Harry não sabia direito o que prevalecia em seus sentimentos: se era a raiva, a indignação, a surpresa ou o choque. Queria entender por que sempre que estava bem e feliz, acontecia algo em sua vida que tornava as coisas tão complicadas. Queria entender por que que sua vida era tão cheia de segredos e mistérios. Essa repentina descoberta de que sua irmã estava viva mudava muita coisa na vida de Harry, afinal, a alguns minutos atrás pensava que toda sua família estava morta. Ele não podia negar o fato de que tinha um lado bom nessa história, porém se sentia plenamente traído e enganado, e isso doía nele. Doía tanto que ele estava sentado, no chão frio do banheiro, com as lágrimas escorrendo sem parar em seu rosto. Harry só queria ficar ali, pensando no que tinha acabado de acontecer, porém levou um susto quando ouviu a porta se abrir revelando um Draco Malfoy distraído. Foi só quando Harry falou que ele percebeu a presença dele.
- O que você quer Malfoy? – Harry disse secamente.
- Não é meio obvio, Potter? – Malfoy disse irônico e olhou para Harry. Foi só quando encarou o menino que percebeu que alguma coisa estava errada. Harry tinha os olhos vermelhos e cheios de lágrimas, e sentiu um leve aperto em seu peito ao ver aquela cena. – Está tudo bem?
- Não é meio obvio? – Harry repetiu a frase de Malfoy. – Não, não está tudo bem.
- Isso tem a ver com aquela menina? – Draco perguntou em um tom curioso, para tentar esconder sua preocupação. Sabia que a chance de ele receber a resposta era quase nula, mas decidiu ariscar, pois ver Harry daquele jeito realmente mexia com seus sentimentos.
Harry demorou um pouco para responder. Poderia muito bem expulsar Malfoy do banheiro, dizer que queria ficar sozinho e que ele não tinha nada a ver com a vida dele, porém, por mais estranho que poderia parecer, naquele momento Harry percebeu que não queria que Malfoy fosse embora. Olhou para o menino por alguns segundos e respondeu:
- Aquela menina é minha irmã. – Harry enfim falou e Draco olhou ele em choque. Os olhos de Harry se encheram de lágrimas de novo, fazendo com que ele escondesse o rosto em seus joelhos.
Draco engoliu em seco e sem pensar duas vezes foi se sentar ao lado do garoto. Sua vontade era de abraçar Potter e dizer que ia ficar tudo bem, mas não o fez. Afinal, não era um grifinorio, não tinha coragem para tanto. Por mais que o choro de Harry quebrava seu coração em mil pedaços, Draco ficou apenas seu lado sem fazer nada, esperando o momento que ele iria expulsa-lo do banheiro. Porém, esse momento nunca chegou.
- Mas... mas sua irmã está morta, como isso é possível? – Malfoy então arriscou quebrar o silencio, com um pouco de esperança que Potter se abrisse com ele.
- Todos pensávamos que ela estava, mas ela escolheu viver longe. – Harry falou com os olhos ainda brilhando por causa das lágrimas. – Ela sim teve a opção de viver toda essa loucura ou não, e ela escolheu abandonar sua própria família... me abandonar. – Harry desabafou
- Tente ver o lado dela também Potter... se você tivesse a opção talvez você também teria ido viver longe. – Draco falou com a voz tranquila, para Harry perceber que ele não estava o atacando.
Harry ficou olhando para Draco durante alguns segundos, refletindo sobre isso. Sim, talvez Harry tivesse ido viver longe, mas também sabia que ele nunca iria abandonar a família dele.
- Sabe... as vezes tenho inveja dos meus amigos. – Harry enfim falou – Eles tiveram uma vida normal na medida do possível. Tiveram uma infância, família... enquanto eu vivi na casa dos meus tios que me odiavam, passei minha adolescência sendo perseguido e tendo minha vida por um fio, várias vezes. Com o fim da guerra pensei que tudo ia ser normal, finalmente. Fui um otario por pensar que teria sossego na minha vida. – Harry parou por um minuto e então caiu na real. Estava desabafando sobre sua vida para Draco Malfoy, quão patético aquilo era?
- "Mas bom... você não vai entender. Na verdade, deve estar me achando um idiota agora. " – Acrescentou.
- Não que eu não te achasse um idiota antes, Potter. – Draco falou e Harry bufou. – Mas eu realmente te entendo.
Harry olhou para Malfoy, esperando alguma piada, ironia ou sarcasmo, mas então se deu conta que o loiro estava falando sério.
- Potter, eu sou filho de comensais da morte, e eufui um comensal da morte com 16 anos. Eu sei o que é desejar ser uma pessoa que eu não sou, desejar que as pessoas não tivessem tomado certas decisões por mim. Eu sempre quis uma vida normal, mas sinceramente, acho que passando pelo que nós passamos, nossa vida nunca vai ser "normal. " – Draco falou e Harry sentiu uma estranha identificação com Malfoy. Ouvir Malfoy falando "nós" era incrivelmente agradável aos ouvidos de Harry. Talvez o ódio que ele sentia pelo garoto fez com que Harry fosse incapaz de ver a semelhança entre eles durante todos esses anos.
- Talvez, mas isso é uma droga. – Harry falou suspirando.
- Sim, mas não quer dizer que ela não possa ser boa. – Draco falou sorrindo, chamando a atenção de Harry. Foram poucas as vezes que viu Draco Malfoy sorrindo, e desejou que o garoto fizesse isso mais vezes. Notou também o quanto que os lábios de Draco eram rosados e bonitos. Draco percebeu que Harry o olhava com atenção, diretamente para sua boca, e isso causou arrepios em sua espinha. Coisas nada inocentes se passavam pela cabeça dele, por mais que ele tentasse ignorar.
Ambos saíram de seu transe quando ouviram a porta se abrir. Snape levantou a sobrancelha ao ver a cena de seu afilhado sentado ao lado de Potter, ambos com cara de quem acabaram de ver uma assombração.
- O que? Estão tentando se matar outra vez no banheiro? – Snape perguntou ironicamente. O recordo da luta do sexto ano fez o estomago de Harry revirar. Odiava esse episódio, e tinha certeza que Malfoy também.
- N-não padrinho. Só estávamos conversando. – Malfoy falou e Harry assentiu em confirmação.
- Conversando, vocês dois? Essa é nova. – Snape zombou. – De qualquer modo, vamos embora Draco.
Os dois garotos se levantaram, Draco lançando um olhar de "fique bem" para Harry, antes de sair pela porta. Antes de fazer o mesmo, Snape se aproximou de Harry.
- Potter... Ah, hm, não vá fazer nada que se arrependa. Perdoar de vez enquanto é a melhor coisa a se fazer. – Lançou lhe um olhar sugestivo e saiu, deixando um Harry estuporado no banheiro.
Severo Snape tinha acabado de lhe dar um conselho sincero, sem um pingo de ironia e sarcasmo, talvez até mandando uma indireta sobre a relação dos dois e Draco Malfoy tinha sido estranhamente agradável com ele. O que estava acontecendo com os sonserinos? (E com ele mesmo, levando em conta que ele reparou o quanto Malfoy era atraente e charmoso).
