10 – Outras tantas lembranças de herói.
Draco passeou por diversas lembranças ao longo do sexto ano do Eleito em Hogwarts, muito impressionado com a história de Lord Voldemort, ou melhor, Tom Riddle, que era desvendada a cada encontro entre Harry e Dumbledore. Sua mãe, de uma tradicional, mas empobrecida família bruxa, enfeitiçando um trouxa rico por quem estava apaixonada. A mulher abandonando o filho no orfanato. Aquela criança já tão nefasta que foi Voldemort, que mesmo com 11 anos de idade Draco já enxergava nos olhos do menino Riddle a mesma crueldade que vira nos ofídicos olhos do mago mais letal que já existiu. Ele viu o bruxo das trevas já crescido, como o bonito rapaz Riddle que Draco vira na câmara secreta, e sua paixão por objetos raros e mágicos, sobretudo os pertencentes aos fundadores da histórica escola de magia e bruxaria de Hogwarts.
Um renovado pânico brotara em seu âmago quando Harry conseguira a lembrança do professor Slughorn e Draco se dera conta do que o Lorde das Trevas fizera em nome da sua imortalidade. Horcruxes, um feitiço cujas trevas eram tão profundas que o próprio Draco nunca tinha ouvido falar. E tendo vivido entre comensais da morte durante toda a sua vida, o garoto conhecera inúmeros feitiços das trevas. Tom Riddle fizera sete Horcruxes e o sonserino entendia o porquê, sete era um número mágico poderoso, sobretudo nas artes das trevas. Mesmo assim, poucos homens teriam tido a coragem de repartir sua alma em sete partes. Aquela ideia o repugnava completamente, era em momentos como aquele que Draco Malfoy tinha certeza que jamais poderia ter sido um verdadeiro comensal da morte.
Nas lembranças de Potter, Draco viu que o diretor Dumbledore tinha destruído uma Horcrux. Outra que já não existia mais era o diário de Tom Riddle, destruído por Harry anos antes. Neste momento, Draco compreendeu porque os eventos do segundo ano do Eleito, na câmara secreta, eram essenciais para contar a história de Potter. Draco sabia que Harry teria destruído as demais Horcruzxes, mas parecia uma tarefa impossível para qualquer ser humano comum. Ainda faltavam altavam quatro. A última parte sendo o próprio Voldemort.
Draco assistiu a aventura de Harry e Dumbledore na caverna, afim de obter a terceira Horcrux. Quando o menino e o diretor chegaram a Hogwarts novamente e viram a marca negra pairando sobre a escola, Draco entendeu que aquele era o dia da morte de Dumbledore. O sonserino queria fugir, não queria assistir àquele momento, mas procurou não fraquejar. Não sem terror, Draco percebera que Harry Potter estava ali o tempo todo, encoberto pela capa da invisibilidade, observando-o ameaçar Dumbledore de morte e depois falhar miseravelmente em sua missão.
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As lembranças mudaram novamente e a caça às Horcruxes começou. Draco assistiu com avidez Harry perceber que o medalhão era falso, depois descobrir no Largo Grimmauld que o verdadeiro estaria em posse de Régulo Black e dar início a sua missão no Ministério da Magia para recuperar o medalhão que havia sido confiscado por Dolores Umbridge. A caça as horcruxes de repente se fundiu a história das relíquias da morte, que Draco conhecia bem, já havia sido contada a ele muitas vezes quando era criança. O sonserino viu a corça prateada levar Harry até a espada que permitia destruir as horcruxes e viu Ronald Weasley rachando o medalhão ao meio.
Draco assistiu a missão de Harry e seus amigos no Gringotes, onde obtiveram a taça de Lufa-Lufa, mais uma horcrux. Viu o momento no qual Harry se deu conta que a varinha das varinhas pertencia a Dumbledore e que seu túmulo estava sendo assaltado pelo Lorde das Trevas. Viu o momento no qual o Eleito percebeu que a última horcrux estava em Hogwarts. Então lá estava ele próprio, Draco, na lembrança seguinte. Era na Sala Precisa onde estava escondida a última Horcrux. Era aquilo que o diadema era, e pensar que Draco quase atrapalhara a conquista do objeto.
