************************Cap 11 Sempre juntos! ************************
Santuário de Atena, Casa de Áries.
Na ampla sala da primeira Casa Zodiacal, na ala reservada à parte residencial, Mu deitou Geisty no sofá com todo cuidado.
Apesar de não residir no primeiro Templo o Santo de Áries o mantinha mobiliado e com todas as provisões que um lar necessita em dia, uma vez que o usava como uma extensão de sua casa, indo para lá quando queria ler algum título de sua biblioteca ou para trabalhar na forja.
Muito preocupado com a amiga, o lemuriano pousou a mão direita sobre seu ventre para certificar-se de que o bebê que ela esperava estava bem, e enquanto ainda ajeitava a cabeça de Geisty em uma das almofadas e lhe retirava a máscara, usando telepatia, e completamente enfurecido, chamou por Saga.
"SAGA! SEU MALDITO IRRESPONSÁVEL! VENHA PARA ÁRIES IMEDIATAMENTE! A INCONSEQUENTE DA GEISTY DESMAIOU DURANTE A CORRIDA NA ARENA. VOCÊ NÃO PODIA TER PERMITIDO QUE ELA SE ESFORÇASSE DESSA MANEIRA!"
Mu encerrou o chamado, e certificando-se de que tudo estava bem com a amazona e o bebê apanhou uma das revistas que jaziam dentro de um cesto ao lado do sofá e passou a abaná-la, preocupado e assustado. Não deixava de monitorar um só minuto a aura de ambos, enquanto sua mente já engendrava a bronca homérica que daria naqueles dois irresponsáveis.
Saga, que naquela tarde de Domingo estava no escritório do Décimo Terceiro Templo com a atenção focada em planilhas de pagamentos e compromissos oficiais, parou no ar a caneta que usava para assinar uma notificação oficial do Santuário quando teve sua mente invadida pelo lemuriano. Contudo, não foi o susto e a surpresa de ouvir a voz de Mu de supetão em sua cabeça que fez seu sangue gelar, mas o alerta que ele lhe dera. Sua amada havia mais uma vez passado por um mal súbito, e dessa vez, dada a aflição de Mu, a coisa parecia bem grave.
No mesmo instante Gêmeos se levantou da cadeira e seguiu na velocidade da Luz para o Templo de Áries, já alcançando a área residencial. Deteve-se diante do lemuriano que estava de pé em frente ao sofá em que Geisty se encontrava repousada e ainda desacordada.
— Mu! — o grego exclamou com semblante preocupado — Ela desmaiou de novo? Onde ela estava dessa vez? — correu os olhos pelo corpo da amada vendo que ela vestia o uniforme de treinamento — Não me diga que ela foi para a Arena?
— Saga, vocês são dois irresponsáveis! — Mu o encarou severamente — Como você permite que sua namorada, no estado em que se encontra, vá para a Arena treinar? — esbravejou.
— Pelos deuses Mu! Ela disse que estava melhor do estômago e das náuseas. Como eu a iria impedir?
— Ora, Saga, mesmo que ela não demonstre maturidade ou responsabilidade, cabe a você, nessa circunstância, se impor. Você não deve permitir que...
Súbito, Mu fora interrompido pela voz grave e potente do geminiano.
— Que isso, Áries, você está exagerando! Geisty passou mal no dia seguinte após a festa, e como estava enjoada devido à ressaca ela não tem se alimentado direito todos esses dias. Por isso eu a mandei fazer repouso, mas foi apenas isso, ela não tem nada grave ou de extrema relevância ao ponto de eu precisar tomar conta dela como se fosse uma criança!
— Sim, Geisty de fato não é uma criança, mas está carregando uma! — afirmou o lemuriano estreitando os olhos verdes — E é com essa irresponsabilidade que vocês dois pretendem levar essa gestação adiante? — bradou indignado apontando o dedo para Saga, espantado com a maneira leviana com que acreditava que Gêmeos e Serpente estavam lidando com aquela gravidez.
Saga entreabriu os lábios... Ia dizer algo, mas as palavras de Mu engoliram as suas. Sua voz se calou por longos segundos, nos quais tudo que conseguia fazer era olhar atônito para o rosto severo do Santo de Áries e processar em sua mente o que ele acabara de lhe dizer.
— Co... Como disse, Mu? — gaguejou confuso e aturdido.
Áries cruzou os braços o analisando.
— É sério isso, Saga? — murmurou o ariano.
— O... o que você disse?... Você falou... gestação? — perguntou incrédulo.
— É! Gestação! Não se faça de desentendido, Saga. Não foi por conta dos sintomas da gravidez que a colocou de repouso todos esses dias? E agora você permitiu que ela descesse para a Arena? Os primeiros meses de gestação são os mais delicados, você não podia ter permitido que ela se esforçasse.
— Eu... Eu não estou me fazendo de desentendido... Eu... Eu não sei... não sabia, de nada! — o grego disse exasperado, respirando fundo — Eu não seria tão irresponsável a esse ponto se... se soubesse!... Por Atena! Geisty está grávida? — com o coração aos pulos levou ambas as mãos à boca, e com os olhos arregalados olhou para a namorada no sofá.
— Espera ai... Não me diga que... — Mu descruzou os braços, alarmado — Saga você não sabia?
— Ora, cavaleiro de Áries, acha mesmo que se eu soubesse eu permitiria que uma gestante fosse treinar na Arena? Principalmente... no Domingo quando os cavaleiros de Ouro estão lá?... Jamais permitiria que... ela colocasse em risco a saúde dela e de um... — conteve-se por um instante, pois o que estava prestes a pronunciar ainda soava estranho até mesmo para si — De um bebê!
Mu o analisava surpreso.
— E desde quando você está sabendo disso, Mu? Por que eu não fui informado? — Saga perguntou de modo firme e em tom rigoroso, depois voltou-se apreensivo para a amada ainda desmaiada no sofá.
— Desde a festa. — respondeu o ariano — Eu senti a vida no ventre dela e inclusive a parabenizei. — disse um tanto confuso, notando a inquietação e apreensão na aura de Gêmeos.
Mu então olhou para amiga desacordada e depois para o cavaleiro.
— Estranho. — disse novamente o ariano — Geisty me pediu sigilo, mas achei que ela havia te contado, afinal você é o pai da criança.
O geminiano lhe devolveu o mesmo olhar confuso, sem conseguir compreender o porquê de todo aquele desencontro de informações.
Todavia, Saga não teve a oportunidade de dar prosseguimento à conversa com Mu, pois Geisty começava a despertar. Primeiro soltou um gemido baixo, depois contorceu o rosto e se remexeu em sinal de desconforto. Instintivamente tentou erguer a cabeça, mas foi impedida por Saga que com delicadeza a fez se manter deitada segurando em seus ombros.
