Pétalas de Fogo
Por Kath Klein
Capítulo XI
Syaoran cavalgava depressa, apreciando o vento quente batendo em sua face. Sorriu, sentindo-se livre. Estava feliz, finalmente sentia-se feliz como há anos não se sentia. Indicou ao cavalo que queria mais velocidade na brincadeira e o belo animal não o decepcionou, aumentando a velocidade do galope. Não gostava de viver em meio ao luxo e ao conforto, mas pela primeira vez durante anos, sentia-se vitorioso. Hiiraguizawa já tinha colocado a corda no pescoço, e só estava esperando por ele, para puxá-la. Puxá-la e arrastá-lo como um boneco por toda Tomoeda. Como era idiota! Sempre soube que não tinha muitos princípios, mas não que fosse capaz de chegar a tal ponto. Wei tinha feito uma pesquisa sobre as condições do inglês, e logo descobriu que ele assinara várias notas promissórias, estas, Syaoran saldou de imediato, tornando-se proprietário das dívidas do outro, mas logo descobriu que os negócios, dito legais, de Hiiraguizawa serviam apenas para encobrir seu verdadeiro comércio, que era contrabando de armas e pior ainda, de ópio. Eriol não passava de um traficante. Apostava que o ex-amigo era bem capaz de comercializar até mesmo escravos. Fora fácil descobrir o esquema dele e esbarata-lo. No mercado negro, ele era o melhor. Eriol, era quase um analfabeto.
'Como pôde, Eriol?' Um senhor de cabelos negros com algumas mexas brancas gritou com os dois rapazinhos que estavam a sua frente. 'Como pôde fazer isso? Roubar dinheiro do caixa para comprar bebidas?'
'Pai...' Eriol tentou começar a argumentar.
'Cale-se! Já estou farto de suas malandragens! A partir de hoje, terá sua mesada cortada! Vai ter que trabalhar...'
'Mas... mas o senhor sabe que eu não... eu não sei trabalhar, pai. Não nasci para isso.'
O senhor ficou em silêncio fitando o filho com reprovação. Logo seus olhos pousaram no rapaz de cabelos castanhos rebeldes que estava logo atrás do filho fitando o chão. Provavelmente fora o amigo chinês que convencera Eriol a contar a verdade, senão fosse por isso o filho estaria inventando mil e uma mentiras colocando a culpa nos pobres funcionários, para se livrar da pena. Soltou um longo suspiro.
'Mas como teve a coragem de vir confessar seu erro, irei lhe perdoar pela última vez.' Eriol levantou o rosto sorrindo. 'Mas isso não quer dizer que não receberá pena alguma! Terá que ajudar seu amigo Syaoran nas tarefas dele durante esta semana.'
Eriol voltou-se para o amigo que também olhava surpreso para o senhor.
'Syaoran pode lhe ensinar um pouco mais sobre a vida, Eriol.'
'Papai, o Syaoran mal sabe ler e escrever...' O inglês zombou.
Li deu um passo à frente finalmente se metendo na conversa entre pai e filho. 'Ele tem razão senhor. Eriol é nobre, não há motivos para ajudar nas minhas tarefas. Elas são pesadas demais para ele.'
'Vocês têm a mesma idade. Se você pode, meu filho também pode!' O senhor falou com a voz enérgica, fitando o filho que fez uma careta só em pensar no que seria obrigado a enfrentar. 'Agora saiam da minha frente! Tenho muito o que fazer!'
Eriol e Syaoran entreolharam-se e retiraram-se quase correndo. Atravessaram a saída do escritório do senhor Hiiraguizawa chegando até a rua movimentada do centro da cidade. Eriol passou um braço sobre o ombro do amigo sorrindo.
'Você tinha razão! Ele ficou orgulhoso de mim por ter contado a verdade.'
'Um pai não gosta que seu filho minta, principalmente para ele. Se o meu estivesse vivo eu não teria coragem de fazer isso.'
'Ah você é muito certinho, Syaoran! Olha, temos quase quinze anos! Estamos em idade para aprender como tratar as mulheres e escolher vinhos, não para aprender a descamar peixes!' Eriol falou fazendo outra careta.
Syaoran riu do amigo. 'Você não tem jeito! Acho que nenhuma senhorita ou senhora escapa de você.'
'É bonita e usa saias, então está na minha mira.'
Li balançou a cabeça de leve. 'Não pode viver assim para sempre. Você é o herdeiro dos Hiiraguizawa, deveria aprender os negócios com sua família.'
'Ah para isso tem muito tempo.' Ele parou de repente, forçando o amigo a parar também. 'Olhe!' Falou apontando discretamente para a menina que atravessava a rua com cuidado para não ser atropelada. 'Não é a filha do velho Daidouji?'
