XI

VINTE

Desde o início dos tempos, a alta sociedade bruxa encara festas de aniversário como grandes eventos. Druella Rosier Black não era uma exceção: tradicionalmente, todos os membros da sua família ganhavam festas suntuosas para celebrar o dia do nascimento. Mas aquela data em particular era especial para a mulher; pois naquele dia fazia vinte anos que ela dera a luz à sua primeira filha.

Assim, ela não economizou na decoração e na bebida absurdamente cara. Ela não hesitou em contratar os melhores estilistas para desenhar o seu vestido e o vestido da aniversariante. E fez questão de não deixar fora da lista de convidados ninguém que fosse alguém na sociedade bruxa.

Bellatrix Black, por outro lado, preferiria que a festa suntuosa não acontecesse. Eis que desde que terminara os seus estudos em Hogwarts, aniversários apenas lembravam à jovem das coisas que ela não conquistara e das metas não atingidas. Lembrava que ela ainda não tinha nenhum rumo em sua vida – nem no campo profissional, estagnado desde os seus dezessete anos de idade, nem no pessoal, onde ela colecionava noivados falidos e uma nova e provavelmente impossível obsessão.

Infelizmente, abandonar a sua própria festa não era uma opção. Então ela se limitava a bebericar o seu champanhe, cumprimentar velhos amigos que já tinham a vida encaminhada e torcer para que a noite não fosse muito longa.

- Oh, querida! – Druella aproximou-se da filha com um enorme sorriso estampado em seu rosto. Sua voz já alterada, devido ao vinho dos elfos. – Você está gostando?

- Estou. Muito obrigada, mamãe. Eu queria que Andy e Cissa estivessem aqui.

- Bem, no seu próximo aniversário Andromeda estará conosco. Seu pai que não vai ficar muito feliz ao pagar por mais um vestido... ele ainda acha que esses foram caros demais.

- Papai sempre acaba fazendo o que a senhora quer.

- Isso porque ele sabe que eu sempre estou certa. E, Bella, você está deslumbrante. O vestido valeu cada nuque!

- Claro, mamãe.

- Bem, eu tenho que ir. Seu pai decidiu sentar-se à mesa do Ministro, e eu estou prevendo que ficaremos lá por horas... Se ao menos a mulher dele não fosse tão obtusa... De qualquer forma, eu só vim para lhe falar que os Lestrange chegaram. E o seu amigo Rodolphus veio!

Bellatrix teve de se esforçar para conter o sorriso que ameaçou tomar conta dos seus lábios. Controlada, ela agradeceu à mãe e foi até a entrada do salão, onde encontraria o seu mais querido amigo.

Rodolphus Lestrange, como sempre, distribuía o seu charme às convidadas da festa. Ele tinha um talento invejável para as situações sociais, sempre conseguindo, de alguma forma, se colocar no centro das atenções – especialmente entre as mulheres. Além da personalidade cativante, ele tinha a aparência... que só melhorava com o passar dos anos.

- Espero que você tenha tempo para dar atenção à aniversariante.

Os olhos castanhos imediatamente foram à Bellatrix, e Rodolphus a analisou dos pés à cabeça antes de lhe abraçar.

- Bella! Você está linda!

- Eu estou ouvindo isso com uma freqüência absurda, hoje. Mamãe põe a culpa em meu vestido ridiculamente caro.

Rodolphus a olhou novamente, de forma ainda mais invasiva. Bellatrix não se importou – ela sabia que a sua aparência era muito acima da média e viu como o seu corpo foi bem delineado pelo cetim vermelho. Coisas bonitas tinham que ser admiradas.

- Sim. O vestido está ajudando. Feliz aniversário!

Ele deu um beijo leve em seu pescoço antes de lhe soltar.

- Eu não pensei que você viria.

- Vir ao Reino Unido não estava nos meus planos, mesmo. Está cada vez mais difícil entrar no território soviético, já que ultimamente a nossa política está mais entrelaçada à política trouxa.

- Oh. Eu não sabia disso.

- Eu não esperava que você soubesse. A União Soviética está numa guerra não declarada com o resto do mundo. Os bruxos de lá acham que aceitar presença estrangeira fere a soberania deles; ainda que eles, os bruxos, não tenham nada a ver com a rixa entre Ocidente e Oriente. Eu nem sei se conseguirei voltar para lá.

- Então, por que você veio?