Depois, o sonserino assistiu a morte de severo Snape e o momento no qual o professor dera as suas lembranças para Potter. A magia da penseira era tão espetacular, que permitiu que Draco acompanhasse as lembranças que Harry assistia em sua lembrança. Assim, foi provada a inocência de Severo Snape. Assim, o Eleito entendeu que precisava morrer. Aquela notícia fora capaz de aterrorizar completamente Draco Malfoy, apesar do garoto saber que Harry Potter estava vivo e seguro em sua casa no Largo Grimmauld. A cada passo que o garoto dava em direção a morte, mais desesperado o sonserino ficava. Sabia que ele não morreria, sua coragem, no entanto, era assustadora.
Draco gritou, embora ninguém pudesse lhe ouvir, quando o Lorde das Trevas lançou o feitiço da morte em Harry Potter. Logo depois, o sonserino vira a situação que sua mãe descrevera semanas antes. Narcisa Malfoy viu que Potter estava vivo, mas não o denunciou, perguntando apenas onde estava Draco. Harry foi levado de volta ao castelo pelos braços de Harry, onde retomou a luta. A última horcrux, a horrível cobra de Voldemort, morria pelas mãos de Neville Longbotom, Então Draco viu novamente a cena da batalha final, onde entendeu exatamente o momento no qual Harry o desarmara e se tornara o senhor da varinha das varinhas.
Viu, por fim, lorde Voldemort jazer morto no chão.
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Quando ergueu a cabeça da penseira, Draco parecia incapaz de respirar. Haviam se passado apenas duas horas, embora o tempo nas lembranças fora muito superior. Ele se sentia extremamente cansado, como se tivesse passado dias mergulhado nas lembranças de outra pessoa. O sonserino caminhou lentamente até seu quarto, onde deixou-se cair na cama, sem ânimo para revisar o conteúdo do NIEM de transfiguração, que seria no dia seguinte. Ficou parado, pelas próximas horas, morto de sono, mas sem conseguir dormir.
Sua mente repassava incansavelmente as lembranças as quais tivera acesso. Harry Potter tão corajoso desde menino, combatendo Quirrell, o basilisco e a lembrança de Riddle, o próprio Voldemort. Harry Potter enfrentando comensais da morte, enfrentando o seu próprio pai – Lúcio Malfoy – que ele mesmo jamais tivera coragem de enfrentar. Harry Potter, o Eleito, o herói, exatamente o que nascera pra ser. O garoto descobrira os segredos de Voldemort, com a ajuda de Dumbledore, e depois caçara cada horcrux até fazer com que o Lorde das Trevas se tornasse outra vez mortal. E o matara, em uma gloriosa batalha no fim. Draco sentia-se como se merecesse ter uma estátua do garoto em casa, para lembrar-se todos os dias do seu feito. Mas certamente, não sentia-se como se merecesse ter o garoto em sua cama. Aquele era o Eleito, e ele nunca mais poderia olhar pra ele da mesma forma outra vez.
Triste e em pânico, Draco se lembrou da advertência que Harry fizera para que ele esperasse para ver as lembranças. No entanto, o sonserino não tinha certeza se qualquer espaço de tempo junto do Eleito poderia ter tornado a visão daquelas lembranças diferentes pra ele. Draco fechou os olhos, sentindo-se pequeno como jamais se sentira. Nem mesmo depois de seu julgamento, quando compreendera que devia a Potter sua vida e sua liberdade. Nunca ninguém no mundo tinha tido tanto poder de fazer Draco se sentir diminuído quanto Harry Potter.
Aquele sentimento tomou conta de seu peito e de sua mente por horas, muito tempo depois foi que Draco Malfoy conseguiu realmente dormir. Os sonhos, no entanto, eram tão inquietos quanto a realidade.
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No dia seguinte, Draco acordou atrasado e não conseguiu tomar café. Apenas vestiu uma roupa rapidamente e foi direto para Hogwarts. Foi o último a entrar na sala onde seria aplicado o exame teórico de Transfiguração. Registrou brevemente a imagem do rosto de Harry Potter lhe observando com alguma preocupação, mas logo buscou concentrar-se na prova. Ele havia estudado muito a disciplina nas semanas anteriores, de modo que ao final do exame, acreditava ter conseguido bons resultados, apesar de tudo o que lhe passava pela cabeça.