Li não respondeu, estava encantado demais para falar qualquer coisa, era como se um anjo estivesse na sua frente.
'Vamos, Syaoran!' Eriol falou puxando o amigo até a menina que brigava com o chapéu que não ficava em sua cabeça, por causa do vento. 'Bom dia, senhorita!' Ele falou galanteador.
Tomoyo virou-se para ele e sorriu. 'Bom dia!' Porém, logo seus olhos fitaram o rapaz atrás de Eriol, abriu mais o sorriso, encabulando Li.
Eriol deu um leve cutucão para que Li voltasse à realidade. 'Hã... bom dia, senhorita.'
'Bom dia, senhor...' Ela deixou a frase no ar, a fim de descobrir o nome do rapaz.
'Li Syoran! E eu sou Hiiraguizawa Eriol.' Eriol foi quem respondeu, pois percebeu que o amigo estava encabulado e lerdo demais para entender a indireta dela.
'Syaoran...' Tomoyo repetiu sorrindo de forma adorável. 'Sou Daidouji Tomoyo. Muito prazer.'
'O prazer é todo nosso, senhorita. Estávamos indo até a casa de chá para tomar um refresco, gostaria de nos acompanhar?' O inglês perguntou.
'O senhor não se incomoda, senhor Li?' Ela falou com um sussurro.
'De maneira alguma, senhorita.' Finalmente Syaoran falou, sorrindo para ela e a vendo corar de leve. Estendeu o braço e ela rapidamente enlaçou ao dele sorrindo.
Li puxou as rédeas do cavalo, fazendo-o empinar de forma majestosa, antes de parar. Tinha as lembranças do seu primeiro encontro com Tomoyo, vivas em sua memória, como se tivesse sido ontem e não há quase vinte anos. Sentia algo ainda por aquela mulher e sabia disso. Doía em seu coração, saber que ela agora era esposa de outro homem, do homem que considerara seu melhor amigo, e doía mais ainda saber que para ela, ele não fora nada, além de um divertimento. Ela tinha sido a sua primeira e única paixão.
Estava na hora de começar a colocar a segunda parte de seu plano em ação, faria de Tomoyo sua amante, divertiria-se com ela até se cansar e a jogaria fora. Já tinha dado o primeiro passo na festa há alguns dias. A jovem mulher continuava ambiciosa, e agora sabendo que Eriol estava falido, nada melhor do que a conquistá-la com presentes caros. Sorriu de forma maliciosa pensando nisso. Porém, logo seus pensamentos foram até Sakura. O sorriso fechou, respirou fundo, fechando os olhos e relembrando as noites que passaram juntos. Ela era perfeita. Passou uma das mãos no rosto e logo passando pelos cabelos bagunçando-os mais ainda. Aquela mulher estava o enlouquecendo. Desde que colocou os olhos nela, tinha idéia da amante maravilhosa que ela seria, mas Sakura andava superando todas as suas expectativas. Depois da primeira noite que se amaram, quando havia sido comedido devido à virgindade deflorada, as seguintes foram cada vez mais intensas. O perfume dela era entorpecente. Os lábios eram doce como mel. A pele sedosa. O cabelo macio. As curvas perfeitas.
Franziu a testa lembrando-se de quando a encontrou sozinha com Eriol. Não permitiria que ele a cercasse como estava fazendo. Sakura era dele e seria unicamente dele, nem que para isso ele tivesse que prendê-la na mansão. O acordo entre eles havia sido quebrado, assim como ela havia perdido para sempre sua virgindade. Não daria mais a mansão para ela, ou talvez até fizesse isso. Daria a ela a mansão, jóias, dinheiro, tudo... Daria o mundo a ela, para que fosse apenas sua amante. Que apenas ele tocasse sua pele, beijasse seus seios, sentisse o gosto de seus lábios.
Soltou um longo suspiro, atiçando o cavalo para voltar para a mansão. Saltou do animal, mal ele parou, assim que chegou na casa. Entregou as rédeas para um criado, e subiu a escada rapidamente. Reparou que um coche diferente estava parado a poucos metros da entrada. Franziu a testa, pensando quem seria. Parou e esticou um pouco o corpo procurando o seu coche, não o encontrou. Sentiu o sangue correr de forma mais rápida sabendo que Sakura não se encontrava em casa. Não gostava mais que a esposa saísse, sem que ele a acompanhasse.
