Capítulo 11

- Eu não faria isso, se fosse você – Edward aconselhou, aparecendo na sala no segundo seguinte à partida dos fantasmas.

- Faria o quê? – perguntei confusa, sentando mais relaxada no sofá agora que a parte ruim tinha passado.

- Falar para Laura que Carlisle vai gostar dela ir embora pode não ser algo bom.

- Por que não? Ela gosta dele. Vai fazer o que ele quiser.

- Sério, Suze, às vezes eu acho que você não entende nada de relacionamentos. – Arqueei uma sobrancelha para ele, que meneou a cabeça e suspirou, sentando ao meu lado no sofá. – Como você reagiria se soubesse que a pessoa de quem você gosta quer te ver bem longe?

- Ora, eu... – Ok, talvez isso não fosse tão legal. – Acho que eu não pensei por esse lado.

- Percebi.

- E o que eu falo para ela então?

- Não sei. Chame-a aqui. Teste-a. Veja o que ela quer.

- Você acha mesmo que ela vai me dizer exatamente o que quer?

- Por que não? Você mesma não disse que sempre há esses subornos no seu trabalho? Um favor em troca da partida?

- Eu não disse isso, espertinho. Eu pensei. E continua sendo bem desagradável ter você na minha mente, ok?

- Se eu não tivesse te contado, Suze, você nem saberia. Não tem como ser desagradável. Você nem sente.

- É invasão de privacidade.

- Isso é – ele concordou com um sorriso divertido.

- E você não faz nada para controlar.

- Claro que não. É divertido.

- Você é um pervertido. Fica estuprando a minha mente.

- Não seja tão dramática. Não é nada como um estupro – ele retrucou, se inclinando um pouco na minha direção, lentamente fazendo com que eu ficasse deitada no sofá, com seu corpo gelado e duro por cima. – Eu consideraria mais uma longa e prazerosa noite de amor, onde os dois lados não sentem nada de desagradável. Afinal, você não está sentindo dor alguma, está?

- Idiota! – murmurei, não conseguindo falar no tom firme que pretendia.

- Eu posso te garantir que eu estou adorando essa noite de amor, Suze.

- Se isso fosse uma noite de amor, Edward – devolvi, conseguindo falar mais firme depois de respirar fundo – eu estaria fazendo outros sons. Sons nem um pouco parecidos com os que estou fazendo agora. Algo que não implicaria com nós dois discutindo.

- Isso pode ser contornado facilmente.

O roçar suave dos lábios macios e gelados sobre os meus deteve a resposta mal-educada estava na ponta da minha língua. E quando a língua dele deslizou pelo meu lábio inferior, eu já nem lembrava mais qual era a resposta. E depois disso, quando sua língua pediu passagem entre os meus lábios, indo de encontro com a minha língua, eu sequer lembrava meu nome.

Era a primeira vez que ele me beijava. Edward já tinha flertado, beijado, lambido e chupado meu pescoço, tocado meus seios enquanto praticávamos o voyeurismo, mas nunca, em momento algum, ele tinha me beijado.

E beijar Edward não era nada, nem perto, do que eu poderia imaginar.

Aquilo deveria ser proibido. Deveria ser lacrado, jogado dentro de um cofre e o cofre lançado na parte mais funda do oceano, num lugar onde nenhum humano poderia encontrar.

Digo apenas uma coisa: beijar um vampiro era como a morte. Mas o tipo de morte que eu não me importaria em morrer mais mil vezes.

Fazia o coração parar de bater, apenas para no segundo seguinte disparar num ritmo alucinado, como se tentasse rasgar o peito. Fazia o ar faltar, mas não sabia se isso era culpa da boca dele que devorava a minha com urgência, ou se era minha por simplesmente esquecer de respirar.

Naqueles poucos minutos que duraram o beijo, eu não conseguia pensar em mais nada a não ser beijar Edward de volta, agarrando sua nuca com força, amassando seus cabelos entre meus dedos, sentindo sua mão deslizar pela lateral do meu corpo, até o quadril, e então para a minha coxa e joelho, puxando uma perna para rodear a sua cintura.

E quando ele soltou um pouco do seu peso sobre o meu e eu percebi que não era a única que estava gostando demais daquilo tudo, finalmente o som que não tinha nada a ver com discussão escapou da minha boca.

- Problema contornado – ele murmurou roucamente contra a minha boca.

- Eu... Eu acho que ainda temos um problema aqui – falei num tom muito baixo, ainda segurando seus cabelos na altura da nuca para não permitir que ele se afastasse.

- É? E que problema seria esse? – ele perguntou, beijando o canto dos meus lábios.

Em resposta, eu apenas arqueei meu quadril em direção ao seu, friccionando nossos sexos, e foi a vez dele praticamente rosnar contra a minha boca.

