NARUTO NÂO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! XI

Hinata gritou. Não pretendera fazê-lo; fora tolice, e só provocara o urso ainda mais. Mas não pudera evitar, pois entrara em pânico ao ver o animal enorme investir contra ela e arrancar-lhe os cachorros-quentes das mãos com uma única patada. Até sentira suas garras selvagens lhe roçarem os dedos ao se apoderarem das salsichas.

Um segundo depois, Sasuke entrou na perua através da porta atrás dela, tendo nas mãos um pedaço de lenha em chamas da fogueira. Hinata não pudera ver-lhe o rosto, mas a tensão que o dominava era visível nos contornos dos músculos de seu corpo. Ele subiu no banco traseiro, colocando-se entre ela e o urso.

Foi só então que se deu conta de que Sasuke viera salvá-la! Uma deliciosa sensação de segurança a invadiu. Ele a protegeria. Nenhum mal a atingiria enquanto ele estivesse ali.

O urso rosnou, mas Sasuke golpeou-o no focinho com o galho em chamas.

— Dê o fora daqui! Saia! — gritou, empurrando a arma contra o peito do animal.

O urso reagiu, surpreso e furioso, e avançou, apesar das chamas. Mas Sasuke voltou a se impor:

— Afaste-se! Dê o fora do acampamento! — Ele estava tão furioso quanto o animal, mas nem um pouco atemorizado.

Por fim, o urso se deu por vencido. Pondo-se de pé abruptamente, bateu a cabeça maciça contra o teto da perua e, em seguida, foi saindo de costas, sempre fustigado por Sasuke.

Mesmo depois que o animal caiu sobre o pára-choque do veículo e chegou ao chão, Sasuke não relaxou. Continuou a investir contra a criatura peluda, mata adentro, por quase cinqüenta metros.

Hinata continuou a tremer, mesmo depois que Sasuke e o urso desapareceram de vista. Estava perplexa com a coragem e a força demonstradas por Sasuke. Permaneceu dentro do carro até que ele voltasse ao acampamento e colocasse o pedaço de lenha incandescente de volta na fogueira. Em estado de choque, ela ofegava e queria chorar, mas não conseguia.

— Hinata? — sussurrou Sasuke, tomando-lhe as mãos e pressionando o rosto contra o seu. — Você está bem?

Ao ser tratada com tanto amor, ela sentiu todo o terror que sentira se desvanecer. Seu pulso agora se acelerava por alívio, e não por medo. Num gesto instintivo, puxou-o de encontro ao próprio corpo, ao que ele não se opôs.

— Oh, Sasuke, estou tão feliz por ter você aqui — sussurrou, abraçando-o. — Não sei o que faria sem você.

Ele se ajoelhou na perua de teto baixo e fez com que ela o imitasse.

— Sempre vou estar por perto quando você precisar de mim, Hinata — prometeu, com a voz abafada junto a seus cabelos. — Não importa o que aconteça, sempre estarei disponível para você. Nunca se esqueça disso.

Ainda tremendo, Hinata afastou o rosto e fitou-o nos profundos olhos escuros. De repente, percebeu que desejava mais de Sasuke do que aquele abraço fraterno... do que aquele conforto platônico.

Sem poder resistir, tocou-lhe gentilmente a face, maravilhada com as novas sensações que a invadiam. Seus rostos estavam tão próximos que ela poderia tê-lo beijado na boca quente e convidativa. Contornando-lhe o bigode com as pontas dos dedos, cogitou por que nunca o acariciara daquela forma.

— Sasuke, eu...

— Mãe! — gritou Boruto , amedrontado.

— Tia Hinata, você está bem? — outra vozinha se manifestou.

— Pai, você foi ótimo! Nunca imaginei que fosse tão corajoso!

— Mamãe, diga alguma coisa! Diga que está bem!

— Ele machucou você?

Confusa, Hinata parou de olhar para Sasuke e se voltou para as crianças preocupadas que, uma após outra, invadiam a perua.

— Eu estou bem — garantiu. — O urso não me machucou. Seu pai... tio Sasuke... conseguiu pô-lo para correr.

— Você foi o máximo, tio Sasuke! — exclamou Boruto , sem conter a admiração. — Espere só até eu contar para Bobby Roland na escola! Ele vive dizendo que o pai dele é um valentão!

— Está bem, já chega — interveio Sasuke, por fim, dispensando os elogios. — Eu só fiz o que qualquer um teria feito. Tenho certeza de que, se eu tivesse ficado encurralado na perua, tia Hinata teria feito o mesmo por mim.

