Parte I
Máscara da Morte já não se sentia bem junto da família. Excetuando sua mãe, ninguém realmente o respeitava de uma maneira geral – só para começar, só o tratavam no feminino, além de todos os cochichos pelas costas.
Isso e a rejeição muda e incontida que partiu dos irmãos mais velhos fizeram com que Chiara não demorasse muito a querer voltar para Roma. Então, na sexta de manhã, partiu com Aldebaran e Afrodite de volta para casa.
Em contrapartida, Camus exigiu que Shura esperasse a apresentação da noite de quinta, que seria rápida, para depois viajar. Mandou uma mensagem para Afrodite, Estamos indo para aí e recebeu um Mas já vamos voltar pra Roma hoje como resposta. Shura bufou ao ouvir Camus ler a mensagem. Saco.
Então Shura deu meia volta no carro, irritado e resmungando baixinho, volta e meia soltando impropérios no nome de Camus, que permanecia impassível.
- Se você não tivesse demorado tanto... E você estava esperando desde manhã, qual o sentido nisso?
- Eu não sou você, eu não recebo soldo celestial – Camus começou, calmamente – Eu não posso pegar o carro e sair desembestadamente.
- Mas você disse que...
- Eu disse que iria. Não vim?
Shura se calou, desistindo de dialogar contra a lógica imbatível de Camus. Ficaram o resto do caminho em silêncio e não demoraram a chegar em casa, tendo parado na casa do francês, ponto de encontro combinado com Afrodite, Chiara e Aldebaran.
No mesmo dia à tarde, enquanto o sol se punha, eles chegaram. Debaixo aquela sombra e peso que as mortes carregam, meio cabisbaixos e cansados do ambiente pesado e intolerante.
Ainda chateado e movido pela irritação advinda de tantas ofensas que ouviu enquanto com a família, Máscara da Morte fez cara feia ao ver Shura. – Já era um pouco tarde demais para consertar a merda, não acha não, espanhol? Faxina, Shura? Faxina? Vá à merda!
Shura desviou o olhar, meio envergonhado. Ao menos podia ter arrumado uma desculpa melhor. – Eu... Só... Eu não tenho uma explicação para isso.
Bem, na verdade, tinha. Só não podia contar. Aldebaran e Afrodite se entreolharam duvidosos para depois olhar para Camus, que sinalizou um "conto depois".
- Não me diga? – Chiara bufou. Só queria voltar para casa e afogar as mágoas em um prato de macarrão e algum drink forte como um murro na cara – Só me esquece por uns dias, Shura.
Isso por que Máscara sabia que ele não conseguiria ficar muito tempo chateado com Shura (mesmo que ele tenha feito uma merda muito grande), por que se sentia muito grato pelas outras milhares de coisas que o amigo fizera ao longo da vida. Como quando estava ficando louco de tanto pensar a respeito do próprio gênero e pensando o quão errado isso era, crente de que iria para o inferno de chopa, fruto da infância dentro do catolicismo e de uma família deveras intolerante. Foi Shura que o acalmou, dizendo que os sentimentos dele eram válidos e que não, ser transexual, gay ou qualquer outra letra LGBT+ não levava ninguém para o inferno.
Máscara passou as mãos pelo cabelo, nervoso. A raiva de Shura já se esvaia e isso o irritava. Nem ficar chateado com o espanhol filho da puta ele conseguia.
- Por que não passamos o fim de semana em Atenas? Só nós dois? Se a gente sair agora, de carro chegamos amanhã à tarde. – disse a virtude, ignorando as ordens de Shun que o mandava levar todo mundo.
- A gente não vai se foder, Shura.
- Não to te chamando pra transar, caralho. – Shura vociferou. Certo, parecia um convite um tanto romântico, mas era ridículo só o pensamento de transar com o protegido. Era quase... incesto. Argh. – Eu tenho uma grana guardada. A gente podia ver o tal Aglio e olio.
Camus, Afrodite e Aldebaran ririam se ainda estivessem lá na sala. Minutos atrás, Camus os puxou para dentro do quarto, determinado a explicar certas coisas ligeiramente inacreditáveis, só por que deu vontade.
- Então, o Shura é o anjo da guarda do Chiara.
Aldebaran ergueu uma sobrancelha , incrédulo, ao mesmo tempo em que Afrodite ria.
- No shit, Sherlock. Eu sei. E você era um. Foi demitido.
Camus ficou se perguntando quantos anjos por metro quadrado tinham em volta de Chiara. Não acreditava que Afrodite fosse um, mas... Qual é. Isso estava ficando ridículo.
- Como? Você é um anjo?