- Eu... – Ele deu um meio sorriso. – Podemos conversar lá fora?

Bellatrix assentiu, e, para o desapontamento das convidadas que ainda rodeavam o jovem Lestrange, Rodolphus logo segurava a sua mão e a levava para os jardins da mansão – naquela noite, totalmente iluminados. À medida que a música se distanciava, a expressão no rosto do homem se tornava mais pesada.

Finalmente, eles chegaram à piscina e se sentaram, frente a frente, numa espreguiçadeira.

- Então, o que houve? O que fez com que você desse as costas à sua futura esposa húngara?

- A carta que você me enviou. Ela me preocupou um pouco.

A jovem franziu o cenho, tentando lembrar se escrevera algo de inquietante na última carta enviada a Rodolphus.

- Como assim?

- Eu queria saber qual é a sua relação com Lorde Voldemort.

- Oh. – Ela corou. – Não existe uma relação, na verdade. Eu o visitei poucas vezes e... não sei, Rodolphus. Nós estamos nos conhecendo. E talvez eu flerte um pouco.

Aquilo não era totalmente verdade. Desde a visita que Lorde Voldemort fizera aos Black, Bellatrix ousara ir ao seu esconderijo três vezes. Nelas, a jovem usou todos os truques e joguetes que conhecia, na tentativa de fazer com que o Lorde quisesse ter um compromisso formal com ela; mas não estava funcionando. O homem – que, aos olhos de Bellatrix, era cada vez mais fascinante – apenas a olhava de forma inapropriada e a dispensava, dizendo que era imatura demais para freqüentar o meio dos Comensais da Morte.

- Você flerta com Lorde Voldemort?

- Um pouco, Rodolphus. Eu gostaria que ele me visse como mulher.

- Por quê?

- Porque ele é... tudo o que você me disse. E mais. E, eu cansei de garotos como os meus antigos noivos; eles não saberiam apreciar uma mulher como eu. Eu quero um homem mais velho, um homem importante. Um homem que possa me ensinar magias com as quais eu nunca sonhei...

- Sabe, você não precisa deixa ele lhe comer para se tornar uma aprendiz!

Bellatrix abriu a boca e corou – desta vez, de raiva. Se aquelas palavras tivessem sido ditas por qualquer outra pessoa, a jovem Black a azararia. Mas aquele era Rodolphus; o seu amigo Rodolphus.

- O que você disse?

- Você me ouviu, Bella! O que você quer? Se tornar uma Comensal, ou a puta do Lord-

As palavras de Rodolphus foram interrompidas pelo peso da mão de Bellatrix em seu rosto, deixando lá a mão pequena e delicada esculpida e alto relevo.

- Você não tem o direito de falar comigo assim! O que faço ou deixo de fazer, Rodolphus, não é de sua conta! Com quem eu flerto não é de sua conta! E pode ter certeza que isso não faz de mim uma... daquelas. Mas se você pensa assim, talvez seja melhor que pare de falar comigo, já que todos pensam que você é apaixonado por mim!

Ele a olhou, fúria estampada em seus olhos geralmente tranqüilos.

- Eu não vou deixar de falar o que eu penso só porque você não agüenta a verdade!

- Mas isso não é verdade! Eu nunca serei a... puta de ninguém.

Rodolphus respirou fundo.

- Eu conheço Lorde Voldemort melhor que você. Ele não vai casar com você, Bella.

- Você não sabe disso. Caso você não tenha percebido, eu sou boa em arrastar homens para o altar.

- Claro. Prometa-me, então, que você não fará nada com Lorde Voldemort, a menos que estejam casados.

- Por que a minha virtude, de repente, é importante para você?

- Você é importante para mim. Prometa.

Bellatrix bufou. Até aquele momento, ela tinha certeza que a sua virgindade seria mantida intacta até a noite de núpcias. Então, ela não hesitou em assentir, vinculando-se pela primeira vez em sua vida a uma promessa que ela não conseguiria cumprir.

- Se isso vai encerrar esse assunto, Rodolphus, eu prometo.

- Assunto encerrado, então. Mas me diga, você já falou com ele sobre se tornar uma Comensal?

- Sempre. Ele diz que não aceitará mulheres.

- Mas você não é uma mulher qualquer. Eu posso falar com ele, se você quiser.

- Não. E eu pensei que nós tínhamos encerrado esse assunto.

Rodolphus sorriu, aproximando-se um pouco.

