As crônicas de Sesshoumaru
Por Amanda Catarina
Inuyasha e personagens pertencem à Rumiko Takahashi.
Nota: Sentenças entre aspas indicam pensamentos das personagens.
Capítulo 11: Ciumento
"Ele vai brigar comigo! Vai sim!", afligia-se em pensamento Rin, tentando desajeitadamente guardar Tenseiga na bainha. "Com tanto lugar, essa bola tinha que ter caído justo aqui! Que droga!"
– O que faz aqui, Rin?
A voz austera do youkai branco a fez soltar um estridente grito de susto e derrubar a espada no chão de madeira, mas não antes de arranjar um corte num dos dedos.
Sesshoumaru se aproximou depressa, visivelmente preocupado.
– Me desculpe, senhor Sesshoumaru! Me desculpe! - ela desembestou afoita. – Não foi minha culpa! Eu estava jogando com o Shippou e Kohaku e daí a bola escapou aqui pra dentro...
– Temos que tratar desse corte, rápido - ele a interrompeu.
Só então, Rin pareceu perceber o machucado, e a dor resolveu se fazer notória apenas neste momento também; mas o corte fora superficial. Estava ajoelhada no chão e ele ali, logo a sua frente, segurando-lhe o pulso, e quando os olhos dourados encontraram os dela, ela sentiu o coração disparar e o rosto ficar corado. Mergulhando no brilho daqueles olhos, ela até se esqueceu da dor.
Furtando-se da expressão de nítida admiração da menina, Sesshoumaru desviou o rosto para o lado e sorriu discretamente, então pegou a espada caída, bem como a bainha. Levantando-se, deu uns passos rumo ao suporte na parede, onde a arma antes repousava, e tornou a depositá-la ali.
– Venha - chamou ele –, a senhora Kaede cuidará disso.
Rin se colocou de pé num instante e o acompanhou. Seguia logo atrás dele, silenciosamente, comprimindo o ferimento, no entanto, não resistiu permanecer quieta por muito tempo.
– O senhor está aborrecido comigo, não é mesmo, senhor Sesshoumaru?
Como estava de costas a ela, ele não conteve outro riso. Mesmo depois de cinco anos de convivência Rin ainda ficava muito intimidada em sua presença, e isso era perceptível na extrema formalidade com que ela o tratava.
– Por que eu estaria? - ele retrucou na típica seriedade.
Ela vidrou os olhos, achando que o motivo fosse muito óbvio, mas não tardou em responder e novamente num tom afoito:
– Porque eu derrubei a Tenseiga, entrei no quarto do senhor sem permissão, fiz bagunça lá, e...
– Rin! - ele a cortou numa potente exclamação, fazendo-a tremer de medo. – Eu não fiquei aborrecido.
Meio aturdida, ela demorou a compreender o significado daquelas palavras, e então expirou aliviada.
– Mas - acrescentou ele –, eu gostaria que você fosse mais cuidadosa consigo mesma.
A recomendação, feita de um modo bastante brando, fez Rin se deter no lugar, boquiaberta. Notando então o youkai olhar por sobre o ombro em sua direção, respondeu alto e de pronto:
– Sim, senhor Sesshoumaru! Eu tomarei mais cuidado! - e ela se curvou num gesto respeitoso, porém um tanto exagerado.
Pouco depois os dois estavam na ala da mansão que pertencia a Inuyasha e Kaede. Sesshoumaru ficou por perto, enquanto a anciã tratava da ferida da menina, comentando vez por outra que ela andava muito travessa.
ooo ooo ooo
– Está tão calado, senhor Sesshoumaru - comentou Jaken, ajoelhado sobre um futon, com um pergaminho nas mãos. – Algo o preocupa? - perguntou, sem desviar os olhos do pergaminho.
Depois de um bom tempo, o youkai branco, reclinado num móvel estofado, semelhante a um capitonê, com a cabeça apoiada na única mão, respondeu num tom desinteressado:
– Recebemos uma proposta de trabalho para hoje, mas Inuyasha estará em sua forma humana ao término do dia e Yeda não retornou ainda daquela estúpida missão.
