O Salão Nobre fazia jus a seu nome. Sakura já havia considerado a sala de jantar e seu quarto extravagantes, mas nada se comparava à sala do trono. Era enorme, mesmo considerando o tamanho do palácio. Três cores dominavam o lugar: preto, branco e roxo. O chão, as paredes e o teto da catedral eram todos feitos do mesmo mármore negro e imaculado do exterior da construção. Assim como a plataforma em que uma espécie de trono parecia ter sido esculpida na pedra, cujo branco etéreo ela não conhecia. No altar, ao lado do trono, havia uma mesa alta e estreita, feita da mesma pedra leitosa e, sobre a mesa, repousava um elmo de prata que lhe pareceu estranhamente familiar.
Sakura estudou e percebeu que já o tinha visto antes. Era o elmo que fora estampado na bandeira pairando sobre o palácio, que adornava o uniforme dos cavalariços e que brilhava à luz das velas com uma beleza sobrenatural.
Obrigou-se a tirar os olhos do elmo para analisar a outra cor predominante no salão, o roxo, a qual vinha das dezenas de lustres e arandelas de parede, todos feitos de uma pedra cintilante que ela logo reconheceu: a ametista.
Sakura hesitou no limiar da sala, intimidada por sua austera grandeza. De repente, sentiu-se pequena, insignificante e muito, muito mortal.
- Aconteceu alguma coisa, Sakura? – Hinata perguntou.
Ela respirou fundo. Era uma deusa, lembrou a si mesma. Mesmo que temporária.
- Não, querida, nada está errado. Estou apenas admirando o salão. – Sorriu para a pequena alma da moça.
- Ah, aí vem Sasuke – falou Naruto.
O deus do Submundo entrou no Salão Nobre por uma porta no lado oposto. Suas sandálias douradas tocavam o chão de mármore com determinação, e, ao observá-lo, Sakura sentiu o batimento cardíaco se igualar a seus passos. Sasuke vestia seu manto, e este voejava às suas costas, acentuando as linhas fortes de seu corpo. Sua túnica parecia negra a princípio, mas, conforme a luz dos candeeiros a tocou, o tecido cintilou como a asa de um corvo, com reflexos de roxo e azul-royal. Seu cabelo estava solto e caía em uma espessa cortina negra ao redor dos ombros largos.
Sakura sentiu o estômago se contrair. Sasuke tinha a mandíbula cerrada e o rosto sombrio. Transpirava tanta masculinidade que ela precisou se esforçar para não torcer o próprio cabelo, nervosa.
Ele galgou os degraus da plataforma em uma passada, virou-se e estava prestes a se sentar quando percebeu as três figuras de pé sob a entrada, do outro lado do salão. Seu olhar encontrou o de Sakura e o sustentou.
- Sakura – saudou, inclinando ligeiramente a cabeça sem desviar os olhos dos dela. – É uma honra receber a Primavera no Salão Nobre.
Sakura engoliu, desejando que sua boca não estivesse tão seca.
- Obrigada, Sasuke – agradeceu, satisfeita por sua voz soar forte e clara. – Sou eu quem fica honrada com seu convite.
- Junte-se a mim, por favor – ele incitou. Então, quebrando o feitiço que unira seus olhos aos dele, Sasuke voltou a atenção para o daimon. – Naruto, providencie uma cadeira para a deusa.
- Agora mesmo, senhor. – Naruto chamou por cima do ombro, e seguiu-se uma comoção. Dentro de instantes, servos espectrais carregavam uma delicada cadeira esculpida em prata para juntá-la ao trono de Hades.
Sakura adentrou o salão. Podia sentir os olhos do deus sobre ela e ergueu o queixo, altiva. Hinata a havia ajudado com o novo vestido, e ela se viu satisfeita por a seda violeta que tinha escolhido combinar com a cor dos lustres de ametista que ardiam sobre suas cabeças, bem como com seus olhos, ainda que isso tivesse sido incidental. Naquela manhã, enquanto se vestia, fora atingida outra vez pela beleza imortal de Perséfone. E sabia que, independentemente do turbilhão que acontecia em sua cabeça, ela atravessava a sala com toda a beleza e graça de uma deusa.
