10. A Face Oculta da Rosa

"Peter voltou atrás. A expressão de gula que estava agora em seus olhos poderia ter assustado Wendy, porém não a assustou.

Ah, as histórias que eu poderia contar para os outros meninos! ela exclamou, então Peter a agarrou e começou a puxá-la na direção da janela. Largue-me! ela ordenou.

Venha comigo e conte para os outros meninos.

É claro que Wendy ficou radiante com o convite, mas respondeu:

Que pena, eu não posso! O que será da mamãe? E, além do mais, eu não sei voar.

Eu ensino.

Ah, que delícia voar!

Eu ensino você a montar nas costas do vento e aí a gente vai embora.

Oooh! ela exclamou, encantada.

Em vez de ficar dormindo nessa sua cama boba, você podia estar voando comigo e dizendo gracinhas para as estrelas."

(Peter Pan, James Barrie)


Havia uma ilustração em cores na capa do volume, mostrando um casal de crianças voando. Um deles era um rapazinho vestido de folhas, com um chapéu engraçado com uma pena.

A outra era uma garotinha de camisola. Nada errado até ai. A não ser pelo fato de que o rosto dela, no desenho do livro, era o correspondente exato ao que ela acabara de ver no reflexo do espelho.

"P. Malfoy" fora gravado em letras douradas logo abaixo do título do livro que dizia, por sua vez, "Aventuras em Neverland". A ilustração se movimentava, o menino e a menina flutuavam enquanto uma infinidade de paisagens passavam atrás deles. Florestas, mares, um céu repleto de estrelas. O Dr. Fritz observou Doze se inclinar e passar os dedos pela capa, atordoada.

– Já o viu antes? – repetiu sua pergunta. A garota demorou um pouco para responder, e ele teve a impressão de que ela estava decidindo o que lhe dizer. A verdade? Uma parte dela?

– Sim. – assentiu por fim, se afastando e limpando a confusão do seu rosto. – Sim, eu costumava ler essa história quando era criança.

– Junto com os seus primos?

Assentiu, sem parar de olhar o livro como se ele fosse um objetivo incompreensível naquele cenário, como se ele não fizesse sentido sobre a mesa do doutor.

– É, meus primos. – numa reflexão tardia, franziu o cenho para ele – Como o conseguiu?

– Eu pedi a sua família qualquer material que acreditassem ser relevante para o seu estado. Então eles reconheceram o seu rosto na capa e me enviaram. Essa é Wendy, estou certo? O par romântico do protagonista?

Seu rosto se torceu no mais leve desagrado, e ela cruzou seus braços, apesar de talvez não estar completamente ciente do movimento de resguardo.

– Ele eram amigos, só amigos. Escuta, como isso… como isso é sequer possível? Eu entendo transfiguração em alguém real, mas num personagem fictício? Como alguém faria isso comigo? Como… – ela começava a ficar inquieta – quero dizer, esse tipo de magia precisa de uma parte do corpo da pessoa que se quer a aparência, mas Wendy não existe!

– Essa é a particularidade mais curiosa, de fato. Como eu lhe disse, nunca houve qualquer traço de poção Polissuco em seu sangue, e você foi triada para feitiços de ilusão e maldições indentitárias. O resultado desses exames indica que ninguém fez isso com você. Não é um fenômeno de origem externa.

Doze demorou um segundo para entender o que ele estava insinuando.

– Você não quer dizer que eu fiz isso comigo mesma! – exclamou, os roubados olhos azuis se alargando em descrença – O que, porque eu ia querer usar o rosto de outra pessoa? Uma personagem de livro infantil? Só falta me dizer que eu também quis ficar desacordada por seis meses tendo pesadelos!

Ele lhe olhou, olhou, mas não negou. Esperava. Doze se ergueu, batendo na mesa com violência.

– Essa é a coisa mais estúpida que eu já ouvi! Estou saindo daqui agora mesmo! – inconformada com a mera insinuação, ela avançou para a porta e violentou a fechadura, mas esta não cedeu. Voltou o rosto para o doutor, fuzilando-o. – ME DEIXE SAIR!

– Não.

– ME DEIXE SAIR DA DROGA DA SALA!

– Não até me contar o que esse livro realmente significa para você.

– Não significa droga nenhuma! É um livro infantil estúpido! ME DEIXE SAIR!

– Quem é P. Malfoy?

– Eu vou começar a gritar se insistir em me prender aqui. Você não pode me prender aqui!

– Quem é Peter?

O quê?

– Quem é Peter? – ele repetiu, a voz calma.

Doze se virou, uma confusão de cabelo acaju escapando do nó e sobre seu rosto falso, confusa com a pergunta.

– Você sequer o leu? O livro é todo sobre ele! O garoto da roupa de folhas, o pirralho intrometido que sequestra as crianças.

– Sim, ele é, no livro. Mas sabe que não é isso o que eu estou perguntando. Se você é Wendy… quem é Peter Pan?

BD

1983, oito anos antes

Toda criança bruxa pegava febre de dragão uma vez na vida. Acometendo os pequenos entre seus quatro a oito anos de idade, tratava-se um rito de passagem da primeira para a segunda infância, e geralmente, um motivo de alívio para os pais ansiosos, cujos filhos ainda não demonstraram qualquer sinal de serem realmente mágicos. Desde que só as crianças mágicas eram suscetíveis à doença, os pais costumavam estar mais do que dispostos a aturar alguns dias de febre, manha, erupções e chororô em troca da certeza de que seu pequeno era devidamente dotado de magia.