Jaken olhou na direção do mestre.
– Mas o senhor pode assumir isso sozinho, não é mesmo?
– Claro - confirmou evasivo.
– Então qual o problema?
Um longo silêncio se estendeu. Jaken não achava que ainda receberia uma resposta - estava acostumado com isso -, mas então ouviu:
– Tenho passado pouco tempo com a Rin. Os trabalhos têm tomado meus dias. Quando chego, ela já está dormindo, pois é tão agitada nas brincadeiras e afazeres que logo se cansa.
– Isso é verdade! Rin anda muito agitada. Mal consigo acompanhar o ritmo dela. E quando ela se junta com Shippou e Kohaku, aqueles dois bagunceiros, não há quem aguente... - reclamou, fazendo o youkai branco rir levemente.
– Ao menos ela consegue se entreter dentro dos limites da propriedade. Se além de agitada, ela ainda ficasse zanzando por esse vilarejo cheio de homens rudes e ordinários, você teria muito mais trabalho, Jaken.
– Ah, com certeza - assentiu o servo, sem se importar com o fato do outro, aparentemente, delegar toda responsabilidade de proteger a menina a ele.
– Mas quando não é o trabalho, Yeda sempre arruma algo novo para fazer com Rin. E cada vez mais meus momentos com ela ficam restritos.
– Mas, senhor Sesshoumaru, Rin está crescendo, ela já é quase uma mocinha agora. O senhor não pode ficar pajeando ela o tempo todo. É natural que ela se sinta mais à vontade com a senhorita Yeda.
– Yeda não pode ser tão melhor que eu assim.
– Não, não é que ela seja melhor, e sim por ser mulher. E, senhor Sesshoumaru, falando assim até parece que o senhor está com ciúme da relação das duas.
– Talvez...
A surpreendente resposta abismou tanto Jaken, que ele nem soube o que dizer de imediato, então achou melhor mudar de assunto.
– Sabe, senhor Sesshoumaru, já ouvi muitos comentarem que o senhor e a senhorita Yeda parecem um casal e a Rin, filha de vocês.
– Nada mais distante da realidade. Rivais, seria um modo melhor de nos definir, no que diz respeito a Rin. Yeda até gosta de fazer pose de mãe, mas é, na maioria das vezes, tão infantil quanto Rin. Veja a diferença em relação à esposa do monge. Quanto a mim, Rin nunca demonstrou ver uma figura paterna na minha pessoa.
O servo ponderou uns instantes.
– Sim, eu sei. Aquilo não passa da opinião de pessoas que não convivem conosco.
– Yeda é um ou dois anos mais velha que eu, e só por isso acha que pode me dar ordens. Parece se esquecer que não importa quão forte seja, ainda é uma fêmea.
– É verdade, senhor Sesshoumaru!
– Além disso, uma união entre ela e eu, seria mera conveniência, no sentido de gerar um filho incrivelmente poderoso. Mas desde o dia que aquela abusada me atacou sem motivo, qualquer atração que eu pudesse vir a ter por ela, tornou-se irrisória. Sem contar que ela... - dizia ele, mas se calou.
– Ela o que, senhor Sesshoumaru?
– Não, não é nada. Esqueça.
Assentindo sem contestar e em sua fidelidade inabalável, Jaken ajuntou:
– O senhor está certíssimo: a senhorita Yeda pode ser muito bonita, mas seu temperamento é tão difícil quanto seu rosto é belo.
– E você não perde uma oportunidade de exaltar essa dita beleza dela - provocou bem-humorado, fazendo Jaken ferver de vergonha.
Levantando-se e vindo até a janela do cômodo, o youkai branco observou o quintal, onde sua protegida e os amigos conversavam animados, por certo mirabolando qualquer traquinagem.
– Mas é compreensível que pensem que Rin seja filha de Yeda - comentou Sesshoumaru –, elas são parecidas de rosto e até o corte do cabelo quiseram deixar semelhante.
– Sim, elas são bem parecidas! - Jaken concordou entusiasmado. – Quando Rin crescer mais, se tornará uma mulher tão bonita quanto a senhorita Yeda!
