Bem... Pensei... Pensei... E como se trata de um presente para uma grande e querida amiga, o presente precisa ser perfeito. Então decidi que ao invés de 11, serão 12 capítulos. Vou manter a mesma cronologia de antes e espero que dessa vez eu consiga o resultado que espero.

Beijos para todos os que acompanham e acompanharam essa fic.

Capítulo 11

"Querido Miro,

Não sabia como começar a escrever essa carta. Já tinha tentado escrever antes, mas sempre me faltava coragem. Talvez palavras não possam explicar o que aconteceu e porque eu sumi durante tanto tempo, mas eu precisava pensar.

Você já se apaixonou profundamente? Eu já tinha e conhecia muito bem essa dor que persiste durante muito tempo no coração do ser humano. Nunca pensava que um homem poderia me amar, já que durante toda minha adolescência colecionei vários "nãos" como resposta. Tive medo. Medo de ser usada, medo de após uma noite como aquela, você me abandonasse sem dó, então, corri para longe. Mas no final, percebi que fui eu mesma que me abandonei, que me usei...

E mais uma vez, o medo toma posse de mim. Porque sei que fui muito errada, porque tirei de você momentos preciosos...

Não sei se você vai receber essa carta, não sei mais se você ainda mora nesse endereço depois de sete anos...

Mas gostaria que me perdoasse, eu ainda sofro com o erro que eu cometi e queria muito que esse peso que carrego dentro de mim fosse aliviado.

O tempo me pregou uma peça. Quanto mais achava que ficar longe de você resolveria meus problemas, me enganava. A distância, o mistério de não saber mais nada sobre você entre outras coisas não menos importantes, sempre me fizeram ficar ainda mais ligada a você...

Eu ainda te amo, Miro.

Camila."

Após ler a carta de Mila, a primeira atitude que tomei foi a de amassar aquele papel com raiva. Sim, porque eu não conseguia admitir para mim mesmo tudo o que havia acontecido durante o tempo em que eu estava mergulhado no vazio.

Desculpas... Desculpas... Que tipo de palavra é essa? Desculpas não curam corações partidos, feridos de guerra, muito menos ressuscitam mortos!

Dei um murro na cama. Meu coração estava conhecendo o gosto do ódio.

Era melhor entrar no banho e tentar esfriar a cabeça.

Enquanto a água escorria por meu corpo, lembrei daquela única noite que tive com ela. As gotas do chuveiro pareciam o toque macio e suave de suas mãos e automaticamente me deixavam com mais ódio ainda.

Ela mesma tinha tirado de mim aquela sensação maravilhosa. Por escolha própria. Por vontade... Não... Eu não podia perdoar. Não queria.

Saí do banho e me troquei. Olhei para o papel amassado e o peguei. Abri e reli mais umas cinco vezes.

Sentia pontadas dentro do meu peito. Não estava entendendo porque estava fazendo aquilo. Talvez estivesse enlouquecendo, como eu poderia gostar de sentir dor? Nunca fui masoquista.

Foi quando olhei para o envelope e vi o endereço dela no remetente.

Lágrimas começaram a escorrer a cada lembrança. A cada sorriso, toque, carinho.

Apaguei e só acordei com os raios solares que invadiam o meu quarto naquela manhã de domingo. Decidi passar em uma galeria para me distrair naquele dia frio e ensolarado.

Comprei um crepe e olhava para as vitrines sem conseguir me animar com nada.

Foi quando me deparei com uma agência de turismo. Entrei por curiosidade.

Uma adolescente me atendeu bem.

-Pois não, senhor. No que posso ajudá-lo?

-Vocês têm passagem para o Brasil?

Na hora até eu me surpreendi. Não estava acreditando que estava perguntando aquilo.

-Sim. Temos vários pacotes! Sente-se – Ela me mostrou a cadeira e se sentou atrás da mesa.

