CAPITULO 10
O poder da infantaria.
A noite em si mostrava-se bem calma. Mas ninguém conseguia ser contagiado por este sentimento de paz. A tensão imperava Santuário, estando difusa em todos os cantos, sentida por todos os cavaleiros e soldados.
As rondas se faziam de forma mais nervosa. Os novatos tremiam de medo e aflição, mantendo-se em alerta constante. Os mais experientes sentiam a adrenalina correndo nas veias. Ainda eu houvesse o temor, este lhes provocava excitação, dava-lhes forças e os deixavam em plena sintonia com o ambiente.
- Hmm... – fez Argol de Perseu pensativo, observando algo na escuridão da noite, do alto de uma colina – Está muito silencioso. Até demais. Não ouço as corujas, nem o vento batendo nas árvores...
Então achou que enxergou um vulto se movendo alguns quilômetros à frente. Aguçou os olhos. Pareceu-lhe mais como uma daquelas manchas que permeiam nossas vistas em ambientes escuros. Mas não era só isso.
Empunhou uma longa lança prateada, mirou e a arremessou. A arma varou a escuridão e nela se perdeu. Instantes depois um grito de dor ecoou. O cavaleiro percorreu a distância até o alvo que abatera em uma fração de segundos para então constatar que atingira um cavaleiro de Ares.
Correu imediatamente para o sino de alerta.
- Preciso avisar os outros!
Interrompeu bruscamente seu caminho quando viu dois pequenos objetos cruzarem seu caminho. Imediatamente levou o escudo ao dorso. Na fração de segundo seguinte deu-se uma enorme explosão, atirando o cavaleiro metros para trás, atingindo e derrubando um espessa pilastra de pedra. Levantou-se o mais rápido que pôde.
A sua frente surgiu um cavaleiro trajando uma armadura avermelhada, empunhando uma longa espada de lâmina estilo japonesa. Argol ergueu a pilastra no ar com um movimento dos pés para então desferir um poderoso chute, arremessando o enorme fragmento de concreto para cima do cavaleiro de Ares, que por sua vez avançou com a espada, partindo a pilastra.
Em meio a gritos nervosos do calor da batalha desenrolava-se o primeiro confronto.
Em outros pontos do Santuário, os sorrateiros cavaleiros de Ares invadiam protegidos pela escuridão.
Xxx
A noroeste das Doze Casas, após o bosque há uma colina, e sobre seu platô uma pequena vila. Chega-se ali por uma estrada que circunda o bosque e cruza alguns templos anexos dentro do Santuário. A própria vila era originalmente um pequeno templo erguido a Dionísio. Os primeiros soldados de Athena ergueram a vila como morada dos cavaleiros e amazonas da infantaria, que mais tarde vieram a ser denominados de cavaleiros de Prata. Hoje a Vila Dionísio é um ponto de destaque no mapa do Santuário, com várias moradas de pedra, alguns campos de treinamentos, depósitos de armas, animais e uma bela praça. Esta última foi, e ainda costuma ser, palco de inúmeras festividades e comemorações, todas em torno do chafariz que leva em seu centro uma estátua de Dionísio, objeto de grande esmero e carinho por parte dos cavaleiros de Prata.
Sentada sobre a borda do chafariz, funcionando mesmo àquela hora da madrugada, Sophie revolvia as águas em vão. Sentia-se apreensiva demais com o estado de alerta para dormir. Sabia que devia ao menos tentar, pois seu turno de vigília começaria às seis da manhã, mas a preocupação com a batalha iminente e a falta de Kamus para lhe acalmar lhe tiraram o sono.
- Que passa, chica? – perguntou uma voz rouca.
Sophie sobressaltou-se, mas logo respirou aliviada ao constatar que era um amigo seu.
- Nada não Dios... – respondeu ela, cabisbaixa.
O cavaleiro de Mosca sentou-se ao lado dela e insistiu em conversar.
- Me deixa adivinhar... Nunca antes esteve em uma batalha?
A amazona balançou a cabeça afirmativamente.
- Entendo... Esse nervosismo seu é muy comum... Acredite, qualquer cavaleiro passa por isso. Ainda más em una situacion tensa como esta... Esta coisa de alerta rojo... digo, vermelho... Dão-me calafrios. A toda hora acho que estoy escutando el alarme. – o simpático cavaleiro riu, contagiando também Sophie.
- Achei que fosse só eu que escutava o alarme quando ele não toca!
- No, no! Yo também lo escuto! Às vezes até dormindo!
Sophie suspirou fundo. Sentiu saudade de sua juventude na Rússia, de seu padrinho Cristal, das festas com seus amigos. Até mesmo os pesados treinos lhe traziam boas lembranças. E por algum tempo desejou reviver aqueles momentos bons, onde não havia tantas preocupações, quando o fardo da responsabilidade não pesava tanto.