Quando acordou hoje, ainda a tinha nos braços, adormecida. Arrumou-se sorrateiramente para não acordá-la e saiu durante o dia inteiro. Na noite passada, Sakura havia pedido novamente para esquecer da vingança, e verdade seja dita que ela tinha conseguido convencê-lo enquanto se amavam. Por Deus, aquela mulher era mais perigosa do que imaginava, nas horas em que a possuía a única vontade que tinha era de tê-la por toda a eternidade ao seu lado, nunca se sentira tão completo, tão feliz em toda sua vida. Mas com a cabeça fria e os pensamentos em ordem, percebeu que já havia ido longe demais para retroceder. Além disso, talvez aquelas noites tenham sido para ela, o mesmo que foram todas que havia passado com Tomoyo: diversão. Não seria mais manipulado por aquele estúpido sentimento chamado amor.
'Não estou apaixonado!' Soltou trincando os dentes e negando o que já sabia que era verdade. Sentia desejo, paixão, atração por aquela mulher tão geniosa, temperamental e por que não admitir tentadora, tinha que colocar na cabeça que tudo não deveria passar de uma diversão para ele e para ela. Teria que ser apenas isso. Entrou na residência com o rosto fechado.
'Onde está sua senhora?' Perguntou para Rika que estava arrumando a sala.
'Eu não sei senhor. Ela saiu logo depois do almoço junto com Meilyn e Kuoto.' Rika respondeu. 'Senhor Urameshi, há dois senhores junto com o senhor Hiiraguizawa falando com seu sogro no escritório. O senhor Kinomoto pediu, por favor, para assim que chegasse fosse ao encontro deles.'
'Hiiraguizawa?' Li repetiu erguendo uma sobrancelha.
'Isso mesmo, senhor.' Rika confirmou mais uma vez.
Li não falou mais nada, com passos largos chegou rapidamente até o escritório. 'Boa noite.' Cumprimentou polidamente.
'Ainda bem que chegou, Yamato!' Fujitaka falou com uma voz um tanto aliviada, pela presença do genro e isso fez a curiosidade do rapaz crescer mais ainda. 'Estes são o senhor Hiko e o senhor Takashi da polícia japonesa.'
Li tentou disfarçar a apreensão por estar à frente de um oficial. Imaginou que o sogro, ou estava lhe pregando uma peça ou o delatou ao policial por contrabando. 'Prazer, sou Urameshi Yamato.' Apresentou-se polidamente para os senhores que curvaram-se brevemente. 'Em que posso ser útil?' Tentou agir com naturalidade observando a reação de Kinomoto.
Eriol caminhou até ele com o olhar nervoso, pegou as mãos do rapaz assustando-o 'Ajude-me Yamato! Por favor, ajude-me.'
'Ajudá-lo? Mas como?' Não entendeu de início, mas logo as coisas fizeram sentido para ele. Começava a ter idéia do que estava acontecendo, porém não imaginou que tudo acontecesse tão rápido. Por um momento, imaginou que o sogro agira de forma impetuosa, depois que Sakura pudesse ter contado o que acontecera entre eles, mulheres sempre dramatizam e contam as coisas dando versões tortuosas. Mas, observando Eriol beirando ao desespero, deduziu que o senhor Hiko era o credor do inglês e trouxe o policial para cobrar a dívida do rapaz. Como este estava falido e Ken o deixou na mão roubando toda a mercadoria que contrabandeava, Hiiraguizawa Eriol não deveria nem ter dinheiro para comprar comida e então veio ao único "amigo" que deduziu que pudesse saldar suas dívidas, já que Tomoeda ostentava muita nobreza, mas seu comércio não passa de venda de peixe. Só que o "esperto" Eriol, ou deveria estar realmente muito endividado ou desesperado para não se importar de pedir dinheiro para o genro do representante do Imperador na cidade. Tentou permanecer com o rosto sério, mas intimamente soltava gargalhadas.
'Tenho algumas dívidas no banco que devo quitar ainda, e também dívidas com este senhor. Meus negócios estão numa maré de má sorte e não tenho como tirar dinheiro agora no banco.'
'Seu nome está sujo.' Li concluir com um tom sarcástico.
'Quando eu for governador, eu...'
'Espere um momento, meu jovem!' Fujitaka interrompeu-o 'Não pensas mesmo que depois de saber que o seu nome está sujo e que está devendo a Deus e todo mundo, que eu lhe nomearei o representante de meu imperador nesta boa terra. Como lhe falei outro dia neste mesmo escritório, estaria de olho no senhor verificando se seria ou não o candidato adequado para tal cargo.'
Eriol virou-se para ele quase chorando. 'Mas o imperador ordenou...'