- Tem razão – Edward gemeu, repetindo o movimento. – Um problema muito grave.

- Aham.

Sua boca cobriu a minha mais uma vez num beijo sôfrego, enquanto sentia sua mão muito gelada se infiltrando na minha blusa, tocando minha barriga com uma delicadeza quase reverente.

Lentamente Edward começou a erguer a peça, expondo cada vez mais meu corpo, e a sua mão ia acompanhando todo o percurso, me deixando em chamas. E foi nesse instante, quando eu prendi a respiração antecipando seu toque sobre os meus seios mais uma vez, que eu senti uma presença.

Edward provavelmente deve ter sentido o mesmo através do seu dom, porque parou de me tocar, abaixando a blusa novamente até que eu estivesse composta.

Abri os olhos e o encontrei me observando com a expressão de desejo frustrado, sabendo que a minha expressão não estava muito diferente.

- Acho que temos visita – ele murmurou, ainda sem sair de cima de mim.

Girei o rosto para o lado e me deparei com Laura nos encarando com o olhar divertido, sentada descontraidamente no sofá em frente ao que estávamos.

- Definitivamente.

O empurrei de leve pelos ombros e quase ri quando ele sentou rápido e puxou uma almofada para colocar no colo. Teria rido se não estivesse irritada com aquela fantasma por ter nos atrapalhado.

- Me disseram que você queria falar comigo – ela comentou ainda rindo. – Se soubesse que seria convidada para uma sessão de filme pornô ao vivo, teria trazido a pipoca.

Respirei fundo e sentei corretamente no sofá, terminando de arrumar a roupa que estava um tanto amassada.

- Estava mesmo querendo falar com você.

- Mas, ora, não se incomodem comigo. Podem continuar. Finjam que eu não estou aqui, ok?

- Não sei se seus pais te disseram, – falei, ignorando seu comentário – mas eu conversei com eles e...

- E os convenceu a sair da casa – ela completou me interrompendo. – Parabéns, mediadora. Tirou dois. Mas eu não vou sair, e tenho certeza que meus irmãos também não. E, para falar a verdade, duvido muito que meus pais saiam sem nós.

Pior é que ela estava completamente certa. Seus pais tinham mesmo falado que eles só sairiam se eu conseguisse convencer Laura a sair também.

- Você precisa entender, Laura, que não é saudável ficar nesse mundo. Você está morta e não pode...

- Quem você pensa que é para me dizer o que eu posso ou não? Eu estou morta, como você bem acabou de lembrar. O que significa que nada pode ficar pior. E eu não vou a lugar algum.

E então ela sumiu.

- Que merda! – exclamei, pulando do sofá e comecei a andar de um lado para o outro. – Não acredito que vou ter que recorrer ao exorcismo por causa de uma fantasma mimada.

- Esse é o único meio? – Edward perguntou, ainda sentado no sofá.

- De que outra forma eu vou conseguir fazer com que eles saiam, Edward? Pedindo não vai ajudar, como você viu bem.

- É, mas talvez você possa conversar um pouco mais. Não tem tanta pressa assim.

- Amanhã é domingo, esqueceu? Tenho que voltar para casa.

- Mas você falou que poderia voltar outros dias. Outros finais de semana.

Parei de andar e encarei Edward, mas não consegui decifrar a sua expressão que estava exageradamente neutra.

- Acho que você leu a minha mente naquele momento e sabe bem que eu estava mentindo.

Edward apenas deu de ombros e desviou o olhar do meu, passando a observar a paisagem através da janela.

O que era isso? Era impressão minha, ou Edward estava querendo que eu voltasse?

E foi só eu pensar nessa hipótese para ele voltar a me encarar, dessa vez sem a máscara da indiferença no olhar. Mas quando ele falou, não tinha nada a ver com a transparência no seu olhar que dizia claramente que ele queria mesmo que eu voltasse.

- Sabe o que eu estava pensando? – ele perguntou com um meio sorriso.

- Claro que não. Diferente de você, eu não leio pensamentos.

- O que eu quis dizer foi que eu tive uma idéia – ele falou com um sorriso maior. – Quer ouvir?

- Manda.

Andei de volta para o sofá e sentei de forma a ficar de frente para ele. E quando ele imitou o meu gesto e também ficou de frente para mim, eu pude ver pelo seu sorriso que Edward estava tramando algo.

- Gostei da sua idéia de Carlisle falar com Laura.

- Mas você disse que ela não iria gostar de ouvir que Carlisle quer se livrar dela. E eu concordo com isso.

- Estou falando apenas da idéia dele conversar com ela. O assunto seria outro. – E então Edward me explicou no que ele tinha pensado.