Para Charlotte Summers, não havia nada de tranquilizador nos sintomas que as duas crianças sob a sua responsabilidade estavam exibindo, e ela estava ficando quase louca em ter que lidar sozinha com eles. Justamente naquela noite, Narcissa e Lucius estavam fora, num evento importantíssimo do Ministério, e ela precisava dar conta de não um, mas dois dragãozinhos febris que não paravam de reclamar.

– Por favor Charlie por favor por favoooor só mais umaaa – Draco choramingou, em uma voz aguda de dengo que ele vinha aperfeiçoando desde que aprendera que era muito efetiva para fazer as coisas acontecerem do seu jeito.

– Mas não a da Fonte novamente, e não a do sapato de cristal, e não a do lobo! Eu não quero mais histórias trouxas. – completou Bervely, arranhando a pele do seu cotovelo com força, quase a ponto de arrancar a carne fora.

– Bervely, não! Pára de coçar. Quanto mais você coça, mais brotoejas você provoca. E eu não sei nenhuma outra história, eu já contei mais de mil, vocês precisam ir dormir!

– Mas coça tanto!

– Sim tanto, tanto! – Draco, que tinha esquecido as suas próprias erupções, lembrou-se delas e voltou a se arranhar.

Os três estavam no quarto de Bervely, e já era bastante tarde para estarem acordados. Se Narcissa chegasse e os visse assim, daria uma grande bronca em Charlotte por não ser capaz de controlá-los, como acontecera meses antes, depois de Bervely ter deixado na cama de Lucius uma enorme aranha numa caixa, como presente de aniversário. A culpa caíra sobre Charlotte por tamanha "falta de vigilância", e ela recebera indiretas do Sr. Malfoy por longas semanas, o que a deixara aterrorizada de acabar sendo expulsa da mansão.

Vinha sendo mais rígida com eles desde então, e estava tendo bons resultados, a não ser por aquela noite em que as circunstâncias adversas estavam deixando as crianças excitadas demais: primeiro a doença contagiosa, que surgira em Draco e se alastrara rapidamente para Bervely, e depois a chegada de uma visita que viera passar o verão.

– Hec sabe histórias! – Draco sugeriu, seu rosto se iluminando como se acabasse de ter a ideia mais genial do mundo.

– Oh, não, lá vem você com essa mania, tudo agora é Hector! Hector pra cá e Hector pra lá! Ele é um garoto, garotos não sabem histórias! Não é, Charlie?

Charlotte suspirou.

– Hector deve estar dormindo uma hora dessa, e é o que vocês deveriam estar fazendo também!

– Nããão – o loirinho sorriu arteiro – Hector está atrás da porta ouvindo a gente. – ele pôs o dedo sobre a boca – Shiii, é segredo.

Ao mesmo tempo que Bervely batia na própria testa, inconformada com a incapacidade do primo em guardar segredo, Charlotte saltou da ponta da cama e foi abrir a porta encostada do quarto. Sem grandes surpresas, Hector estava mesmo lá, e quando a viu, abriu seu melhor e mais arrasador sorriso.

– Pego no flagra. – ele mesmo se anunciou, radiante.

– Você devia estar dormindo! – Charlie ralhou, embora o sorriso dele automaticamente gerasse um no seu rosto, num fenômeno que ela não podia controlar. – Se a Sra. Malfoy pega você fora da cama a essa hora…

– Não é culpa minha, suas histórias são muito legais e eu nunca as ouvi antes. Onde as aprendeu?

– São trouxas! – Bervely a denunciou, cruzando os braços, uma expressão zangada surgindo em seu rosto. – Charlie insiste em nos contas histórias trouxas, apesar de sermos bruxos puríssimo sangue!

Hector foi entrando, vestindo um pijama verde novinho, e descalço. Ele se acomodou ao lado de Draco na cama, que era grande o bastante para todos eles. O menino mal pode conter a sua felicidade por ter o primo de volta, e saltou em seu colo.

– Não há nada de errado com histórias trouxas, eu as acho muito divertidas.

– Oh não encoste nele, Hector, estão contagiosos – ela advertiu, mas sem ocultar a expressão lisonjeada porque ele defendera a suas histórias.

– Mas, elas são velhas agora – Draco confidenciou ao garoto – queremos novas. Você sabe uma?

Bervely fez um barulho de incredulidade, duvidava que aquele garoto soubesse outras histórias. Ela não achava que Draco devia sair se jogando assim no colo do menino o tempo todo, e não entendia porque Charlotte ficava com cara de boba quando ele estava por perto. Só porque os pais dele tinham morrido em um acidente, no inverno passado? Ora, ele não era o único que precisava ficar ali na Mansão Malfoy porque não podia estar com seus pais, era?

– Eu sei uma. – ele disse com os olhos brilhando de empolgação. – Mas é mágica. Muito, muito mágica. Não sei se vocês estão preparados.

– Eu estou! – Draco anunciou cheio de certeza.