'O imperador pediu-me para que o representasse em sua nomeação, e isso me dá livre arbítrio para julgá-lo. O senhor não tem moral para representar o meu senhor supremo.'
'Mas o senhor não pode fazer isso!' Eriol explodiu.
'Posso e vou! Com sua licença, senhores, não há mais nada que eu possa fazer por este jovem.' Dizendo isso saiu deixando o inglês desolado.
Li observou a cena com detalhes. Por tantas vezes havia imaginado aquele episódio. Por tantos e tantos anos havia sonhado com a derrocada de Eriol, e ali estava ele, com o seu amigo de infância a um passo de se ajoelhar a sua frente, pedindo dinheiro e com os olhos rasos de lágrimas, por perder o cargo que sempre almejou. Deu um longo suspiro enquanto relembrava as palavras do sábio Clow. Aquele velho moribundo que lhe ensinou tudo na vida. Tudo! A prisão para uns era apenas o inferno, porém para Li Syaoran, aqueles dez anos de tortura e horror foram também os dez anos onde aprendeu tudo na vida. Aquele inferno o transformou no que era hoje. E pela primeira vez na vida, sentiu-se Deus!
'A vida realmente é muito ingrata, não Eriol?'
Hiiraguizawa virou-se para o suposto amigo atordoado, por alguns instantes, devido a tudo que estava vivendo reparou em como ele lembrava seu amigo de infância. Balançou a cabeça dissipando o seu grande fantasma. Isso era loucura... Por alguns segundos imaginou-se louco. Ele mesmo havia feito questão de ver o corpo carbonizado do amigo.
'Eu lhe imploro. Ajude-me.'
Li sorriu abertamente, sem agora conseguir conter sua alegria, afastando-se do inglês.
*~*~*
Sakura chegou em casa, ouvindo gritos. Olhou para Meilyn, que se mostrava tão assustada quanto ela. Desceu do coche e correu até a mansão. O salão estava deserto, olhou de um lado para o outro quando ouviu a porta do escritório abrindo e o pai saindo de lá contrariado.
'O que aconteceu papai?' Ela perguntou correndo até ele. O coração doía pensando que o senhor tivera uma discussão com o marido. Depois do que aconteceu entre ela e o esposo, não duvidava que o pirata fosse capaz de contar ao seu pai detalhes sobre as noites que tiveram. E ainda com deboche e sarcasmo.
'Quase cometi uma besteira, minha filha. Vou para o meu quarto escrever outra carta urgente para o imperador.' Fujitaka respondeu sem parar subindo para seus aposentos. 'Pena que diferente da outra, esta será com péssimas notícias!'
'Yamato! Você precisa me ajudar!' A voz desesperada de Eriol a fez voltar sua atenção para o escritório. Caminhou até lá e entrou. Encontrou Li sentando na cadeira atrás da grande mesa de mogno. Eriol estava parado em frente à ela, quase se ajoelhando, enquanto dois senhores que ela conhecera na festa há alguns dias, estavam em pé com os rostos tensos.
'O que está acontecendo aqui?' Ela perguntou observando os senhores. Todos se viraram para a bela dama, mas foi Eriol que correu até ela e segurou suas mãos com força.
'Precisa me ajudar, senhora. Convença seu marido a quitar as minhas dívidas. '
Sakura arregalou os olhos sem entender nada. Li foi até eles e puxou a esposa de perto de Eriol. 'Afaste-se de minha mulher.'
'Yamato, somos amigos... não pode deixar que estes senhores arruinem minha vida. Quando vim aqui pensei que poderia contar contigo.'
Li virou-se para os senhores, perguntando a um deles. 'Quanto ele lhe deve?'
'Mais de cinco mil moedas.' O Senhor Hiko falou com a voz firme. 'E não vou descontar nem uma moeda.'
Syaoran observou os dois senhores e depois Eriol, que tinha o rosto desesperado.
'Sei que cometi alguns maus negócios, mas tenho meios de conseguir saldar a dívida, porém, não agora. Tenho terras, eu as vendo e lhe pago a dívida, Yamato. Por Deus, ajude-me neste momento.' Apelou jogando assim sua última cartada, venderia as jóias de Tomoyo, as obras de arte, hipotecaria a casa, tudo para não ir para a cadeia.
'Suas histórias tristes, não irão lhe livrá-lo da cadeira, Hiiraguizawa. Dívida é coisa séria.' O oficial falou com o tom ameaçador.
Sakura observava a tudo em silêncio. Porém logo sentiu o marido a puxando para fora do escritório. 'Vá para o seu quarto.' Ordenou fechando a porta. A jovem ficou parada em frente a ela. Franziu a testa e pensou que não havia como ficar de fora. Colou o ouvido na porta, esquecendo-se das lições de etiqueta que tivera quando pequena.
