discuta. Já tomei a decisão.

O rosto dele continuou impenetrável, mas Isabella podia perceber que ele se debatia entre várias emoções: raiva e perplexidade, dor e arrependimento.

— Você quer pôr um fim! E eu? Você não foi honesta comigo. Existe alguma coisa que você não revelou ainda. E eu quero saber o que é! — Suas palavras revelavam agora que, mais que tudo, ele sentia raiva por ela.

— Não quero começar a dar explicações ou discutir com você, Edward. Vou abandoná-lo e não tenho mais nada a dizer.

— Ah, não tem? Mesmo que eu tenha que conservar este barco no mar o resto de minha vida, não vou deixar que você saia daqui!

Movendo-se com rapidez, Edward chegou perto dela e, antes que Isabella pudesse fazer qualquer coisa, estava em seus braços, e ele a beijava com paixão e loucura. Suas mãos deslizaram pelo pescoço e ombros, até os seios rijos, demonstrando, com evidente arrogância, quem era o dono. Quanto mais ela se rebelava, mais ele a beijava e abraçava, pois estava disposto a provar a Isabella que agora não mais seria dominado pelo amor que sentia.

O Nereus continuou no mar durante as três semanas seguintes, parando nos portos somente para se reabastecer. A tripulação tinha ordens de não falar com Isabella, nem mesmo uma palavra. Quando estavam no porto, ela era trancada na cabina, de onde saía somente quando o navio estava nó mar, navegando entre as ilhas. Isabella estava furiosa, mas nada que dissesse parecia abalar o marido. Ele continuava autoritário e indiferente umas vezes, arrogante e possessivo outras. Nunca mais teve um gesto terno para com ela, e depois de algum tempo Isabella desconfiou que tinha cometido um erro acreditando que ele algum dia tinha estado apaixonado por ela. Finalmente, ficou plenamente convencida de que a verdadeira razão de ele ter se casado com ela fora o desejo que sentia por seu corpo.

Depois de muitas lágrimas derramadas, Isabella finalmente reconheceu que tinha arruinado sua vida. Estava convencida de que seria obrigada a ficar com o marido indefinidamente, pois ele tinha o poder de manter o barco no mar pelo tempo que quisesse.

— Muita gente mora em barcos. Por que nós também não podemos? — disse ele um dia, quando Isabella comentou que, como não podiam ficar para sempre no mar, ela um dia recuperaria sua liberdade. — Podemos viver assim, anos e anos, se desejarmos.

— Nós? — Ela olhou zangada para ele. — Eu não dei nenhuma opinião sobre isto.

— Assim é que as coisas devem ser. Uma esposa grega, reconhecendo sua posição de inferioridade, curva-se sempre aos desejos do marido.

Isabella engoliu em seco.

— Eu não sou grega, Edward — disse ela, em voz baixa.

— Você se casou com um grego, portanto vai ter que obedecer aos costumes de meu país. Quanto mais depressa resignar-se ao fato de que eu sou o chefe e de que minha palavra é lei, mais feliz será.

— Não fale em felicidade comigo! Como posso ser feliz nestas circunstâncias?

A revolta dela fez reviver o ódio em Edward. Seus olhos verdes ficaram duros ainda mais gélidos, brilhando intensamente. Pôs-se de pé num salto e a agarrou com brutalidade.

— De quem é a culpa de as coisas estarem como estão? — Ele a sacudiu sem piedade, e sorriu levemente quando viu as lágrimas nos olhos dela. — Responda! Responda, eu ordeno!

Chocada com aquele tratamento brutal e inesperado, ela ficou calada a princípio; e teria caído se ele não a tivesse amparado.

— Posso me deitar? — Isabella perguntou, e, embora não quisesse, sua voz era agora humilde e suplicante. — Estou me sentindo tonta.

Edward a soltou com violência e ela deitou-se num diva, onde ficou por longo tempo, intrigada por se sentir zonza. Na verdade, era estranho que não conseguisse se sentir melhor agora.

Finalmente Edward convenceu-se de que ela não estava fingindo e tomou seu pulso. Logo uma ruga de preocupação vincou sua testa e ele foi buscar para ela um pouco de conhaque.

— Beba — ordenou, apesar de seus protestos. — Vai acalmar seus nervos.

Então, Edward admitia que ela estava com os nervos em frangalhos? Mas não havia sombra de piedade em seus olhos...

Ela pegou o copo e bebeu, sem forças para enfrentá-lo. Nesse primeiro mês de casamento com aquele homem moreno e arrogante tinha aprendido que a melhor política era a submissão.