Sasuke hesitou ao vê-la chegar ao altar. Então, com um olhar de soslaio para Naruto, foi a seu encontro. Quando ela subiu o primeiro degrau, ofereceu-lhe a mão, como fizera para ajudá-la a subir na biga, no dia anterior.
Bastou Sakura colocar a mão na sua, e o deus sombrio a levou devagar até os lábios.
- Espero que tenha dormido bem, senhora.
- Sim, obrigada – ela respondeu, tentando ignorar o modo como sua pele formigou ao toque dele e o jeito formal de chamá-la. Talvez ele devesse, afinal, iriam se encontrar com os mortos.
- Agrada-me ouvir isso – Sasuke falou.
Sakura sorriu e concordou. Sasuke parecia diferente naquele dia: mais poderoso e seguro de si.
E havia algo mais em seu olhar. Um magnetismo que ele parecia centrar inteiramente nela.
Ficar tão perto do deus do Submundo a fez sentir a força de sua presença, e Sakura viu-se um pouco intimidada... para não dizer feminina. Verdade que fazia muito tempo desde que tinha se visto às voltas com um homem tão alto e viril.
Lançou um olhar furtivo em sua direção enquanto ele a ajudava a subir os degraus e a conduzia até a cadeira.
Tudo bem. Possivelmente, ela nunca estivera ao lado de um homem como ele. Observou o modo como a capa de Sasuke girava em torno de seu corpo quando ele se virou para sentar-se a seu lado. Ele cumpria bem o seu papel de deus do Submundo.
- Hinata, não precisa ficar para trás. Pode ficar aqui, ao lado de sua senhora –Sasuke chamou a menina, que permanecera de pé sob a entrada.
Envergonhada por ter se esquecido da menina, Sakura sussurrou um rápido agradecimento para Sasuke conforme Hinata percorria o salão e subia os degraus do altar para tomar lugar ao lado da cadeira de Sakura.
- Podemos começar, como de costume, Naruto – ordenou Sasuke.
O daimon se curvou para o deus antes de desaparecer da sala.
- Naruto está indo para a frente do palácio. Uma vez lá, ele vai anunciar que estou pronto para as petições. Elas não vão demorar a chegar, você vai ver.
- Faz isso todos os dias? – Sakura perguntou.
- Não.
- Quantas vezes ouve os mortos?
- Sempre que sinto ser necessário.
- Ah. – Ela assentiu, pouco à vontade com as respostas curtas.
Sakura enrolou uma mecha de cabelo, e o pequeno gesto de desconforto fez Sasuke perceber que, mais uma vez, ele estava agindo como se fosse feito de pedra.
Dê uma chance à deusa. As palavras do amigo tocaram sua memória.
Ele engoliu em seco e se inclinou na sua direção.
- Posso sentir as necessidades dos mortos. Não que eu consiga ouvir seus sentimentos e desejos; é mais como se eu tomasse consciência de sua crescente inquietação. Sinto quando eles precisam de mim, e então abro o Salão Nobre para escutar seus apelos.
- Deve ser um dom incrível ser capaz de responder às necessidades das almas mortais.
Sasuke virou-se para poder fitar os olhos cor de violeta da deusa a seu lado. Seus rostos estavam muito próximos, e ele podia sentir o perfume doce e feminino que emanava dela.
- O fato de eu ser tão ligado aos mortos não lhe causa repulsa?
- Claro que não – ela afirmou sem preâmbulos.
Sasuke pareceu tão vulnerável de repente que Sakura teve o impulso quase irresistível de passar os dedos por seu rosto e tentar suavizar as linhas de preocupação que lhe vincavam a testa. Ao contrário, estendeu a mão e pegou a de Hinata. Apertou-a e sorriu para a pequena alma, que lhe sorriu de volta. – Alguns de meus melhores amigos estão mortos.