Li caminhou devagar pelo escritório deliciando-se com aquele momento. Há anos desejava toda noite, ver Eriol rastejando-se aos seus pés e agora ali estava ele. Mas isso era pouco ainda, ele merecia muito mais, pensou maldosamente. Ainda não tinha atingindo o seu alvo principal. Seu coração. Enquanto Tomoyo não fosse sua amante, teria que esperar até o ato final.
'Pagarei a dívida dele, não se preocupe. Amanhã pela manhã, mandarei uma pessoa de confiança lhe entregar a quantia, ou se prefere tenho como transferi-la para sua conta, senhor Hiko.'
'Desculpe-me, senhor Urameshi. Sei que não tem nada a ver com isso e só quer ajudar um amigo, mas prefiro que seja em dinheiro. Entenda que nestas condições não é fácil confiar apenas em sua palavra.'
'Nem eu quero isso. ' Li falou com um sorriso. 'Mas quero que me passe as notas promissórias de Hiiraguizawa. Agora ele ficará devendo apenas a mim.'
'Obrigado, Yamato. Deus lhe pague.' Eriol soltou apertando a mão do homem que considerava sua tábua de salvação.
Li afastou-se de Eriol e caminhou até a porta, assim que a abriu viu Sakura e lhe lançou um olhar em fúria por flagrá-la xeretando seus assuntos. A jovem afastou-se constrangida. 'Minha esposa os acompanhará até a saída.' Falou para os senhores que caminharam até ele e apertaram sua mão, selando o compromisso antes de saírem.
'Acredito que agora está tudo certo, oficial.'
'Sim, senhor Urameshi. Perdoe-me vir incomodá-lo, mas Hiiraguizawa falou que o senhor era sua única salvação, então...'
'Não é necessário suas desculpas, senhor. Eu que agradeço pelo seu incômodo de vir até aqui resolver problemas de um devedor.' Li soltou com deboche.
Sakura fitou-o assustada, via um brilho estranho nos olhos do marido, um brilho frio e cortante, bem diferente do brilho que ela viu nos belos olhos âmbares quando eles se amaram. Ele estava mais adiantado em sua vingança do que ela poderia pensar. Por fim acompanhou a contra gosto, os senhores. Quando voltou encontrou Yamazaki parado em frente à porta olhando-a sério. 'Foi ele que mandou que ficasse aí, não?'
'É muito feio ouvir a conversa dos outros, senhora. Principalmente de vosso esposo.'
Ela bufou um pouco antes de subir para seu quarto com passos pesados. Yamazaki riu com gosto vendo-a subir a escada com o rosto emburrado.
A ruiva entrou no quarto tirando as roupas, precisava de um bom banho para tentar relaxar. Perdeu a tarde inteira, num estúpido chá, com as senhoras casadas de Tomoeda. Uma tarde inteira de fofocas e assuntos inúteis. Suportou a tudo, lembrando-se a cada minuto do que o marido fora capaz de fazer com ela durante todas as noites passadas. Mandou Rika preparar seu banho, pois precisava com urgência tentar recuperar as energias e afastar aquele insuportável calor de Tomoeda.
Entrou na água perfumada e inclinou a cabeça apoiando-a na beirada da banheira de porcelana, provavelmente vinda da Europa, como a maioria dos móveis da mansão. Soltou um suspiro, pensando que o marido estava avançado em sua missão de vingança. Pelo que entendeu, já estava com Eriol nas suas mãos, agora pelo que conhecia dele brincaria de gato e rato até dar o bote fatal. Sentiu um calafrio ao penar nisso.
'Ele pagou pelo seu crime. Morreu na prisão.' Prisão? Li havia sido levado para uma prisão. Franziu a testa lembrando-se das cicatrizes que havia sentido nas costas do esposo. Demônios. Ele sabia que ela era louca por ele. Tampou o rosto com a mão sorrindo ao lembrar-se de como ele fora maravilhoso.
'E eu que pensava que era apenas abrir as pernas.' Soltou, rindo da sua inocência e ignorância sobre o assunto.
Novamente as lembranças da luxúria compartilhada, haviam feito com que desviasse a linha de seu pensamento. Syaoran era perigoso, e o motivo da vingança não estava claro. Era óbvio que Tomoyo tinha uma parcela nisto, mas começava a desconfiar que não era apenas questão de uma disputa amorosa. Li tinha experiência suficiente para conquistar uma mulher como Tomoyo. Franziu a testa pensando em como a mulher fora burra em trocar Li por Eriol. Pelos Deuses! Era como comparar água e vinho!
