TEPT - Capítulo 10
"Tratos"
- Com licença? - Eu bati na porta, vendo Isabella observar o mundo pela janela de seu quarto. - Posso entrar?
- Oi. - Ela me deu um pequeno sorriso.
- Oi. Como você está?
- Hum. - Ela deu de ombros, parecendo um pouco incerta.
- Eu tive que vir te visitar, não é? Por que você ainda não apareceu nas sessões.
- Eu não consigo, doutor. - Ela desviou o olhar.
- Porque não, Isabella? As sessões são só para ajudar vocês. Porque você não consegue participar conosco?
- Eu... Eu não quero falar sobre o que aconteceu. Não estou pronta.
- Mas eu já te disse que você não precisa falar. Você pode ficar apenas escutando. Não tem problema nenhum.
- Mas é que... Eu também não quero ouvir. - De repente, ela já parecia estar prestes a chorar, falando baixinho, toda assustada. Essa era minha maior dificuldade em tirar algo dela: Isabella tinha uma sensibilidade sempre no limite. Toda vez que eu tentava forçar um pouquinho mais, ela já quebrava em um choro. - Não quero pensar nisso, lembrar disso. Não quero ficar pensando em tudo o que aconteceu.
- Mas o único jeito de esquecer, é falar. Enquanto você ficar com medo, isso sempre vai te assombrar, Isabella.
- Mas... Depois que eu comecei a falar, os pesadelos só pioraram. Eu acordo com a voz dele, como se ele estivesse aqui, muito perto. Eu tenho medo, doutor Masen. Eu não quero isso na minha cabeça! Eu quero esquecer.
- Você não me disse que os pesadelos pioraram. - Eu a olhei, surpreso. Parecia que quanto mais eu tentava me aproximar, mais essa menina escondia tudo o que queria de mim. - Como tem sido? O que você vê?
- O que você acha que eu vejo? - Ela me olhou desacreditada, e voltou a observar a janela.
- Isabella... - Eu afaguei seu ombro. - Isabella, me desculpe. Eu não queria parecer insensível. É que eu preciso saber o que você vê, para poder tentar ajudar. - Eu esperei, mas ela não disse nada, nem deixou de olhar para fora, então eu respirei fundo e toquei no assunto. - Tudo bem... Me desculpe. Vamos falar em outro assunto? - Eu tentei sorrir, mas ela continuou sem reagir. - Eu soube que seu aniversário está chegando.
- Como você sabe? - Ela me olhou de repente.
- Sua data de nascimento está na ficha. - E sorri. - No seu histórico.
- Eu não gosto de aniversário. - Ela se virou novamente. - Nunca gostei.
- Porque não? Todo mundo gosta de aniversário. - Eu retruquei.
- Mas eu não gosto. - Isabella me encarou, parecendo irritada.
- Tem que ter um motivo para você não gostar. - Eu sabia que estava forçando, mas algo precisava ser feito. Eu queria que Isabella me permitisse entrar em seu mundo, e ela não parecia disposta a deixar sem nenhuma luta.
- Eu não gosto de nenhum tipo de festa. - Ela confessou.
- E porque não?
- Por que meu pai aproveitava todas essas oportunidades para se embebedar, brigar com a minha mãe e quebrar a casa inteira! - Ela foi se alterando, falando cada vez mais alto. - Desde pequena eu sempre associei essas comemorações a fins de noite infernais! Feliz? Você ficou feliz agora?
- Pode gritar, Isabella. Se isso te fizer bem, você pode gritar.
- Eu não quero gritar com você. - Ela parou, soltando o ar devagar. - Eu quero gritar com ele. Eu quero gritar comigo. Eu quero gritar com todo mundo que vivia em volta de nós e nunca se importou em tentar ajudar! Eu quero gritar com ela! - Isabella parou, com seus olhos transbordando. - Porque ela não foi embora, doutor? - Ela caiu no choro e eu não tive outra opção além de abraça-la.
- Sua mãe não foi embora, por que ela te amava. - Eu sussurrei para Isabella. - Ela errou, sim. Mas ela errou pensando que estava fazendo o melhor para você.
- Como aquilo podia ser o melhor pra mim? Eu perdi tudo o que eu tinha.
- Olha pra mim. - Eu segurei seu rosto entre minhas mãos. - Sua mãe perdeu a vida. Você não. Sua mãe entregou a vida dela para que você não perdesse a sua. O que você vai fazer com isso?