Os olhos de Sasuke se desviaram da moça para pousar em Sakura, e a esperança floresceu dentro dele com tanta intensidade que, mais uma vez, ele seu viu obrigado a pedir vinho com estardalhaço para disfarçar a resposta exagerada de seu coração.
No mesmo instante, os servos armaram uma pequena mesa a seu lado, e Sasuke pôde se recompor enquanto estes serviam o líquido dourado em duas taças de ouro.
Sakura agradeceu com um gesto de cabeça e tomou um gole.
Seu rosto se iluminou num lindo sorriso.
- É ambrosia! Isto é tão delicioso! Obrigada por ter pensado nisto.
Sasuke a fitou, fascinado. Por que Sakura era tão diferente? Ela não sentia aversão pelos mortos e obviamente gostava muito de Hinata. Até havia chamado a moça de "amiga"! E coisas com que a maioria dos imortais não se importava, como ambrosia e a opulência dos deuses, Sakura adorava, como se tudo fosse novo e interessante.
Ela era um enigma. Um enigma que ele estava começando a ansiar por resolver.
- Se lhe agrada tanto, terei de me lembrar de servi-la com frequência – Sasuke disse e ergueu a taça para ela.
Com um frio na boca do estômago, Sakura bateu sua taça contra a dele. O Sasuke formal que deixara abruptamente o jantar na noite anterior parecia ter desaparecido e fora substituído por um deus poderoso e charmoso naquele momento. Queria que aquilo durasse para sempre.
Sentiu o rosto e o corpo arderem. Os olhos escuros de Sasuke eram hipnotizantes. Meio perdida, Sakura desviou o olhar do dele e olhou ao redor do Salão Nobre, lembrando-se de respirar.
A luz dos candelabros iluminava o elmo de prata sobre a mesa do outro lado do trono. Tinha um brilho estranho que, de alguma forma, era difícil de focar.
Sakura sentiu o calor dos olhos de Sasuke e se voltou para ele.
- É um lindo elmo. Eu nunca vi um assim.
- Obrigado. Foi um presente do Ciclope – revelou Sasuke, satisfeito com o elogio.
Ciclope?, ela repetiu em pensamento. O sujeito com um olho só?
Ciclope é o monstro de um só olho que presenteou Zeus com raios e trovões, Poseidon com seu tridente e Hades com seu elmo.
Claro! Lina interrompeu seu monólogo enciclopédico interno. Fosse quem fosse o Ciclope, não estava com vontade de conversar sobre criaturas mitológicas com Sasuke.
Por isso fez o que qualquer mulher calma, centrada e madura faria: mudou de assunto rapidamente.
- O seu trono é muito incomum também. Não conheço essa pedra.
- É calcedônia branca – ele explicou.
- Ela tem propriedades especiais, também? – Sakura perguntou.
- Sim, ela expulsa o medo, a histeria, a depressão e a tristeza. Imaginei que fosse uma boa escolha para esta sala em particular.
- Concordo com sua escolha.
Sasuke virou a cabeça e se inclinou de leve em sua direção, quase juntando seus rostos novamente.
- Reconheceu a pedra colorida do salão?
- É a ametista.
- Ela é da mesma cor dos seus olhos, Sakura! – exclamou Hinata, alegre com a descoberta.
- Eu já havia notado – comentou Sasuke sem desviar o olhar do dela.
Sua voz soou baixa como uma carícia, e Sakura sentiu uma pontada na boca do estômago.
- Os mortos pedem para falar com seu deus! – a voz de Naruto carregou as palavras com autoridade pelo Salão Nobre.
Relutante, Sasuke desviou o olhar do dela, e Sakura tentou se recompor. Como poderia pensar no trabalho que tinha pela frente, com Sasuke a seu lado bancando o deus do Sexo?
Ela quase desejou que ele voltasse a agir como o imortal antipático de antes.
Quase.
Esperava que Perséfone estivesse tendo mais sorte em Tulsa, meditou, preocupada.