– Charlie? – Hector se virou para a mais velha, um sorrisinho de canto de boca. Ele a chamava pelo apelido desde o primeiro momento, do primeiro dia em que se reencontraram naquele verão.

– Sim, eu acho que sim.

– Bervely? – se voltou para a pequena, um tom de desafio. Ele não a chamava pelo apelido, nenhuma vez. Um pouco contrariada, a menina soltou ar num bufar resignado.

– É bom ter muita magia mesmo.

– É a mais mágica de todas.

– Anda, Heeec – o loirinho, de tão ansioso, estava de pé no colo do primo.

– Muito bem, muito bem – ele colocou Draco de lado e se levantou, ajeitando a roupa e arrepiando o cabelo, de forma que ficou espetado para cima bem no topo. Hector era todo gestos amplos e entonação em sua voz, e dessa vez ele falava com um suspense cheio de pausas, olhando para o rosto de cada um, bebendo suas expressões de curiosidade.

– Era uma vez menino perdido – começou – não qualquer menino perdido, mas o mais perdido de todos. Ele nem mesmo tinha uma mãe. E ele não podia crescer. Mas podia voar. E toda noite, ele saia voando pela noite, acompanhado de sua fada, à procura de aventuras…

BD

1991, de volta ao hospital.

Folhear Aventuras em Neverland provocava todo tipo de emoção na antiga paciente do quarto doze, que agora ocupava a penúltima cama da Ala Janus Thickey. Em primeiro lugar, e talvez de forma mais persistente, ela sentia uma dor difusa em seu peito, a dor de um vazio. Sentia, mas não a compreendia. Saudades da história? Saudades da infância?

Então, havia a angustia de não fazer a mínima ideia de como poderia recuperar o seu rosto de volta. Que tipo de encantamento provocava aquilo? Seria o livro amaldiçoado? Haveria por ai pessoas com o rosto de Peter, ou de algum outro personagem, também sem saber como se livrar disso?

Quem é Peter?

Ora, para essa pergunta nunca houve dúvida da resposta. Distraidamente, acariciou uma das ilustrações do livro, na qual o menino perdido tinha a sua sombra costurada aos pés por Wendy. Wendy era uma trouxa, e não sabia melhor do que usar linha e agulha para devolver a sombra perdida a Peter.

Em outra ilustração, Peter Pan ensinava a garota a voar. Pensamentos felizes e um pouco de pó de fada. Ele sempre tinha a resposta para tudo. Gostaria que estivesse ali, que pudesse ajudá-la. Peter saberia.

Frustrada, deixou o rosto cair nas mãos, sentindo os traços desconhecidos deslizarem pelas palmas. Ser liberada da sala do Dr. Fritz lhe custara a resposta de uma pergunta, uma única e podia ir embora, ele lhe prometera.

"Algo assim já aconteceu a você antes?Alguma vez já teve algum aspecto físico transfigurado sem que soubesse por que?"

"Não."

Mentira. Por vergonha de admitir, e por crer que a resposta nada tinha haver com a sua condição atual. Afinal, aquelas pequenas transformações em seu passado, elas nunca duravam mais que alguns minutos. E nunca eram amplas. E sobretudo, nunca deviam ser reveladas a ninguém.

– Você vai participar da comemoração do aniversário de Frank?

A voz a surpreendeu, ela esquecera completamente que havia mais alguém no quarto, por falta de costume. Normalmente era silencioso: Alice murmurava cantilenas incompreensíveis durante o dia (e sem mais pesadelos à noite), o seu marido não falava, a não ser ocasionais estalos com a sua língua quando queria comida, o Sr. Burton e seu coaxar já se tornara um ruído de fundo, e João Arty, como veio a descobrir, dormia bastante.

Mas ele estava acordado, e olhava para ela esperando uma resposta, por detrás da bolha mágica que o separava do mundo exterior e impedia que a magia entrasse em contato com o seu corpo.

– Não recebi nenhum convite – ela disse, distraída.

– Isso é porque a Sra. Longbotton – aquela que veio visitar no dia que você chegou – ela decidiu fazer uma comemoração intima aqui dentro, e não colocá-los juntos com a festa mensal do hospital. Eles não lidam muito bem com multidões, sabe.

– Honestamente, eu não acho que Frank vai perceber que a festa é pra ele, ou sequer é uma festa. Que diferença faz?

Arty deu de ombros.

– Vai ter bolo.

– Oh, se vai ter bolo… – ela bufou, irônica.

– O que é isso? É um gibi? Meu gibi de Marley o Trouxa Pirado não chegou essa semana, eu poderia ter algo para me distrair.

– É apenas um livro velho. – suspirou. Além do mais, não ia emprestar Aventuras em Neverland para um garoto que lia um gibi de temática trouxa, nem pensar. – Quem mais você disse que vem para esse tal aniversário do Longbotton?

– Só a Sra. Longbotton e Neville, como todo ano. Eu quero mesmo que ele venha, sabia que ele vai entrar em Hogwarts esse ano? Já deve ter comprado os livros, a essa altura! Oh, os livros de Hogwarts – Arty suspirou sonhadoramente – se eu pudesse por as minhas mãos em um, só um…

– Porque você se tortura tanto? – perguntou, crítica – Pra que quer ler sobre magia, se nunca vai poder fazê-la?

O garoto piscou, chocado.