— Não se levante, Geisty. — disse Gêmeos com voz branda — Fique deitada um pouco mais, você precisa descansar.
— O que houve? Atena! Que dor de cabeça! — resmungou a amazona piscando os olhos — Me sinto tão zonza... Onde estou? — a voz saiu cansada e confusa, depois olhou para ambos os cavaleiros que lhe encaravam com preocupação — O que está acontecendo? Por que vocês dois estão aqui?... Alias, onde é aqui?
Tentou mais uma vez se erguer, mais foi impedida dessa vez por Mu, agora de forma autoritária.
— Fique deitada mocinha! — disse sério o ariano — Você está na minha casa, no Templo de Áries. Você desmaiou na Arena e eu a trouxe para cá. — ajeitou uma almofada atrás do pescoço dela com ajuda de Saga.
— Precisamos conversar algo muito sério, Geisty. — foi a vez de Gêmeos a olhar com firmeza.
— O que? Sobre o que?... O que está havendo aqui? — intercalava o olhar, olhando ora para Saga, ora para Mu.
— Geisty, por que você me escondeu sua real situação? Por que me enganou todos esses dias? — inquiriu o geminiano em voz baixa.
— Te enganei? — a amazona franziu a testa — Do que você está falando, Saga? Eu... eu não te enganei em nada! Pare com isso, está me deixando preocupada.
— Preocupado estou eu, Geisty. O que pretendia com isso? — o grego disse irritado.
— Cazzo! Isso o que? — a amazona perguntou exasperada, se remexendo mais uma vez para tentar se sentar no sofá.
Mu, que só observava a discussão até então, um pouco irritado com a irresponsabilidade da amiga resolveu ir direto ao ponto se colocando de frente para ela com os braços cruzados.
— Sua gravidez Geisty! Estamos falando da sua gravidez. — disse o ariano.
A amazona arregalou os olhos violetas em assombro, prendendo a respiração.
— Na festa, lembra? — Áries continuou — Quando eu descobri e a parabenizei? Pois bem, você até comemorou comigo, e então me pediu segredo... Tudo bem, eu concordei e respeitei sua posição, mas, não querendo me meter e já me metendo, por que está escondendo sua gravidez do Saga?
O rosto alarmado de Geisty estava pálido, enquanto a cabeça meneava sutil em negação. Contudo, nem mesmo seu abalo perceptível fez Mu se calar.
— Até quando achou que poderia esconder isso dele, Geisty? Foi muito errado e egoísta da sua parte negar ao Saga a alegria de saber que vai ser pai.
Em choque, Geisty abria a boca, mas nada conseguia dizer, até que engoliu em seco e apertando os dedos contra as palmas das mãos esforçou-se para articular alguma palavra.
— Grávida?... Não... Não... Eu não... eu não sabia!... Eu... Pela deusa! Grávida? — os lábios trêmulos da italiana balbuciavam em nervosismo enquanto ela divisava alternadamente os cavaleiros.
— Eu te falei na festa, Geisty! — Mu reafirmou incisivo.
— Mas não foi isso que eu entendi! — sussurrou quase que inaudível.
— Geisty, por que me escondeu isso? — agora foi a vez do geminiano, claramente decepcionado, perguntar fitando diretamente nos olhos da namorada, que balançava a cabeça em desespero enquanto agitando as mãos trêmulas no ar com a voz gaguejante.
— Não! Grávida!... Não Saga!... Eu não posso estar grávida!... É um engano! Eu me previno, você sabe! Eu tomo pílulas há anos!... Não é possível... Não é possível!... Eu não mentiria para você. Eu não estou grávida! Não estou! Eu... Eu não posso estar grávida.
— Isso é verdade. Você toma anticoncepcionais há anos, por isso nunca me preveni... — disse resignado se voltando a Mu que de pronto argumentou.
— Sim, sabemos que você toma. Inclusive sou eu quem os compro. — Mu disse com uma lufada de ar — Mas, você se esqueceu que recentemente trocou as pílulas por injeções? Nós até fomos juntos à farmácia, e por ter engravidado parece óbvio que ocorreu algum erro nas aplicações.
Geisty levou as mãos à boca em assombro, não podendo acreditar no seu infortúnio.
Percebendo a aura agitada da amiga e do chefe, Mu deu um suspiro cansado finalmente acreditando que era uma surpresa para ambos.
— Olha, eu realmente achei que estivessem cientes, afinal Geisty estava com os clássicos enjoos matinais e também fraqueza, até repouso ela estava fazendo. Mas, pelo visto me enganei. — deu de ombros, com uma cara um tanto sem graça — Bem, me desculpem ter dado a notícia assim, mas... Então, novamente: Parabéns aos dois! Vão ser pais!
O Santo de Áries sorriu e deu um tapinha nos ombros de Saga.
Gêmeos retribuiu com um sorriso igualmente surpreso e satisfeito, depois tocou o ombro de Geisty que finalmente se sentara no sofá. A amazona tinha uma expressão espantada e um olhar vago no rosto.
— Vou os deixar a sós um momento, para poderem conversar, digerir a novidade... Se precisarem de algo eu estarei na sala ao lado. — disse o ariano com um sorriso fraco.
— Obrigado, Mu!
Áries então se retirou com uma pitada de inveja brotando no peito, deixando o casal a sós.
Gêmeos finalmente se voltou para Serpente divisando os olhos violetas ainda em choque, o belo rosto alarmado e os lábios pálidos.
Um silêncio denso marcava aquele momento entre o casal, sem que nenhum dos dois quisesse dar o primeiro passo para iniciar o assunto.
Percebendo que a morena não teria condições para tomar a iniciativa, com carinho Saga tomou uma das mãos dela entre as suas e disse:
— Geisty... Eu realmente não sei como reagir, de imediato, a essa... notícia. Eu não sabia que você havia trocado a medicação. Nem mesmo sabia que existia essa chance de falha no medicamento.
— Saga, não. Isso não pode estar acontecendo. Não comigo. Deve ser um equívoco.
O geminiano continuava a falar, com voz calma, tentando acalmá-la.
— Mas está! Está acontecendo... Não posso negar que fui pego de surpresa, acho que tanto quanto você. — deu um sorriso discreto desviando o olhar para a mão fria que tinha entre as suas, a acariciando — Eu queria ter descoberto desde o início...
Súbito Gêmeos foi interrompido pela amazona, que demostrava estar apreensiva e indignada.
— Saga! Não! Não! Será que você não percebe? Eu não posso estar grávida, Eu não devo estar gravida! Não devo! — disse Geisty, elevando a voz em desespero, já com os olhos marejados.