'A não ser que foi por dinheiro.' A conclusão saiu de seus lábios. Mas Li tinha tanto conhecimento sobre outros países e línguas que algumas vezes havia imaginado que ele fora um nobre. 'Talvez antes de ir para a prisão.' Concluiu novamente, meneando a cabeça para o lado e cerrando os olhos, e apoiando a cabeça em seus joelhos que estavam flexionados a sua frente. Teria que arrancar isso depois com Yamazaki. O braço direito de Li com certeza sabia disto. Respirou fundo inalando o perfume suave.
'Tenho que ter cuidado... muito cuidado.' Soltou para si jogando a cabeça para trás ainda de olhos fechados.
'Realmente, senhora.' A voz de Li falou ao seu ouvido fazendo a jovem abrir os olhos, assustada. Ergueu o corpo virando-se para trás e vendo-o parado admirando-a. 'Deve ter muito cuidado.'
'O que está fazendo aqui? Não tinha negócios a tratar com o senhor Hiiraguizawa?' Perguntou observando o marido tirando as roupas. Sentiu as bochechas novamente esquentarem e virou-se para frente.
'Já tratei tudo com o senhor Hiiraguizawa. Mas pergunto-me onde a senhora estava durante todo o dia?' Ouviu-o questionando.
'Fui à cidade. Esperava que eu ficasse o dia inteiro na cama a vossa espera?' Comentou com um tom de ironia.
Syaoran sorriu. 'Talvez.' Respondeu entrando na banheira e encarando-a de forma profunda. Sakura abaixou os olhos fitando os joelhos que estavam fora da água quando sentiu a aproximação do esposo. 'Mas é bom ter cuidado.' Advertiu-a. 'Não admito mais dividir o que é meu.' Foi a última coisa que falou antes de envolvê-la em seus braços e beijá-la.
*~*~*
'E então?' Tomoyo perguntou, levantando-se do sofá onde esperava ansiosa pelo marido. 'Ele saldou suas dívidas?'
Eriol jogou a capa, a cartola e a bengala no sofá ao lado sem encarar a esposa. Soltou um longo suspiro, deixando a bela morena em cólicas de curiosidade.
'Anda, Eriol! Diga-me! O senhor Urameshi saldou suas dívidas? Ou pelo menos parte delas?'
'Ele pagou... tudo...' Disse por fim.
'Tudo?!' Repetiu como se não acreditasse. 'Então...'
'Isso mesmo, Tomoyo. Estamos nas mãos dele agora.'
A jovem soltou um gritinho de alegria e alívio ao saber. 'Estamos salvos!'
Eriol, no entanto, não compartilhava da mesma alegria que a esposa. Era verdade que estava aliviado, e muito, por Urameshi ter saldado suas dívidas que eram muitas, mas isso agora significava que estava nas mãos dele, literalmente. Em um estalar de dedos, Yamato poderia enviá-lo para a cadeia. Um calafrio percorreu a espinha do nobre.
'Vou me deitar.' Anunciou caminhando em direção à escada, para alcançar o quarto deixando a esposa sozinha com sua estúpida felicidade. Tomoyo estaria feliz apenas em saber que não voltaria para a pobreza em que foi criada, antes de se casar com ele. Virou-se rapidamente observando-a ainda soltando gargalhadas e chamando Urameshi de pato. Voltou seu caminho em direção ao quarto. Entrou, acendendo uma vela, iluminando o elegante cômodo. Sentou-se na beirada da cama, tirando a gravata e desabotoando a camisa, enquanto observava fixamente a chama da vela, que balançava de forma graciosa como se estivesse dançando para ele.
Logo seus pensamentos foram até Sakura. Aquela mulher era como uma deusa. Perfeita. Nunca havia conhecido uma mulher como ela. Sakura tinha a classe digna de uma rainha, os cabelos cacheados e ruivos moldavam seu rosto de anjo, a pela clara e suave.
'E o perfume...' Concluiu em voz alta fechando os olhos. Era como se ela emanasse um perfume natural de seu corpo. 'Sakuras...'
Um sorriso bobo foi desenhando em seus lábios. Há alguns dias atrás, por pouco não a enlaçou pela cintura, e a beijou. Era isso que ela queria também, sabia disto, sentia isto. Abriu os olhos e levantou-se com um entusiasmo que até aquele momento não tinha. Apenas as lembranças, ao lado daquela doce dama já fizeram seu humor e ânimo melhorarem.