– Isso é algo terrivelmente grosseiro para se dizer a uma pessoa doente, sabia?

– Oh, por favor. Só estou sendo realista. – bufou, voltando a folhear o livro.

– Ok madame realista, e quanto a sua doença? Sabe, talvez você também tenha que passar o resto da vida aqui, comigo, Alice, Frank e mais algum outro louco da cabeça – olhou discretamente para o Sr. Burton, que no momento tentava capturar uma mosca com sua xícara de chá.

O coração dela se apertou de medo. E se Arty estivesse certo? E se nunca recuperasse seu rosto, e tivesse que ficar presa ali para sempre com eles? Que tipo de ironia cruel era aquela, fadada a passar o resto da vida na cama ao lado das pessoas as quais Bellatrix destruíra a vida?

– Eu não vou ficar aqui para sempre – afirmou, olhando zangadamente para o garoto-bolha – eu não pertenço a esse lugar.

Um cutucão em seu braço a fez pular, mas era só Alice, que saíra de detrás da sua cortina florida e lhe oferecia um papel meio mastigado de delícias gasosas.

– Hum… obrigada? – pegou o "presente" com o indicador e o polegar, com nojo. João Arty gargalhava do outro lado.

– Pra que a pressa? Parece que você acabou de receber o seu convite.

BD

– Então eu só posso sair daqui quando vocês descobrirem o que há de errado com o meu rosto?

– Você gostaria de ir embora sem saber, e nunca voltar a ser como era antes?

Doze bufou para aquela pergunta estúpida feita pelo medibruxo, e não se dignou a responder, acreditando que a sua expressão era auto-explicativa. Fazia uma semana desde que descobrira que estava encalhada com a aparência de Wendy Darling, e a situação só ficava mais frustrante a cada vez que voltava à sala do Dr. Fritz para discutir o problema.

Ele continuava insistindo que ela poderia saber a resposta, lá no fundo.

Ela continuava convencida de que era a coisa mais absurda que já tinha ouvido, porque jamais em sã consciência abdicaria da sua aparência, quem fazia uma coisa dessas? "Talvez se você não gostasse da sua aparência anterior", ele tinha lhe sugerido na sessão da terça feira. "Ou talvez você estivesse com medo de alguém e precisasse de um disfarce".

Havia maneiras melhores de se esconder ou resolver problemas de aparência, sem virar uma estúpida personagem de um conto infantil, foi exatamente o que ela lhe respondeu. Mas não se lembrava o porquê. Não se lembrava e isso estava lhe deixando louca.

– Talvez a mesma pessoa que roubou o meu rosto alterou a minha memória e me deixou em coma.

– Não havia nada em você que indicasse alteração de memória. Obliviatus gera sintomas bem distintos e não provoca coma. Ninguém alterou a sua memória, a não ser… – ele hesitou um pouco, movendo seu pergaminho sobre a mesa, sem um objetivo a não ser ganhar tempo. – há ocasiões em que o próprio bruxo pode acabar bloqueando coisas de que não queira se lembrar.

– Novamente você está insinuando que eu fiz isso comigo mesma! Eu não sou louca, Fritz! Ao invés dessa terapia fatigante, deveria estar havendo uma investigação criminal para saber o que aconteceu comigo!

Doze não o chamava mais de "doutor" desde a manhã na cozinha, quando ele experimentara a sua torta de maçã. Longe de se incomodar, Ian encarava a mudança como um sinal de aproximação entre eles. Se apenas pudesse usar seu nome… mas não ainda. Não antes que ela mesmo pudesse.

– Eu realmente acho que o importante é você se concentrar em se lembrar do que aconteceu, e as outras respostas consequentemente virão.

– Respostas! – ela chiou, se inclinando na direção dele, zangada – Você me escondeu que sabia sobre o livro, e sobre a minha aparência, por semanas! Do que mais sabe, o que não está me contando? O que mais está me escondendo? Como eu cheguei aqui? Quem me trouxe?

– Eu não posso…

– Então não me cobre respostas! – ela bradou. Estava perdendo sua paciência fácil, embora soubesse que ficar nervosa não era bom. Dormir nervosa era como abrir a porta para os pesadelos, e vinha conseguindo se livrar deles com a ajuda das suas próprias poções do sono por um bom tempo agora. Desde que descobrira sobre o seu rosto, mantê-los afastados ficara mais difícil. Na noite passada, fora por pouco. O frio e os sussurros beiraram a orla de seu sono a noite inteira, e ela lutara intensamente contra eles, e acordara exausta.

– Eu sei que é frustrante – o bruxo pescou seus olhos, tentado ser empático – Mas lhe responder essas perguntas só a deixaria mais confusa. Precisa continuar confiando em mim, certo? Já chegamos tão longe.

– Nós chegamos? – resmungou, cética – porque eu não vejo isso? A única mudança que houve foi de quarto, e honestamente, eu não chamaria isso de melhora.

– Seus pesadelos diminuíram, certo? – como sempre, o bruxo se mantinha afiado com a linha de pensamento dela, de alguma forma paranormal que Doze não podia compreender completamente. Talvez fossem aqueles estúpidos olhos azuis na sua cara, tão expressivos e fáceis de serem lidos.

Sentia falta dos seus. Os seus, quase ninguém conseguia ler.