— Estou melhor agora — disse ela, respondendo à pergunta silenciosa dos olhos de Edward. — Mas acho que preciso me deitar um pouco...

— Está bem.

Algum tempo depois, quando Isabella olhou pela janela de sua cabina, viu que ele estava no convés tomando sol, vestido com um calção, e lendo tranqüilamente um livro. Ela não conseguia entender como Edward estava tão ajustado ao tipo de vida que estavam levando. Uma ou duas vezes tivera a impressão de que ele estava se aborrecendo e esperava que dissesse que já estava farto de tudo aquilo. Outras vezes ele repetira o que dissera naquele primeiro dia... que puxaria as cortinas do palco quando chegasse a hora. Isabella já tinha perdido a esperança, pois ele agora parecia novamente tranqüilo e satisfeito, lendo e tomando sol o tempo todo. Na verdade, Edward sempre passava algumas horas em terra, quando o Nereus aportava em alguma ilha, e possivelmente aquelas escapadas aliviavam a monotonia.

Quanto a Isabella... lia muito também, agradecida pelos livros e revistas que Edward comprava para ela, quando ia à terra. Escreveu algumas cartas, que não podia enviar, com medo de confiá-las a Edward, pois nelas dizia que pretendia voltar à Inglaterra logo que pudesse. Aquilo sugeria que seu casamento fracassara e com isto ela queria prevenir os amigos e evitar perguntas desagradáveis quando finalmente voltasse. A mais longa foi para Alice, a quem contou grande parte do, que acontecera.

"Sou agora uma prisioneira, pois Edward não permite que eu saia do iate. Ele diz que poderá navegar indefinidamente, mas desconfio que ele está se cansando desta vida tão monótona. É também inconcebível que seus negócios possam continuar sem sua supervisão".

Cada dia Isabella escrevia um pouco, esperando pela oportunidade de colocar a carta para Alice.

Um dia ela escutou Edward dizer à tripulação para que escrevessem às esposas avisando que ficariam fora por um bom tempo ainda. Isabella se desesperou, e, mais tarde, quando estavam sozinhos, no luxuoso salão de jantar, falou com Edward:

— Isto é ridículo. Não poderemos ficar eternamente no mar!

— Não? — respondeu ele, imperturbável. — Por que não? Estou muito feliz assim.

— Feliz? — ela respondeu, descrente. — Eu duvido, Edward.

Ele encolheu os ombros, distraído, e Isabella insistiu mais uma vez.

— Isto vai continuar até que você me dê a informação que estou esperando... E tenho a impressão de que não vai demorar muito...

Depois de pensar muito no significado daquelas palavras, Isabella percebeu o que ele quisera dizer. Embora estivesse sozinha na cabina, sentiu o sangue subir-lhe ao rosto.

Edward esperava que ela disse que estava esperando um filho. Depois eles retornariam a Thassos...

"Ele pretende me manter prisioneira indefinidamente, pois sabe que, se eu estiver esperando uma criança, não poderei deixá-lo. Que mente diabólica este homem tem!", pensou.

Depois de passar longas horas desesperada com a situação, uma idéia lhe veio à cabeça.

Isto será a minha chance, ela pensou, os olhos brilhando como há muito tempo não brilhavam. Oh, Edward, você não é tão esperto como imagina!

Na hora do jantar, fingindo uma timidez que ele não conhecia, ela lhe disse:

— Edward... ultimamente tenho me sentido muito cansada. Lembra-se de que quase desmaiei no outro dia?

— Lembro, sim — respondeu ele suavemente. — Você disse que era o calor muito forte.

Isabella concordou, baixando os longos cílios, hipocritamente.

— Eu não acho que foi o... calor... — Afinal de contas, isto não era mentira. Não que ela tivesse algum escrúpulo de mentir, pois estava numa guerra contra seu marido.,

— Entendo — disse ele. — Então está esperando um filho. É isto?

Isabella ficou surpresa com o seu tom frio, pois este assunto deveria ser tratado com mais calor humano. Entretanto, como estava fingindo, as atitudes dele não a afetavam nestas circunstâncias. — Eu... não tenho certeza, mas acho que...

— É muito provável — disse ele, no mesmo tom de voz indiferente. — Sim, estava mesmo esperando por isto. Vamos visitar Rhodes amanhã. E depois voltaremos para casa.

— Não tem medo de que, uma vez em terra, eu fuja de você? — Ela perguntou, tentando disfarçar o alívio e a esperança renascente.