O cavaleiro se calou no mesmo instante devolvendo um olhar surpreso, pois não esperava aquela reação da namorada.
— Geisty, eu entendo que nossa situação é complicada no momento...
— Complicada? — ela o interrompeu novamente — Não! A minha situação não é só complicada, Saga! A minha situação é desesperadora!
— Geisty...
— Eu devo a minha vida em dívidas à pior máfia que existe sobre essa Terra miserável!
— Geisty, acalme-se eu sei que...
— Eu trabalho como prostituta para pagar uma fortuna a eles, tenho minha cabeça a prêmio e ainda sou vigiada todo o tempo!... Minha vida está por um fio e eu moro em um bordel, Saga! Em um bordel! — elevou o tom de voz, trêmula devido ao choro, porém convicta da dura realidade que vivia.
Do lado de fora, mesmo que não quisesse Mu escutava todo o diálogo devido ao tom exaltado com o qual a amazona falava. Não queira se intrometer, mas a cada palavra de Geisty o lemuriano sentia um ímpeto enorme de voltar para o cômodo e colocar juízo na cabeça da amiga.
Enquanto isso, na sala, Geisty continuava:
— Que vida eu vou dar para uma criança que vai nascer nesse meio? Me diz. Que tipo de vida miserável você espera dar para uma criança que vai nascer em um puteiro, filha de uma mulher com a cabeça a prêmio? E que tenha uma mãe puta, Saga?
— Uma mãe amazona.
— Ah, Atena! Agora eu sou uma amazona! — esfrego o rosto com ambas as mãos.
— Amore mio, se acalme, por favor! — pediu o geminiano — Você está muito nervosa, está tremendo. — respirou fundo tentando buscar forças e argumentos para tentar burlar a verdade dos fatos — Nós vamos arrumar uma saída, Geisty. Nosso filho não vai nascer, e muito menos viver, naquele lugar. Ficou maluca? Eu vou protegê-lo... Vou levá-la para o meu Templo...
— E os russos? O que vai fazer com eles? — encarou a face apreensiva do cavaleiro com austeridade — Vai mandar todos para a outra dimensão? Vai matá-los? Vai dizimar mais da metade da Rússia?... Sabe que se isso resolvesse o nosso problema eu mesma já teria feito, já teria caçado um por um... Não adianta matá-los... Sempre mandarão outros atrás de nós... Nunca irão parar, Saga. Não nos darão paz até nos verem mortos! Saga eu não quero...
— Geisty, se acalme, mulher! Você não está pensando direito. — disse o cavaleiro trazendo a amazona junto de si para um abraço firme.
— Saga, eu não quero ter esse bebê. — disse a amazona.
— O que? Não. Não diga isso, Geisty. Você está exaltada.
— Não. Eu estou consciente, Saga. Eu não posso ter esse bebê. É errado! — a amazona sussurrou com seus lábios trêmulos a tocarem a orelha do namorado.
Ouvir aquilo foi como ter um punhal de lâmina fina e fria atravessando lentamente o corpo. Saga sentiu seus olhos se aquecerem e apertou as pálpebras por reflexo para conter uma lágrima que brotava quente e silenciosa entre os cílios.
Os braços que mantinha preso com firmeza o corpo da amada se amoleceram, afrouxando o abraço quase que involuntariamente. As palavras morreram no nó que se formou em sua garanta, e lentamente o cavaleiro se afastou para poder olhar nos olhos da jovem italiana.
— Amore mio... não diga isso. — murmurou o grego.
Soluçante, em um pranto quase convulso, Geisty parecia tomada em desespero.
— Eu não devo ser mãe. Eu sou uma amazona!... Meu dever é com Atena. Minha vida deve ser única e exclusivamente dedicada a serviço da deusa e sua causa nobre de defender a Terra e todos que aqui estão, mesmo que os seres humanos não sejam um exemplo de moral e retidão... Esse é o meu ofício, Saga, não o de ser mãe. Essa privilégio não me foi concedido. A benção dos filhos é dada apenas às mulheres que podem se dedicar inteiramente aos seus papéis de amar e cuidar deles. Eu sou uma mulher bélica, uma guerreira, eu fui moldada para a luta... mesmo que... mesmo que o Santuário tenha caído nas mãos da Vory v Zakone e nosso caminho desviado do foco.
Saga olhava perplexo para a amada, sem saber como argumentar diante daquela fala que lhe parecia um discurso ensaiado, mas que brotava com emoção do fundo do coração da italiana.
No mesmo instante Mu, não aguentando mais ouvir aquilo, resolveu interferir.
Em briga de marido e mulher ninguém deveria colocar a colher, mas ali era a vida de uma criança que estava em risco, um filho que estava a caminho e que ele não conseguia assimilar ser recebido daquela forma pelos futuros pais.
Se ao menos Geisty soubesse o quanto uma criança era valiosa, o quanto ele mesmo a invejava, desejando aquela benção para si, provavelmente não falaria todas aquelas coisas.
Por isso, decidido Áries abriu a porta e entrou pegando a ambos de surpresa.
— Eu disse que os deixaria a sós, mas eu não sou surdo. — disse o lemuriano voltando para próximo da amiga — Eu não posso me manter indiferente após ouvir o que você acabou de dizer, Geisty.
Se afastando do namorado a amazona ainda chorosa encarou o rosto preocupado do ariano.
— Mu... Você sabe tanto quanto eu das minhas obrigações como amazona. Do meu papel! Você foi criado por Shion por mais tempo que eu, então deve se lembrar das palavras dele. — um soluço alto escapou da garganta da morena — Eu não posso. Não posso! Não devo me dar ao direito de ser mãe!
— Exato! — respondeu Mu com sinceridade — Eu fui criado por Shion, educado segundo seus ensinamentos, e por isso mesmo digo que você está equivocada. — o lemuriano então pegou na mão da amiga com carinho e a olhando nos olhos tentou lhe transmitir conforto e segurança — Sim, Shion nos ensinou que às amazonas não é dado o privilégio de se envolverem em relacionamentos amorosos, tampouco constituírem família, gerar filhos... Mas, em nenhum momento meu Mestre condenou uma guerreira do exército de Atena por ter ficado grávida. Shion nunca disse que se uma criança fosse concebida por uma amazona esta deveria deixá-la. Ao contrário, não era para acontecer, mas já que aconteceu é o seu dever agora, como mãe, cuidar do seu bebê e dedicar a ele todo o seu amor. Tem ideia da dádiva que vocês dois receberam?
