-Hogsmeade, mais que um simples vilarejo-

Acordei cedo, junto com Alice e Rachel, praticamente. Obviamente, não era um dia qualquer.

-Hoje é o dia do nosso passeio à Hogsmeade, né? – Rachel secava os cabelos com ar quente enquanto Alice saía do banho.

-Oficial, você quer dizer, né? Porque Tiago e Remus já foram essa semana...

-Na verdade, eu tava falando só da gente, Lils.

-...ah, daí é sim.

Ela riu e balançou a cabeça. Acontece que, depois dos últimos acontecimentos, eu já estava me acostumando a ter os marotos por perto... a considerá-los como parte do nós. Algo até engraçado, se você pensar que vivíamos em guerra.

-Acorda a Lene aí, Rachel, eu não consigo – murmurei, pegando minhas coisas, fechando a porta do banheiro e ligando o chuveiro.

No exato momento em que reabri a porta, Lene jogou algo no chão, xingando. Depois de alguns passos, notei que tratava-se de um animal. Ao que tudo indicava, Rachel tinha conjurado um pequeno cãozinho preto para atormentar a amiga.

-Finite Incantatem – Lene por fim acertou o bicho. – Leans!!! O dia que eu pegar você e o Black juntos eu juro que... – mas eu parei de dar ouvidos às reclamações, virando-me para Rachel.

-Não tinha um jeito mais nobre não?

-Ah, eu tentei de tudo, Lils, juro – ela deu de ombros.

Como Alice já tinha ido se encontrar com o Frank, esperamos Marlene parar de amaldiçoar o sistema solar inteiro e se arrumar, para então descermos. O engraçado é que ela colocou novamente o colar que Sirius lhe dera de aniversário, apesar da implicância com o maroto.

-Bom-dia, meninas – Sirius adiantou-se, quando nos sentamos na mesa.

-Só se for pra você, Black.

-Nossa, que grosseria... nem parece a mesma Lene de ontem – ele sorriu maliciosamente.

Marlene jogou o suco que estava em sua frente no rosto de Sirius, que fechou os olhos imediatamente, lambendo os lábios.

-Hmm, sabe, você poderia ter jogado rum de groselha vermelha, que é bem melhor. Tergeo – e o grifinório ficou com a face limpa. – Como você a acordou hoje, Rachel?

-Com um filhote seu. Foi a única coisa que tirou Lene da cama.

-Quê? Ah, então quer dizer que eu sou o único que consegue tirar o sono de Marlene McKinnon?

Lene cerrou os punhos em torno do garfo, prestes a lançar alguma coisa em Sirius, até que eu a segurei. Risos percorreram a mesa e dispersaram os olhares do restante de Hogwarts.

-Deixa de mau-humor, Lene, aproveita que hoje tem passeio – Remus brincava com o copo vazio.

-É, temos de reabastecer o estoque de comidas... Ficamos sem nada depois da festa – Tiago deu um meio-sorriso.

Com mais algumas tentativas de reanimar Marlene, ela tirou o mau-humor da cara. Quando chegamos a Hogsmeade, o primeiro destino, pra variar, foi a Zonko's. Lá, encontramos vários amigos, o que prolongou ainda mais nossa passagem. Até que foi divertido brincar um pouco com aqueles itens bizarros e ouvir as histórias dos marotos, mas eu realmente gostaria que tivéssemos ficado menos tempo por lá.

Depois, obviamente, passamos na Dedosmel, para minha felicidade. Comprei pacotes gigantes de chocobolas e creme de canário. Rachel encheu a bolsa com chocolates refrescantes de menta e bombons explosivos, Sirius com chicles de baba e bola, além de dividir com Tiago e Remus uma sacola enorme de caramelos de efeitos aleatórios. Marlene já saiu comendo penas de algodão doce e Tiago se divertindo com uma de suas comidas prediletas: delícias gasosas.

A cada mordida que Tiago dava no sorvete de fruta, levitava mais um pouco, imitando cenas de quadribol, como sempre. Mas foi uma cena engraçada, fazendo-me rir descontroladamente.

-Olha lá, Lene, eu e você estaremos naquele lugar, no próximo passeio – Sirius apontou para a Casa de Chá de Madame Puddifoot, sorrindo.

-Espero não ter pesadelos tão cedo.

-Dá pra vocês dois pararem? – Remus colocou um caramelo na boca e, imediatamente, um ronco alto como o barulho de um terremoto desastroso saiu de sua barriga, derrubando Tiago de sua levitação. – Hmm, acho que estou com um pouco de fome.