- Às vezes tenho vontade de fugir... Largar isso tudo e voltar para casa... – desabafou ela.
- No! No digas isso! Lembra-te que hay um motivo mui maior para estar aqui. No é por Athena, para protegê-la, que a senhorita está aqui. É pela humanidad. É pelos bilhões de seres humanos, vivendo sus vidas. É para que eles possam continuar amando, sofrendo e mesmo errando. É para que a vida continue que temos de nos sacrificar. É por toda la humanidad. Será que un pouco de sacrifício nosso no é válido pelo resto de la humanidad?
Sophie ressentiu-se de ter pensado em desistir. As palavras de Dios fizeram-na compreender sua importância e a dos cavaleiros. Inspirando fundo sentiu-se revigorada, disposta a lutar.
- Tem razão! Não posso ser egoísta assim!
Mas ela não pôde completar a frase. Antes disso Dios voou sobre ela, agarrou-a e a jogou no chão. Instantes depois um enorme estrondo explodiu sobre suas cabeças e um vulto gigantesco passou por eles. Algo enorme atingiu a estátua de Dionísio desfazendo-a em pedaços.
- Meu Deus! Que foi isso!
- No sei! Parece-me que... Ei! La estátua! Nooo!
Do meio dos escombros levantou-se um homem enorme, com certos mais de dois metros, trajando uma armadura avermelhada, cujo brilho Sophie já conhecera.
- Cavaleiro de Ares! – gritou ela.
- Para trás chica! – disse Dios, colocando-se à frente de Sophie.
- Ei, alguém se feriu? – indagou uma voz grave vinda de trás.
Surgiu então outro cavaleiro, tão grande quanto o primeiro, trajando uma armadura esverdeada.
- Argheti! Que passa? – indagou o cavaleiro de Mosca.
- Estamos sendo invadidos!
- Como? – assustou-se Sophie – Não ouvi o alarme!
- Pois é... Eles foram rápidos! Ainda não conseguimos soar o sinal. Corram vocês! Há um farol de alarme a menos de um quilômetro pela estrada!
- Vamos! – Dios puxou-a.
O gigante cavaleiro de Ares saltou, interpondo-se no caminho dos dois.
- Não vão passar! – bradou o gigante.
- Saia da frente ou vai se ver comigo! – desafiou Sophie, evocando sua armadura.
- Há! E a mocinha vai fazer o quê?
- Cornephoros! – gritou Argheti, lançando um poderoso tufão de energia contra o cavaleiro. O gigante voou metros para trás e caiu sobre uma construção, demolindo-a praticamente.
- Argh... Perguntei pra ela, intrometido!
- Sua luta é comigo! – e o cavaleiro de Hércules avançou contra o oponente.
- Vamos senhorita, não vai querer ficar perto enquanto o grandão luta! – aconselhou Dios, puxando Sophie.
Correndo pela estrada de terra os dois cavaleiros embrenhavam-se na escuridão da noite. Aos poucos a estrada começa a descer a colina, deixando para trás as poucas luzes da Vila Dionísio. Os gritos e os estrondos da batalha de Argheti já estavam longe. Dali não podia imaginar que violentas batalhas desenrolavam-se em pontos diversos do Santuário.
Argol corria cambaleante. Respirava com dificuldades, sentindo o sangue encher seus pulmões e suas forças se exaurirem. Mas tinha que chegar à torre do alarme faltava pouco. Acabara de enterrar o punho no peito do cavaleiro de Ares que lhe atacara. A batalha foi árdua. Fora atingido várias vezes pela espada impiedosa do oponente. Mas saiu vitorioso e agora se via a poucos metros do alarme.
O alarme era uma pequena torre de madeira, de cerca de cinco metros de altura com um farol no ápice. Com suas últimas forças agarrou a torre de madeira, abraçando-a buscou apoio para seu corpo exausto. Mas não se permitiu descansar. Com as mãos empapadas de sangue buscou com agonia a pequena porta. Abriu-a e puxou a corda que havia ali dentro. Estava feito. Deixou-se cair aliviado no chão. Sentiu que agora poderia morrer em paz.
A corda, quando puxada, derramou um combustível inflamável sobre um dispositivo armado no alto da pequena torre, incendiando-se e acendendo o farol. A luz forte era visível em todo ponto alto do Santuário, inclusive nos pontos onde ficavam os alarmes sonoros, guarnecidos por guardas atentos aos sinais luminosos. Eles sabiam que quando um farol fosse aceso deveriam soar a sirene. O sinal sonoro seria então repetido por inúmeras outras sirenes espalhadas pelo Santuário.
O sinal ecoava em todas as rochas, reverberando nos dormitórios e despertando todos os guardas e cavaleiros que descansavam.