- Que entrem os mortos! – Sasuke ordenou com sua voz grave e poderosa.
Sakura viu quando Naruto empunhou a lança de prata de duas pontas que Sasuke carregara no dia anterior e, com um barulho que lembrava o de um trovão, a bateu contra o chão de mármore. Uma das sombras do lado de fora da entrada em arco estremeceu, em seguida adentrou o Salão Nobre. Tensa, Sakura observou atentamente conforme o espírito se aproximava do altar. Era uma mulher de meia-idade, e ela não vislumbrou nenhum ferimento em sua forma semitransparente. Na verdade, Sakura pensou, ela era bastante atraente. Tinha os cabelos presos em intrincadas tranças no alto da cabeça, tal qual uma coroa, e vestia várias camadas de tecido drapejado, que fluíam ao seu redor até que parou ao pé da plataforma. Curvou-se numa reverencia profunda, e Sasuke se manifestou:
- Pode subir, Steneboia.
A mulher endireitou o corpo, mas, ao reconhecer Perséfone, seus olhos se arregalaram e ela tornou a se dobrar em outra mesura.
- Sinto-me honrada com a presença da filha de Deméter – falou com uma voz doce e rouca, numa imitação barata de Marilyn Monroe.
- Levante-se, por favor – pediu Sakura, perguntando-se por que antipatizara de imediato com a alma da mulher.
Steneboia endireitou-se novamente. Após prestar-lhe o devido respeito, ignorou Sakura por completo, concentrando os olhos pintados de Kohl em Sasuke.
- Eu vim, Grande Deus, pedir para que permita que eu beba água do rio Lete e renasça para o mundo mortal.
Sasuke a estudou com atenção. Quando falou, Sakura percebeu que sua voz soava cheia de confiança e da autoridade típicas de um deus. Tanto que os pelos em seus braços se arrepiaram em resposta ao poder que emanava dele.
- É um pedido inusitado, Steneboia. Sabe que os espíritos dos suicidas raramente são autorizados a beber do Lete.
Sakura piscou, chocada. A mulher havia se matado? Por quê?
Steneboia baixou os olhos, recatada.
- E você sabe, Grande Deus, que eu não tinha a intenção de morrer.
O título "Grande Deus" foi dito quase como uma carícia.
Sakura sentiu o queixo cair. Steneboia estava flertando com Sasuke!
O espírito da moça fez um beicinho.
- Tudo não passou de um trágico acidente. Devo pagar por toda a eternidade?
- O que aprendeu enquanto percorria as margens do Aqueronte? – Sasuke perguntou abruptamente.
Steneboia fez uma pausa, parecendo organizar com cuidado os pensamentos. Quando tornou a falar, suas palavras soaram como um ronronar:
- Aprendi que fiz uma escolha imprudente, e não a repetirei, senhor do Submundo.
Os olhos de Sasuke se estreitaram e sua voz profunda soou cheia de desgosto.
- Então aprendeu pouco. Você desejou Belerofonte, um rapaz com a metade da sua idade e, depois que ele a rejeitou, mentiu a seu marido, afirmando que o rapaz tentara estuprá-la. Por sorte, Atena frustrou sua tentativa de matar o jovem. A deusa foi sensata ao dar Belerofonte à sua irmã mais nova. Ela era mais digna.
- Aquela ratazana sem graça não merecia Belerofonte! – A explosão de ódio de Steneboia torceu suas feições atraentes, e seu rosto tornou-se rijo e cruel.
Sasuke continuou como se ela não tivesse se manifestado:
- Você não tinha a intenção de se matar, eu sei. Pretendia apenas assustar a família e lhes causar tanta dor e tristeza que eles rejeitariam o arranjo de Atena e enviariam Belerofonte para longe.
Sua desgraça foi sua criada ter dormido demais e não tê-la descoberto até que tivesse sangrado além da salvação.
Os olhos de Steneboia desviaram para longe do olhar penetrante do deus e ela apertou a mão branca e delicada contra a testa, como se suas palavras a houvessem aborrecido.