Era a primeira vez desde o início da viagem que Sasuke se referira e ela como "tia Hinata" ao falar com os filhos. A recuperação do velho título honorário deu-lhe novas esperanças. Mas, ao sair do carro e ver a desordem em que o urso deixara o acampamento, não pôde deixar de reclamar:

— Ah, maldito urso! Eu tinha arrumado tudo direitinho!

Num gesto solidário, Sasuke envolveu-lhe os ombros com um braço e apertou-os por um instante. Hinata apreciou o contato, de uma maneira que nunca sentira antes, e lamentou quando ele a soltou e começou a recolher os utensílios.

— Não fique chateada, Hinata — Sasuke a consolou. — Os ursos fazem parte da aventura de um acampamento. As crianças vão ajudar você a arrumar as coisas de novo, enquanto Himawari e eu montamos a outra barraca, está bem? Vai se sentir melhor depois do jantar.

Sasuke estava certo. Hinata relaxou bastante ao se deitar para dormir, principalmente depois que ele colocara uma pedra da fogueira embrulhada em jornais dentro de seu saco de dormir, a fim de aquecer-lhe os pés. Ele também lhe emprestara a lanterna para que pudesse ler antes de adormecer. Graças a tantas atenções, ela teve uma boa noite de sono.

No dia seguinte, logo cedo, no entanto, voltaram a enfrentar problemas. Hinata descobriu que se esquecera de levar pão, abridor de latas e uma panela grande. Superados os contratempos, entretanto, todos se puseram em marcha pela mata, como faziam sempre que acampavam em Yosemite. No meio do passeio, Boruto ficou impossibilitado de caminhar por causa de bolhas nos pés e Sasuke teve de carregá-lo por meio quilômetro. O garoto crescera muito no último ano e suas botas ficaram apertadas. Para completar, Sarada levou uma ferroada de abelha e se lamuriou por causa disso durante todo o resto da caminhada.

Mas Sasuke se mantivera alegre e bem-humorado todo o tempo, incentivando as crianças a catar as pinhas pequenas que viam pelo caminho. Foi só depois do jantar que Hinata desconfiou que os seis estavam planejando alguma coisa às escondidas dela, pois Sasuke a mandou buscar água várias vezes sem necessidade, só para que ela se afastasse.

— Pronto, Hinata. Pode vir agora — anunciou ele, finalmente, depois de realizar vários preparativos com a ajuda das crianças.

— Venha logo, mãe! — apressou-a Boruto .

Assim que Hinata se aproximou do grupo risonho, todos os seis começaram a cantar um espirituoso e desafinado "Feliz Aniversário". A mesa fora coberta com uma toalha de papel e enfeitada com um vaso de plástico cheio de flores campestres recém-colhidas. Sasuke, o mentor da manifestação, presenteou-a com um buquê montado com pequenas pinhas e sempre-vivas, colhidas durante a caminhada. Embora o arranjo não se parecesse nem um pouco com o de orquídeas que ela recebera através do entregador, era de uma beleza única, em sua rusticidade. Ela o adorou.

Usando um grande alfinete de segurança, Sasuke pregou o buquê de pinhas no velho blusão que ela usava e, dando um sorriso genuíno, declarou:

— Feliz aniversário, Hinata. Espero que neste ano você consiga tudo o que deseja.

Confusa e emocionada pelo gesto, ela sentiu as lágrimas começando a brotar.

— Obrigada, Sasuke — disse, acariciando as pinhas. — Mas o meu aniversário é só no mês que vem...

— Eu sei, Hinata — ele concordou. — Mas é que posso estar ocupado demais para comemorar na época certa. — Fitando-a nos olhos, lembrou: — E eu prometi que faria uma bela festa de aniversário para você este ano.

Sasuke fora sutil, certamente com o intuito de não alarmar as crianças quanto à "separação" próxima. Esforçando-se ao máximo para não chorar, Hinata murmurou:

— Você é muito bom para mim, Sasuke.

Ele a beijou no nariz, como sempre fazia com Sarada, depois riu e se afastou, exclamando:

— Eu sei! Mas vocês sabem o que sempre digo: a vida não é justa, mas...

— ...é engraçada! — completaram todas as crianças, a uma só voz. Em seguida, orgulhosas da própria inteligência, elas começaram a dar gargalhadas enquanto Sasuke lhes distribuía os bolinhos que levara em segredo para servir de sobremesa.

Hinata tocou o delicado buquê de pinhas e fitou Sasuke com carinho. Lembrou-se, então, do que sentira por ele quando estavam a sós na perua, na noite anterior. Se tais sensações passassem a acometê-la com freqüência, não era de todo impossível que ambos estivessem destinados a se unir no futuro...

Sasuke soltou um suspiro de alívio quando a peça "Esta é sua vida, Hinata Hyuuga" finalmente se encerrou. Na história escrita por Himawari, ele fora o palhaço, o que o esgotara fisicamente. Mas valera a pena: Hinata ainda ria quando pôs as crianças para dormir, mais tarde.