As chances daquilo dar certo eram poucas, mas no momento não tínhamos outra opção. Se corresse tudo bem, eu poderia estar fazendo minhas malas ainda essa noite. Do contrário, eu teria um exorcismo para preparar.

- Pronto. Carlisle estará aqui dentro de dez minutos – Edward informou depois de explicar tudo a Carlisle e desligar o celular.

Sabia que a presença do médico seria fundamental para o plano dar certo, mas ainda não sabia bem como iria me comportar na sua presença.

- Relaxa, Suze. Se você não comentar nada, Carlisle também não o fará – Edward falou com a voz calma, sentando de forma mais relaxada no sofá. – E tenho certeza de que ele está muito mais constrangido com tudo isso do que você.

- Duvido muito – resmunguei, soltando o ar pesadamente. – O que ele fez foi involuntário. Eu fiquei observando propositalmente.

- Nós ficamos observando – Edward corrigiu, sorrindo abertamente. – E foi bom, não foi?

- Indecente. Ele é o seu pai.

- Não era o meu pai que estava nos meus braços. E não era nos pensamentos, nas sensações dele que eu estava concentrado. – Sua voz ficou mais baixa e levemente rouca, fazendo um arrepio percorrer meu corpo. – Não era com ele que eu estava pensando em repetir aquelas cenas, no meu quarto. Enquanto você observava os dois, pequena voyeur, eu estava apenas com você.

- Vo-você estava observando – pigarreei quando minha voz tentou falhar, antes de continuar – observando os dois através da minha mente.

- De fato. Mas apenas para saber quando deveríamos parar – ele concluiu com uma piscadela, e ficou em pé, usando minha coxa como apoio para levantar.

O detalhe é que eu sabia que Edward jamais precisaria de apoio para levantar e eu sabia que ele só tinha feito aquilo para me provocar. Afinal, mesmo se ele precisasse de apoio, não precisava ter tocado tão para cima, muito menos apertado os dedos na parte interna da minha coxa.

E tanto isso foi completamente proposital que, quando ele se voltou para me encarar, um sorriso muito perverso estava estampado nos seus lábios.

- Não vai chamar Clícia? – ele perguntou ainda sorrindo com uma sobrancelha arqueada.

- Clícia? – Quem? Onde? – Ah, claro.

Chamei Clícia na minha mente e ela logo aparecia ali.

- Chamou?

- Preciso de um favor – falei sem rodeios.

- Manda.

- Você disse que sabe mais sobre aquela bolha que Laura cria.

- E eu sei.

- Tem como você criar uma bolha para trazê-la aqui e fazer com que ela fique?

- Posso tentar – ela respondeu com um meio sorriso, mas algo no seu olhar dizia que ela iria fazer aquilo e adoraria cada momento. – Mas você não vai exorcizar ela, vai?

- Não. Só quero conversar.

- Ok. Só me diz quando e eu a trago.

- Te aviso quando estiver tudo pronto.

Assim que ela sumiu novamente, Carlisle entrou na sala e eu tentei a todo custo não corar. Mas não era algo que dava para controlar.

Ele, sem dúvida, percebeu que eu não estava exatamente à vontade ali, mas não falou nada. Nem mesmo quando eu engasguei ao tentar falar "oi" e fui sentar de cabeça baixa.

Edward sentou ao meu lado, deixando Carlisle sentar à nossa frente, e eu já ia agradecê-lo na minha mente por não me fazer sentar no mesmo sofá que seu pai, quando o energúmeno resolveu abrir a boca.

- Ela está um pouco sem jeito por ter te espiado na noite passada, Carlisle. Não liga para isso.

Bati nas suas costelas com o cotovelo, mas acabei ganhando apenas uma dor absurda no braço e gargalhadas dele.

- Não ligue para o meu filho, Suze – Carlisle pediu num tom calmo, encarando Edward como se quisesse matá-lo, mas quando seu olhar caiu sobre o meu, estava amoroso. – Ele às vezes esquece que já nasceu há mais de um século e se comporta como um adolescente entrando na puberdade.

Foi a minha vez de rir alto, para infelicidade de Edward, que fechou a cara para mim e para Carlisle.

- Então – Carlisle continuou quando eu comecei a me acalmar – Edward disse que você quer que eu fale com Laura e peça para ela ir embora.

- É. Bem, foi idéia dele, mas eu acho que pode dar certo. Mas você teria que tomar cuidado com o que fala. Se ela sentir que você está expulsando-a, ela pode se irritar ainda mais.

- Mas por que eu? E como eu vou falar com ela, afinal?

- Bem, eu estaria com vocês – respondi sentindo meu rosto corar novamente. – Serviria como intérprete. E acho que, no momento, ela só ouviria você, Carlisle.

- Verdade – Edward apoiou, colocando um braço sobre os meus ombros, me puxando para perto dele. – É óbvia a preferência que ela tem por você. Nós dois vimos isso na noite passada.