Aldebaran ficou olhando de um para outro. Se não estivesse na companhia de Afrodite nas últimas horas, julgaria que o mesmo tinha tido algum tipo de viagem movida a substâncias ilegais. Já não podia dizer o mesmo de Camus. Esse estava viajando com certeza. Na dúvida e curioso sobre seja lá o que for o assunto dos dois, preferiu se calar.
- Claro que não, idiota. Eu tenho família, você até conhece.
- Então...
- Sou um demônio. – Afrodite sorriu – Quer dizer, não exatamente. Também somos conhecidos como gigantes ou trolls.
A única coisa que se passou na cabeça de Camus foi aquele estereótipo de troll de livros de fantasia e rpgs e Afrodite não se encaixava em nenhum. E, se demônio, ele seria um incubus (ou succubus, quem sabe?)¹.
- Não acho que você tenha cara de troll, Di...
- Obrigado, Debas – Afrodite sorriu – Esse estereótipo de troll na verdade me magoa muito, se quer saber.
- Você é um troll? – Camus disse, tentando engolir as palavras. Ele, um ex-anjo, namorava um demônio-troll-gigante, seja lá exatamente o que Afrodite é – Como... Como assim?
- Mais exatamente falando, um jotun. – Afrodite pegou o celular, digitou algo e depois leu em voz alta – Da Wikipédia, "Na mitologia nórdica, os jotun são uma raça mitológica com força sobre-humana e se manifestam sempre em oposição aos deuses, embora frequentemente eles se misturassem ou até mesmo tomassem por matrimônio alguns deles, tanto os Æsir e os Vanir. Sua fortaleza é conhecida como Utgard, e ficava situada em Jotunheim, um dos nove mundos da cosmologia dos nórdicos, separados de Midgard, o mundo dos homens, por montanhas elevadas e por florestas densas. Os que viviam em outros mundos diferentes dos seus próprios, pareciam preferir cavernas e lugares escuros." Eu sou daqui de Midgard. Mas a Wikipédia está um pouco defasada, nós evoluímos bastante e não ficamos mais só em cavernas. Quer dizer, os que ficaram em Midgard evoluíram. É bastante complicado. Mesmo na mitologia nórdica conhecida, alguns jotun não se diferem dos deuses. Na verdade chega a ser injusto isso. Minha família descende diretamente de Gerda, deusa da fertilidade e do sexo.
- Daí você escolheu a alcunha de Afrodite? Muito inventivo – Aldebaran estava estupefato e crente de que Afrodite e Camus tinham tomado alguma coisa muito louca – Mas é meio difícil de acreditar.
Camus estava pasmo. Sabia sim que seres de outras mitologias, outros deuses e demônios existiam (a verdade é que tudo era uma coisa só, embasada na fé, e as araras celestiais, seja lá em qual Céu você crê, é uma coisa muito mais complexa e estranha do que o humanamente possível). Mas daí a... Isso? - Mas você não tem nada de diferente de um humano, Afrodite.
- Ah... Eu sou um pouco mais forte... Mais resistente... Não fazemos filhos com humanos... Também somos sensíveis a energias demoníacas e celestiais... E não tenho alma. Acho que só.
Camus se sentiu penalizado ao saber que quando o namorado morresse seria só puff, desapareceu. No geral, não tinha motivos para duvidar dele. Mas Aldebaran tinha motivos para duvidar dos dois.
- Deixa eu ver se eu entendi. O Camus é um ex-anjo e o Afrodite é um troll?
Camus suspirou. Não tinha asas para mostrar que era verdade (sendo este o truque comumente usando), então mandou uma mensagem para Shura vem cá no meu quarto, sozinho, não demorando cinco minutos para que a virtude chegasse.
- Que foi?
- Só mostra pro Aldebaran que você é uma virtude. – volveu Camus, sem vontade de tentar convencer Aldebaran na base do papo – Aliás, o Afrodite é um troll.
- Jotun.
- Que seja.
Shura fez a mesma cara de "mas será que todo mundo à minha volta não é humano e eu não fiquei sabendo?" que Camus fizera antes, mas mostrou suas asas. Três pares, sendo um par grande que serviam para voar e dois menores, curvados para frente quase que como um escudo. Eram asas brancas com as pontas em verde escuro.
Afrodite sorriu, maravilhado, ao mesmo tempo em que Aldebaran se sentou na cama, tentando absorver as informações e Camus girou os olhos, tristonho, com saudade de suas asas alvas.
Então, enquanto em Roma acontecia praticamente a mesma coisa que acontecera dias atrás em Atenas, Aiolia voltava para casa.
Não exatamente, digo. Saía do hospital, indo para seu novo lar, o apê de Milo, que de repente estava bastante povoado. De uma semana para outra tinha mais duas pessoas morando consigo e sentia uma ansiedade tremenda, sem saber se gostava ou não do fato.