- Vou fazer escolhas mais sábias em minha próxima vida – prometeu, ofegante.
- Onde está seu remorso, Steneboia? – Sasuke perguntou com voz grave. – Tentou manipular o amor com mentira e sedução. Nenhum amor pode sobreviver a um veneno desse tipo.
- Não entende! – O espírito da mulher começou a soar desesperado. – Eu o queria tanto! Ele também devia ter me querido. Eu ainda era bonita e desejável.
- O amor não pode sobreviver a tanto veneno – Sasuke repetiu. – A luxúria e o desejo são apenas uma pequena parte do amor. Mas isso é algo que ainda precisa aprender. – Ele sacudiu a cabeça, pesaroso. – Eu nego o seu pedido, Steneboia. Em vez disso, ordeno-lhe que retorne para as margens do Aqueronte, o Rio das Dores. Passar mais tempo lá talvez lhe permita abrir o coração para mais do que seus desejos egoístas. E não peça para vir até mim antes de outro século.
Steneboia abriu a boca em um grito mudo quando uma ventania soprou pelo salão e rodopiou em torno dela como um furacão em miniatura antes de apanhá-la e varrê-la para longe dos olhos deles.
Naruto levantou a lança para sinalizar a entrada de outro espírito, porém Sasuke ergueu a mão, impedindo o gesto, e voltou a atenção para Sakura.
- O que achou do meu julgamento? – questionou-a.
- Penso que foi muito sábio – ela respondeu sem hesitação. – Não conheço a história toda, mas, pelo que ouvi, Steneboia fez uma coisa terrível e, sem dúvida, não me pareceu arrependida. Contudo também me fez pensar uma coisa...
Sasuke acenou para que ela continuasse...
- Se ela bebesse do Lete esqueceria tudo da sua vida anterior?
- Sim – ele confirmou.
- E ela ainda seria o mesmo tipo de pessoa? Quero dizer, seria como se tudo fosse limpo, ou ainda existiria um resíduo de sua antiga personalidade?
- Excelente pergunta – comentou Sasuke com evidente satisfação. - Quando um espírito bebe do Lete, as lembranças são completamente apagadas, e a alma renasce no corpo de uma criança. No entanto, esta ainda pode manter algumas de suas antigas características. Em última análise, o corpo é apenas um invólucro; e a alma é que define o homem, a mulher, o deus ou a deusa.
- Então isso só reforça o fato de que você tomou a decisão sábia. Steneboia teria renascido apenas para fazer alguém infeliz.
- Ela baseou sua vida em mentiras, a maioria das quais revelou sua verdadeira natureza. Sua alma não ansiava por riqueza ou luxo, e sim por amor. Mas o amor não pode existir com mentiras e falsidades – disse Sasuke.
- É muito perspicaz sobre o amor – comentou Sakura, pensativa.
Sasuke fez uma pausa antes de proferir as palavras seguintes, e, quando parou, sentiu a esperança se agitar mais uma vez dele.
- Passei séculos estudando as almas dos mortos e por fim compreendi que o amor é uma emoção que os mortais conhecem infinitamente melhor do que os deuses.
Sakura piscou, surpresa. Os mortais conheciam o amor melhor do que os deuses?
Para uma mulher de 25 anos, que não tinha um encontro decente há tempos, aquelas palavras eram um choque.
- Acha isso mesmo? – ela perguntou, incrédula.
Sasuke viu sua esperança oscilar.
- Sim, é a pura verdade – afirmou antes de acenar para Naruto, que bateu o cabo da lança no chão novamente.
Sakura teve pouco tempo para refletir sobre a reação do deus do Submundo à sua pergunta. Sob o comando do daimon ela pôde observar uma mulher pálida percorrer, hesitante, o Salão Nobre. Estava vestida com roupas muito mais discretas do que Steneboia, porém seu traje parecia tão rico quanto o da outra mulher, e os cabelos escuros também tinham sido presos de forma semelhante. Uma pequena coroa circulava sua cabeça.