O comentário, recheado de orgulho e ternura, fez Sesshoumaru reparar no acréscimo da estatura de Rin. Faltava um bom tanto para que o cimo da cabeça dela alcançasse a altura do ombro dele, mas já era muito se comparado com a época em que a encontrara.
Como o youkai branco permanecesse calado, Jaken voltou a se concentrar no pergaminho. Ele não imaginava que seu mestre andasse pensando tanto na jovem humana, para deduzir que o término da conversa estivesse relacionado com ela.
ooo ooo ooo
Na tarde do mesmo dia, Sesshoumaru decidiu levar Rin para uma volta no mercado do vilarejo vizinho. Foram apenas os dois, pois Jaken se queixava do sol forte e de dores nas costas.
– Eu posso mesmo gastar tudo isso, senhor Sesshoumaru?
– Já é a terceira vez que me pergunta, Rin. Quantas mais terei que responder?
– Ah, me desculpe! Mas então eu preciso escolher bem.
– Olá, menininha linda! - gracejou bem alto um homem, atraindo Rin para sua malcheirosa barraca de peixe. – Que tal uma truta?
– Não, obrigada - ela negou, intimidada com o riso banguela do homem.
– Um polvo? - insistiu ele, quase encostando o molusco no rosto dela.
– Não - ela gesticulou nervosamente e deu um passo para trás.
– Camarão?
Sesshoumaru tomou a frente dela, e com uma expressão sinistra e intimidadora, repreendeu o vendedor:
– Homem, não consegue entender o significado de um "não"?
Borrando-se de medo o tal fez que sim e se encolheu todo, observando, com alívio, o ameaçador estranho passar a mão no braço da menina e se afastar com ela dali. Quando os dois já estavam a uma certa distância, ele xingou entre dentes o youkai branco de "mononoke maldito".
– Esse não deveria ser um lugar de gente mais civilizada? - reclamou Sesshoumaru, ainda puxando Rin consigo pelo braço.
Ela, que estava vermelha como um tomate por causa do contato, gaguejou ao responder:
– Sabe, acho que não estou precisando de nada não, senhor Sesshoumaru.
A declaração contradizia totalmente com o semblante cobiçoso e deslumbrado que ela exibia pelas barracas repletas de bugigangas.
– Não é sua culpa a falta de modos desses humanos - retrucou ele, soltando-a em seguida, porém mantendo-se bem próximo. – Compre algo de seu agrado. Foi por isso que viemos.
A face dela se iluminou de satisfação. Estava tão feliz de estar ali e com ele, e ainda poderia comprar muitos presentes para todos seus amigos com o dinheiro que ele havia lhe dado.
Ainda que a expressão de Sesshoumaru não demonstrasse apreensão, ele estava bem atento ao olhar de inveja e cobiça com que as pessoas dali encaravam Rin. Naturalmente, uma menina sorridente, sadia, usando um kimono vistoso, atraía as atenções e isso era irritante para ele. Não fosse a alegria estampada na expressão dela, aquele passeio estaria sendo um suplício. Percebeu então uma diferença crucial entre Yeda e ele: a paciência.
Jogando a barra do manto azul marinho que usava por sobre o ombro, ele deixou à mostra suas duas espadas, como um alerta para aqueles que sua aparência de youkai não bastava para intimidar, assim o passeio transcorreu mais tranquilo.
Rin se divertiu muito e fez muitas compras.
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À noite, na ala da mansão que pertencia à Yeda, mais precisamente no quarto desta, Rin exibia seus novos e preciosos itens, depois de ter presenteado a youkai coma uma presilha.
– Olhe, olhe este, senhorita Yeda! Não é lindo? - ela mostrava um estojo de caligrafia. – E tudo isso foi o senhor Sesshoumaru que me deu!
– Ó! - abismou-se a youkai. – Não achei que ele tivesse tamanho bom gosto.
– Bem, na verdade, fui eu que escolhi, mas ele me deu o dinheiro!
– Ah, isso explica muita coisa. Muito bem, vamos, Rin, junte suas coisas. Já é tarde e você precisa ir dormir.