Nós gargalhamos com a junção dos acontecimentos, rumando para o Três Vassouras, afinal, já era hora do almoço.

-Fiquei com vontade de tomar rum de groselha vermelha, depois de a Lene ter jogado suco em mim...

-Tá louco, Pads? Já não basta as bebidas de ontem? – Tiago parou por um tempo, com a mão no queixo, até prosseguir – Ah, bom, já que estamos aqui... Traz um copo de uísque de fogo... – ele olhou para Rachel, que deu de ombros – ...dois.

-Pode ser um chá pra mim – e, antes que os olhares confusos terminassem de me fuzilar, tornei a falar. – É bom, ok? Não gosto muito de álcool... a não ser que estejam dentro de bombons, claro.

-Pode ser uma cerveja amanteigada pra mim – Remus fez seu pedido e Marlene murmurou um "pra mim também".

Pedimos então alguns sanduíches de carne, peixe defumado, pastelões de rins e salada de alface.

-Sirius, pega na minha bolsa um chocolate refrescante de menta e põe aqui, vai – Rachel deslizou o copo recém-chegado e Sirius esticou o braço para a cadeira ao lado, onde estavam todos os pertences.

-Pronto – ele abaixou o copo, colocou o chocolate, misturou e devolveu para a garota.

-'brigada – murmurou ela, tomando um gole. Sirius começou a contorcer-se de risadas e percebi que Rachel tinha pulado da cadeira, fazendo caretas e balançando a cabeça. – Eu disse menta, Sirius, não bombons explosivos.

-Desculpa, não resisti – disse ele, tentando se recompor... sem sucesso.

Foi um almoço divertido e extremamente longo, devo confessar. Ninguém ficou bêbado, logo, pudemos brincar com os caramelos por um bom tempo. Parei de comer no momento em que o efeito embrulhou meu estômago, fazendo a sensação subir para meu nariz e, então, para as orelhas, de onde saíram jatos de fumaça pressurizados.

-Alguém me acompanha até a Loja de Penas Escriba? – Eu estava completamente sem esperança. Um silêncio pairou por pelo menos cinco segundos, até que Remus cutucou Tiago com o cotovelo.

-Eu vou junto – e Tiago se levantou, deixando algum dinheiro na mesa.

Demorei a levantar, revirando os olhos.

-Não precisava vir só porque Remus não queria me deixar sozinha – disse, torcendo o nariz, quando saímos do Três Vassouras.

-Eu vim porque queria vir, Lily, deixa disso.

-Eu vi ele te cutucando.

-É... mas é que achei que não gostaria de ficar sozinha em minha companhia, então esperei pra ver se alguém se habilitava – Tiago coçou a nuca e eu levantei uma sobrancelha.

-Que desculpa esfarrapada, Tiago. De onde tirou essa idéia?

-Não é desculpa... Sei lá, você vive reclamando que eles não perdem a oportunidade de nos deixar sozinhos, achei que...

-Isso não significa que não gosto da sua companhia, seu bobo – revirei os olhos, puxando-o pelo braço até a loja. Logo que percebi o que tinha feito, larguei-o, olhando para o lado oposto.

-Hmm, então eu tenho uma chance...

-Ahn? – Virei-me para encará-lo, mas, para meu desespero, acabei a milímetros do rosto dele. Engoli em seco, sentindo meus batimentos acelerarem com o nervosismo.

-Está vermelha – ele sorriu.

-Impressão sua – andei para o balcão imediatamente, esperando que a falta de barulhos significasse que ele tinha ficado estático. Ele não tinha parado com as gracinhas não? Maldito Potter...

-Posso ajudá-la? – A balconista trouxe-me de volta à Hogsmeade.

-Ah, eu... eu vi uma pena na vitrine... aquela prateada lá.

-Pena de Cisne Azul e Prateada?

-Essa mesmo.

-Vou pegar no estoque.

Comecei a tatear as vestes, procurando meu dinheiro. Droga, esqueci a carteira no bar...

-Eu pago.

Pulei de susto e olhei para trás, encontrando Tiago novamente quase grudado em mim, sorrindo.

-Dá pra você, hmm, manter distância? Eu preciso respirar de vez em quando. E, não, obrigada, Tiago, eu volto no Três Vassouras pra pegar minhas coisas e já volto.