Ele sacudiu a cabeça, confiante, e depois disse o que ela já esperava ouvir.

— Você não vai conseguir enfrentar este problema sem meu auxílio econômico.

Isabella concordou, sacudindo a cabeça silenciosamente, fingindo estar resignada a continuar com ele.

— Você me tem agora como planejou.

— Sim, agora a sorte virou, não é mesmo, Isabella? Agora quem dá as cartas sou eu.

Isabella ignorou o comentário e perguntou, fingindo preocupação:

— O que acontecerá quando... a criança nascer?

— Se você desejar, estará livre.

— Entendo. E terei que deixar a criança com você?

Por um breve instante, ele pareceu incapaz de responder, mas depois desviou o olhar e respondeu, com voz rouca.

— Esta criança será o preço que você pagará pelo que me fez.

Subitamente, Isabella teve a curiosidade de ver a expressão de seu rosto, pois teve a impressão de que sua voz estava imensamente triste. Será que ele ainda a amava? Parecia impossível... entretanto...

— Espera que eu abandone meu filho? — perguntou Isabella.

Só então ele virou para ela novamente. Não havia o menor sinal de dor em seus olhos.

— Uma mulher da sua laia não quer ficar presa a uma criança — disse ele asperamente. — Vai querer caçar um milionário novamente.

Chocada, desta vez foi Isabella quem desviou o olhar. A rudeza do marido conseguira atingi-la. Por que, discutindo sobre uma criança que nem ao menos existia, ela subitamente desejava que Edward não fosse tão hostil? Era tudo um absurdo, pois ela o estava meramente enganando, a fim de conseguir a liberdade.

Para que ele não suspeitasse de nada, Isabella continuou o jogo.

— E quando voltarmos a Thassos eu serei livre para ir onde quiser?

— Livre?

— Sabe o que estou dizendo. Aqui eu sou uma prisioneira. Certamente não pretende me trancar em casa.

— Como já disse, você não me deixará até a criança nascer. Depois será completamente livre, Isabella.

Ela não respondeu, escondendo a alegria que sentia prudentemente. Livre... Seria muito fácil fugir de Thassos!

— Na verdade, você estará livre de agora em diante, Isabella. Vamos desembarcar juntos em Rhodes.

— Vou poder sair deste barco afinal? — Um suspiro profundo escapou dela, e, sem perceber, parecia muito pouco com a cavadora de ouro que fingia ser. — Oh, Edward! — exclamou, encantada. — Não sabe como estou adorando esta notícia!

Isabella teve a impressão de que ele estremecia, mas logo recobrou o controle, e, olhando estranhamente para ela, comentou:

— Existe algo muito esquisito em você, Isabella. — Calou-se por um momento, como se esperasse alguma resposta. Depois continuou: — Não tem nada a dizer?

Ela sacudiu a cabeça negativamente, pois tinha medo de se trair. Para seu alívio, Edward encolheu os ombros com indiferença e mudou de assunto.

O iate ancorou no porto de Mandraki. Isabella, no convés do Nereus, olhava encantada para as casas rodeadas de jardins, os majestosos edifícios e os moinhos de vento. Ao longo do porto, vários barcos de recreio estavam alinhados, cercados de caíques coloridos.

Edward aproximou-se dela e perguntou se estava pronta para desembarcar.

— Estou — respondeu ela, ainda empolgada com a idéia, mas procurando não demonstrá-lo por prudência.

— Venha então, e vamos dar uma olhada em Rhodes.

A Ilha das Rosas, pensou ela. E subitamente sentiu o coração apertar. Se aquela fosse uma verdadeira lua-de-mel, em companhia de alguém que ela amasse...

Afastando estes pensamentos, olhou para o marido e perguntou:

— Já esteve aqui alguma vez?

— Sim. Há nove anos.

Foi quando conheceu Tanya...

— Gostou do tempo que passou aqui? — Ela não conseguiu se conter, fazendo a pergunta enquanto desciam do barco.

— Gostei muito — Edward respondeu, indiferente.

— Estava passando férias?

— Eu morava aqui naquela época.

Isabella gostaria de fazer mais perguntas, mas ele não a encorajou. Entretanto, Isabella ficou imaginando se Edward não estaria se lembrando de sua prima.

Rhodes, ela pensou, onde tudo começou... Se Tanya e seus pais não tivessem escolhido Rhodes para passarem as férias, nunca Edward Cullen teria conhecido Marie Denali... e também nunca teria se casado com Isabella Swan! Como o destino é caprichoso!

