O construtor mirou a jovem a sua frente.
- Soi...
- Sim?
- Eu quase tinha me esquecido de quem você era...
O coração dela deu um sobressalto. 'Ele se lembrou'.
- Parece-me, senhora consultora, que não vai ter um relatório muito animador para levar a Gerald, não é?
Ela baixou os olhos, decepcionada. Thomas percebeu.
- O que houve?
- Não era em relatórios que eu estava pensando.
Ele estreitou os olhos.
- Em que pensava, então, se é que posso perguntar?
- Eu estava pensando...
Silêncio.
Ele ergueu as sobrancelhas.
- Em como você me lembra alguém...
- Ah, sim. Você já comentou isso.
Ele sorriu fracamente, olhando para os lados.
- Então, com quem, exatamente, eu me pareço?
Ela engoliu seco. 'Com Thórin Escudo de Carvalho, o amor da minha vida!'
- Com alguém que eu conheci há algum tempo, mas que morava muito longe. Ele não podia deixar o mundo dele. Eu não podia deixar o meu, então...
- Entendo... – ele comentou com os olhos fixos na jovem.
- Pelo pouco que pude presenciar... foi ele quem saiu perdendo...
- Nem tanto assim. – ela sorriu. – Fato é que ele lutou bem mais do que eu pelo nosso relacionamento, mesmo tendo muito mais a perder.
- Verdade?
- Sim. Muitos dependiam dele. Pessoas seriam prejudicadas se ele... abandonasse seu mundo. O que você faria se eu lhe dissesse que para ficar comigo você teria que fechar esta empresa?
Os olhos de Thomas brilharam com a insinuação dela.
- É, Soi, você é bonita, mas...
Ela riu novamente.
- Mas não valho um mundo. Ninguém vale.
Ele se levantou e caminhou em direção a ela.
Coração feminino aos pulos.
Ele puxou um banco e se sentou perto da jovem.
- E você certamente não seria capaz de me pedir que abandonasse a empresa de minha família, seria?
Ela baixou os olhos.
- Claro que não. – respondeu baixo. – Não pedi a ele, não pediria a você. Nem a ninguém.
- Ainda sente muita falta dele? – indagou cuidadosamente.
Ela ergueu os olhos, temendo as próprias respostas. 'Tanto que chega a doer!'
- Sinto falta do que tínhamos. – respondeu, mirando os olhos de Thomas. – Mas preciso seguir em frente. – completou, desviando rosto.
O silêncio imperou entre eles por alguns instantes. Ela tomou a iniciativa de quebrá-lo.
- E então? Devo mesmo dizer a Gerald que a demanda é impossível?
Thomas soltou o ar de seus pulmões.
- Creio que sim. – respondeu fracamente.
- Não me parece tão certo disso, construtor. Não acho que deva desistir. Não confia mais em seu sangue?
- Confio, todavia temo que essa confiança acabe por me custar o sangue de outros. Já vi muitos homens se ferirem, Soi, por causa de orgulho e ambição. Cometi muitos erros em minha carreira e arrisquei a minha vida e a de outros. Já não sou tão imprudente quanto fui um dia. Você quebrou o pé. Imagina o que teria acontecido se aquele pedaço de concreto tivesse atingido seu peito ou seu rosto? Um prédio não vale uma vida humana.
- Com todos os cuidados que você toma, acho difícil que alguém se machuque de verdade. O fato é que agimos com temeridade. Nos distraímos.
Thomas baixou a cabeça. Ela tinha razão.
- Não existe regra quanto a isso, mas quando o resultado da manobra é duvidosa, eu não permito que ninguém chegue a menos de dez metros do local. Descumpri minha própria regra e você acabou se machucando. Não é irônico? Aquele pedaço de concreto deveria ter atingido a mim, não a você.
- Isso não é verdade. Fui eu quem insistiu em ver a estrutura. Você me alertou e eu não quis ouvir. Pensei que estivesse questionando minha capacidade de lidar com o ambiente.
Ele ergueu a cabeça, mirando-a nos olhos.
- E estava. – confirmou – Não a julgava capaz de... – interrompeu-se.
Ela o olhou.
- E como me julga agora?
- Eu? – ele riu – Não me atrevo a tentar prever do que mais você é capaz, mocinha.
Ela sorriu.
- Ainda acha que posso aprender a... sentir a resistência das colunas?
- Com um pouco mais de treino... quem sabe?
Ela baixou os olhos, permitindo-se pensar no momento em que a mão dele esteve sobre a dela. Sabia que aquilo poderia ser uma loucura. Era uma estranha para ele. Todavia a ousadia dos khazâd agora corria em suas veias.
- Pena que precisamos interromper a lição.
Os olhos de Thomas brilharam. Ela era realmente surpreendente. Ou ele estaria entendendo errado? Engoliu seco, sem saber se deveria ou não segui-la em seu raciocínio.
- Custo a crer que sua mão concordaria com você. Mais alguns instantes tocando aquela coluna e poderia ter tido uma queimadura grave.
- Havia um socorrista muito bem treinado ao meu lado. Creio que os riscos seriam pequenos.
Thomas baixou os olhos.
- Esquece-se de que foi por culpa dele que quase se queimou. O tolo se distraiu e deixou sua mão ardendo no concreto quente.