– Fritz… – ela chamou, depois de algum silencio. O doutor levantou seus olhos, esperando. Em sua experiência, o que vinha depois do silencio importava, na maioria das vezes, mais do que os gritos.

– Sim?

– Eu não consigo afastar a sensação de que eu fiz algo terrível para estar aqui.

– Isso não é uma prisão, lembre-se, é um hospital.

– E se for pior quando eu me lembrar? E se for algo tão ruim que eu realmente tenha que ir para uma prisão?

– E se for algo tão incrível, que explique tudo e lhe permita ir para casa?

Ela fez um barulho de incredulidade pelo nariz.

– Você não acredita realmente nisso.

– O que eu acredito é no que eu vejo, e eu vejo uma garota decidida, curiosa, forte, e com o coração do lugar. O jeito com que ver a condição de Alice e Frank Longbotton te afetou…

Ela deixou a cabeça cair para trás, desanimada. Oh, não, ele tinha entendido tudo errado, se achara que tinha fugido dos Longbotton por qualquer motivo se não os mais egoístas. Não suportara ouvir os gritos, as lembranças, a evidência de que sua mãe fizera aquilo, e por fazê-lo, nunca mais a tinha visto. Perdera Bellatrix por causa de Alice e Frank Longbotton.

O que poderia ter o seu coração haver com isso?

– Eu tenho que te perguntar de novo – disse o Dr. Fritz, puxando o livro para a sua frente, pra sinalizar que a sua discussão sobre ele ainda não chegara ao fim. – Tem certeza que nunca aconteceu antes, uma mudança de sua aparência? Talvez como resultado de uma mudança de humor intensa?

– Como uma emissão mágica muito, muito doentia?

– Sim, como isso. Por mais que seja improvável, temos de considerar todas as possibilidades…

Palavras antigas surgiram na mente de Doze, há muito tempo decoradas, tão arraigadas em sua memória que nada as arrancaria de sua cabeça. "Crianças puro-sangue tem emissões mágicas involuntárias extra-corpóreas, e crianças mestiças tem emissões mágicas intra-corpóreas. Sem excessões."

Suspirou, sem encará-lo nos olhos.

– Não. Nunca.

BD

1984, sete anos antes.

Hector não se lembrava de cor a história completa de Peter Pan. A comoção em torno desse fato foi tão intensa que no verão seguinte ele voltou com o livro, o que foi a sua sorte, pois de outra maneira dificilmente os primos aceitariam o seu retorno de braços abertos.

Ou talvez fosse um exagero dizer isso. Naquele verão, Charlotte e Draco insistiram em ir até o cais buscar o menino, em seu retorno do segundo ano letivo em Durmstrang. Até Bervely mostrou interesse em acompanhá-los na aventura, mas para ela o objetivo principal era chegar ao livro o mais rápido possível e descobrir o que acontecia depois que Wendy e Peter voavam para a Terra do Nunca. No momento em que estavam todos acumulados na excessivamente povoada carruagem, levantando vôo na noite pesada de nuvens, ela saltou sobre ele puxando sua mochila.

– Você trouxe? Você o tem ai? Anda, anda, pega o livro!

Hector riu para a menina, tão mandona no alto dos seus agora oito anos, e puxou da mochila o velho exemplar de Aventuras em Neverland que ganhara da mãe há muitos anos. As páginas estavam um pouco amareladas, e as pontas da capa e da contra-capa amassadas, porque o livro já caíra várias vezes, já fora arrastado e manuseado bastante por ele quando era mais novo.

As ilustrações, no entanto, permaneciam vivas e brilhantes. O feitiço que as permitia se movimentarem era forte e aguentava firme.

Charlotte olhava por cima do ombro de Bervely, sendo ela tão amante de uma boa história quanto os pequenos.

– Quem é P. Malfoy?

– Meu avô materno. Ele quem escreveu a história, de presente para a minha mãe.

– Oh, que incrível – a menina mais velha se derreteu com aquela homenagem familiar – ele também fez as figuras?

– Não – Hector sorriu mais, indicando que era a melhor parte – a minha mãe desenhou, ela fez uma versão só para mim com imagens, é por isso que Peter se parece um pouco comigo.

Ele nunca falava de Dallas Malfoy com se pegava perguntando se o menino realmente entendia que perdera a mãe pra sempre, e se sim, porque isso não o devastava completamente. Ela mesma sempre ficava para baixo quando pensava em seus próprios pais, e já fazia tanto tempo, agora…

– DRAGÕES! – Draco gritou, histérico, espiando dentro do livro. Ele estava naquela fase de obsessão, desde que descobrira o que o seu nome significava.

– Sim. E piratas, sereias, papagaios falantes e índios, fadas e casas na árvore! – anunciou Hector com orgulho. Tudo era muito mágico e fantástico para o pequeno Draco, que quase estava molhando as calças de tanta excitação.

– É melhor eles terem varinhas – Bervely pleiteou, toda desconfiada – não existe mágica sem uma boa varinha.

– Ai dos meninos perdidos se eles um dia precisarem tocar uma varinha. Eles tem espadas! E eles certamente tem flechas!

Os olhos de Charlotte brilharam, encantados.

– Você jura, Hector? Flechas?