Mu olhava de um para o outro, muito sério, e em seus olhos deixava escapar uma melancolia e um sentimento profundo por ele ainda não definido, mas que acabou por tocar os dois amigos ali na sala.
Controlando a emoção, e vendo o silêncio dos futuros pais, Mu continuou.
— Filhos são a maior alegria e graça que um casal pode receber. São a prova física do amor deles, e completam uma lacuna no coração que apenas eles podem preencher. Um casal pode até fracassar no amor, mas um pai e uma mãe nunca deixarão de amar a um filho. E quando uma criança é concebida, fruto de um casal que se ama, é como receber um toque divino! Por todos os deuses, nunca mais fale uma bobagem como "não quero esse filho"... Não rejeite um presente tão abençoado, Geisty. Quantos por aí gostariam de estar em seu lugar e não podem?
Mu finalmente se calou, um tanto constrangido. Fez um carinho na mão da amiga e a depositou sobre o sofá, pois a última frase havia saído de seu coração e não queria transmitir sua amargura e inveja aos dois.
Geisty fechou os olhos deixando que mais lágrimas descessem por seu rosto.
Estava aflita, era bem verdade, mas após as palavras de Mu se sentia também envergonhada. Havia se deixado abater pelo desespero e não levado em consideração algo muito importante; o amor que existia entre ela e Saga.
— Eu não vou conseguir... — suspirou a morena — Não sou capaz de cuidar de uma criança. Eu não sei como é ser uma mãe...
Abaixou a cabeça abatida, já sendo puxada para um abraço caloroso e cheio de amor e compreensão do geminiano.
O amor entre eles estava em uma sintonia em que algumas vezes palavras não se faziam necessárias para se perceber o estado de espirito um do outro, nem do que mais necessitavam. E naquele momento, Geisty só precisava de apoio e carinho para atravessar aquele turbilhão de novidades.
Saga apoiou a cabeça da amada em seu peito enquanto corria as mãos pelas madeixas negras.
— Geisty, você é capaz de enfrentar a tudo. — disse lhe depositando um beijo sobre a franja — Não desistiu nem mesmo diante das maiores dificuldades... Eu sou a prova disso! Lembra-se do que me prometeu? Vamos caminhar juntos, sempre juntos. Não importa o quão longa e difícil seja a estrada. Sei que não vai fraquejar agora, mesmo porque não está só. Estamos juntos nessa também! Eu vou sempre estar do seu lado... Sempre!
Vendo ainda a expressão de dúvida e medo no rosto da amazona, Mu acercou-se dela sentando-se a seu lado no sofá.
— Olha, antes de você tomar qualquer decisão, Geisty, me deixe te mostrar algo. Creio que irá mudar de ideia. — disse o Santo de Áries, então com delicadeza aproximou a mão do ventre da amazona e fechou os olhos se concentrando, sendo observado com curiosidade pelo casal.
Mu usava seus dons para sentir a aura de vida do bebê, mas assim que a tocou com seus poderes de maneira mais profunda e detalhada, abriu os olhos visivelmente emocionado e aturdido.
— Pelos deuses! Geisty! Saga!... São dois! — Mu ria genuinamente feliz, com o coração em festa — Por Atena! Não havia percebido antes, mas agora eu sinto duas pequenas auras em seu ventre... São gêmeos!
Geisty foi tomada pelo arrombo da notícia de forma tão intensa que seu choro até cessou.
Saga soltou uma risada de pura alegria. Ainda estava acostumando-se com a ideia de ser pai, maturando a novidade, mas quando Mu revelou que Geisty esperava dois bebês, Gêmeos finalmente deixou livre toda sua emoção. Não podia acreditar que eram dois, que seria pai de gêmeos!
Com o coração acelerado pela emoção, sem se conter mais puxou a namorada para um beijo repleto de amor, sendo correspondido de imediato.
Quando apartaram o beijo Saga distribuiu diversos outros pela face ainda molhada de lágrimas da amada enquanto sorria.
— Ouviu isso? Serão gêmeos! Serão nossos gêmeos, amore mio!
— Sim... — Geisty lhe sorriu de volta.
Mu enquanto isso observava a alegria do casal, a qual tomara um lugar que antes era ocupado pela incerteza e o medo. Suspirava orgulhoso.
— Venham. — disse o ariano sorridente, com o peito repleto de emoção e amor — Coloquem as mãos em cima da minha e sintam também. Sintam seus bebês. Oh Geisty! Eu estou tão feliz por vocês dois. Duplamente abençoados!
Com a mão trêmula ainda, a amazona tocou a do lemuriano, e um turbilhão de sensações lhe invadiu a mente. Pode sentir toda a delicadeza de duas presenças que batiam seus corações acelerados em um ritmo sincronizado.
Nada que havia experimentado ou vivido em toda a sua vida se comparava àquela sensação, à emoção que aquelas duas pequenas vidas que cresciam dentro de si lhe causavam naquele momento.
O mundo havia se calado, em seus dilemas, seus medos, seus perigos e também em suas frustrações. Aqueles dois pequenos corações agora pareciam ditar o ritmo do próprio coração da amazona.
Foi inevitável que a emoção transbordasse de si em forma de um choro emocionado, enquanto sentia a mão do amado pesar sobre a sua a lhe enlaçar os dedos com força.
Saga por sua vez, vivia a mesma emoção da amazona, ainda que de forma diferente. Através dos dons do Santo de Áries, Gêmeos sentia que podia tocar os bebês no ventre de Geisty com seus próprios dedos, e se permitiu chorar emocionado.
Era algo grandioso demais até para o coração duro e prático do cavaleiro de Gêmeos e Grande Mestre do Santuário. Eram seus filhos ali, fruto do amor que nutria pela mulher que sempre amara.
Nem mesmo ele imaginou ser capaz de sentir um amor tão grande como aquele, e abraçou com um braço a amada a apertando com força contra seu corpo.
Vendo a emoção do casal de amigos, Mu lentamente afastou a mão do ventre de Geisty e com carinho pousou as mãos nos ombros dos dois.
— Eu sei que estão assustados e que tudo isso é muito novo. — disse o ariano — Tenham consciência de que receberam duas bênçãos, é o amor de vocês que vive em Geisty agora. Não se preocupem com os problemas. Todos iremos ajudar e nada de ruim acontecerá a vocês e a essas crianças, pois tenho certeza de que terão o apoio de nossos amigos. Não se esqueçam, além de companheiros de armas nós somos como uma grande família!
— Obrigado, Mu. Você como sempre se mostrando um excelente amigo... Não tenho palavras suficientes para agradecer a tudo que tem feito por nós. — disse o geminiano.