A jovem sorriu.
- Todavia ele foi rápido o bastante para trazer a água que aliviou o calor das minhas mãos.
Ele sorriu tristemente.
- E ele ainda me deve algumas lições.
- Não antes que você me conte.
- Contar o quê?
- A história por trás do seu nome. Se bem me lembro, foi nesse momento que a lição foi interrompida.
- Você tem boa memória.
Ele ergueu as sobrancelhas.
- Então?
- Bem. Então vamos lá. Soi é uma personagem de uma história baseada numa lenda chinesa. Na história ela se apaixona pelo general do exército de sua cidade. Ela fazia tudo pra ele, ajudava, dava conselhos, tornava a vida dele mais fácil. Infelizmente o general não tinha olhos pra ela. No decorrer da história Soi se declara, mas ele não dá valor ao sentimento que ela havia expressado. Contudo, apesar da decepção, ela sabe em seu íntimo que seu amor é verdadeiro, então nunca o abandona. No final essa heroína do amor entra na frente de alguém que ia matá-lo, e, antes dela morrer, o general percebe o engano sem tamanho que havia cometido. Só quando ele soube que ia perdê-la, admitiu que a amava. Eu tinha apenas 13 anos quando li essa história e ela permanece entre minhas mais belas lembranças.*
Thomas a olhava intensamente, sem dizer uma palavra a respeito do que ouvira. Ela não suportou o silêncio dele e se pronunciou.
- Você deve estar me achando uma tola, não é verdade?
- Não... eu... apenas percebi que estava certo.
- Sobre o quê?
- Nunca mais em minha vida vou duvidar de nada a seu respeito.
Ela sorriu.
- Só que o fato de ter adotado o nome dela não garante de eu seria capaz de fazer o que ela fez.
- Eu estou falando da paixão com a qual você contou essa história. A mesma paixão que vejo em seus olhos quando fala... dele.
Ela abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada.
- Responda-me com sinceridade. Você morreria por ele, não morreria?
Ela engoliu seco.
- Você não afirma nem nega, todavia seus olhos me dizem tudo. Vocês não estão mais juntos e ainda assim se ele precisasse de você neste instante, você não hesitaria.
- É diferente. Ele me amava. Talvez ainda me ame. – ela disse com voz baixa.
- Assim como você ainda o ama. Se não admitir isso, não vai conseguir seguir em frente.
Ela silenciou por um instante. Olhou-o e confessou.
- Eu nunca tinha conversando sobre ele com ninguém antes.
Os olhos de Thomas se arregalaram.
- Você é um ótimo confidente.
Ele riu.
- Diga a verdade, olhando nos meus olhos. Acredita mesmo que faz parte de meus talentos ser um confidente amoroso, Soi?
Ela riu em resposta. Observou as paredes da cabana onde estavam, a poeira que os cobria e face rude do homem a sua frente.
- É, devo confessar que não o imagino assim. Então por que está se prestando a esse papel?
- Eu não sei... eu apenas...
Ela inclinou a cabeça para o lado.
- Agora é você quem deve estar me achando um tolo! – Ele se levantou do banco, levando a mão ao peito e fazendo uma careta de dor.
- Você está machucado!
- Não é nada. – ele se sentou novamente. – Só uma luxação por causa da queda.
- Mesmo assim alguém deveria dar uma olhada nisso.
- Eu já disse, Soi. Não é a primeira coluna que me atinge e não será a última.
- E por causa disso vai ficar aí saboreando a dor? Já passou algo nesse machucado ou tomou algum analgésico?
- Não gosto de analgésico. – ele disse entre os dentes.
'Típico', ela pensou.
A moça viu o gel que ele havia colocado em seu pé ainda na mesinha próxima, pegou-o e estendeu a ele.
- Então pelo menos passe um pouco disso. 'Mahal! Que ele não me peça para abrir a sua blusa!'
- Você não vai desistir dessa ideia, vai?
- De jeito nenhum.
Ele tomou o gel da mão dela exasperado e o deixou sobre a perna. Abriu os botões de cima da camisa e passou-o rapidamente, todavia houve tempo para que a consultora visse a cicatriz inconfundível em seu peito. Ela arregalou os olhos.
- O que foi isso? Você já levou alguma facada ou coisa assim?
Ele olhou o próprio peito antes de respondê-la.
- Isso? É uma marca de nascença.
Thomas fechou novamente os botões da camisa e entregou o gel a ela.
- E agora? Está satisfeita?
- Sim. Muito. – ela respondeu o desafio, colocando o gel de volta a seu lugar de origem.
- Essa ambulância está demorando! – Ele mudou de assunto.
- Está tão ansioso assim para se livrar de mim? – ela provocou.
- Não. Eu estou apenas... preocupado.
- Com o quê?
'Com o jeito como você me olha e o vê em mim. Eu não sou ele', foi o que Thomas pensou.
- Com seu pé. Com o que mais poderia ser? – foi o que respondeu, pois até mesmo para ele, ainda não estava claro o motivo pelo qual se sentia incomodado quando ela o comparava a ...ele.
Então a porta se abriu de repente.
* História contada pela heroína em pessoa.