Começou a me mostrar várias fotos, vários itinerários. Havia praias lindíssimas. mas eu só precisava mesmo era da passagem e de um hotel em Goiás. Ela me ajudou e no final acabei comprando a passagem para o próximo final de semana.

No fundo, eu sabia que não deveria ter feito aquilo, mas algo me dizia que eu deveria ir atrás dela, pra pelo menos dizer algumas verdades.

A cada dia, gostava mais do meu trabalho então foi difícil me entreter com meus afazeres e as quartas-feiras, saí para tomar um chope com Minos. Nos dávamos muito bem e como já éramos um tanto íntimos, contei a ele a minha decisão.

-Sabe, Miro, fiquei até contente em saber que ela te procurou, mesmo depois de sete anos.

-Eu ainda não consigo engolir aquela carta de jeito nenhum, Minos! Ela foi muito egoísta!

-Concordo que foi egoísta, mas eu acho que se ela te procurou, mesmo por carta, é porque deve estar arrependida. Pense um pouco a respeito e aproveite a sua viagem para resolver sua situação com ela.

-Isso mesmo! Uma vez meu amigo Kamus me disse que não devemos viver do passado. Eu vou lá para resolver essa situação! Vou mandar ela não me procurar nunca mais!

Mas eu tinha certeza que Minos estava sorrindo por dentro após ouvir minhas palavras revoltadas.

Na quinta feira a noite eu já estava arrumando as minhas malas para partir. Minos concebeu a mim quinze dias de férias, para eu organizar melhor a minha vida pessoal. Ele foi muito bacana comigo fazendo isso.

Na sexta-feira logo após o almoço, lá estava eu, indo para o aeroporto novamente. Já estava acostumado a andar de avião, mas era muito cansativo.

Me sentei em uma das poltronas que haviam por lá e comecei a ler mais uma vez minhas revistas.

É incrível o que a gente faz para matar o tempo. Li uma, duas, três...

E quando já estava preparado para abrir a quarta, uma criança se sentou ao meu lado. Era um garoto de pele morena, olhos azuis e cabelos castanhos. Quando olhei mais atentamente, percebi que ele era muito parecido comigo. Ele sorriu para mim, mas ao invés de retribuir o gesto, me assustei. Tinha um carrinho de plástico na mão e começou a passar o brinquedo pelo braço da poltrona.

Procurei algum sinal da mãe ou talvez do pai, mas não encontrei nada. Resolvi perguntar a ele como ele se chamava, mas a única coisa que ele fez foi me olhar de forma mais intensa. Com certeza ele não era grego, tampouco norueguês. Achei melhor levá-lo ao balcão de informações do aeroporto e anunciar que ele estava perdido. Me levantei e ofereci minha mão a ele. O garoto a segurou com firmeza e começamos a andar.

Não sabia porque aquela situação estava mexendo comigo. A cada vez que eu olhava para ele, me sentia bem, me sentia como se estivesse em contato com a minha própria infância.

Chegamos até lá e uma senhora me atendeu.

-Acho que essa criança está perdida... Melhor a senhora anunciar nos alto-falantes.

-Sabe o nome e a idade dele, senhor?

-Não. Ele é estrangeiro. Perguntei a ele e ele não me respondeu. Com certeza não me entendeu.

A senhora se apoiou no balcão para observar melhor o garoto e começou a descrevê-lo pelo microfone. Falou em norueguês e depois em inglês.

Fiquei segurando na mão dele durante vários minutos. Olhava para todos os lados e não havia ninguém se aproximando. Aproveitei então para observar ainda mais suas características físicas. Ele estava me deixando intrigando cada vez mais.

Foi quando de repente ouvi uma voz de mulher gritando com a voz chorosa.

-ATÍLIO!

Ele soltou minha mão e correu para abraçar a dona da voz. Havia uma garota junto dela, do mesmo tamanho do menino. O abraçou com força. Comecei a sorrir. Era uma cena muito bonita, entretanto, quando ela levantou o rosto e olhou em minha direção, eu não pude acreditar.

-CAMILA?

-MIRO?

Continua...