Mas era melhor esquecer seus problemas por algum tempo. Ela olhou à sua volta, encantada com a claridade e transparência do ar, uma coisa peculiar à Grécia. A cor e a beleza estavam por todos os lados, nos hibiscos em flor, nas primaveras cor-de-rosa, espalhando um festival de cores pelas paredes da Fortaleza dos Cavaleiros, nas árvores cobertas de flores, nas vilas muito brancas, refletidas no mar cor de esmeralda. Isabella sem querer suspirou profundamente e Edward voltou-se para ela, com uma ruga na testa.

— Por que o suspiro? — perguntou ele. — Não está interessada em conhecer a ilha, afinal?

— Mas é lógico que sim!

— Você parece aborrecida.

— Dificilmente eu estaria aborrecida hoje... recuperando a minha liberdade.

— Está sendo sarcástica? — ele perguntou, com um brilho impaciente nos olhos.

— Não, não estou. — E depois de um breve silêncio, Isabella pediu: — Edward, não podemos fazer uma trégua, somente por algum tempo?

Silêncio. Isabella viu seus lábios se apertarem, mas quando finalmente respondeu, sua voz estava despida de agressividade, e ele concordou com a sugestão dela.

— Será bem melhor do que caminhar em silêncio... ou quase... — ele acrescentou.

Entretanto, um longo silêncio entre eles se seguiu, apesar de Isabella ter tido vontade de quebrá-lo inúmeras vezes. Mas ela sentia-se envolvida numa teia de timidez, incapaz de livrar-se daquela sensação. Quem quebrou o gelo foi Edward.

— Sugiro irmos primeiro até à Cidade Velha. É a parte que fica dentro das muralhas e acho que você vai gostar muito.

Ele a levou pela famosa rua dos Cavaleiros, uma viela estreita que ainda conservava seu caráter medieval, o estilo de arquitetura que uma vez abrigara os cavaleiros de São João. Sobre os pórticos de pedra, estavam entalhados os brasões das várias casas. Através dos largos portais daquelas casas antigas, podia-se ver os pátios com calçamento de pedra, sombrios por causa do arvoredo, com degraus de pedra que levavam a balcões cobertos de flores, ou aos jardins suspensos que mal se viam, protegidos pelos grossos paredões. No fim da rua ficava o Palácio do Grão-mestre, e imediatamente Isabella comentou que ele tinha sofrido influência do estilo francês.

— Os seis primeiros Grão-mestres foram franceses — disse-lhe Edward. — Por isto, não admira que tenham sofrido influência da arquitetura francesa. Acredito que o Palácio dos papas de Avignon seja muito parecido com estes.

Eles passeavam como tantos outros casais, mas a grande maioria deles estava de mãos dadas. Isabella sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Seria o sentimento penoso de alguma coisa perdida, ou... de alguma coisa fora de seu alcance?

— Podemos descansar um pouco, Edward? — pediu, subitamente afetada pelo calor. — Gostaria de uma bebida gelada.

— Naturalmente.

Logo estavam instalados sob um imenso cedro, onde havia uma mesinha e duas cadeiras. O café era dirigido por um turco, que veio atendê-los e a mais um outro casal que estava numa mesa próxima. Havia mais algumas pessoas espalhadas no terraço calçado de pedras rosadas, cercado por um murinho baixo, coberto de trepadeiras comuns naquele clima subtropical, pontilhadas de flores vermelhas, amarelas e roxas. Uma suave música bouzouki vinha de dentro do café, e, perto dali, alguns homens de pele olivácea descansavam em cadeiras de lona, jogando tavli, enquanto outros jogavam o kotnboli, um passatempo que, diziam, ajudava a controlar os sentimentos agressivos.

— Está se sentindo melhor? — perguntou-lhe Edward, desviando a atenção dela do grupo de homens. — Está muito pálida. — Ele parecia preocupado e uma onda de vergonha e culpa a invadiu. Desinformado como ele estava, era natural que se sentisse assim por causa dela, ou pelo menos por causa da criança que ele tanto desejava. Ao olhar para o rosto preocupado e os olhos ansiosos de Edward, Isabella teve um impulso de ser honesta com ele e contar toda a verdade, interrompendo assim a farsa. Mas logo controlou-se, pois, se confessasse a mentira sobre a criança, imediatamente poderia perder sua liberdade. E também porque nunca ousaria ser honesta, conhecendo o temperamento do marido e tendo experiência da selvageria de que ele era capaz, se provocado.