Já Geisty, nem conseguia articular uma frase, apenas se expressou pelo olhar, o qual foi o suficiente para dizer a Mu tudo que se passava em sua alma. Apertou as costas da mão do lemuriano com carinho recebendo um sorriso sincero em troca.
— Bom, agora realmente os deixarei a sós. — disse o Santo de Áries — Vou para minha verdadeira casa, o Sexto Templo. Fiquem em paz, mas olha, recomendo que busquem uma clínica discreta e que sejam ainda mais cautelosos, mas que já comecem a fazer um acompanhamento médico. Continuarei mantendo sigilo, mas no que precisarem é só me contatarem.
O agradecimento veio em coro pelo casal.
Mu sorriu e deu um abraço duplo em ambos, saindo pela porta cheio de sentimentos conflitantes dentro de si, embora extremamente feliz pelos amigos.
Ficando o casal sozinho, posicionados um de frente para o outro eles se olhavam por um longo tempo sem nada dizerem.
Saga levou uma das mãos ao rosto da amada e secou uma lágrima que deslizava pelo contorno delicado da lateral de sua face.
Geisty divisava cada detalhe do rosto plácido do amado e em um sussurro quebrou o silêncio.
— Me perdoe pelo meu momento de fraqueza... É que essa gravidez implica em tanta coisa...
— Não há o que perdoar, minha amazona.
— Há sim! Por um momento eu... — engoliu as palavras — Preciso do seu perdão para que eu mesma possa me perdoar pelos meus pensamentos. Eu fui egoísta, tive medo... Fui fraca e não fui uma amazona quando mais precisei me mostrar forte!
— É claro que a perdoo, se isso te faz sentir-se melhor. — disse enlaçando suas duas mãos entre os fios negros da italiana a trazendo para perto com delicadeza, aproximando seus narizes e os roçando um ao outro em um carinho até lhe tomar a boca em um beijo apaixonado.
— Não será fácil daqui para frente, Geisty, mas eu vou estar sempre junto de você... de vocês! Sempre! Não importa o que aconteça, eu não vou te deixar sozinha! — fez uma pausa e perguntou — Você confia em mim?
A resposta da amazona veio em um balançar tímido de cabeça sem cortar o contato visual com os olhos jades do grego.
— Então vamos para a nossa casa. — levantou-se do sofá estendendo a mão a ela — Venha.
— Vamos para o bordel?
— Não... Nós vamos para o Templo do Grande Mestre, a nossa casa.
Surpresa, a amazona deteve a ação de se levantar do sofá e encarou o cavaleiro em interrogação.
— Nossa... casa? — indagou — Saga, você tem consciência do que está dizendo? Todos esses anos num esforço tremendo para manter a discrição e não levantar suspeitas... Tantas reservas, tantos... sacrifícios... E... e o nosso disfarce?
— Nós iremos mantê-lo, como fizemos até hoje, porém agora a situação é outra, Geisty. Agora mais do que nunca preciso proteger você... Você e nossos filhos.
— Mas se eu passar a frequentar o Templo do Grande Mestre podemos levantar suspeitas e instigar burburinhos dos servos, dos soldados... Pode ser perigoso. — levou a mão ao rosto, nervosa — Minha deusa!
— Geisty, eu estou ciente do perigo que corremos, mas este será ainda maior se eu permitir que fique no bordel em tempo integral como até agora fizemos... Eu ainda não sei exatamente o que farei para... para manter o nosso disfarce e você segura em relação aos russos, mas eu sei que algo eu devo fazer, e farei! Por hora, vamos continuar tentando ser o mais discretos possível. Reduzirei o transito de servos a meu Templo ao máximo. Apenas Tito terá acesso ao Décimo Terceiro Templo, pois ele é meu servo mais confiável, e Gigars, meu assessor.
— Acha que Gigars é confiável o suficiente? — indagou a amazona apreensiva.
— Plenamente! — afirmou Saga — Você continuará indo ao bordel todas as noites, mas apenas quando eu estiver por lá. Precisamos manter sua gravidez em segredo para que não chegue aos ouvidos da Vory antes de eu ter uma conversa séria com Camus e os outros cavaleiros.
Geisty arregalou os olhos ao ouvir o nome do Santo de Aquário.
— Camus? — exclamou a amazona temerosa — Saga eu não sei se é uma boa...
— Geisty, amore mio... — Gêmeos segurou no rosto da amada fazendo uma carícia — Você é minha companheira, a mãe dos meus filhos, a mulher que me devolveu a vontade de seguir em frente e que agora me deu a alegria de ser pai... Eu sei que não será fácil, mas lembra de que prometemos um ao outro anos atrás? Mesmo os caminhos sendo tortuosos e arriscados, nós seguiremos juntos! Até o fim! Uma gravidez não é algo que se possa esconder por muito tempo, por isso eu preciso tomar algumas providencias, e uma delas é falar com Camus. Por mais frio e calculista que aquele desgraçado seja, ele agora também é pai, e de um garotinho lindo. Eu tenho certeza que consigo trazê-lo para o nosso lado. Confia em mim?
Geisty suspirou fundo, apreensiva e cansada, mas diante dos olhos brilhantes de Saga, que exalavam esperança e alegria, sentiu seu coração aquecer novamente.
— Sim. Eu confio em você. — sorriu singelamente.
— Eu quero você ao meu lado Geisty, só isso e mais nada.
— Eu também, Saga. — o abraçou com ternura — Por Hera e todas as deusas do Olimpo! Jamais imaginei voltar a morar naquele Templo...
— Mas agora você vai estar em uma companhia mais animada, a minha! — disse o cavaleiro com um sorriso no rosto.
Seguiram juntos em direção aos fundos do Templo de Áries para subir a montanha de mãos dadas.
Horas depois, no Décimo Terceiro Templo, com o casal já relaxado após um banho e deitados nus na cama abraçados de conchinha, o cavaleiro acariciava o ventre da amazona perdido em seus próprios pensamentos.
Geisty olhava para um ponto qualquer, também perdida em pensamentos, até que um deles lhe escapou alto na intenção de dividi-lo com o amado.
— Saga, a partir de agora não podemos nos dar ao luxo de falharmos nem um passo que seja. Há muito além de nós em risco... — disse a morena.
— Sim! — falou Saga apertando o corpo esguio contra o seu instintivamente — Há muito em jogo e não vou me permitir falhar. Vocês são tudo para mim. Tudo!
Enfiou o rosto entre os cabelos do topo da cabeça da amazona se deixando cair em um sono leve e tumultuado no fim daquela tarde de outono.
Horas antes.
Casa de Virgem.