- Então, você vai ficar aqui com seu irmão.
Aiolia entrou com calma no quarto recém mobiliado. Apenas um guarda roupas e uma beliche, mas que era o suficiente por enquanto. – Valeu. – Suspirou, se sentando na cama de baixo enquanto Milo colocava suas coisas em um canto do quarto. Ao menos agora esperava ter paz na vida – Deixa aí que depois eu arrumo.
- Se precisar de ajuda, só chamar.
Milo sorriu e deixou Aiolia só, que se acomodou com os milhares de travesseiros que tinha na cama e pegou o celular. Queria se distrair um pouco e a primeira pessoa que passava por sua mente para isso era Chiara. Como sentira saudade nesses últimos dias... Chegava a ser engraçado, já que nem o conhecia ao vivo. Beirava o ridículo.
Golden Lion está online
Golden Lion disse:
[Olá, Chiara?]
Aiolia estava meio chateado, já que desde a saída abrupta na quarta feira Máscara não tinha logado novamente. Mas ignorou o fato por que ele sabia melhor que ninguém que muitas vezes coisas fora do nosso controle acontecem, então esperou pacientemente o amigo responder.
O que não demorou muito. Máscara estava tediosamente sentado no sofá de Camus quando ouviu a notificação.
Máscara da Morte disse:
[Aiolia! Nossa, oi. Quanto tempo...
Senti sua falta]
Golden Lion disse:
[Eu também senti... Aconteceu algo...?
Tipo, você saiu de repente]
Chiara mordeu o lábio. Era um assunto que queria esquecer.
Máscara da Morte disse:
[Então. Meu pai morreu]
Golden Lion disse:
[Ah.
Não sei o quê dizer...
Sinto muito]
Máscara da Morte disse:
[Só não... Diga nada. Eu queria me distrair um pouco, esquecer isso. Estava até pensando em viajar. O Shura, amigo meu, me chamou para ir até Atenas. Seria até legal, mas fico com a impressão de que eu estaria te stalkeando, LOL. Mas você estava/está doente e tudo mais... Não sei se seria legal eu ir.
Como você está? Deu uma melhorada? Fiquei preocupado.]
O coração de Aiolia bateu forte. Se ele viesse para Atenas... Seria legal, não seria? Mesmo que tivesse a barreira lingüística, sempre poderiam fazer uso de caderninhos. E conhecê-lo, dado a semana de cão que teve, seria uma ótima coisa para começar a nova fase da sua vida.
Golden Lion disse:
[Eu estou bem sim, tive alta hoje, acabei de chegar em casa.
Eu adoraria te ver]
Chiara viu a mensagem e sorriu, bobo.
Máscara da Morte disse:
[Você está morando onde? Não é com seus pais, né?]
Golden Lion disse:
[Não, é com um amigo. O Milo.]
Máscara da Morte disse:
[Então eu acho que... Vou parar em Atenas esse fim de semana. Vou te passar meu número de telefone. Mas agora tenho que ir.
Te vejo amanhã. Sério.
Até mais.]
Golden Lion disse:
[Até mais s2 ]
Aiolia se arrependeu de ter enviado o coraçãozinho assim que clicou o enter, mas a visão do mesmo fez Chiara sorrir como um idiota.
Máscara da Morte disse:
[ s2 ]
Daí, ver um coraçãozinho como resposta, fez o coração do grego saltar, num misto de ansiedade e curiosidade. Mal esperava para o dia de amanhã chegar.
Desta forma, depois de um bom chão de Itália, passar pela Eslovênia, Croácia, Sérvia e Macedônia e atravessar a Grécia de carro e pouco mais de vinte e quatro horas de viagem e dois mil, trezentos e setenta e sete quilômetros que tinham entre Roma e Atenas, passando pelo continente, Shura e Máscara da Morte chegaram.
Parte II
Shun anotava os resultados no caderninho. Shura estava excedendo as expectativas e isso era sensacional. Quer dizer, já tinha expectativas altas para ele desde o início e não achava que ele fosse jogar tão bem (ou ao menos não fazer uma reclamação formal) o pequeno joguinho que havia tramado juntamente com Shion.
Amanhã os dois se encontravam e isso era ótimo. Agora só teria que ajudar Ikki a lidar com (mais uma) desencarnação de Shaka.
Por que nem ver isso dezenas de vezes ajudava o irmão a superar o fato. E ficava cada desencarnação pior.
¹ Súcubo (em latim succubus, de succubare) é um um demônio com aparência feminina que invade o sonho dos homens a fim de ter uma relação sexual com eles para lhes roubar a energia vital. A versão masculina desse demônio (que se deita com mulheres) é chamada de íncubo(em latim, incubus, de incubare).