Ele se oferecera para lavar a louça naquele dia, por ser o do aniversário dela, embora fosse alérgico a tarefas domésticas, em geral, e à lavagem de louças, em particular. Mas tinha dois bons motivos para abrir uma exceção: fazer Hinata feliz e distrair-se, para não ficar pensando nela. Se tivesse que passar mais uma hora sorrindo, rindo e fingindo que aquela viagem estava sendo uma maravilha, acabaria ficando louco ou, pior ainda, gritando com Hinata.

— Oh, Sasuke, não precisa lavar a louça! — ela exclamou, ao sair da barraca onde acabara de acomodar os dois garotos. — Não é meu aniversário! Além disso, você e as crianças já prepararam o jantar.

— Nada disso! — ele replicou. — Eu disse que lavaria a louça e vou lavar. Vá para a cama; o dia foi cheio.

Contrariando-o, Hinata se sentou numa pedra grande próxima à fogueira e se inclinou para mais perto das chamas.

— Já que não vai me deixar ajudar, tenho a obrigação de ficar e fazer companhia enquanto você trabalha — resolveu. — Já fazia tempo que não tínhamos a chance de conversar em paz, ao redor de uma fogueira de acampamento.

Amargurado, Sasuke lembrou que, depois daquele fim de semana, não teria mais noites tranqüilas com Hinata para ampará-lo. Quantas vezes não assistiram à televisão juntos, ou simplesmente leram livros diferentes em cantos opostos do mesmo sofá, sem trocar uma palavra entre si? Ambos já haviam sido casados de tantas maneiras e por tanto tempo que ele não podia aceitar que ela não sentisse a força do laço que os unia.

— Sempre me lembro de Sakura quando acampamos — murmurou Hinata, com o olhar fixo nas chamas da fogueira. — Ela tinha certeza de que ia odiar acampar da primeira vez que viemos. Só concordou em vir porque eu prometi que ficaria com ela, quando você e Naruto fossem caminhar na mata.

Sasuke só pôde partilhar um sorriso com Hinata. Aquela era uma das boas lembranças que guardavam. Bem-humorado, lembrou:

— Mas bem que ela passou à frente de todo mundo na trilha!

Hinata riu e reconheceu:

— Bem, você e Naruto estavam carregando bebês nas costas; não é de admirar que estivessem cansados!

Longos minutos se passaram em silêncio. Ambos pareceram mergulhar em seus próprios pensamentos e lembranças. Sasuke acabou de enxugar a última panela à luz da lanterna e foi se sentar ao lado de Hinata, sobre a pedra grande. As outras eram pequenas demais e não comportavam adultos.

— Já esqueceu Naruto? — indagou, com a intimidade que a velha amizade entre eles permitia. — Não está mais sofrendo por causa dele?

Hinata refletiu por alguns momentos antes de responder:

— Sim, acho que sim. Quando fui buscar as crianças na semana passada, ele acenou para mim da janela e eu pensei: "Oh, é o pai das crianças. Espero que todos tenham passado uma boa temporada". — Ela sorriu, satisfeita por ter superado a dor do divórcio. — É claro que na hora eu estava... bem, com outro homem na cabeça.

Sasuke se irritou com o leve tom frívolo com que ela falara. Enrijecendo-se, afastou-se e declarou:

— Prefiro não falar de Kiba Inuzuka nesta viagem, se não se importa. Eu nunca falei de meus encontros na sua frente com esse tom exibido.

— Sasuke! — Nervosa, ela o puxou pelos ombros, obrigando-o a encará-la. — Eu estava falando de você! Mal consegui pensar em outra coisa durante toda a semana!

Ele balançou a cabeça e olhou para a fogueira.

— Hinata, nós fizemos um acordo. Minha obrigação nesta viagem é fingir que estou me divertindo; a sua é não fingir que mudou de idéia.

Ela estava tornando tudo cada vez mais difícil. Na noite anterior, depois que ele afugentara o urso, ela praticamente se atirara em seus braços... e não apenas porque estava precisando de conforto. Quase o beijara na boca... E o teria feito se as crianças não tivessem aparecido. Na hora, ficara surpreso demais para protestar, mas agora a lembrança do ocorrido deixava-o zangado.

— Sasuke, nós todos estamos nos divertindo tanto nesta viagem — ela afirmou entristecida. — Está me dizendo que... é tudo fingimento da sua parte?

Hinata tinha o rosto tão belo à luz das chamas, Sasuke pensou. Nunca lhe parecera tão sedutora. Seus grandes olhos brancos brilhavam de emoção; seus lábios macios e carnudos se mantinham entreabertos, como num convite a um beijo. Se aquela fosse outra mulher, e não Hinata, ele poderia jurar que estava tentando seduzi-lo.