– Ah, Yeda... - lamentou pesarosa. – Eu não posso dormir aqui?
– Claro que não! A ultima coisa que eu ia querer, depois de uma missão complicada daquela ia ser acordar com o Sesshoumaru me azucrinando por sua causa. Até quando ele vai ficar bancando o ciumento? Me poupe!
– Mas ele não precisa saber. Daí, bem cedinho, eu corro pro meu quarto!
Yeda a encarou um pouco com um risinho matreiro.
– Você está cada vez mais parecida comigo. Travessa...
A menina retribuiu com um risinho idêntico e deu uma piscadela à youkai, que, para sua surpresa, repreendeu-a dizendo:
– É, mas isso não foi um elogio.
Rim bufou e se encolheu, amuada.
– Ih, não precisa fazer bico também. Muito bem, quando você dormir, eu te levo pra lá.
Concordando contente, ela se abraçou à cintura da youkai e deitou a cabeça no peito dela.
– Yeda, você já conheceu algum youkai mais bonito que o senhor Sesshoumaru?
– Claro que sim! Afinal de contas, o Sesshoumaru é feio de lascar.
Mortificada, Rin se desgrudou da youkai imediatamente.
– Mentira! - e mostrou a língua.
Yeda caiu na gargalhada.
– Mas, Rin... - ela chamou de repente e um tanto séria – você não é muito nova para estar reparando nesse tipo de coisa?
A menina enrubesceu por completo e perguntou, apreensiva:
– Não é decente falar assim, senhorita Yeda?
– Ah, não é bem isso, mas não me vá comentar essas coisas com o Kohaku ou com o Shippou.
– Certo! Mas você não me respondeu: já conheceu algum youkai mais bonito?
– Respondi sim.
– Mas você não estava falando sério.
– Claro que estava!
– Não estava!
– Estava sim.
– Não estava não!
A discussão deixou a menina trêmula e vermelha de raiva, enquanto a youkai se divertia à suas custas.
– Espera, qual era a questão mesmo? Ah, sim a feiúra do Sesshoumaru.
– Sua boba! - xingou Rin e deu as costas para Yeda, porém logo em seguida, a youkai puxou-a para os braços e começou a fazer cócegas nela.
Riram alto, contentes, e só um bom tempo depois Rin foi se acalmando.
– O senhor Sesshoumaru é como aquele príncipe da história que você leu pra mim - suspirou ela.
– Claro... a única diferença é que o príncipe era bonito.
– Pára - reclamou manhosa, recebendo um afago nos cabelos.
– Gosta muito dele, não é?
– Sim. Ele é a pessoa que eu mais gosto no mundo - confessou dentro de um bocejo.
Yeda sorriu.
– Não é à toa que dizem que a visão dos youkais é muito melhor que a dos humanos.
Rin estava tão cansada que nem conseguia mais responder a provocação e logo caiu no sono.
Após ter deixado o quarto, com a menina nos braços, levando-a para a ala que pertencia ao youkai branco, Yeda se deparou com o próprio na escadaria da frente de sua ala.
Seguiram lado a lado, conversando sobre serviços futuros, quando Yeda fez um comentário não relacionado.
– Rin gosta muito de você.
– Eu sei disso.
– Não você não entendeu, eu quis dizer que ela...
– Entendi perfeitamente o que quis dizer.
Yeda parou momentaneamente, encarando-o de um modo sério.
– Hum... e quanto a você? - indagou ela, mas Sesshoumaru não lhe deu resposta.
Ao mesmo tempo, Jaken observava os três, pela janela de seu quarto.
– Quem olha assim até poderia pensar que se trata de uma família, oras. Mas é como dizem: as aparências enganam - filosofou o youkai sapo, fechando as cortinas em seguida.
CONTINUA...
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Oi, pessoal! Este capítulo foi totalmente inédito. Espero que tenham gostado! Por favor, mandem comentários. Sei que tem gente acompanhando, mesmo sem comentar, mas seria muito bom saber a opinião de vocês! Agradeço a Hinalle pela betagem e a todos que estão acompanhando!
Um grande abraço a todos e até a próxima!
Layla muito obrigada pelo review!