- Pois eu preferia que ela tivesse me deixado morrer no lugar dela. - Isabella respondeu com seu rosto todo molhado de lágrimas.
- Ela nunca teria se perdoado. - Eu afirmei.
- Eu também nunca vou me perdoar.
- Vai sim. Porque não é sua culpa.
- É muito fácil falar. - Isabella me acusou. - É fácil falar, mas você não sabe o que é passar por isso.
- Você não é a única pessoa no mundo que já perdeu alguém que ama. - Eu respondi com um sorriso triste e ela se encolheu para longe de mim. Será que ela havia entendido o que eu realmente queria dizer? - E eu não estou minimizando a sua dor. Eu sei que dói demais. Mas nós não podemos fazer mais nada por sua mãe. A única pessoa que ainda pode seguir em frente, é você. E eu quero te ver lá fora, deixando de ficar na janela, vendo o mundo passar, e sendo uma das pessoas que está vivendo o mundo. Entendeu?
Isabella ficou uns bons momentos em silêncio. Me encarou por um tempo, e depois desviou o olhar. Sua respiração estava pesada, seu rosto todo molhado pelas lágrimas derramadas.
- Eu não sei se eu quero sair daqui.
- Como não, Isabella? Você precisa sair daqui.
- E ir pra onde? - Ela me olhou, toda assustada, e eu me lembrei do quanto ela era jovem. - Eu não quero ficar sozinha. O que eu vou fazer com a minha vida? Quem vai cuidar de mim?
- Você vai cuidar de você.
- Eu não sei cuidar de mim.
- Mas você vai aprender. Vamos lutar juntos, Isabella. Você tem que deixar nós te ajudarmos.
Ela me olhava de um jeito tão desolado, que fez meu coração falhar. Eu sabia o que ela estava pensando e tudo que eu queria era poder explicar.
Eu sabia que ela estava pensando que eu não entendia. Mas eu entendia.
É claro que eu não podia dizer a ela que havia passado por tudo aquilo. É claro que eu não podia contar que também havia perdido a minha mãe e tido que aprender a cuidar de mim mesmo.
Mas eu queria tanto que ela compreendesse que era possível. Que havia tantas coisas que ela podia fazer.
Porém, eu sabia que não podia começar do mais difícil, então eu pensei em começar com algo que fosse mais fácil (embora ainda fosse bem difícil para ela).
- Alice se lembrou que seu aniversário está chegando. - Eu comentei.
- Como? - Bella me olhou, secando o rosto. - Como ela sabe?
- Ela contou que você precisou dizer em alguma atividade que fizeram juntas, e ela se lembrou. - Eu expliquei. - Ela queria que nós fizéssemos uma comemoração para você.
- Não. Já disse que não gosto.
- Nem um bolo? - Eu sorri. - Você está fazendo dezoito anos. É uma data muito especial.
- Não quero.
- Você é uma adulta agora, Isabella. Ninguém vai te machucar. E aqui dentro não vai ter bebida. Vamos tentar? Para você ver que nem toda festa acaba em uma noite infernal.
- Porque você faz isso? - Ela reclamou, exacerbada.
- Isso o que?
- Me forçar! Me cobrar! Eu já te disse que não consigo!
- Eu faço isso porque eu sei que você consegue! E eu não vou desistir de você, Isabella. Eu não vou desistir de você, e te deixar nesse quarto, eternamente vendo a vida passar!
Isabella parou, parecendo pensar um pouco, e depois suspirou devagar.
- Vamos tentar, Isabella? Eu prometo que, se você se sentir mal, nós podemos acabar com a festa. Mas vamos tentar. É seu aniversário e você merece tentar.
- Pelo menos... Você me dá um lápis?
- Um lápis? - Eu estranhei o pedido. - Para que você precisa de um lápis?
- Porque eu queria desenhar, mas ninguém me dá um lápis. Se você me der um lápis... eu prometo que vou na próxima sessão.
- Eu acho que não posso te dar um lápis. - Eu falei, e Isabella murchou, antes mesmo que eu pudesse me explicar. - É que um lápis apontado pode ser usado como objeto cortante. Mas eu acho que posso te arranjar alguma outra coisa... Talvez canetinhas... Ou giz de cera...
- Mesmo? - O olhar de Isabella finalmente se iluminou. Aquilo era tão raro, que eu sabia que teria que dar um jeito de conseguir o que ela havia me pedido.
- Se você for à próxima sessão, eu prometo que dou um jeito.