- E nós deixamos de falar da sua virgindade! Agora estamos falando da guerra. Estamos falando de Lorde Voldemort, e de como nós o ajudaremos a eliminar da face da terra a imundice trouxa!

Bellatrix desviou o seu olhar.

- Eu não sei, Rodolphus...

- O que você quer dizer com isso?

- Que eu não sei! Eu não sei se conseguiria ser, realmente, uma Comensal!

- Mas você acabou de dizer que fala com Lorde Voldemort sobre isso.

- O fato é que... da primeira vez que eu disse que queria me tornar uma seguidora, eu estava apenas flertando. Ele deixou claro que não me aceitaria, mas isso pareceu intrigá-lo, então... eu continuei.

- Então você não tem intenção...?

- Ele matou crianças! – Ela finalmente disse o que estivera engasgado em sua garganta por quase um mês. – Eu fingi que não me importava, mas... crianças! Eu sei que foi parte da estratégia; eu sei que apenas sangues-ruins morreram, Rodolphus, mas eu não conseguiria participar disso! Eu sempre me finjo de corajosa, e digo que eu queria usar maldições imperdoáveis, mas a verdade é que... eu não acho que eu conseguiria.

A mão de Rodolphus procurou a sua e a apertou. Em seus olhos, o mesmo brilho maníaco que há meses Bellatrix vira apareceu.

- Às vezes eu acho que lhe conheço melhor que você mesma, Bella. Você tem um potencial dentro de si que... que me espanta. Eu acho que você conseguiria matar quem você quisesse. Eu acho que você poderia ser a melhor torturadora que o mundo já viu.

- Não...

- Você seria conhecida por todos. A Comensal mais poderosa, a mais temida. A mais admirada. – Bellatrix mordeu o lábio inferior, as palavras de Rodolphus lentamente se enraizando em sua mente. – Quando o trabalho do Lorde Voldemort finalmente estiver acabado e o nosso novo mundo chegar, você será uma rainha. Todos aos seus pés. Todos sabendo que a nossa vitória não seria possível sem você ao nosso lado. Sem a sua varinha e a sua beleza.

- Eu...

- Você. A mais importante. O braço direito do Lorde Voldemort. Ele será um deus e você...

- Uma deusa.

Rodolphus sorriu, sinistramente satisfeito. Bellatrix não sabia, mas o seu olhar perdido adquiriu o mesmo brilho maníaco do homem à sua frente.

- Você já pensou, Bella, que você não nasceu para ser apenas uma esposa? Você nasceu para coisas grandes.

- Para ser uma deusa. E uma rainha.

- Sim. O seu nome pode entrar para a história... tudo que você tem que fazer é se livrar dessa moralidade que faz com que você ache que não pode matar. Você pode fazer o que você quiser.

- Eu posso?

- Enquanto você estiver do lado do Lorde Voldemort, minha querida, tudo é permitido. Não há lei.

Tudo é permitido.

Ela ainda não sabia que as teorias de Rodolphus seriam postas em prova em apenas duas semanas.

XxXxXxX

Lucius Malfoy beijava de uma maneira de Andromeda Black não era acostumada. Não que a garota fosse acostumada a beijar muitos meninos – na verdade, ela apenas tivera dois namoradinhos em sua vida, e ambos os relacionamentos foram muito recatados.

Já Lucius...

Naquele momento, os dois estavam numa sala sem uso do quarto andar, deitados atrás do que seria o gabinete do professor. O corpo de Lucius pesava sobre o de Andromeda e as mãos dele passeavam livremente pelas curvas da garota.

Em sua cabeça, Andromeda escutava um sinal de alerta: ela não deveria continuar com aquilo. Ela era uma Black. Tinha que parar! Ainda assim, não conseguiu impedir que Lucius desabotoasse a sua camisa e erguesse a sua saia.

Foi apenas quando a mão do garoto avançou por dentro de sua lingerie e lhe tocou num local bastante proibido, que ela decidiu escutar a razão, separando-se dele tão rapidamente quanto possível.

- O que foi? – Lucius perguntou, visivelmente frustrado.

- Não. Isso não. – Ela começou a fechar os botões. – Eu sou uma Black.

- E?

Andromeda o olhou, mal acreditando nos seus ouvidos. Lucius conhecia bem as tradições das famílias como a de Andromeda. Ele sabia que magias testariam a virgindade da garota no dia do seu casamento, e sabia a vergonha que os Black sentiriam se ela não pudesse se casar de branco.