BD

Escutar Aventuras em Neverland não bastava. A história conquistou as crianças de tal jeito que a necessidade de trazê-la a realidade se tornou vital. No final de agosto, eles já sabiam trechos inteiros de cor, e o velho livro de contos virou material de consulta.

Hector se divertia imensamente em fazer as vezes de Peter Pan, e talvez por seu rosto ser aquele estampado nas ilustrações, ninguém ousava lhe tirar o posto. Porque eles tinham agora não uma, mas duas crianças mais velhas para ficar de olho nos pequenos, Narcissa os deixara explorar os terrenos da mansão, mas o lugar preferido era, por unanimidade, o cemitério.

O bosque era a floresta dos pele vermelhas, as lápides, suas cabanas. Um ninho gigante e abandonado de musaranho era o esconderijo dos meninos perdidos, e o lago – agora descongelado e verde escuro – era o mar onde os perigosos piratas navegavam. Um carvalho idoso, cujo tronco se curvava extensamente sobre a água, rapidamente se tornara o Fera dos Mares. Era sobre ele, se equilibrando precariamente, que Hector-Pan e Capitão Draco-Gancho travavam uma batalha de vida ou morte.

– Então, Pan! – exclamou Draco, numa voz arranhada e malvada que ele criara para o pirata mais cruel de todos, enquanto apontava um galho fazendo as vezes de espada (que às vezes virava varinha) para o primo mais velho, equilibrado corajosamente no tronco – Tudo isso é obra sua!

– É, Gancho – Hector riu-se, radiante e muito mais gracioso, estufando o peito lá em cima. – Tudo isso é obra minha!

– Fedelho orgulhoso e atrevido! – proclamou o loirinho, sem esconder o imenso prazer em falar as palavras feias que era proibido de dizer em casa, mas que caiam muito bem ao capitão – Prepare-se para enfrentar o seu destino!

– Homem tenebroso e sinistro! Trate de se defender!¹

Eles começaram a lutar intensamente com seus galhos e Charlotte, que fingia-se amarrada ao mastro do navio (que era o tronco da árvore), soltava exclamações de encorajamento para o herói. Era sempre um ponto alto na brincadeira, porque a qualquer momento um dos dois poderia cair lá embaixo na água onde o crocodilo gigante estava esperando.

– Sininho, me ajude! Ele vai me fazer pular da prancha! – Hector implorou, deliberadamente se movendo para a ponta do galho, onde era mais fino e consequentemente, mais instável.

Draco o acossava, feliz da vida. Bervely, reconhecendo sua deixa, pegou um punhado de terra e correu para o "convés". Às vezes ela podia jurar que voava mesmo, como a fada do livro, até chegar onde os meninos travavam seu embate mortal.

– Atire uma flecha nele! – Hector-Peter bradou, mal se equilibrando ali na ponta. Ela parou e cruzou os braços, zangada com o desvio de roteiro.

– Mas eu sou uma fada, não um menino perdido!

– Então faça alguma coisa mágica! O Capitão vai me dar um fim, Sininho!

Ela prontamente jogou o punhado de areia em Draco, que se espalhou pelo seu cabelo loiro claro e teve exatamente o efeito que ela pretendia. O primo olhava de volta de forma estática, os olhos enormes de surpresa.

Hector, mais atrás, também lhe olhava embasbacado.

– Você não precisa ficar estátua, eu só joguei meu pó mágico nele! – ela reclamou para o mais velho.

– Não é isso! É só…

– O seu cabelo! Como fez isso? – Draco também saiu do personagem, impressionado.

Ela puxou uma mecha de cabelo do topo da cabeça, o trazendo até os olhos. Para a sua surpresa ele estava amarelo da cor exata de uma pétala de girassol.

– E a sua pele! Uau!

Ela deu um gritinho horrorizado. Acabara de assumir o tom esverdeado que tinham as fadas de companhia.

Draco estava tão impressionado que acabou caindo do tronco, desabando no meio do lago com um grande splash, e encharcando todo mundo.

BD

1991, de volta ao hospital.

Porque a segunda opção era ter um ataque de nervos, ela optou pela primeira, e estava na cozinha novamente. Não devia, no entanto. Se fosse usar a lógica, deveria estar indo até o laboratório de poções do St. Mungus, para incrementar a Poção do Sono Sem Sonhos e deixá-la mais forte.

A não ser pelo fato de que não podia. Não podia se concentrar em poções quando as mãos tremiam e a cabeça doía da noite mal dormida. Oh, ela acordara de mais um pesadelo para o qual fora arrastada sem dó, e que como sempre, lhe causou agonia, terror e muito, muito frio. Quando finalmente conseguiu se livrar dele, tremendo, batendo os dentes, ela escutou Alice.

"Por favor nãoo Frank nãonós não sabemos de nada…"

Nada no mundo a faria se concentrar o suficiente no laboratório depois de uma noite como aquela, e ela sabia melhor do que arriscar-se com um caldeirão fervente sem estar no máximo da sua concentração. Sem falar que continuava se parecendo com Wendy Darling, e não podia suportar saber que quando qualquer pessoa olhava para ela, via o rosto de outra pessoa.

Chegara ao extremo de bolar um plano onde tomava a Polissuco com seu próprio cabelo dentro, recuperava o próprio rosto e resolvia o problema. Dispensara-o quase imediatamente: Polissuco demorava meses para ser produzida, e onde ela ia encontrar um fio do seu próprio cabelo, para começo de conversa?