Conforme ela se aproximou, Sakura percebeu que se tratava de uma mulher obesa, porém atraente, de cerca de trinta e poucos anos.
Ficou chocada quando percebeu a mancha vermelha na parte frontal de suas vestes. Era uma ferida aberta que ainda pingava sangue.
A alma fez uma profunda reverência.
- Perséfone e Hades, sinto-me honrada em me curvar diante da deusa da Primavera e do senhor do Submundo.
A voz da mulher era forte e magnificente.
Sakura sorriu e inclinou a cabeça em boas-vindas.
- Saudações, Dido. O que a rainho de Cartago deseja? – indagou Sasuke.
- Hades, peço sua benção para que eu possa deixar a área da lamentação junto ao rio Cócito e passar para Elísia.
O deus estudou o espírito, pensativo.
- Já superou a dor de seu amor não correspondido, Dido?
A mulher baixou os olhos, não de modo dramático como fizera Steneboia, porém de uma forma que Sakura reconhecia muito bem. Baixou-os para esconder a dor que ainda refletia neles.
- Sim, Grande Deus. Parei de ansiar por aquilo que não posso ter.
Sakura se moveu na cadeira, irrequieta, e olhou para Sasuke. Certamente ele não acreditaria em Dido.
Sasuke passou a mão pelos cabelos e observou a rainha morta.
- O que aprendeu durante o tempo de lamentação?
- Que eu devia ter acreditado mais na força do amor. Devia saber que Eneias só precisava de tempo. Zeus ordenou que ele partisse. O que mais ele poderia fazer? Era um homem piedoso, um guerreiro de grande fé. Não foi sua culpa. Eu devia ter sido mais compreensiva, devia ter me disposto a... – Suas palavras se transformaram num soluço e ela cobriu o rosto com as mãos.
- Dido, ainda não superou seu lamento. – A voz do deus soou gentil.
- Superei, sim! – Dido ergueu o queixo e enxugou o rosto. – Estou apenas emocionada como uma criança por estar na presença de imortais. – Seus olhos brilhantes se desviaram para Sakura, numa súplica.
Sakura devolveu o olhar da mulher desesperada com simpatia.
- Eu lhe concedo o seu pedido, Dido. Pode adentrar Elísia com a minha bênção.
As palavras de Sasuke chocaram Sakura, e ela se viu encarando o deus do Submundo enquanto a exuberante Dido deixava, apressada , o Salão Nobre.
Naruto fez menção de levantar a lança e, mais uma vez, um só movimento de Sasuke o impediu de fazê-lo.
- Não concorda com a minha decisão, Sakura? - Ele se virou no trono de modo a ficar de frente para a deusa.
Sakura endireitou a espinha e encontrou seu olhar.
Você é uma deusa... Você é uma deusa...
Não!
Ela freou a ladainha. Mais importante do que isso era o fato de ser mulher. Uma mulher que, na vida real, já viu amores e rejeições... e por isso compreendia exatamente o que Dido estava sentindo.
- Não. Eu não concordo com a sua decisão.
Surpreso com a resposta, ele franziu o cenho.
- Poderia me explicar por quê?
- Dido não superou seu amor por Eneias. Ela continua ferida, no fundo do poço, e ainda se culpa. Dido ainda é uma vítima. Qualquer que seja a lição que deveria aprender no rio da Lamentação, esta ainda não surtiu efeito.
Sasuke sentiu a raiva borbulhar dentro dele. O que Sakura sabia sobre amor e perda? Era uma moça mimada, que sempre obtivera tudo aquilo que desejara.
- Como pode saber disso?
Os olhos de Sakura se estreitaram diante do tom condescendente, porém ela se conteve antes de dar uma resposta malcriada. Para Sasuke ela era apenas uma jovem deusa.
Respirou diversas vezes, lenta e profundamente, de modo a conter o próprio temperamento antes de iniciar sua explanação.