Dios e Sophie interromperam suas trajetórias ao escutarem as sirenes. Do ponto em que estavam na estrada tinham uma boa vista panorâmica da maior parte do Santuário. Ambos sentiram-se assustados e apreensivos quando inúmeras explosões e clarões de luz começaram a pontuar a paisagem escura.
- Agora é pra valer... – sussurrou ela, sentindo o coração apertar.
- Senhorita... Cuidado! – alertou Dios, apontando para um objeto flamejante cruzando o céu.
O objeto caiu a poucos metros deles, ainda pegando fogo.
- Mas o que foi isso? – indagou a amazona.
De súbito o objeto mexeu-se e se levantou, revelando ser um homem. Ou melhor, um cavaleiro. Com o corpo ainda em chamas ele saiu correndo e gritando desesperado.
- Aaaaah! Aquelas mulheres são loucas! – correu para fora da estrada e despencou do barranco, escondido pela escuridão da noite. Então não ouviram mais nada.
Seguiu-se um breve silêncio interrompido por Dios.
- Que passa?
- Mulheres loucas? Fogo...! Ah! – exclamou ela eufórica, fazendo o cavaleiro sobressaltar-se. – As meninas!
Sophie desembestou a correr pela estrada, sumindo na escuridão. Dios assustado com a reação da jovem foi atrás dela. Depois de uma baixada no terreno, alguns metros adiante se depararam com duas amazonas, uma dando apoio à outra. Ao lado delas um corpo fumegante.
Sophie imediatamente ao reconhecer suas amigas deu um grito agudo e correu em direção delas. A outras repetiram o grito e então as três abraçaram-se.
- Ai amiiigas
- Que bom ver vocês!
- Nossa que sustooooo!
- Você ta bem?
- Tô, e você?
- To ótima! Ai que bom nós juntas!
E assim ficaram, abraçadas aos saltinhos gritando eufóricas e falando todas de uma vez. Dios ficou sem entender nada, supondo que as garotas já se conheciam. Na verdade já eram grandes amigas, tratava-se de Vettra de Raposa e Psique de Lebre.
O cavaleiro de Mosca aproximou-se do corpo fumegante, cutucando-o com o pé.
- O que houve com ele? Parece-me cavaleiro de Ares... Estoy certo?
- Sim... – respondeu Psique – Ele e mais outro nos atacou. Cuidado que ele foi eletrocutado.
Dios ia tocar o corpo, mas retraiu a mão imediatamente.
- E suponho que o outro tenha sido aquele que passou voando em chamas?
- Ai! – exclamou Vettra – Ele acertou vocês? Desculpa!
- Sin problemas! – respondeu Dios sorrindo disfarçando a surpresa com o poder das meninas.
Antes que pudesse surgir qualquer descontração ali, ouviram-se passos metálicos vindo de adiante. Dios e as amazonas colocaram-se imediatamente em posição de defesa.
- Ora, ora... Então temos algumas belezinhas neste Santuário imundo? – indagou uma voz.
Mostraram-se três homens trajando armaduras avermelhadas. Mais soldados de Ares. Dios tomou a frente e interpelou:
- Quem são vocês que ousam invadir o Santuário de Athena?
Um dos cavaleiros tomou à frente, parecendo ser o líder deles. Com uma risada convencida começou a responder.
- Somos soldados de Ares! Antes que a noite acabe, ele pertencerá a nosso deus! Bem... Quem somos nós? Há!
Os três reorganizaram a formação, arranjando-se de forma combinada e ensaiada, ao mesmo tempo em que gritaram, ao mesmo tempo:
- O Quarteto da Morte de Ares!
Os cavaleiros de Athena baixaram a guarda por um instante, olhando curiosos os três cavaleiros autodenominando-se como quarteto.
- Erm... Cadê o Tanque? – perguntou um deles.
- Oras, não sei!
- Não podemos ser um quarteto sem ele!
- Ele não ficou pra lutar com aquele outro grandão?
- Oras não sei! Onde diabos está o quarto homem do Quarteto da Morte!
Com pesadas passadas que faziam o solo vibrar, veio ao encontro do grupo uma enorme figura.
- Estou aqui... – disse uma voz grave.
Os guerreiros de Athena assustaram-se. O homem que chegara era o gigante que há pouco estava lutando com Argheti na vila.
- No! Argheti! – exclamou Dios.
- Sinto amigos... – lamentou o gigante cavaleiro de Ares. – Mas não poderei ajudá-los... Aaaargh!
Sentindo seu peito estraçalhar-se, o gigante, não a toa chamado pelos outros de Tanque, tombou à frente, fazendo sua armadura partir-se em centenas de pedaços. De trás de sua figura surgiu Argheti de Hércules, para a vibração de todos.