Na hora do almoço, o sonserino estava faminto e caminhou rápido por Hogsmeade para almoçar. Ele não quis comer no Três Vassouras, onde a maioria dos estudantes ia. Foi a um restaurante mais caro e selecionado, frequentado pelas pessoas ricas da região e pelos professores de Hogwarts que quisessem almoçar no vilarejo. Depois da refeição, seguiu direto para o castelo, chegando bem antes do horário do exame prático. Nos portões de Hogwarts, pra sua surpresa, estava Harry Potter. Ele olhou para o rosto do menino, e em sua mente veio todas as imagens do Eleito, enfrentando Voldemort, enfrentando cada desafio que se apresentou em seu caminho.
Ele passou por Harry, caminhando para o interior do castelo. O grifinório estabeleceu alguma distancia, mas o seguiu. Draco não sabia se estava preparado para conversar sobre aquilo, mas depois de dar algumas voltas, percebeu que o outro não desistiria. O sonserino então seguiu para o sétimo andar, buscando o único lugar realmente seguro de olhares curiosos em Hogwarts, a Sala Precisa. Pediu um ambiente calmo e aconchegante e quando abriu a porta deparou-se com uma pequena saleta com um grande sofá e uma lareira. Potter entrou logo atrás de dele.
- Você está bem? – perguntou o grifinório, sentando-se no sofá.
- Sim. – Draco Malfoy respondeu, monossilábico, sentando-se ao lado do outro.
- Você viu as lembranças? – Potter parecia nervoso.
- Sim. – o sonserino respondeu, sem querer estender a conversa.
- E o que você achou? – o outro questionou.
- Bom... – Draco que não esperava uma pergunta tão direta, demorou alguns segundos para formular uma resposta. – Acho que não esperava ver o que eu vi.
- O que você esperava? – o grifinório inqueriu.
O sonserino começou a ficar irritado. Potter não estava lhe dando nenhum espaço, nenhum tempo para absorver tudo aquilo.
- Acho que não esperava que fosse tão sério esse negócio de Eleito. Imaginei que o Lorde das Trevas tivesse tentado matar você quando era bebê por acaso. Não esperava que você tivesse nascido para salvar o mundo bruxo. – Draco respondeu, com sinceridade, buscando livrar seu tom de voz de qualquer amargor.
- Eu não nasci pra salvar o mundo bruxo. – Harry pareceu um pouco irritado com a afirmação do outro.
Draco percebeu a irritação na voz do outro, e não queria entrar naquela discussão, não naquele momento. Na verdade queria que aquela conversa com Potter acabasse o mais rápido possível, o sonserino precisava de algum tempo para absorver tudo que vira. Sabendo que Harry não desistiria de conversar, Draco quis caminhar em terrenos menos perigosos. Se lembrou de um detalhe sem muita importância frente a tudo que vira no dia anterior e o elegeu como assunto.
- Tem uma coisa que quero perguntar.
- Vá em frente. – disse o grifinório.
- Você pediu ao chapéu seletor pra não ir para a sonserina, por quê? – louro questionou.
Ao contrário do que o sonserino esperava, Harry pareceu extremamente desconfortável.
- Acho que prefiro não responder a essa pergunta.
- Depois de tudo que eu vi? – Draco pareceu surpreso. – Você não vai magoar meus sentimentos sonserinos Potter! Por que foi? Alguém te contou que o Lorde das Trevas tinha pertencido à sonserina?
- Não. Bom, na verdade também por isso, mas não foi o motivo principal. – Harry Potter falou, muito devagar, como se medisse se iria realmente responder. Então, de repente, pareceu decidir-se pela sinceridade e despejou a verdade. – Foi por causa de você. Eu não queria ir para a casa para a qual você tinha sido selecionado.
Aquilo foi como um tapa no rosto de Draco Malfoy. O sonserino sempre soubera que existiriam coisas assim entre eles. Haviam sido muitos anos, odiando um ao outro, provocando um ao outro. Haviam sido muitos anos nos quais Harry Potter e Draco Malfoy permaneceram em lados diferentes de uma guerra cruel. De todas as coisas horríveis que um já fizera e dissera ao outro, o simples fato de Harry não ter querido pertencer à mesma casa de Draco em Hogwarts chegava a ser mínimo e insignificante.