Na entrada no Sexto Templo, encostado em uma das grandes colunas de mármore, Mu estava sentado no penúltimo degrau da longa escadaria com uma das pernas dobradas e um dos braços apoiado no joelho.
Observava com olhos cansados o dia se esvaindo e o começo da noite surgindo no horizonte.
Sua figura calma e serena era completamente inversa à tempestade de sentimentos conflitantes dentro de si, com os quais lutava bravamente.
Não havia entrado em casa, pois precisava ficar sozinho. Não podia encarar Shaka com todos aqueles pensamentos nocivos lhe atormentando mente e coração, e como não conseguia impedi-los achou melhor ficar ali por um tempo, assim, quem sabe, o pôr do sol levasse junto com o dia toda a aflição e fúria que inquietava coração.
Mu não soube calcular ao certo quanto tempo passou ali sozinho, mas não fora muito, pois ainda se via um fino arco do Sol entre as longínquas montanhas no horizonte a tingir a paisagem de amarelo fogo quando sentiu a presença de Shaka na entrada do Templo.
O Santo de Virgem aproximou-se a passos sutis e silenciosos.
Estava com os pés descalços, visto que vinha direto de sua sala de meditação onde estava recolhido desde o começo da tarde em busca da paz interior que havia perdido já há alguns dias.
Em absoluto silêncio, Shaka galgou o degrau no qual Mu estava sentado e sentou-se a seu lado.
Seu rosto logo fora banhado pela luz coral do pôr do sol, e mesmo de olhos fechados pode sentir toda a paz que aquele belíssimo fim de tarde transmitia, mas que não parecia tocar o agitado e aflito coração de Mu.
Virgem podia sentir toda a inquietude que vinha do lemuriano, no entanto naquela tarde Mu lhe pareceu ainda mais incomodado que nos outros dias.
Com um gesto carinhoso pegou na mão do marido e entrelaçando seus dedos aos dele a apertou suavemente.
— Por que você não entrou? — perguntou num tom de voz baixo e sereno, com o rosto iluminado pelo Sol voltando para as montanhas.
— Porque eu precisava ficar sozinho. — Mu respondeu sem desviar os olhos do horizonte — Precisava me acalmar... Tirar alguns pensamentos e sentimentos ruins de dentro de mim.
Shaka sufocou um suspiro.
— E que sentimentos e pensamentos ruins são esses que tanto te afligem? Quer falar sobre eles? — perguntou com voz mansa.
Mu não respondeu de imediato.
Em silêncio deu um suspiro, abaixou a perna e depois olhou para a mão de Shaka que segurava a sua.
Confessar a Virgem o que sentia naquele momento talvez não fosse o mais sábio a fazer, por isso mesmo não havia entrado em casa, mas esconder do marido o que sentia também não lhe ajudaria em nada. Quem sabe se desse o primeiro passo e se abrisse Shaka poderia, talvez, também abrir-se consigo.
— Eu deveria estar feliz por eles... — disse Mu em voz baixa — Quer dizer, eu estou feliz por eles. Mas... — fechando os olhos encostou a cabeça na coluna de pedra e após uma breve pausa os abriu novamente para voltar a divisar o horizonte — Além da felicidade eu também sinto muita raiva e... inveja.
Shaka virou ligeiramente o rosto para o ariano.
Era perceptível o peso que ele imprimia às próprias palavras, notando claramente o quanto estava sendo difícil para Mu dizê-las, e mesmo ainda sem entender o significado delas o indiano deixou que o marido prosseguisse sem interrompê-lo.
— É isso que está me incomodando, sabe? Esses sentimentos não são adequados... Não com a intensidade que os estou sentindo. Estou com inveja do que eles têm e eu não tenho... Inveja da felicidade deles... E então vem a raiva, a vontade de dar três tapas na cara dela por não saber dar valor ao que tem! — levou a mão livre à testa esfregando suavemente os dedos sobre a pele — Agora estou preso nesse looping e tudo que eu consigo pensar é em como o mundo é injusto!
Shaka refletiu durante um momento, mas confuso e perdido tentou outro caminho e questionou, já que o teor da conversa parecia mais grave do que tinha imaginado:
— Quem são eles? De quem e do que você está falando, Mu?
O lemuriano então voltou seu rosto para o marido, incerto se revelava ou não a gravidez de Geisty, porém pensou que se havia começado a falar era melhor ir até o fim.
— Geisty. — falou o ariano, depois baixou os olhos e o tom de voz — Geisty está grávida.
Shaka arqueou as sobrancelhas surpreso, então tudo começou a fazer sentido.
— Ela está esperando gêmeos. — prosseguiu Mu — Eu mesmo senti os bebês e dei a notícia a ela e a Saga.
Súbito aquelas palavras inquietaram de imediato o coração de Shaka que com certo desassossego voltou o rosto novamente para o horizonte, mas a luz e o calor sutil que antes o banhavam agora tinha se esvaído completamente.
O Sol se deitara atrás das montanhas levando consigo aquele dia e também a paz que Shaka tanto havia buscado.
A revelação de Mu mais uma vez os colocava no olho do furacão, imersos no dilema que insistia em permear suas vidas como uma ideia fixa.
— Entendi. — disse Shaka franzindo a testa — Geisty está grávida e você está se culpando por estar sentindo raiva por não considerá-la grata pela dádiva de ter um filho, enquanto você, que seria eternamente grato, escolheu não tê-los...
— Não, Shaka! — Mu respondeu soltando a mão de Virgem — Não a considero mais grata ou menos grata... Estou com raiva porque Geisty pensou em não ter essas crianças. Raiva por ela não reconhecer a graça que lhe foi concedida e ficar feliz!
— E por isso está com inveja da felicidade deles? — Virgem voltou seu rosto para o ariano e suas pálpebras tremiam ligeiramente enquanto falava — Isso implica, então, que você não é feliz, Mu?
Mu olhou para o virginiano desconcertado.
— Não foi isso que eu disse.
— Foi isso que você disse sim. Por que você não é feliz, Mu?
— Shaka. — Mu inspirou o ar soltando na forma de um suspiro cansado.
— Já pensou que a felicidade depende apenas das nossas escolhas e dos nossos pensamentos? — disse Virgem — Se está achando o mundo injusto porque você não é feliz, talvez o problema esteja em você e não no mundo.
O rosto do ariano então se fechou no mesmo instante.
— Sim... Escolhas! Eu então sou o culpado, o causador da minha própria desgraça e obviamente também da sua, é isso que quis dizer, não é? Afinal eu praticamente o obriguei a se casar comigo. — disse com uma pitada de sarcasmo — Enganei você, inclusive! E agora não posso sequer desabafar sem ouvir um sermão.
Mu se levantou irritado.