- Eu posso sentar do seu lado? - Bella sorriu discretamente, e mordeu seu lábio devagar.
- É claro que sim. Você sabe muito bem que pode.
- E você pode segurar a minha mão?
- Posso. - Eu assenti.
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- O que você está fazendo? - Tânia mal estava abrindo os olhos. Eu havia a deixado na cama e me arrastado para fora, tentando fazer o mínimo de barulho possível.
Eu até tinha tentado, mas não havia conseguido dormir. A minha cabeça só conseguia pensar no que precisava arranjar para Isabella.
- Só estou pesquisando uma coisa na internet.
- Já está tarde, Edward. Vem dormir.
- Eu já vou. Desculpa, não queria te acordar. Já vou mesmo.
- O que você está pesquisando a essa hora, afinal de contas? - Tânia veio e me deu um empurrãozinho, conseguindo algum espaço no sofá.
- Uma paciente quer material para desenho e eu não sei o que seria bom comprar.
- E porque você vai comprar isso? Não tem ninguém na clínica que possa resolver? Ou então... Peça para a família dela levar.
- Ah, Tân... É uma longa história... - Eu suspirei. - Mas, resumindo: eu estou tentando me aproximar e ela disse que iria às sessões de terapia se eu lhe desse um lápis.
- Então compre um lápis. - Tânia deu de ombros.
- Não posso. Ela poderia usar o lápis para se machucar. - Eu comentei, sem nem prestar atenção no que estava falando. - Você entende alguma coisa sobre material de desenho? Qual é a diferença entre pastel seco e pastel a óleo?
- A essa hora da noite? - Tânia riu. - Jura? Não faço a mínima ideia.
- Como eu vou saber o que comprar? Tem milhares de opções de papel!
- Ai, Edward... Deixa isso pra amanhã. Você nunca vem ficar comigo, quando vem, vai ficar trabalhando? Deixa isso, deixa... - Tânia insistiu, com a voz manhosa.
- Está bem... - Eu sorri, concordando. Muito embora eu, provavelmente, ainda fosse demorar para conseguir dormir, eu sabia que Tânia não estava sendo injusta em cobrar minha atenção. Na verdade, ela me lembrou Esme, reclamando de Carlisle sempre se dedicando até demais. - Vamos deitar.
- Hum... Vamos. - Tânia assentiu com um sorriso.
- Mas amanhã você vai ter que me ajuda a escolher.
- Te ajudo até a comprar. Mas agora já está tarde. Vem, vamos deitar, vamos.
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Olá, meninas!
Como vão vocês? Eu preciso saber da sua vida. Peço a alguém pra me contar sobre seu dia...
Relevem.
Comi muito doce - tô bêbada de açúcar.
Mas... Voltando para a fic...
Estou muito feliz com a companhia de vocês - Vocês tem sido mesmo ótimas comigo.
Espero não sumir mais. Já estou melhor (embora o tempo continue seco demais e meu nariz ainda esteja meio esquisito).
Então... Se tudo der certo, e a inspiração for uma boa menina, nos vemos na sexta.
Beijinhos
Até mais
REVIEWS:
Clara: E quando você volta, mulher? Cuidado aí.
Isa Alonso: Bom, veremos se a Bella aguenta ficar na festinha, já que esse é um dos traumas dela.
Raffa: Emmett... Só pensa... "naquilo"! Rsrsrs
Deh M. Oliveira: Se não tá fácil pra nóis, que só somos loucas - Imagine pra quem tem verdadeiros transtornos psiquiátricos.
Jenny Stream: 1) Por um segundo eu pensei "quem é essa louca me chamando de Docinho?" Só depois lembrei que era você mesma com um nome novo. 2) Bella já tinha outros problemas com aniversários... Quem sabe o Edward a ajude a superá-los enquanto ela ainda tem idade para comemorar e não para querer esconder. Rsrsrs
Lara: Obrigada pela dica. Estava mesmo comentando com uma amiga como deve ser difícil escrever um livro - Porque não dá para deixar escapar esse tipo de erro. Eu não tenho mesmo nenhuma vivência na área - Obrigada por me ajudar. Você trabalha ou está estudando algo na área da saúde?
Kathyanne: Beward no capítulo? Até que rolou bastante dos dois.
Sofia - pt: Para o Edward, a Bella (ainda) é apenas uma paciente. Mas já dizia o Emmett - Mas é paciente mulher, neh? Do sexo feminino. Rsrsrs