Irritada, foi fatiando a maçã sem muito cuidado. Oh, aquele estúpido livro. A desonra que era portar um rosto que não era seu. E por quanto tempo precisaria lutar contra os seus próprios pesadelos, por quanto tempo haveria o medo de ser dragada pra lá novamente, e permanecer sem contato com a realidade por meses?

A torta de maçã ficou pronta cerca de uma hora depois, mas ela não pretendia comê-la. Embalou a travessa de vidro cuidadosamente em um pano xadrez, prometeu aos elfos que traria ambas as coisas de volta no final do dia, e foi andando pelos corredores, de volta ao quarto.

Era 29 de julho. As cortinas floridas estavam abertas, e bandeirolas vermelhas e douradas tinham sido penduradas sobre as camas dos Longbotton. Um anjo gordo com uma arpa flutuava sobre a cabeceira de Frank, adejando "Have a magic birthday" em looping desde cedo. Numa mesinha de três pernas, havia uma pilha de doces mal equilibrados.

Um espetáculo desnecessário, na opinião da garota, mas não disse aquilo em voz alta, apenas se aproximou do pequeno grupo, que incluía Neville Lobgbotton, seus pais e João Arty, cuja cama e bolha foram deslocados mais para perto da cortina. Os dois conversavam, mas Neville se interrompeu quando a viu, e deu um pulinho da cadeira.

– Eu trouxe torta. – ela disse depois que ficou claro que o garoto, corado até os ossos, não conseguiria cumprimentá-la propriamente.

– Ob-rigada – respondeu ele, todo nervoso, recebendo a travessa e arranjando um cantinho na mesa já abarrotada para apoiá-la. – Que bom que veio, meu pai… ele gostaria. Eu acho.

– É. – disse, mas sem muita convicção. Pelo canto do olho, via Alice lamber a figurinha de um sapo de chocolate que já tinha comido. Ela tinha olheiras fundas, o rosto mais encovado do que nunca.

– A minha avó já vai chegar – ele disse com afobação – ela foi fazer alguma coisa lá no quinto piso.

O leve tremor dele não passou desapercebido, mas não ia ser Doze a perguntar porque ele estava receoso sobre a avó ter ido no quinto andar. Logo Arty lembrou que eles tinham bolo de caldeirão, e este foi compartilhado entre os três – no caso de Arty, depois de a sua bolha mágica se certificar de que o bolo estava isento de resquícios de magia, e deixar o doce atravessar a barreira.

Eles conversavam a respeito do pior sabor de feijõezinhos que já tinham experimentado, o aniversariante momentaneamente esquecido pelos três, quando alguém entrou gritando na ala, fazendo Doze se assustar e esbarrar na torta.

A travessa escorregou e caiu violentamente no chão, se espatifando e espalhando vidro e maçã caramelada para todo lado.

– EU QUERO ELA FORA DAQUI! AGORA!

Quem gritava era a Sra. Longbotton, avó de Neville. Ela estava lívida, exangue, irada como se alguém tivesse matado o seu gato. Correndo atrás dela vinha a chefe provisória da ala de Danos, a Dra. Tonks.

– Mas Sra. Longbotton…

– NÃO NO MESMO QUARTO DE MEU FILHO! DE JEITO NENHUM, EU A QUERO FORA IMEDIATAMENTE!

– Mas ela não é…

– EU SEI QUEM ELA É! EU VI NA SUA FICHA! ISSO É ABSOLUTAMENTE ULTRAJANTE, UM IMPROPÉRIO OFENSIVO, EU JAMAIS…

Ambas as mulheres se aproximavam do grupo, o que fez Neville se arrastar para trás da cama do pai, escorregando na torta no processo, esbarrando na mesa e derrubando todos os doces. Alice colocou as mãos nos ouvidos, inclinou o corpo para frente e começou a se balançar, gemendo. Bervely assistia a cena com alarme crescente, e uma sensação ruim tomando o seu peito.

– VOCÊ! SUA PEQUENA ABERRAÇÃO! FILHA DAQUELA ASSASSINA, AQUELA TORTURADORA DE INOCENTES, NO MESMO QUARTO QUE O MEU FILHO! NÃO VOU ADMITIR…

– Eu que não vou admitir que fale assim com um dos meus pacientes, Sra. Longbotton! Pare imediatamente!

Mas na proteção da honra do seu filho, a Sra. Longbotton era como trem descarrilhado. Ela só podia avançar sobre Doze com o dedo em riste, o rosto deformado em ódio e preconceito, enquanto a acusava.

– PACIENTE O DIABO! ELA É FILHA DAQUELA MULHER! VEIO TERMINAR O QUE ELA COMEÇOU!

– Pelo amor de Merlin! – A Dra. Tonks exclamou, tentando se colocar entre as duas – Ela só tem quatorze anos!

– EU VOU PROCESSAR ESSE HOSPITAL! UMA DEGENERADA NO MESMO QUARTO QUE MEU FILHO! TAMANHO INSULTO… EU NEM MESMO CONSIGO, EU NEM MESMO…

– Vó! – Neville gemeu, a voz baixa e assustada – do que é que você está falando…?