Só que ele me impediu de voltar, segurando meu braço e despejando moedas no balcão, pegando a caixa contendo a pena, em seguida. Eu revirei os olhos novamente.

-Não sei pra que tanta vontade de se afastar de mim. Não disse que gostava da minha companhia? – Tiago abraçou-me por trás, terminando de falar em cima de meu pescoço, estendendo a caixa em minha frente. Eu respirei fundo, de olhos fechados, recorrendo ao controle pessoal. Merlin, por que ele dificultava as coisas?

-O que não significa que eu esteja a fim de você – peguei o pacote bruscamente, emburrada.

Tiago me alcançou no meio da Rua Principal de Hogsmeade, agarrando meu pulso.

-Você ficou brava... – disse, em voz baixa.

-Um pouco – desviei o olhar.

-Qual o problema de eu gostar de você?

-Você não gosta de mim, Tiago, não me venha com histórias.

-Claro que gosto! Já conversamos sobre isso, não? – Ele me forçou a encará-lo. Havia uma certa urgência em sua primeira afirmação... mas eu não queria ouvir a frase que tinha ecoado infinitamente em minha cabeça, dias atrás. Ao invés disso, eu a disse, de meu modo, claro.

-Não do jeito que eu pensava que gostasse. Eu pensei que tivesse entendido, Tiago... pensei que pudéssemos ser... amigos – meus olhos estavam inexplicavelmente úmidos e eu sentia que meu coração estava prestes a explodir. Ele me encarava com um olhar estranho...

-Acho que você é quem não entendeu nada ainda, Lily.

E, no segundo instante, ele me beijou. Um beijo... doce, com sabor de caramelo. O que ele estava fazendo? Merlin, minha cabeça começou a rodar, confusão e surpresa preenchiam minha mente. Quando o turbilhão de sensações chegou ao auge, comecei a empurrar o grifinório.

- Tiago – interrompi o beijo, respirando pesado e sem saber o que fazer – Eu... vou chamar o pessoal.

Não vi qual foi sua expressão, também não esperei que confirmasse e me seguisse, somente corri para dentro do Três Vassouras.

-Lily, o que...

-Depois, Lene, depois. Isso deve cobrir a minha parte.

Deixei alguns galeões junto ao dinheiro que já estava amontoado na mesa e saí.

-Lily... – Tiago ainda estava parado no meio da rua.

-Aqui, o seu dinheiro – e joguei sicles e nuques em sua mão, partindo em direção às carruagens.

Fui tonta, pois tive de esperar que pelo menos aquela carruagem lotasse, antes de partir. Para minha sorte, não deu tempo de meus amigos chegarem... teriam de esperar lotar a segunda. Para meu desespero, Tiago quase me alcançou, mas ele já não cabia mais nos bancos, trazendo-me alívio.

Jantei o mais rápido que pude, dando tempo apenas para eles chegarem. Quando o fizeram, senti seus olhares em mim, ouvi os murmúrios, escutei Tiago me chamando, mas apenas subi para a torre e, em seguida, para o dormitório. Eles provavelmente entenderam e ninguém subiu antes de eu dormir.

Não sei porque estava fugindo... nem do que estava fugindo, exatamente. Não sei se estava brava, triste, inconformada, surpresa... só sei que estava confusa.

Por que ele fez aquilo? Seria tão mais simples se continuássemos como estávamos! Eu gostei de tudo o que aconteceu desde o início do ano letivo, gostei de ter conhecido um lado diferente de Tiago... estava gostando de criar uma amizade com ele. Eu não queria estragar tudo aquilo... não queria regredir e tê-lo insuportavelmente em meu pé de novo... não queria odiá-lo novamente... não queria que aquela sensação agradável de quando eu estava perto dele sumisse... mesmo que eu não soubesse o que era.

Enterrei minha cabeça no travesseiro e puxei as cobertas, sentindo lágrimas se formarem. Por que eu tinha que chorar? Qual o motivo daquela confusão? Tiago não gostava de mim, por que tinha me beijado? Só pra me enlouquecer? Merlin, preferia um balaço do que aquele beijo...

Mesmo assim, havia algo esquisito. Algo naquela cena confusa fez com que eu me sentisse... bem. Não sei o que foi... E se... e se a maneira diferente a que Tiago se referiu, outro dia, for melhor, e não pior? E se ele estiver realmente gostando de mim? Pensar na possibilidade me fez sorrir.


Haha, eu ainda apanho por ter colocado uma Lily tão confusa nessa fic...

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