XI.

Ele levou-a para casa. Ollie não parecia mais zangada, mas meio tristonha. Gostaria de ter ficado com Peter, esquecido do mundo, dos problemas, por um pequeno lapso de tempo. Ainda era cedo, cerca de oito da noite. Quando ia sair, o telefone tocou. Era Rachel. Notou que ela ficara tensa ao ouvir a irmã. Despediram-se logo.

-O que houve?

-Rachel não está bem. Foi licenciada no trabalho.

Ele respirou fundo, tomou coragem e perguntou.

-O que há com ela, afinal?

-Todos nós temos problemas, Peter. Rachel sofreu muito. Nem eu nem você imaginamos o quanto.

-Como pode dizer isso?

-Acredite em mim, não é exagero.

O tom dela era triste. Parecia não desejar se alongar no assunto.

-Eu vou agora. Amanhã nos falamos.

Beijou-a de leve, nos lábios. O coração dela se contraiu. A intimidade deles, uma hora antes, parecia um sonho. Coisa acabada, de outra vida. Levou-o até a porta.


Peter começou a descer as escadas. Charlie Francis vinha subindo.

-Que bom vê-lo, Francis. Precisava muito falar com você.

-Pois, não. Vamos subir.

-Não quero que Ollie saiba.

-Algum problema?

-Não sei, espero que você possa me ajudar.


Sonia serviu café. Depois se recolheu dentro do quarto.

-O que há de errado com essas duas?

Francis baixou os olhos.

-Não sei se é correto falar sobre isso.

-Poderia me ajudar com Ollie. Acho que há algo muito errado com Rachel. Ela andou ... bem... é difícil dizer.

-Ela se jogou em cima de você, não é?

-É.

-Ela já fez isso diversas vezes, ao que parece. Ollie já comentou com Sonia.

-Como ela suporta?

-Elas se amam. Passaram muita coisa juntas. Rachel tem problemas. As duas têm.

-Pode me explicar?

-A tia delas, Missy. Foi ela quem me contou. É uma história horrível.

-Preciso que me fale tudo, por favor.

-A mãe enviuvou cedo com as duas meninas, uma com seis anos e a outra com apenas dois. Menos de dois anos depois arranjou um companheiro. Ele bebia muito e ela logo começou a acompanhá-lo. Quando brigavam, ele a espancava violentamente. A polícia era chamada repetidas vezes, mas a mulher se recusava a prestar queixa.

Quando Olivia tinha oito para nove anos, a professora identificou sinais de maus tratos e abuso psicológico. Logo depois, Rachel passou a apresentar um quadro semelhante. Finalmente, Marilynn Dunham fugiu com as meninas para Chicago.

-Olivia ainda enxergava?

-Sim. Segundo a tia, era uma ótima garota. À sua maneira, tomava conta da mãe e da irmã.

-Como ela ficou cega?

-Uma tarde, quando as duas crianças voltavam da escola, o padrasto estava lá, esperando. Ollie mandou Rachel fugir e enfrentou-o, para dar algum tempo à irmã. Ele começou a espancá-la, com força, como se estivesse batendo em um adulto. Em algum momento ela foi ao chão e bateu com a cabeça. Perdeu os sentidos. Ele deu vários chutes em Ollie, enquanto ela estava desacordada. Quando ele estava tirando as calças, provavelmente para violentá-la, Rachel apareceu. Estava com a arma que a mãe havia comprado para se proteger. Atirou nele. Atirou até esvaziar o tambor do revólver.

Peter estava enojado. Sentia muita pena das moças. Francis continuou:

-Os vizinhos ouviram os tiros e vieram socorrê-las. Chamaram os paramédicos e a polícia. Rachel estava em estado de choque, encolhida perto da irmã. Olivia foi internada em coma. Ficou desacordada por cerca de dois meses. A cegueira foi a sequela.

-E a mãe?

-Continuou a beber. Acabou morrendo de cirrose. As meninas foram viver com a tia. Apesar de não ter muitos recursos, ela assumiu a responsabilidade sobre as garotas para não correr o risco de vê-las separadas. É difícil conseguir adoção para adolescentes com deficiência visual. É isso. Não é uma história nada bonita de se escutar.

-O que Rachel tem realmente?

-Ela teve acompanhamento psiquiátrico durante um bom tempo. Estudou, tem um bom emprego. Mas parece que ela sempre competiu com a irmã. Tomou vários namorados de Olivia. A irmã nunca reagiu. Parece, bem, eu não sei como dizer...

-Parece que Rachel testa o afeto da irmã?

-E ela nunca reage com raiva.

-Ela deve achar que deve alguma coisa a Rachel.

-Bem, ela deve a vida.

-Não creio que seja apenas isso. Ela acha que estragou a vida de Rachel. Que fez dela uma assassina.

-Ela nunca disse nada a esse respeito.

-Ollie nunca falaria. É maravilhosa, Francis.

-É sim. E você é um cara de muita sorte.

Peter não sorriu. Só queria voltar para perto dela.