Tudo aquilo podia parecer baboseira paternalista numa sociedade que ainda experimentava a libertação sexual iniciada na década de 1960. Ainda assim, nem Andromeda nem Lucius poderiam esquecer os valores enraizados em suas mentes desde a mais tenra infância.

- E?Eu não acredito que você teve a coragem de dizer isso, Lucius! Você! Um Malfoy! Me diga, você teria coragem de casar com uma mulher que não pudesse vestir branco?

- Claro que não! Nem coragem, nem vontade! Mas nós não precisávamos fazer... tudo!

Andromeda deu um sorriso sarcástico.

- Tudo? Acontece que nós não deveríamos estar fazendo nada!

- Do que você está falando?

- Disso, Lucius! O que está acontecendo? Nós estamos namorando?

- Não.

- Você pretende, um dia, me namorar?

Lucius fechou os olhos e suspirou. Finalmente começou a ajeitar as suas próprias roupas.

- Eu gosto de você, Andromeda.

- Não foi isso o que eu perguntei.

- Mas eu quero que você saiba que eu gosto de você. Mais do que qualquer outra garota com quem eu-... Você é linda, é divertida, joga quadribol como ninguém e nós somos bons juntos.

- Mas...?

Quando Lucius voltou a olhar Andromeda, os seus olhos estavam frios – e ela quase não os reconheceu.

Imediatamente soube o que o jovem pensava.

- A escolha não é minha.

- Claro que não...

- Eu vou me casar com a sua irmã. E eu a acho fria demais, e metida demais... mas a escolha já foi feita. Não há nada que eu possa fazer para mudar.

O casal ficou se olhando por um longo minuto em silêncio.

Andromeda não era apaixonada por ele. Mas se acostumara à companhia. Ela se acostumara aos elogios constantes e aos beijos... E ela sabia que, apesar de tudo, Lucius tinha sido uma presença importante em sua vida nas últimas semanas. Ela não queria que aquilo acabasse. Ela não queria estar sozinha novamente.

Andromeda não era apaixonada por ele. Mesmo assim, os seus olhos se encheram de lágrimas quando ela disse:

- Nós não podemos continuar com isso.

- Podemos. Tudo pode continuar exatamente como está.

- Não. Eu vou acabar me machucando, Lucius.

- Andromeda...

- Fique longe de mim. Pelo menos por enquanto.

E ela conseguiu sair da sala antes que a primeira lágrima caísse. Uma partezinha irracional e romântica de Andromeda esperava que Lucius corresse atrás dela; mas o garoto Malfoy não o fez. Ele era orgulhoso demais, e sabia que todas as outras garotas de Hogwarts ficariam felizes em lhe consolar.

- Ei! Andromeda! – Ela olhou para trás, com um fio de esperança. Mas era apenas Theodore Tonks, que saía da biblioteca com a sua "namorada" loira e dois jogadores do time da Grifinória. – Vem aqui!

Ela tentou sorrir, esperando que ele não pudesse ver os seus olhos e nariz vermelho.

- Tenho pressa.

- Ei! Espere! – O garoto correu para perto dela, acenando para que os amigos continuassem os seus caminhos. – O que houve? Você está chorando?

- Não, eu... – Duas grossas lágrimas escaparam e, apesar dela ter limpado-as rapidamente, sabia que seria inútil mentir. – Não foi nada. Eu sou chorona, mesmo.

Em resposta, o inesperado: o sangue-ruim Theodore Tonks a abraçou.

XxXxXxX

Reviews, por favor.

Mando bjus e mais bjus para a minha maninha querida do coração, a Sheyla Snape, que betou mais esse capítulo. E, claro, para as lindas que comentaram o cap passado: DevilAir, Daik, Lia Croft (a primeira vez que eu parei pra pensar na existência do Ted foi quando eu comecei a escrever essa fic; não tinha idéia que existia quase um consenso que ele era da lufa-lufa. Masss, ele ser a grifinória funciona melhor, aqui! Hehe!), Duaschais Seneschais, Leather00Jacket, Lia Malfoy e Tathiana (Narcissa volta a aparecer no capítulo 13, e se mantém no 14 e no 15. Na verdade, ela será mais utilizada na segunda parte da fic). E, claro, para as meninas do Nyah!: Mariahmion, 1Lelel, Luh Black, Brendhoka e Geb101.