Que inveja tinha de Yamato em tê-la todas as noites ao seu lado. 'Se tivesse uma mulher daquelas não saíria da cama e não a deixaria sair nunca.' Jamais Tomoyo chegaria aos pés dela. Já havia desistido de acreditar que a esposa seria uma dama inglesa. Tomoyo sempre seria a mesma filha de pescador metida a conhecer algumas "coisas chiques" como ela gostava de falar.
Franziu a testa olhando para a noite, a única maneira de ter Sakura entre seus braços seria saldando sua dívida com o marido dela, assim não ficaria mais nas mãos dele ou se livrando do esposo, aí então...
'Ela será minha.'
*~*~*
Sakura estava com as costas apoiadas no peito do marido. Ainda estavam na banheira descansando dos momentos intensos que passaram juntos. Tinha os olhos fechados enquanto ouvia apenas a respiração de Syaoran. Sorriu de leve.
Sentiu o rapaz se mexendo, e afastou-se um pouco para saber o que ele estava fazendo, viu-o pegar de dentro de suas roupas um cigarro, e o acender numa das velas que estavam por todo cômodo iluminando.
Observou-o dar uma longa tragada e soltando um suspiro de alívio. Ele virou-se para ela e a chamou com a mão para que voltasse a ficar apoiada a ele. Sakura não disse nada, apenas fez o que ele pediu, silenciosamente. Era maravilhoso sentir o corpo dele colado ao seu, sem nenhuma barreira. Acomodou-se melhor, sentindo uma das mãos ásperas acariciando de leve seu corpo, enquanto a outra provavelmente estava com o cigarro que ele fumava lentamente.
'Não sabia que fumava.' Falou quebrando o silêncio.
'Às vezes. ' Ele respondeu. 'Importa-se?'
'De maneira alguma.'
Voltaram a ficar em silêncio. Sakura fechou novamente os olhos, estava cansada e o que mais queria, era apenas adormecer nos braços dele.
'Andei pensando...' Syaoran começou fazendo a jovem abrir os olhos e prestar atenção. 'Assim que eu finalizar tudo por aqui terei que partir.'
Ela sentiu um leve aperto no peito, mas tentou disfarçar. 'Falta pouco mais um mês para o prazo finalizar. '
'Isso mesmo. Tenho que cuidar dos meus negócios, não gosto de deixar as coisas tanto tempo nas mãos de outros.' Falou antes de dar uma longa tragada. Sakura ficou em silêncio, esperando-o continuar. 'A mansão ficará em seu nome e eu enviarei todo mês uma quantia razoável para você.'
Sakura franziu a testa não gostando do que ele havia falado. Afastou-se dele novamente, virando-se para encará-lo. 'Uma pensão?'
Syaoran deu uma tragada no cigarro que quase estava terminando. 'Isso mesmo. Assim não será obrigada a se casar com ninguém depois que eu partir.'
'E por que está sendo tão generoso? Nosso acordo se restringia apenas sobre a mansão. E pelo que me lembre, foi bem difícil convencê-lo a aceitar meu preço.'
Ele sorriu de lado. 'Nosso acordo também não dizia nada em relação ao que acabamos de fazer. E às várias outras vezes.'
Sakura desviou os olhos dele, balançando de leve a cabeça. 'Isso só aconteceu por que eu quis, não precisa me pagar pelos meus serviços como se eu fosse sua concubina.'
'Sua língua é afiada demais, senhora. Apesar de ser deliciosa.' Ele rebateu admirando-a. 'Se você vê as coisas desta maneira, irá me facilitar.' Sakura levantou os olhos encarando-o. 'Não quero dividí-la com mais ninguém.' Falou com o rosto duro.
'Não me trate como um objeto.' Falou levantando-se indignada, porém o rapaz jogou o cigarro no chão e a pegou pelo pulso puxando-a para perto dele.
'Você é minha agora, só se deitará comigo, está me ouvindo?'
Ela sorriu de forma irônica. 'Gosta de exclusividade, não?'
'Se algum homem se aproximar de você eu mato, e se insistir eu a tranco dentro deste quarto para sempre.' Ameaçou.
Sakura arregalou os olhos. 'Não tem este direito. Não é por que abri as pernas para o senhor que lhe dei o direito sobre mim.'
'Ter direito ou não nunca foi minha preocupação.'
'Esqueci-me que estou falando com um pirata violento e arrogante.'
'E esqueci-me que estou falando com uma nobre puritana da alta sociedade japonesa, pois se comporta na cama como a mais experiente das prostitutas.'
'Está a me insultar.' Revoltou-se debatendo-se para que ele a soltasse e conseguiu. Saiu apresada da banheira, caminhando nua até o quarto quando o sentiu novamente, segurá-la pelos braços com força.
'Você é minha.'