- Percebi detalhes importantes. Em primeiro lugar, o fato de Dido ter desviado o olhar e chorado foi uma prova contundente... com minhas desculpas pelo trocadilho ruim. Em segundo, você escutou o que ela disse? – Sakura prosseguiu, incontinenti, sem dar a ele nenhuma chance de resposta. - Seu discurso foi repleto de "eu, eu, eu" e "pobre de mim, mim, mim"... Adicione a parte "não é culpa dele, a culpa é minha", e terá uma vítima em potencial à sua frente. Dido não precisa ir para o paraíso, precisa ir a uma academia, ou talvez a uma psiquiatra, e trabalhar um pouco esse ódio de si mesma.
Sakura se calou, imaginando se Sasuke tinha alguma ideia do que fosse um psiquiatra.
Ele inclinou a cabeça para o lado e a fitou como se ela fosse um experimento científico interessante. Então fez algo que realmente a aborreceu: ele sorriu.
Depois riu.
Sakura apertou os lábios. Tentou encontrar sua própria voz, agora perdida na doçura de Perséfone, e foi recompensada por um tom de aço com uma ponta de sarcasmo:
- Pense, Sasuke. Esse Eneias, por exemplo. Aposto um dos seus candelabros de diamantes contra uma das coroas de ouro de Deméter que ele está em Elísia. E estamos falando da mesma Elísia para a qual Dido acabou de conseguir um passe. Também vou apostar que ele é um recém-chegado lá, o que motivou esse súbito interesse dela em ir para os Campos Elíseos.
A risada de Sasuke morreu, e seus olhos se estreitaram.
- Talvez a jovem deusa da Primavera queira mais do que apenas a oportunidade de observar e fazer comentários. O próximo julgamento é seu, Perséfone. E, em troca, o destino julgará se fez uma boa avaliação. - O Deus falou, em um tom irritado.
Sakura anuiu sem veemência, igualmente irritada, mas apenas uma palavra passou por sua cabeça: merda.
Naruto atingiu o chão de mármore com a lança de Sasuke, e esta entoou seu dobre fúnebre como se anunciando o fim dos tempos.
Desta vez não apenas uma, mas várias almas entraram pela porta e se aproximaram do altar.
Com o coração batendo forte, Sakura contou quase uma dúzia de espíritos e suas mãos suadas se agarraram aos braços da cadeira. Não seriam apenas um ou dois suplicantes solitários, mas toda uma horda deles. Eram mulheres de várias idades, e seus espíritos se encontravam em vários estados. Alguns deles pareciam quase tão substanciais na forma quanto o de Hinata, enquanto outros se mostravam tão transparentes que eram praticamente inexistentes.
Elas se moveram em grupo, como ovelhas assustadas, a princípio hesitantes e inseguras. Ao avistá-la na cadeira ao lado de Hades, deu-se uma visível mudança em seu comportamento. Elas perderam a timidez.
Conforme uma delas avançou, determinada, seus passos foram se tornando cada vez mais ansiosos conforme se aproximavam do altar. Quando estava ao pé da escada, ficaram em silêncio, olhando-a com indisfarçado fascínio.
Foi então que uma das almas, a mulher mais velha do grupo, pôs-se de joelhos e abaixou a cabeça. Imediatamente, o restante das mulheres seguiu seu exemplo.
Pelo que pareceu a Sakura uma eternidade, ninguém falou. Em seguida, a voz grave de Sasuke cortou o silêncio:
- Que solicitação trazem hoje?
A mulher mais velha levantou a cabeça. Respondeu a Sasuke, contudo seus olhos brilhantes não chegaram a deixar Sakura.
- Não temos nenhuma solicitação, Grande Deus. Viemos ver a deusa da Primavera, agradecer-lhe por responder às nossas orações. Estamos há muito tempo sem a presença de uma deusa. – A mulher acenou com a mão, e as outras, mais jovens, se puseram de pé e avançaram. Carregavam dentro das saias vários buquês de flores recém-colhidas, os quais colocaram aos pés de Sakura.
