Capítulo 10

— Ainda está acordada? — Edward perguntou vendo-a sentada na cama, abraçando os joelhos.

— Eu não… consigo dormir sem… meias. — confessou, olhando para os pés, como se fosse a coisa mais íntima.

— Meias?

Ele quis gargalhar e percebeu que sua raiva "por ela desprezá-lo" passou rapidamente. Mas diferente de sua raiva, a vergonha dela estava longe de desaparecer.

—Sim. Por acaso… poderia me emprestar,… um par de meias? — solicitou comprimindo os lábios.

Edward negou, inconformado, com a cabeça e se encaminhou para a cômoda. Teve novamente a vontade de rir, de caçoar, mas conteve-se.

Nem sabia se encontraria meias. Até onde se lembrava, não tinha o item porque não nunca usava. Ficava sempre descalço ou com chinelos, mesmo nos dias mais frios.

Abriu a primeira das cinco gavetas e teve mais um surpresa no dia: estava tudo meticulosamente dobrado e organizado por cores. A tripulante aproveitara que ele emprestaria roupas para colocar em prática sua fixação, doentia, de arrumar.

Não disse nada. Era perda de tempo. Brigar com ela só iria estressá-lo. Em vez disso, preocupou-se em procurar em outras gavetas o tal par de meias. Verificou que ela não arrumara todas. Talvez deixasse para o dia seguinte.

Na última gaveta, lá no fundo, encontrou o que procurava.

— Tome. — estendeu o tecido branco-amarelado para Bella. — Estão limpas apesar de não parecer. — reforçou.

— Obrigada.

Satisfeita pelos pés estarem protegidos, Bella se deitou e cobriu. Teve vontade de cobrir a cabeça, de vergonha, mas não o fez. Ainda tinha sua dignidade.

Observou, discretamente, Edward se movimentar, aprontando-se para dormir.

Edward não fez nenhum comentário sórdido sobre o que acontecera no convés, embora sentisse a língua coçar. Em vez de descontar o que ela lhe fizera o dia todo, jogou-se pesadamente na rede após apagar a luz.

— Agora que eu me dei conta… tem luz aqui. — Bella comentou olhando para o ponto recém-apagado. — Como isso é possível?

— Tem uma placa solar no topo da cabine. — respondeu o marujo de olhos fechados. — É assim que tem energia no veleiro.

— Ahhh! Interessante…

— Mas não se anime. O chuveiro não tem água quente.

Para contrariar expectativas, Bella não reclamou. Ficou olhando para o teto, concentrada em evitar os olhos de seu comandante e admirada por sua consciência ecológica. E para seu pior castigo, não conseguia arrancar a imagem dele completamente nu da cabeça.

— Nós estamos andando. — prosseguiu apreensiva. — Não é perigoso bater em alguma coisa? O Titanic era tão grande e resistente… Também tinha um monte de gente olhando e, ainda assim eles bateram e afundaram… Morreram tantas pessoas…

— Já disse que tenho sensor de aproximação. Se qualquer navio, ilha ou… "icebergs" se aproximarem, eu vou saber. — declarou soando irônico, pois dificilmente encontrariam um iceberg no Caribe, aliás, era impossível.

— Cadê o Frank?

— Está dentro da cabine.

— E… aquela história de tempestade. Hoje não vai chover, não é?

— Ah. Ah. Ah. Tá querendo pular fora do barco? — perguntou se acomodando na rede, colocando as mãos atrás da cabeça, divertindo-se com o pânico repentino da maruja.

— Não! E-eu só que estou… curiosa. Só isso.

— Você está apavorada! — acusou querendo olhá-la e encontrando somente escuridão. — Não vai acontecer nada, não se preocupe. — tranquilizou-a. — E não há previsão de chuva, se quer saber.

— Como sabe?

— Eu não senti cheiro de chuva! E tem a previsão do tempo que acompanho sempre. E se tiver previsão de tempestade, serei alertado por rádio.

— E os piratas? Eles existem de verdade? — Bella emendou.

— Sim. E são muito perigosos. São bandidos.

Bella se sentou na cama, interessada no assunto e muito medrosa.

— E… Já viu uma embarcação pirata? Com caveira e tudo? — perguntou sussurrando em sua direção, temendo ser escutada por alguém além do próprio Edward.

Claro que ele vira, aliás, já estivera a bordo de uma, certa vez. E não tinha orgulho de admitir. Estivera a bordo da embarcação dos Volturi; os maiores bandidos do Mar Caribenho.

— Sim. Já vi… — disse em tom de lamento e suspense. — Mais alguma pergunta?

Quando só o que ouviu não passava do suspiro da garota, respondeu:

— Ótimo! — disse fechando os olhos.

Mas o sono não vinha, e não viria tão cedo. Lá estava Bella e sua pouca roupa o fitando em pensamento. Lá estava ela tirando o vestido florido e restando somente aquela renda preta que vira, mais cedo, que secava no banheiro. E lá esta ele, imaginando o irreal, o que não acontecera; Bella, de costas para ele, soltando os colchetes de metal do sutiã. E prestes a se virar:

— Edward! — ela o chamou para a dimensão em que estavam. — Edward?

