CAPITULO 11. TEMORES

O mar, esse grande paraíso aquático, selvagem e misterioso, doce e sensual... O meio em que mais se sentia identificada e que mais gostava de estar. O mar a recebeu como de costume, docemente, como a caricia de um amante.

Caminhou pela areia até sentir a água, morna àquelas horas da tarde, tocando sua pele. Primeiro os pés, depois os tornozelos, mais tarde seus joelhos, suas cadeiras, sua enorme barriga, o peito inchado, seu pescoço...

Respirou fundo e, contendo a respiração, mergulhou a cabeça na agua e começou a nadar. Investigou as profundezas do oceano até que seus pulmões lhe ordenaram que subisse à superfície. Obedeceu entre dentes e uma vez no exterior, se colocou de costas na agua para receber o cálido alento do sol e as doces oscilações do mar. Fechou os olhos e se deixou levar pela carinhosa maneira que tinha seu elemento.

Uma repentina sensação na barriga a fez abrir os olhos e sorrir inconscientemente. Outro chute... Sem duvidas os gêmeos (no dia anterior haviam ido ao ginecologista e Ami havia confirmado de que se tratava de um menino e uma menina) seriam muito travessos quando nascessem.

Estirou o braço e deu um par de braçadas para trás, sentindo como abria caminho pelas ondas.

Ninguém havia lhe dito que a gravidez iria despertar seus instintos, não somente os maternais. Se sentia mais alerta, mais desperta... Mais viva que nunca. Haruka também havia mudado naqueles meses. Havia se tornado mais carinhosa e atenta, seu caráter havia se suavizado ainda mais. Hotaru se sentia muito feliz pela futura presença da dupla de "irmãozinhos" pela casa. Tagarelava feliz sobre como cuidaria dos gêmeos quando nascessem. Era como se Hotaru houvesse deixado seu caráter fechado e fechado a um lado. Setsuna agora passava mais tempo em casa. Michiru tinha a intima certeza de que a Guardiã do Tempo estava encantada com a ideia de se transformar em tia. Adorava desenhar e comprar roupas de bebe e mostrar a Michiru e a Hotaru.

A jovem respirou fundo e olhou o céu, tentando definir a forma que adquiriam as nuvens, brancas e fofas, acima de si. Uma das nuvens lhe pareceu muito a um carro de corrida... E voltou a pensar em Haruka.

A jovem corredora era uma garota, ainda que aparentasse o contrário e meio mundo a considerasse como tal. Suas amigas sabiam que Haruka era uma garota e, quando iam a praia ou a piscina, a sua loira amada não lhe importava exibir sua figura, para orgulho de Michiru, por suposto. Começou a rir ao recordar como Haruka se sentiu envergonhada quando foi com ela pela primeira vez na praia, juntas, e a fez trocar sua roupa por um atrativo biquíni. Seu sorriso desapareceu ao pensar nos gêmeos. O que aconteceria quando descobrissem que Haruka era uma garota? O que aconteceria quando vissem que na família de seus amiguinhos haviam um homem e uma mulher sendo pais e não duas mulheres? Seriam capazes de manter os gêmeos longe dos perigos que teriam de enfrentar no futuro? Poderiam aguentar ver seus filhos sofrerem?

Michiru acariciou seu ventre e sorriu.

"Não temam...", sussurrou docemente. "Papai e eu protegeremos vocês de todo o mal".