Surpreso e renitente com a postura agressiva do ariano Shaka fez o mesmo, colocando-se à frente dele.
— Sermão? — contraiu o rosto numa expressão irritadiça — Então é assim que você considera tudo que digo a você? Como um sermão? Talvez por isso sempre preferiu conversar com Afrodite, eu suponho? Porque Shaka só sabe dar sermão!
— Não começa, Shaka!
— Ora, Mu de Áries, você vem para casa, senta aqui na escada à surdina, eu venho conversar com você e me diz, olhando na minha cara, que tem inveja da felicidade alheia, e você queria que eu entendesse o que? Vamos me diga?
— Foi por isso que não entrei em casa. — disse Áries após uma pausa — Não queria falar com você sobre isso.
— Você nunca quer falar sobre nada comigo, Mu. — subiu um degrau da escada já intencionando entrar no Templo e acabar com a discussão, mas pensou melhor e voltou-se ao ariano, agora de olhos abertos para que pudesse encará-lo nas íris verdes —... Saiba que é essa sua postura de manter-se calado, de não querer falar comigo sobre tudo que te aflige que nos colocou nessa situação.
— Ah, claro, a culpa é minha como sempre.
— Lembra qual foi o motivo das nossas primeiras brigas? Quando ainda éramos apenas namorados? Eu sei que se lembra... Você escondeu de Shaka as conversas que tinha com Afrodite... Até quando você vai esconder de Shaka os seus desejos e os seus sonhos, Mu?... Até quando vai me pegar de surpresa e me deixar sem saber como seguir?
— Você sabe que não é verdade! — Mu respondeu indignado pela maneira como Shaka tentava inverter a situação — É você quem se enfia naquela lótus e se esquiva a cada tentativa minha de aproximação. Tenho tentado conversar com você desde a festa e é você quem sai pela tangente. Mas, se quer saber realmente o que me aflige eu te digo, Shaka de Virgem. Mas é bom que esteja preparado.
Mu então subiu o degrau que os separava e com a face muito séria olhou bem dentro dos olhos azuis celestes de Shaka, decidido a lhe dizer a verdade que habitava o fundo de sua alma.
— Eu abandonei a minha raça, Shaka. Eu não vou gerar filhos, e com isso estou ajudando a condenar os muvianos à extinção. — disse com a voz grave e trêmula — Esse peso, essa culpa e essa dor eu irei carregar até o meu túmulo! Mas, o amor de pai que reside latente dentro no meu peito, esse não há necessidade alguma de ser enterrado... Eu posso, sim, amar uma criança humana como se fosse minha! Posso ser o pai dela e assim preencher esse espaço no meu coração que somente o amor de pai pode preencher. Mas, não foi o destino que me disse não, Shaka. Foi você!
Encararam-se.
O virginiano sentiu seu rosto queimar e seu corpo fremir intensamente, com uma raiva surda, de indignação e cansaço acumulado. Novamente aquele assunto a assombrar a paz de ambos.
Todavia, finalmente ouviu da boca do ariano o que já imaginava estar preso em seu coração, o que Mu tanto escondia e temia revelar, por amor, por respeito talvez.
— Você prestou atenção no que disse? — Shaka correu os olhos pelo rosto afogueado do marido — Acha mesmo que eu poderia aliviar esse peso e essa dor que você já admitiu para si mesmo que irá carregar para o túmulo apenas concordando em termos um filho humano?
Mu piscou os olhos ligeiramente, enquanto Shaka engoliu em seco antes de continuar.
— Eu concordando ou não em adotarmos uma criança para amarmos não tornará mais leve o fardo que você carrega, nem extinguirá a dor no seu coração pela extinção da sua raça... — interrompeu-se para conter um soluço de nervosismo — Seu sofrimento, seu sentimento de falta para com seu povo irá permear nossa relação para sempre, será que não percebe? Como acha que eu poderei ficar em paz sabendo disso, Mu? Como acha que poderemos ser felizes?
— Meu sofrimento vai matar nosso casamento? Eu entendi direito? — Mu bradou elevando o tom de voz — Meu fardo nunca será leve Shaka de Virgem! Mas, o que você quer que eu faça? Heim? Senhor de todas as respostas? Grande mestre da sabedoria?
Shaka entreabriu os lábios e arregalou os olhos ao ouvir o marido lhe dizer tais palavras. Sentiu-se ofendido como nunca.
— Sim, um filho humano nunca irá ser o equivalente a um filho muviano. — continuava Mu — Equivalente a um novo membro de uma raça à beira da extinção onde cada indivíduo tem um valor inestimável para nossa sobrevivência, mas ao menos confortaria o meu coração! E esse conforto é você quem está me negando!... Eu não estou te exigindo um filho meu. Eu só queria um filho, qualquer um... Pelos deuses, eu queria até os da Geisty! Mas, de que adianta? Mesmo se fosse uma criança muviana, você já deixou bem claro que não quer ser pai.
Mu dizia com um sofrimento tão profundo que os olhos já marejavam e as lágrimas se acumulavam teimosas em suas pálpebras, de maneira que o ariano se esforçava para não as derramar.
Shaka puxou o ar para dentro do peito, perturbado.
Não queria ser pai, era bem verdade, mas desde que o assunto viera à tona, e desde a visita de Hyoga algo mudara dentro de si. O problema era que apenas concordando em adotarem uma criança humana não tornaria o fardo de Mu mais leve.
E, se Áries passou a carregar um fardo pesado quando escolheu se casar com outro homem, Virgem já carregava muito antes o fardo de ser um homem predestinado a tornar-se uma divindade, o que o impediu de ser tratado como uma pessoa normal desde a infância.
De Shaka de Virgem sempre era esperado respostas para todas as perguntas, alívio para todas as dores.
Dele também se desejava ouvir palavras sábias, soluções para as dores do coração e da alma humana, e atitudes nobres!
Atitudes nobres...
Sua vida consistia em existir apenas para doar-se aos outros, para acabar com as dúvidas, para sanar o sofrimento de outrem... Mas, e os seus?
Foi assim até Mu de Áries voltar de Jamiel e enxergar o homem acima da divindade.
Shaka então se entregou de corpo e alma ao mundo físico, de sensações e tantas paixões divergentes, ao qual sempre tinha negado, e no qual, ao lado de Mu, descobriu ser o seu lugar.
Porém, agora o mesmo homem que lhe concedeu a dádiva de aceitar que era apenas humano, portanto sujeito a falhas, dúvidas e erros, agora lhe cobrava uma solução sábia, debochando de sua condição.
Parecia que realmente tinham chegado ao limite.
Lutou contra a tristeza e a raiva que parecia lhe subir pela garganta até os cantos dos olhos.