— O que é? — resmungou quando percebeu que as imagens eram só fruto de sua imaginação.

— É… Feliz aniversário… atrasado.

— O quê?

— Feliz aniversário atrasado. E antes que me pergunte como é que sei… Tinha documentos dentro da gaveta e foi impossível não ver. Faz uma semana… — concluiu se revirando na cama para dormir, pelo menos, é o que tentaria fazer.

Edward havia completado vinte e nove anos e nem se dera conta. Para ele ainda estava em meados dos vinte de oito.

Ele só acenou com a cabeça, como se ela o visse, e fechou os olhos para dormir. A garota ficou a alguns centímetros de distância, deitada e pensativa, pois, parecia que Edward não se lembrava da data o que significava que ninguém o havia parabenizado e que não ganhara nada.

Pensou que talvez pudesse presenteá-lo com alguma coisa. Que seria uma maneira de agradecer a "gentileza" de lhe dar carona.

Assim que chegassem na Venezuela, veria o que poderia fazer a respeito.

Quando Bella despertou na manhã seguinte, Edward já havia desaparecido. Não gostou disso porque queria preparar o café da manhã antes que ele acordasse. Queria fazer o possível para que ele não a achasse uma inútil, um estorvo.

Levantou-se e logo avistou a mesa posta com o café da manhã. Havia ovos, pães, café e leite. Percebeu que ele já tinha feito o desjejum. Havia um prato com resquícios de pão e ovos mexidos e uma xícara de café quase vazia.

Bem ao lado do prato separado para ela, havia uma embalagem transparente. Bella logo verificou a escova de dentes. Achou aquilo muito delicado da parte de Edward, que sabia que ela não trouxera nada além das "tralhas de mulherzinha" e muitas notas de dinheiro.

Assim que tomou café e lavou a louça suja, seguiu para o convés a procura do comandante.

O sol estava mais forte do que no dia anterior. Não havia colocado protetor e sentiu a ardência do bronzeado.

O mar estava calmo e mais límpido do que quando estavam mais próximos da costa. Se olhasse para fora, daria para ver alguns peixes nadando logo abaixo deles.

Encontrou Edward na popa, inclinado sobre o equipamento de mergulho.

— Bom dia. — ela saudou-o.

— Bom dia. — respondeu sem olhá-la, muito atarefado, mexendo aqui e ali.

— Obrigada pelo café. Estava ótimo. — disse timidamente e ouviu o silêncio — Que legal. Vai mergulhar. — entusiasmou-se e comentou sem receio.

— Sim. Vou trabalhar! — sorriu lembrando-se que ela achava que ele era um viajante vagabundo. — Vou tirar umas fotos.

— Isso ali é uma câmera? — perguntou apontando para os óculos de proteção e para um ponto bem no meio das lentes onde continha uma câmera pequena.

Edward seguiu a direção e confirmou, acenando positivamente.

Ambos ficaram calados por alguns minutos. Bella não se importou porque o estava observando vestir a roupa apertada, colocar os pés-de-pato e encaixar um tubo de respirador nas costas. Achava aquilo interessantíssimo.

Ele veria tudo lá embaixo sem se preocupar em emergir para respirar. Ela ficou encantada com a ideia e nem pensou quando perguntou:

— E... eu posso ir também?

— O que? Mergulhar? — ele perguntou descrente, sorrindo ironicamente. — Não. — respondeu sem se dar ao trabalho de pensar.

Era só o que faltava. Ela queria segui-lo até em sua atividade favorita quando viajava em mar aberto.

— Por que…?

— Porque não.

— Mas…

— Você trouxe algum equipamento de mergulho dentro da bolsa? — inquiriu soberbamente e não obteve resposta. — Então…

Bella abaixou a cabeça, derrotada e de repente, veio-lhe uma lembrança:

— Mas eu vi que você tem dois.

— O outro está quebrado.

— Que pena. — disse comprimindo os lábios, aborrecida, porém, engatou. — Mas… se tivesse o segundo equipamento… você me levaria?

Ela o encarou docemente. Nem parecia a peste que se infiltrara em sua casa e acabara com o dia anterior do marujo.

Inevitavelmente, ele sentiu uma pontada no coração e não sabia o que aquilo significava, só percebeu que baixou a guarda e respondeu procurando fazê-lo com sinceridade:

— Mergulhar é muito perigoso.

Edward se levantou e mesmo sendo o equipamento muito pesado, não teve problemas em se locomover para a plataforma de salto, junto ao traseira da embarcação.

— Tome cuidado com os tubarões. — ela recomendou sem saber que aquela área não haveria tubarões devido a temporada.