'Solte-me... eu odeio você. Tenho nojo de você.' Disse debatendo-se.
'Nojo? Seus gemidos me convenceram do contrário, senhora.'
Ela parou de se mexer e o encarou com o rosto sério. 'Irá continuar com esta estúpida vingança, não é?'
'Não é estúpida. Você não sabe nada da minha vida.'
'Sei o suficiente.'
Ele riu de forma sarcástica. 'Repito. Você não sabe nada.'
'Acha que não sei que marcas são estas em suas costas?' Ela perguntou de repente. Li soltou seu braço desfazendo o sorriso. Sakura sorriu de lado. 'Acha que eu não senti na ponta dos meus dedos suas costas, senhor? Ou acha que sou ingênua o suficiente para achar que são unhadas de suas amantes?'
Li engoliu a seco permanecendo em silêncio. Realmente houve um ingênuo, e este foi ele, por achar que ela não repararia. Sakura sentiu-se vitoriosa percebendo que o deixara sem reação.
'Sou um pirata e...'
'Não insulte a minha inteligência!' Interrompeu-o sabendo que contaria uma mentira. 'Já deveria ter percebido que não sou como estas menininhas bobas que com meia dúzia de palavras bonitas, você as leva para cama.'
'O que está querendo insinuar?' Ele perguntou com o rosto mais sério do que nunca. Mas isto não a intimidou, Sakura continuou a encará-lo nos olhos.
'Isso são marcas de chibatadas.' A jovem reparou que o marido arregalou os olhos de leve mas permaneceu em silêncio. 'Esteve na prisão, não foi?' Perguntou aproximando-se dele e deliciando-se ao reparar que o assustava com o que sabia. 'Ficou quanto tempo lá, senhor Li? Um ano? Dois? Ah não... o senhor me falou quando me obrigou a casar-me com você... Dez! Dez longos anos na prisão. Não foi?'
'Como descobriu isto?' Li perguntou franzindo a testa. 'Dormiu com Hiiraguizawa e depois ele resolveu contar que o amigo dele morreu na prisão sendo torturado? Riram às custas do que EU sofri?!' Gritou na cara da garota fazendo-a recuar com medo. Ele a pegou pelo braço.
'Claro que não!' Sakura respondeu tentando livrar-se da mão de ferro. 'Em sua mente doentia, acha que eu me deito com todos os homens de Tomoeda!'
'E não é isso que os nobres fazem? Deitam-se com todos que podem? Não respeitam nada nem ninguém.'
'Se eu me deito ou não com quem quer que seja isso não lhe interessa.' Sakura falou com a voz firme. 'Não venha me cobrar fidelidade se o que mais faz é deitar-se com outras mulheres, principalmente com a senhora Hiiraguizawa.'
'Eu lhe pago...'
'O senhor me paga para fingir-se sua esposa na frente dos outros. Fingir que estou apaixonada. Fingir que o amo. Preparar eventos para que o senhor possa ficar em destaque na sociedade. Agora, o senhor NÃO me paga para deitar-me com o senhor. EU é que faço isso com você por que EU quero!' Falou tudo de uma vez, deixando-o desnorteado pela interrupção. Puxou o braço e empurrou-o forte afastando-se dele. 'Agora saia do meu quarto! Não o quero mais aqui.'
Li pegou as roupas largadas no chão e caminhou até a porta que separava os dois quartos. Abriu e olhou para Sakura que estava firme. 'Falou como uma prostituta.'
'Já lhe disse que mulheres possuem desejo, senhor Li.' Ela falou com um sorriso irônico nos lábios. 'Pois é apenas isso que o senhor desperta em mim, desejo e pena.'
Ele caminhou até ela, dando-lhe um forte tapa no rosto, que resultou na queda da jovem ao chão. 'Agora, sente desejo e ódio.' Falou de forma baixa antes de caminhar de volta ao seu quarto.
Sakura continuou sentada no chão, passou uma das mãos nos lábios e sentiu sangue entre os dedos. O forte tapa, provavelmente resultou um corte nos lábios. 'Irá se arrepender disto, pirata.'
Continua.
Notas da autora:
Diretamente a 1500m do litoral brasileiro para todo mundo o capítulo 11 de Pétalas de Fogo! Hehehe
Obrigada a Rô, pela revisão caprichada deste capítulo!
Agradeço a todos pelos review e emails sobre esta estória. Pensaram que as coisas se tornariam as mil maravilhas entre Sakura e Syaoran depois do final do capítulo 10???? Vocês estão se esquecendo que estão lendo um fic da louca da Kath Klein?! As coisas só vão se complicar mais!!!
Beijocas
Kath