- Ei Mosca, ainda dou conta de mais alguns... – disse Argheti, ainda que gemendo de dor.
- Droga! Não somos mais quarteto! – exclamou um dos outros soldados de Ares.
- Cala boca! – gritou o líder – Não importa mais o que somos! Vamos acabar com estes cavaleiros!
- É! Vão se ver com o... ahn... Trio da Morte!
O líder avançou contra o grupo, mas antes que pudesse atingir qualquer alvo, um flash de luz transpassou todos e atingiu em cheio o cavaleiro de Ares, lançando-o alguns metros para trás.
- Aaargh!
- Ei! Vão com calma! – advertiu uma voz vinda de trás de todos.
- Sirius! – exclamaram Argheti e Dios. As amazonas voltaram-se para o cavaleiro recém surgido.
- Como estão, meus velhos? – indagou o cavaleiro de Cão Maior cumprimentando os demais.
O grupo de cavaleiros de Ares reorganizou-se novamente e armaram-se para o combate.
- Mais cavaleiros? Hunf... Ainda assim não são o bastante.
- Não se preocupe! – disse Sirius – Não vamos lutar nós seis.
- Ei! – interrompeu Sophie – Também queremos ajudar!
- Eu sei, amazona. Mas há algo mais importante para você. Enquanto vinha para cá observei, do alto da colina, alguns vultos indo na direção das Doze Casas. Lembre-se que muitas delas estão vazias, pois os cavaleiros de Ouro foram recrutar discípulos. Vocês todas devem correr até lá e evitar que eles passem pelas Casas!
- Mas não podemos deixar vocês! – exclamou Vettra.
- Sim! Também somos guerreiros de Athena! – foi a vez de Psique.
- Acalmem-se garotas! – interveio Dios – Não estamos desvalorizando vocês. Mas há outros inimigos no Santuário, que precisam ser detidos!
- Além do mais... – comentou Argheti – Esses caras não são de nada... Nós três já fizemos muita história por aqui! Confiem em nós.
Com alguma relutância as amazonas acabaram por concordar e partiram.
Ficaram para o combate três cavaleiros de prata, Argheti de Hércules, Dios de Mosca e Sirius de Cão Maior. Os soldados de Ares acenderam seus cosmos, elevando-os de forma ameaçadora.
Os cavaleiros de Athena sabiam que não seria uma batalha fácil, apesar da paridade dos oponentes. Talvez um deles, ou todos eles, saíssem fatalmente feridos dali. Isso já era um senso comum dentre os guerreiros da infantaria, os Cavaleiros de Prata. Todos eles tinham em mente de que a partir do momento que entram em uma batalha suas expectativas de vida reduzem-se drasticamente para apenas alguns minutos.
Os três grandes amigos viram-se novamente em uma batalha, e novamente juntos. E antes que o fim chegasse trocaram ainda algumas palavras.
-Será que passamos dessa também?
- Já passamos por tantas juntos, não? Passaremos esta também...
Um deles suspirou profundamente.
- Será que vão se lembrar da gente se morrermos?
- Não sei... Somos a infantaria afinal... Quem lembra de nós?
- Podemos morrer aqui. Talvez nos dêem uma cova rasa com uma lápide com nossos nomes.
- Mas eu não me importo, pra falar a verdade... E vocês?
- Não... – responderam os outros dois.
- É como se diz... A sina dos verdadeiros heróis é sacrificar-se por quem não os conhece...
- Lutar, sofrer e morrer no anonimato...
E conformados e satisfeitos com seus destinos, os cavaleiros encheram seus jovens peitos de força, coragem e esperança. Elevaram seus cosmos ao máximo, fazendo-os explodir no infinito, rogando pela proteção de suas constelações. E sentindo-se pronto para o sacrifício, afinal sabiam que se tratava de uma causa muito maior, partiram destemidos contra o oponente.
À distância as amazona sentiram o embate de cosmos. E lamentaram não poderem ajudar. Sabiam que tinham sua importância e deveriam cumprir a missão. Os gritos ecoaram pela noite, fazendo-as sentir o peso da responsabilidade como guerreiras.
- Máxima perfuração Esmagadora!
- Vôo Final da Morte!
- Cornephoros!
Continua...
Palavras do Autor
E ae pessoal! Desculpe mais uma vez pela gigantesca demora! iahuuhauhai Espero que estejam curtido esta fase mais de ação da fic. Estamos mais ou menos na reta final. Agora virão algumas lutas bem intensas e um amor sendo posto em prova! Ah! Quis mostrar nesse capitulo um destaque pros cavaleiros de prata. Eles também sofrem, sentem e se afligem com as batalhas. E também merecem momentos tocantes! ahuuiahuha Abraços! E comentem!" Pinguim.Aquariano