Sasuke observou tudo com uma sobrancelha curvada para cima. Permaneceu em silêncio, aparentemente fiel à sua palavra de permitir que ela lidasse com a situação.
Sakura engoliu em seco e obrigou as mãos a ficar presas aos braços da cadeira quando, no fundo, tudo o que queria era ficar mexendo nos cabelos. Ela era uma deusa, lembrou-se pela milésima vez, e deusas não enrolavam fios de cabelo no dedo. Ao menos não em público.
- Ora essa, isso tudo é uma grande surpresa. Fico feliz por terem vindo, e as flores são adoráveis. – Ela inclinou a cabeça para a pequena alma a seu lado. – Hinata vai colocá-las na água para mim, e eu vou cuidar bem delas.
As mulheres sorriram e cochicharam, felizes.
Sakura começou a relaxar. Elas pareciam estar muito bem-intencionadas. Nem mesmo um padeiro de Tulsa poderia estragar aquele momento.
- Não vai embora do Submundo tão cedo, vai, Perséfone? – perguntou a mais velha.
- Não – Sakura afirmou. – Não vou embora antes de seis meses, o que certamente não é "tão cedo".
As almas explodiram num alegre burburinho.
- Estamos tão satisfeitas, senhora! – recomeçou a mulher, porém suas palavras foram sumindo conforme um som incrível flutuou pela câmara.
Sakura piscou, surpresa, quando o som a envolveu. Música! E uma música linda.
Enlevada, ela escutou as notas que subiam e desciam como um complexo canto de pássaros. Conforme o som foi mudando, tornou-se mais fluido. Alguns deles eram como seixos rolando, suaves, sobre o leito de um riacho claro, outros caíam ao longo da margem de sua audição, e outros, ainda, cascateavam poderosamente, formando um tilintar ritmado.
- Naruto! – A voz de Sasuke invadiu a música, fazendo com que Sakura franzisse a testa. Por que ele não ficava quieto?
- Meu senhor, eu não...
O daimon foi interrompido quando o músico entrou no Salão Nobre. Ele caminhou em direção ao altar, e o grupo de mulheres se repartiu ao meio para que ele passasse.
Sakura o estudou, ainda espantada com a bela música que o rapaz produzira. Ele era um rapaz jovem, de aparência comum, e tocava uma pequena harpa de madeira folheada a ouro. O ouro se refletia em seu cabelo e no fino tecido que lhe cobria o corpo, deixando nu um dos seus ombros morenos e musculosos.
Ele continuou a espalhar a magia que vinha da harpa conforme se aproximava do altar. Cantarolava uma melodia alegre, e Sakura ficou surpresa ao notar que sua atenção não estava dirigida a Sasuke ou a ela. Seus olhos brilhavam para um ponto à sua esquerda.
- Por que um homem vivo se atreve a entrar no Submundo? - A voz de Sasuke interrompeu a música, silenciando-a.
Sakura sentiu um choque de reconhecimento. Não admirava que ele lhe parecesse tão normal. Estava vivo.
- Quem é você? – travejou Sasuke.
A resposta veio da pequena alma à esquerda de Sakura.
- Ele é Kiba... meu marido.
E aí galera! Depois de um longo tempo, aqui estou com uma nova atualização!
Eu particularmente gosto desse capítulo, há muita troca de olhares e o Sasuke ficando altamente intrigado com as atitudes que Sakura tomou, totalmente inesperadas por ele. hahahahaha
E o que será que essa chegada do Kiba vai significar pra Hinata, hm?
Elektra Black: Bem, deve demorar ainda pra Sakura voltar a ser ela mesma. E o que vai acontecer é o maior mistério dessa história. hahahahaha! Fico feliz que esteja gostando e espero que goste também desse capítulo!
Andressa Martins: Ô meu Deus, fico muito feliz que você esteja amando! Esses dois adoram brigar, Sasuke-kun não tá acostumado a ver uma Deusa tão madura. Sakura-chan arrasando! Espero que goste!
Então é isso! Até a próxima!
Beijos,
Uchiha Lily.