Porém, naquele dia, aquilo era um estopim. Draco passara as últimas horas remoendo o heroísmo de Potter e todas as ações gloriosas do garoto que afirmavam sua coragem e salvaram o mundo bruxo do Lorde das Trevas. E em contrapartida, o sonserino remoía aquilo que ele próprio fizera naqueles anos. Tinha provocado Potter, sentido inveja do garoto em vários momentos – quando ele começou a fazer parte do time de Quadribol, quando se tornou um campeão tribruxo, quando as pessoas o tratavam diferente, como se ele fosse especial. Tinha tornado a vida de Potter especialmente difícil em diversos momentos. Tinha tomado o partido do pai, contra Harry, no que acontecera na Câmara Secreta, no retorno de Voldemort e no Departamento de Mistérios. Tinha quase impedido Harry de destruir o diadema e, consequentemente, derrotar o Lorde das Trevas. Draco tinha passado os últimos anos com medo, com medo do pai, com medo de Voldemort, com medo dos comensais. Com medo de matar alguém e com medo do que seria dele se não conseguisse matar qualquer pessoa que fosse.
Draco não se tratava de insegurança, nem de um senso de inferioridade, visto que o garoto era deveras orgulhoso para sentir algo assim. Tratava-se de perceber um abismo entre ele e o Eleito. Eles tinham se odiado a vida toda, havia entre eles muita mágoa. Talvez, mágoa demais. E aquele era Harry Potter, que banira as trevas do mundo bruxo. E ele era Draco Malfoy, com sua marca negra no braço para não deixa-lo esquecer quem era. Apesar de não ter matado ou torturado ninguém. Draco tinha vivido do outro lado da guerra. Algum dia, fora mais do que fundamental pra ele o orgulho da família Malfoy e a ideologia de sangue puro.
- Você mal me conhecia. – o louro disse, controlado e frio.
- Eu sei. – Harry disse, um pouco sem tato. – Mas você já tinha ofendido pessoas que tinham me tratado bem... Eu era só uma criança.
- Eu também. – Draco aumentou o tom de voz. Depois, buscou se controlar. – Há mágoa demais entre nós, Potter.
- O que você quer dizer com isso? – Harry parecia irritado.
- Quero dizer que não dá pra fazer isso dar certo. – o sonserino respondeu.
- Isso não tem nada a ver com eu não gostar de você aos 11 anos, Draco. – o grifinório estava chateado e sentido. – Isso tem a ver com o que você assistiu ontem, você está esquisito o dia inteiro. Eu te disse, te pedi que esperasse um tempo antes de ver aquelas lembranças.
- É claro que é muito mais do que você não querer ir pra sonserina por minha causa há tanto tempo atrás. – Draco se descontrolou diante da acusação. – Mas isso não muda o fato de que nós dois juntos não vai dar certo.
- Como você achou que ia ser, Malfoy? – Harry gritou. – Um conto de fadas? Nós dois numa casinha na floresta com coelhinhos e pássaros cantando? A VIDA NÃO É ASSIM. Nós acabamos de passar por uma guerra.
Ver Harry Potter ironizar seus sentimentos, atitude bastante sonserina da parte dele, diga-se de passagem; fez com que Draco explodisse de raiva.
- EM LADOS DIFERENTES, CABE RESSALTAR, NÃO É. O ELEITO E O COMENSAL DA MORTE. – gritou o sonserino.
- SE É ASSIM QUE VOCÊ VÊ, ISSO REALMENTE NUNCA VAI DAR CERTO. – respondeu Potter, no mesmo tom.
- E QUAL É O OUTRO JEITO DE VER?
- Havia um. Mas eu também não vejo mais nada além disso. – a voz de Harry veio calma, rasgando o peito do sonserino como uma faca.
E então, Harry Potter deixou o cômodo, batendo a porta. Draco Malfoy sentou-se, a cabeça afundada nas mãos e uma vontade de chorar sufocada na garganta. Malfoys não choram, disse o seu pai, vários anos antes.