Edward verificou um relógio velho ligado ao tubo de oxigênio e saltou no mar. Ele logo emergiu para colocar os óculos e o respirador. E com uma última olhadela para Bella, frustrada por ficar de fora da aventura, afundou e sumiu nas águas azuis.

Bella ficou sentada um tempo, observando a transparência da água engolir Edward conforme este ia mais fundo. Não pode evitar a inveja que se apossou de si. Queria muito mergulhar, pois nunca fizera a experiência.

Sentiu uma dor no coração com a resposta esfarrapada de Edward quando ela pediu que fosse levada. Estava claro que ele não se importava se ela ficasse de fora, na verdade, esperava que ela ficasse bem longe dele.

— Mas que calor! — reclamou da alta temperatura que começou a incomodá-la

Resolveu nadar para se refrescar.

Foi ao banheiro, onde deixara sua roupa estendida para secar, e trocou as roupas de Edward, por sua íntima renda preta. Lembrou que assim que atracassem compraria uma dúzia de biquínis para passar os quarenta dias no veleiro.

Pronta, seguiu para a plataforma e mergulhou passando a nadar despreocupada. E depois de determinado tempo, relaxou tanto que quase cochilou enquanto boiava de braços aberto, como se estivesse abraçando o céu, como se fizesse parte do mar, como se fosse uma partícula minúscula de todo o aguaceiro.

— O que tá fazendo? — Edward perguntou assim que emergiu como um tufão imprevisível.

— Ahh… — o grito de Bella foi interrompido quando a água salgada lhe invadiu a garganta.

Ficou tão desorientada que parecia um peixe fora d'água tentando voltar para seu habitat. Debatia-se buscando o equilíbrio corporal.

Quando Edward percebeu que ela entrara em pânico e que se afogaria, segurou-a pelos braços e tentou trazê-la para junto de si, lutando para manter os dois emersos enquanto Bella tossia feito condenada.

Ela tentava, desesperadamente, respirar regularmente enquanto soltava os "Cof, Cof's e Edward ouvia preocupado.

Ela tentava boiar e ao mesmo tempo tirar o excesso de água dos cabelos que escorriam para sua face, o que tornava a visão cômica.

Quando tudo parecia sob controle, respirações normalizadas, e ambos fixos com parte dos corpos para fora da água, Bella tomou conhecimento das mãos fortes envolvendo os seus braços. Edward também percebeu que aquela proximidade era descartável, já que Bella já se recuperara do quase afogamento, mas não conseguiu se desvencilhar.

Face a face eles ficaram trocando olhares, como se tivessem parado no tempo e no espaço. Só alguns centímetros separavam seus rostos, talvez milímetros, talvez eles é que estivessem se aproximando deliberadamente. Eles que estavam prestes a...

— Tem protetor solar no banheiro. — Edward disse, incoerentemente. — Deveria usar.

Ele soltou-a e começou a nadar em direção à escada do veleiro. Saiu se amaldiçoando mentalmente por quase beijar a desvairada. Se a tivesse beijado ali, só Deus sabia o que aconteceria depois.

— O quê? — Bella perguntou atônita, ciente do que quase aconteceu e estranhamente frustrada por não ter acontecido.

— Seu rosto está… vermelho. — explicou já no último degrau.

— Ah, sim. — disse fitando a distância, intrigada. — Obrigada por… me lembrar.

Bella ficou um tempo ainda dentro da água, sem intenção de voltar para a embarcação. Ficava repassando o que quase acontecera.

— Será que ele é gay? — perguntou baixinho.

Era aquilo ou ela simplesmente não era o tipo do marujo. E descobrir aquilo a deixou muito frustrada e, por incrível que parecesse, magoada. Ela o tinha visto nu e quase se atirou sobre ele e quando só o que poderia acontecer era um beijo, ele nem dera importância e se desvencilhara dela como se tivesse uma doença contagiosa.

— Eu não sou doente! — resmungou batendo os punhos, espirando água.

— O que?

— Nada, comandante. Nada.

— Vai subir ou vai ficar aqui mesmo, porque eu vou desancorar!

— Está bem, eu já estou indo! Já estou indo!

Edward coçou a cabeça desesperado, pois teria que ajudá-la a subir as grades de proteção, como no dia anterior. E lembrava-se, principalmente, da parte em que ela tropeçou e caiu sobre ele.

"Maldição! Que ela não caia sobre mim. Que ela não caia sobre mim…", repetia em pensamento, transtornado com o poder daquela criatura sobre as reações de seu corpo. "Não olhe para diretamente para ela. Não olhe para ela…","Ela é feia e não é atraente. Ela feia e não é atraente…"

Mas assim que Bella subiu as escadas, fez um esforço colossal para não pegar a mão de Edward estendida para ela. Não queria a ajuda dele, nem para se sentir mulher.

— Não preciso, obrigada. — disse ressentida.

Ela conseguiu sozinha, mas Edward não compreendeu o acontecera para ela marchar furiosa pelo convés daquela forma e muito menos para ela se calar quase completamente o restante do dia.


Bah, comentem!