Não choraria.
Não se permitiria mais essa demonstração de humanidade na frente de alguém que lhe estava cobrando uma atitude divina.
— Pois bem, Mu. Eu não vou lhe negar mais nada. — disse Shaka com a voz quase sumida, mas encarando os olhos verdes do ariano com firmeza — Você quer a posição do altíssimo mestre da sabedoria aqui, não é? Então eu lhe darei a resposta que tanto espera ouvir... Vá, faça o seu filho com a mulher que você quiser. Se quiser até posso te dar uma sugestão. Faça um filho com a Fúlvia, a bacante daquele alcoice que você trabalha. Ela o admira, o deseja, e tenho certeza de que não se negará a deitar-se com você. E, desde que o seu filho seja um lemuriano que contenha o seu sangue, Shaka não se negará a criá-lo neste Sexto Templo Sagrado como se fosse dele, pois o amor divino é incondicional e desapegado. — fechou os olhos e deu as costas a Áries — Espero que assim nossos problemas se resolvam, ou teremos que rever nossas escolhas.
— Não ouse dar as costas para mim, Cavaleiro de Virgem! — Mu disse com voz grave, completamente transtornado, em fúria — Se você der mais um único passo o nosso casamento acaba nesse exato instante, pois eu vou embora desse Templo, desse Santuário e volto para Jamiel. Não me verá novamente até a batalha final.
Mu tremia da cabeça aos pés.
Shaka o havia ofendido de tantas maneiras que não era capaz sequer de raciocinar.
Usava de todo seu autocontrole para não chegar às vias de fato e agredir o virginiano, pois julgava que Shaka o tinha manipulado, distorcido suas palavras.
Contudo, Virgem de fato ofendeu deveras sua honra, seu amor e principalmente sua lealdade. Usar de ironia para com seus sentimentos e sugerir que fizesse um filho com Fúlvia para depois criarem juntos soou tão baixo e vil que Mu tinha certeza que Shaka havia perdido a cabeça e não fazia a menor ideia do que estava dizendo.
Shaka então se virou de frente para Mu, e para que não parecesse afrontá-lo abriu os olhos e os cravou aos do marido.
Toda raiva que sentia há pouco esgotou-se em desesperada frustração.
Parecia que jamais conseguiriam resolver aquele impasse.
— Por que está fazendo essa ameaça? — disse o virginiano.
— Não é uma ameaça. — respondeu o ariano quase num ranger de dentes —Você não pode falar o que quer e me dar as costas como se eu fosse um cão, um servo ou um qualquer, Shaka de Virgem. — enfrentava o olhar firme do indiano sem titubear — Eu sou seu marido! Eu entreguei a minha vida a você, e você agora vai me ouvir!
— Estou ouvindo, Mu.
— Eu quero que você esteja completamente ciente do quanto suas palavras irônicas me feriram. Somente sendo um homem completamente sem moral e sem caráter é que eu me deitaria com uma mulher apenas para gerar nela um filho... Mesmo entre nós, lemurianos, quando um casal se une para gerar um fruto eles ficam juntos por anos, unidos pelo amor à criança, pois somente com amor é que um filho pode ser gerado e criado... E eu não amo a Fúlvia... Eu amo você, Shaka! Mas, meu amor já não lhe vale nada... Quer dar as costas a mim? Agora você pode. Me dê as costas e durma em paz com a sua consciência. Eu vou dormir em Áries. — tremendo, ainda permaneceu ali, encarando o rosto consternado de Shaka.
— O seu amor, Mu, é só o que me vale nessa existência e tudo o que me basta. Portando, não diga que ele não me vale de nada. — disse o virginiano deixando escapar um suspiro de cansaço e tristeza — Porém, só o MEU amor não te basta mais, não lhe é mais suficiente, e você deveria saber que um dia iria querer mais, iria querer amar mais... Contudo, eu te entendo, meu marido. Você achou que conseguiria sublimar o instinto dentro de você, mas o instinto falou mais alto... O instinto do homem sempre fala mais alto!... Eu, Mu, lamento muito não poder te dar o filho lemuriano que o livraria do fardo e da dor que carregará até o fim da sua vida. Se eu pudesse te dar um filho... — baixou os olhos, mas logo se recompôs e voltou a encarar a face do ariano — Não é o fato de eu não querer ter filhos que me impede de tê-los, Mu, eu apenas sinto que não preciso, porque... Porque você, e só você, me basta. O amor que sinto por você me preenche completamente.
Entreolharam-se por um instante, calados.
— Não entenda minhas palavras como uma ofensa. — continuou Shaka — Se não conseguiu driblar o instinto como achou que conseguiria, então cabe a nós encontrar um meio alternativo, não acha?
Mu esfregou o rosto com ambas as mãos num claro gesto de cansaço e irritação, então quando voltou a olhar para Shaka este lhe estendeu uma das mãos em sinal de trégua.
— Não quero que durma em Áries. — disse o virginiano — Sua casa é aqui. O seu lugar é aqui, Mu, comigo. — com a mão estendida no ar ficou a esperar uma resposta.
O Santo de Áries então olhou para mão que Virgem lhe oferecia, enquanto os próprios punhos ainda se mantinham fechados. Apesar de toda a irritação e nervosismo que ainda tomavam seu corpo e suas emoções, não deixaria que a ira vencesse seu bom senso, aliás, nunca deixara.
Lentamente afrouxou os dedos e deixando livre um suspiro resignado aceitou a mão que o marido lhe oferecia a segurando com força sem nada dizer.
Não estava em seu melhor momento, e aquela discussão maldita já os havia levado para caminhos muito perigosos dos quais temia não ter volta, por isso, com certo desespero puxou Shaka para junto de si e o abraçou com força.
— Eu te amo, Shaka. — disse num sussurro rouco — Por favor, nunca mais fale uma besteira como a que disse há pouco.
— Não foi uma besteira. — o indiano se afastou para segurar no rosto do lemuriano com ambas as mãos — Shaka ama tanto o Mu que não está mais suportando vê-lo sofrer calado pelos cantos, então se for preciso Shaka abre mão do Mu para ele ter os filhos lemurianos dele.
Áries franziu a testa e levantando os braços segurou em ambos os punhos de Virgem retirando suas mãos de seu rosto.
— É melhor o Shaka calar a boca. — disse balançando a cabeça negativamente, então deu um beijo estalado nos lábios de Shaka e depois soltou os punhos do marido para pegar em sua mão, entrelaçando seus dedos — Anda, vamos entrar logo.
Passaram o resto da noite calados e introspectivos. Cada um com seu dilema, porém juntos. Sempre juntos!