– Ela é a filha daquela mulher, que destruiu a vida de seus pais, Neville! Ele é o inimigo! Da assassina!

– EU NÃO SOU ELA!

Gritou tão forte que suas cordas vocais vibraram e quase se partiram. A verdade das palavras de Augusta Longbotton sacudiram alguma coisa dentro dela, um animal louco, injustiçado, ferido. Estivera paralisada, estivera dormente, e já fazia muito tempo, já fazia meses

– EU NÃO SOU ELA! NÃO SOU COMO ELA! NÃO SOU UMA ASSASSINA!

– Você pode ser! É a filha dela! E Merlin sabe como os filhos tendem a seguir o caminho dos pais, e está no seu sangue…

– NÃO OUSE FALAR SOBRE O MEU SANGUE, VOCÊ NÃO SABE NADA SOBRE O MEU SANGUE!

– A filha de Bellatrix! A filha de Bellatrix dormindo junto com o meu filho…

– EU TENHO UM NOME! – ela voltou a gritar, cheia de raiva, cheia de fome de justiça – Você pode me chamar por ele! BERVELY! BERVELY ROSE BLACK!

– Já chega com isso! Fritz, me ajude aqui! – A Dra. Tonks exclamou para o bruxo que ouvira a gritaria do lado de fora, e entrava correndo na ala. A Sra. Augusta não parava de esbravejar, fora de si.

– Eu a quero fora daqui! Eu a quero longe do meu filho! Eu não vou aturar esse disparate!

– BEM ISSO ÓTIMO, PORQUE EU NÃO FICO NEM MAIS UM SEGUNDO AQUI NESSA DROGA DE QUARTO!

Os ânimos certamente estavam inflamados, e ninguém estava realmente pensando direito na Ala Janus Thickey naquele momento, mas Ian Fritz, que acabara de entrar e fizera uma leitura geral da cena, aparentemente fora o único a perceber a coisa incrível que acabara de acontecer ali. Ele impediu a sua paciente de sair correndo do quarto, a contendo em seus braços.

– Isso não vai ser necessário, Bervely. – ele disse, segurando-a, acolhendo-a, enquanto ela tremia de raiva. – Não precisa voltar para o quarto individual.

Andromeda Tonks olhou para o medibruxo surpresa, mas então ela também percebeu. A garota certamente provocara mudanças no quarto: trincara os vidros das janelas, provocara uma rachadura ampla no teto, da porta até onde estavam parados. Mas ela não só infringira magia ao ambiente.

Ela infligira a si mesma.

– Ele está certo, querida. – afirmou, assombrada, mas também se atrevendo a sorrir – Talvez seja o caso de pensar em sair daqui, e finalmente voltar pra casa.

(Continua)


Notas:

Obrigada aos comentários do último cap! Eu estava ansiosa pra postar esse aqui, então saiu mais cedo que o normal novamente. Brenda, eu não tenho como te adicionar no what's app no momento, mas podemos conversar ainda assim, observe o item 3 dessa nota ;)

1. Queridos, um esclarecimento que vocês já sabem, mas não custa repetir: Peter Pan é propriedade intelectual de James Barrie, Great Ormond Street Hospital e associados. Não tenho nenhuma intenção nefasta usando a obra, a não ser homenageá-la por ser uma das histórias infantis mais fantásticas que conheço. Aventuras em Neverland é uma inspiração livre na obra de James Barrie, então pode haver conteúdos no livro fictício que não existem no livro real, e vice-versa.

¹A cena original que inspirou a encenação de Draco e Hector em cima da árvore é a seguinte:

"Durante muito tempo os dois inimigos se fitaram, o pirata ligeiramente trêmulo, o menino com aquele sorriso estranho no rosto.
Então, Pan - o capitão disse por fim tudo isso é obra sua.
– É
, Jaime Gancho o outro respondeu secamente , tudo isso é obra minha.

Fedelho orgulhoso e atrevido disse o pirata , prepare-se para enfrentar o seu destino.

Homem tenebroso e sinistro o menino replicou , trate de se defender.

Sem dizer mais nada, começaram a lutar, e durante algum tempo nem um dos dois levou vantagem."

Sempre que eu usar algum trecho do livro dentro do capítulo, de forma literal ou não, aviso por aqui, dando os devidos créditos.

2. Esse capítulo, como vocês devem ter reparado, é um divisor de águas para a fic. Será que a Bervely finalmente vai para casa?

Aguardo comentários, curiosa demais para saber o que acharam de Hector, do jogo de faz de conta deles, e das acusações da Sra. Longbotton. Vocês permitiriam que o seu filho dormisse no mesmo quarto que a filha da pessoa que arruinou a vida dele pra sempre?

3. E por último: ontem (20 de fevereiro) foi meu aniversário e como presente de mim para mim eu quero pôr em prática um desejo que sempre tive: criar um grupo da série no facebook, onde eu possa me aproximar dos leitores, compartilhar o processo criativo e divulgar alguns materiais inéditos que venho produzindo sobre a série (bônus e imagens promocionais), e também conversar com vocês sobre assuntos relacionados a fanfics em geral. Gostaria de saber se vocês se interessariam por participar de um grupo assim, me avisem nos comentários (seria também como um presente de aniversário de vocês para mim, a sua participação no grupo ;)

Beijos e até a próxima att!