- Edward! – eu e Carlisle exclamamos juntos e Edward voltou a rir.

- Tudo bem. Eu falo com ela – Carlisle falou por fim. – Quando será isso?

- Agora mesmo se estiver tudo bem para você – falei tentando me desvencilhar dos braços de Edward, mas a minha força diante da dele era inútil. – E você, cai fora, Edward.

- De jeito nenhum. Eu vou ficar.

- Para ficar soltando gracinhas? Não mesmo. – Ainda continuava tentando me afastar, mas ele não deixava. – Vaza!

- Vou me comportar.

- Edward, ela está certa – Carlisle falou, parecendo fazer um esforço tremendo para não rir. – Não é hora de brincar.

- Já disse que vou me comportar – ele insistiu, parando de brincar comigo, mas manteve um braço sobre o meu ombro.

Bufei irritada, desistindo de tentar sair dos braços dele, e me concentrei em Clícia, pedindo para que ela trouxesse Laura até nós.

Demorou cerca de dois minutos, os três ali na sala já impaciente, quando ela finalmente apareceu, praticamente arrastando uma Laura bastante irritada.

- Me solta, seu projeto de fantasma! – ela gritava irritada, tentando se soltar de Clícia.

Apenas eu e Edward reagimos com a aparição das duas, já que Carlisle não conseguia vê-las, mas ele percebeu que alguma coisa estava diferente quando Laura, na tentativa de escapar, bateu em um jarro de flores e o derrubou no chão, fazendo vidro e água se espalhar pelo tapete macio.

Carlisle teve que pular para longe do sofá para evitar ser atingido pela água e foi só nesse instante que Laura se deu conta da presença do médico naquela sala. E então ela parou.

Eu olhar estava fixo nele, observando-o olhar ao redor a procura dos causadores daquele incidente, mas, obviamente, Carlisle não via nada.

- O que ele está fazendo aqui? – Laura perguntou ainda sem desviar o olhar dele.

- Carlisle quer falar com você – respondi.

Carlisle então olhou para mim e aproveitou a deixa.

- Sim, Laura. É verdade. Nós precisamos conversar.

- A sós? – ela perguntou esperançosa, seus olhos brilhando intensamente.

Que fantasma pervertida!

- Preciso ficar para servir de intérprete – falei, tentando manter a voz neutra.

Ela me encarou de cima a baixo como se olhasse para algo muito insignificante e então deu de ombros.

- Pode ser, mas os outros não precisam ficar.

Mais uma pequena discussão se deu depois dessa exigência da fantasma, e concordamos em deixar Edward e Clícia de fora da conversa quando Laura garantiu que não ia a lugar algum, já que ela tinha total interesse em conversar com o médico. Depois de reclamar um pouco, Edward e Clícia saíram da sala, mas eu tinha certeza que eles ficariam ao lado da porta ouvindo tudo.

Queria só ver como Edward se comportaria ao lado de uma fantasma que ele não via e nem ouvia.

Passamos a meia hora seguinte numa completa perda de tempo, com Carlisle pontuando as mesmas coisas que eu já estava cansada de falar para essa família de fantasmas, e eu traduzindo todas as respostas de Laura, e todas elas eram diferentes, mas com o mesmo significado: ela não sairia.

- Então eu vou embora – Carlisle falou, parecendo bem cansado de tudo aquilo. – Se vocês querem tanto que a minha família vá embora dessa casa, então nós vamos.

- Não! – Laura exclamou apressada. – Eu não quero que você vá.

- Ela está dizendo que não quer que você vá – traduzi para Carlisle, não passando para ele que Laura tinha levantado e agora estava bem perto dele.

- Mas se é a única forma de fazer com que vocês sigam em frente, então é o que farei – ele falou firme. – Minha família não será responsável pela infelicidade de outra família. E se, para isso, nós tenhamos que ir embora, então nós iremos.

- Diz para ele que eu não quero que ele vá embora – Laura pediu me encarando com o olhar aflito.

- Eu já disse, Laura. Ele já sabe que você não quer que ele vá.

- Eu sei – Carlisle concordou, olhando ao redor tentando ver a fantasma que agora estava sentada no tapete à sua frente. – Mas eu estou disposto a fazer o que estiver ao meu alcance para resolver essa situação.

Como se uma luz tivesse se acendido na sua mente, Laura se aprumou, encarando o médico agora com o olhar divertido e levemente assustador.

- Qualquer coisa? – ela perguntou olhando apenas para ele.

- Ela está perguntando se você faria qualquer coisa – traduzi novamente, não gostando nada do tom que Laura usava.

- O que estiver ao meu alcance – Carlisle respondeu sem titubear.

- Então eu quero passar uma noite com você.