— Estou muito melhor — disse ela, recostando-se na cadeira e olhando à sua volta.

Num canto da praça havia uma mesquita, com seu esguio minarete, e no meio havia uma fonte. Vários turistas descansavam ao sol, enquanto outros passavam barulhentamente, pois Rhodes era um lugar cosmopolita, onde se encontravam pessoas do mundo inteiro.

— Tem certeza? — Edward novamente interrompeu seus pensamentos e ela sorriu para ele espontaneamente, sem perceber o que estava fazendo. Os olhos de Edward brilharam, mas quase imediatamente ele comentou, ainda preocupado: — Você está ainda muito pálida.

— Estou bem, sim — respondeu Isabella, procurando parecer alegre, sem saber porque agia assim, pois estava se sentindo mal devido ao calor muito forte. Ela fingia estar melhor, pois queria prolongar aquele passeio, depois de tanto tempo confinada dentro do iate.

Depois dos refrescos, os dois caminharam pela parte mais moderna da cidade, com seus parques cheios de flores, seus prédios imponentes beirando as praias. As lojas eram maravilhosas e Isabella teria adorado poder olhar as vitrinas com calma, mas Edward não tinha paciência. Ela o via olhar com interesse as vitrinas dos joalheiros e não tinha dúvidas de que, em outras circunstâncias, ele a teria coberto de presentes, para que Isabella se lembrasse da lua-de-mel. Outra vez um suspiro fundo escapou de seu peito. Sentia-se nervosa e desamparada, como se estivesse caminhando no vazio. Estava profundamente envolvida por um estranho pressentimento... mas pressentimento do quê? Ela não sabia dizer!

Começava a escurecer.

— Está na hora de voltarmos ao iate — falou Edward.

Ela concordou, e no mesmo instante sentiu uma fraqueza nas pernas. A tontura voltara, e tudo o que ela queria era descansar. Estavam quase no porto quando Edward percebeu que algo estava errado.

— Você não está boa! — afirmou ele, e desta vez Isabella não o contradisse, ciente de que estava quase desmaiando. — Por que não admitiu antes?

Mais uma vez ela sentiu uma ponta de remorso, pois Edward estava pensando que tudo isto era devido a um suposto estado de gravidez. Ela precisava confessar, e depois sofrer as conseqüências.

— Edward, eu... eu... — Não se lembrou de mais nada e a escuridão a envolveu. Quando acordou estava numa cama, e a enfermeira a seu lado a informou de que estava no Hotel das Rosas.

— A senhora teve uma insolação — explicou, sorrindo, enquanto lhe dava alguma coisa para beber. — Vou avisar seu marido de que já voltou a si.

— Sinto muito, Edward — desculpou-se Isabella, alguns minutos depois, quando ele chegou junto à cama. — Foi tolice minha não dizer antes que não me sentia tão bem.

— Bem, desde que não seja nada sério... Como se sente agora?

— Muito bem. — Ela esperou um momento e depois prosseguiu: — Edward, tenho uma confissão a lhe fazer...

— Sr. Cullen! — A enfermeira voltara, agitada. — Estão chamando-o na recepção. Parece que aconteceu alguma coisa com seu iate.

— Meu iate?

Ele saiu imediatamente e voltou algum tempo depois, contando que o Nereus tinha sido abalroado por um enorme navio a vapor.

— Ficou muito danificado? — perguntou-lhe Isabella.

— O conserto vai demorar pelo menos uma semana — respondeu ele, visivelmente contrariado. — Podemos esperar ou voar para casa... Vou resolver depois. Em todo o caso, vamos passar esta noite aqui. — Ele a olhou, completamente esquecido de que ela tinha uma confissão a fazer. — Ainda não encomendei o jantar. Acha que vai conseguir se levantar ou prefere comer no quarto?

— Oh, sim, sim, posso me levantar! — exclamou ela, feliz com a idéia de jantar no hotel. — Estou me sentindo muito bem, depois do descanso.

Ele a olhou com atenção e pareceu satisfeito.

— Muito bem. Vou pedir o jantar para as oito e meia.

NA: como o prometido aqui está o Capitulo nove,

Eu não gosto e gosto dizer que a Fic está acabando, não gosto por que eu gosto muito de postar a fic, e gosto por que é muito bom terminar algo.

Beijos

PS: Eu realmente gosto da Anne Hampson e se você tiver a oportunidade de ler os livros dela eu recomendo.