Num movimento brusco, ele se voltou para a fogueira e começou a alimentá-la de lenha, providenciando o suficiente para que o fogo durasse a noite inteira. Sabia que não seria desperdício, pois estava certo de que não conseguiria dormir. Era preferível ficar admirando as estrelas a ficar esfregando o nariz contra o zíper do saco de dormir, na tentativa de arrancar Hinata do pensamento e então repousar.

— Hinata, sei que gostaria de pensar que minha vida está atada à sua e à de seus filhos — respondeu, por fim. — Mas é que, no momento, estou com problemas que me impedem de me divertir.

Ele não estava mentindo. A explosão ocorrida em Red Rock preocupava-o demais. Como investigador, rejeitava a hipótese simplista de que uma válvula defeituosa causara o acidente, o que reduziria a quase zero as possibilidades de que ainda houvesse perigo. Por outro lado, Kiba Inuzuka era esperto demais para ter-se deixado enganar por Caldwell, no caso de esse funcionário ter operado uma fraude. Estava cada vez mais difícil acreditar na inocência de Kiba.

Lembrando-se das responsabilidades profissionais de Sasuke, que não eram poucas, Hinata percebeu como fora mesquinha ao pensar que poderia exigir toda a atenção dele só para si e as crianças. Arrependida, indagou:

— Ainda não conseguiu descobrir o que aconteceu na refinaria?

— Por enquanto, não.

— Você prometeu que me explicaria tudo, assim que tivesse oportunidade.

Ele a fitou nos olhos. Fizera aquela promessa séculos atrás, minutos depois de ela ter conhecido Kiba Inuzuka. Agora que suspeitava de que ele tinha aceitado suborno, não estava certo de poder confiar em Hinata; ela podia estar confusa. Mas ele sempre lhe contara tudo. Ela já estava se mostrando contrariada por ver sua hesitação em partilhar os pensamentos.

— Esta não é uma boa hora, Hinata.

— E que hora poderia ser melhor? Já fazia muito tempo que não ficávamos sozinhos, Sasuke. E, pelo jeito que você está falando, vai levar um bom tempo até ficarmos de novo.

Hinata acabara de citar uma verdade inevitável. Sasuke decidiu pôr fim àquela farsa: não poderia passar todas as noites a sós com Hinata, junto à fogueira. Num movimento brusco, levantou-se e foi até a mesa. Em seguida, pegou a lanterna grande e colocou-a ao lado de Hinata.

— Hinata, vou dar uma volta agora... sozinho. Gostaria que você fosse para a cama e lesse. Não quero dividir esta fogueira com ninguém, quando voltar.

Ele não falara em tom de zanga, mas Hinata reagiu como se tivesse sido esbofeteada. A surpresa transparecia em seus imensos olhos perolados fracamente iluminados; neles também havia lágrimas que nada tinham a ver com a fumaça da fogueira.

Então, Sasuke se agachou ao lado dela e fitou-a. Em tom baixo e pausado, justificou:

— Hinata, quer queira, quer não, você está tornando minha vida um inferno. Se tem um pouco de consideração por meus sentimentos, por favor, vá para a cama e me deixe sozinho. Já é duro sorrir o tempo todo quando as crianças estão presentes; não posso representar quando estou sozinho com você também.

Ele a tocou no rosto, com ternura. Sabia que estava cometendo um erro, mas não podia resistir. Depois de afastar-lhe um fio de cabelo dos olhos, contornou-lhe o queixo delicado.

— Hinata... — sussurrou. — Você não pode nem pensar em me provocar esta noite. Eu estou por um fio.

Sasuke não esperou que ela respondesse. Não queria correr o risco de se perder naqueles brilhantes olhos que o fitavam com mágoa e desalento. Levantou-se abruptamente, pegou uma lanterna pequena da perua e saiu a passos largos mata adentro.

Caminhou sozinho ao luar por mais de uma hora. De vez em quando, olhava para as estrelas e declarava a elas o amor que sentia por Hinata. Sem poder evitar, imaginava o mundo vazio para o qual voltaria na segunda-feira. Assim que chegasse a Coltersville, telefonaria para Temari e insistiria na catalogação da casa para venda. Se ela tentasse demovê-lo da decisão mais uma vez, chamaria outro corretor. Não suportaria ficar separado de Hinata apenas por uma cerca, nem mais um mês.

Com a dolorosa decisão tomada, sentiu um grande alívio que perdurou pelo último meio quilômetro de caminhada de volta ao acampamento. Mas, no instante em que avistou o local em que se haviam instalado, foi tomado de pânico.

A barraca de Hinata estava em chamas.