CAPITULO XI
Gina me ama, pensava Harry. - A confissão que ouvira ecoava em sua mente, enquanto corria para o incêndio. Sentia-se eufórico, apesar das dúvidas sobre o futuro.
- São prédios geminados de lojas - avisou Gui no banco da frente do carro de bombeiros, fazendo Harry se concentrar no problema atual. - Precisamos impedir que o fogo se alastre e domine todo o quarteirão.
Enquanto o capitão falava pelo walkie-talkie, transmitindo ordens aossubordinados, Harry colocou o capacete, pensando que por sorte não havia ninguém nas lojas àquela hora, por causa do feriado.
- Os animais! - murmurou de repente.
- O que foi, Harry? - perguntou Gui, voltando-se para fitar o companheiro.
- A loja de animais é ali. Os bichos não ficam em gaiolas? - Os homens ao redor permaneceram silenciosos, entreolhando-se apreensivos.
- Carlinhos- ordenou Gui. - Quero que fique encarregado de ajudar as pessoas. Reúna os voluntários.
- Sim, senhor.
- Paul e Jim, encarreguem-se das mangueiras. Harry, venha comigo.
O carro parou com um guincho agudo dos freios, e todos desceram correndo.
Rolos de fumaça negra saíam da loja de Roland. Gui adiantou-se, seguido de Harry. Colocaram as máscaras de oxigênio, aproveitando cada segundo precioso, enquanto as mangueiras eram acopladas aos hidrantes.
O som de latidos enchia o ar, e Harry concluiu que isso era melhor do que o silêncio.
Quando um jato potente de água atingiu o prédio, Harry arremessou o machado na porta da frente e, com um movimento do ombro, forçou as dobradiças, A fumaça enchia o ar, e enquanto avançava para o calor infernal, podia ver as labaredas que formavam uma cortina que começava a atingir a loja de Gina.
- Vire aquela mangueira para a esquerda - disse pelo wal-kie-talkie, o coração acelerado, temendo pelos estragos na Modas Weasley. - E mande umaequipe para o estabelecimento ao lado.
Ele e Gui avançaram, pisando em vidro quebrado e madeira retada, enquanto o sistema de sprinklers fazia a água jorrar sobre suas cabeças, e a mangueira executava seu trabalho, afastando as labaredas para as janelas. A pronta atuação dos bombeiros sem dúvida salvara os edifícios do dano total.
Entretanto, nesse momento, a vida dos animais era a maior preocupação de Harry.
- As gaiolas ficam nos fundos - avisou Gui. Harry começou a ouvir miados e
o som desesperado do pio das aves. Perscrutou o ambiente em meio à fumaça e avistou gaiolas de aço dependuradas nas paredes. Largando o machado, agarrou quantas conseguiu e, em questão de segundos, garras minúsculas se seguravam em suas luvas grossas. Um gatinho subiu para o seu ombro, e outros dois se enlaçaram em suas pernas, seguindo o instinto de sobrevivência.
Harry relanceou um olhar para Gui, e viu que o capitão amparava nos braços fortes uma ninhada de cachorrinhos,
- Estou saindo - disse Gui, mas estacou de repente. - Raios! Acho que ouvi um latido.
Harry sorriu, mesmo naquele inferno, e seguiu o som. Um São Bernardo gigante com olhos chorosos, tentava sair de sua enorme gaiola. Quando o bombeiro abriu a tranca, o animal escapou, fitando-o como se não entendesse o motivo de tanta confusão. Harry o enxotou para a porta dos fundos, onde Gina e Roland estavam recebendo os cachorrinhos de Gui. - Vá para lá, rapaz - comandou.
O São Bernardo saiu como uma flecha, e colidiu com Gui que voltava. O capitão perdeu o equilíbrio, o capacete voou no ar, e ele bateu com a cabeça no cimento.
Gina atirou-se aos pés do irmão.
- Gui !
O cão lambia o rosto do bombeiro desacordado e, com o pulso acelerado, Harry arrancou o capacete e a máscara de oxigênio, mas quando se adiantou para o chefe, este abriu os olhos.
Vendo o focinho enorme rente ao seu nariz, perguntou:
- Que é isso...?
Harry inclinou-se e examinou-o, percebendo que não havia sangue, só baba de cachorro em seu rosto.
- Pode sentar? - interrogou, mais aliviado.
- Contanto que esse monstro me largue - disse Gui. Harry e Gina trocaram sorrisos de alívio, enquanto ela arrancava os gatinhos, atracados aos braços e pernas do bombeiro.
Gina me ama, lembrou Harry, desejando que aquele pesadelo terminasse logo para voltar a ficar ao seu lado.
Roland e Carlinhos se aproximaram. O dono da loja de animais segurou o São Bernardo, e Harry e Carlinhos ajudaram Gui a se levantar.
- Deve ter sido uma concussão leve - avisou Harry.
- Vai ficar com uma dor de cabeça tremenda - alertou Carlinhos.
- Vamos levá-lo para a ambulância.
- Não vou para o hospital - berrou Gui, fitando Harry. - Mas por que será que estou vendo três Potter na minha frente?
Muito zonzo, o capitão foi colocado em uma maca e, antes de entrar na ambulância, disse:
- Você assume o comando, Harry.
Carlinhos sorriu, e Harry compreendeu que fora aceito sem reservas. Carlinhos tinha um posto mais elevado, mas Gui o escolhera para comandar aquela missão. Uma emoção tremenda o invadiu, e só conseguiu dizer:
- Sim, senhor.
Quando a ambulância partiu, a equipe das mangueiras começou a se afastar do prédio.
O fogo fora debelado, entretanto a fumaça continuava sendo uma ameaça, A
multidão se aglomerava na calçada, e Rony e seus homens comandavam o tráfego, armando barricadas em volta do quarteirão. Vários voluntários postavam-se ao redor de Harry, esperando suas ordens.
- Vamos buscar o restante dos animais - disse o capitão interino, em tom de comando.
Quando a equipe voluntária de resgate partiu para cumprir as ordens, Carlinhos se aproximou ao lado de um desconhecido.
- Sou Chris Martin, do Departamento de Bombeiros de Atlanta - apresentou-se o homem. - Estou em Baxter de passagem, e gostaria de ajudar também.
- Harry Potter. Obrigado.
Assim dizendo, deu meia-volta e regressou ao interior da loja.
Uma parte do teto ruíra, e o assoalho estava enegrecido, mas o incêndio fora debelado e todo o dano parecia ter-se concentrado apenas na loja de animais.
Trabalhando depressa, os homens foram abrindo gaiolas, enchendo os braços com gatos, cachorros e pássaros, e levando-os para a segurança da rua.
Roland deu instruções ao São Bernardo que, diligente, voltou à loja, farejando, e encontrou uma família de felinos dormindo em um cesto. Orgulhoso, o valente cão pegou a mãe dos gatinhos pelo pescoço, e levou-a para fora.
Suando com o calor intenso, Harry e Carlinhos descobriram a um canto um papagaio empoleirado em um gancho de parede, com as penas levemente chamuscadas. Tentava bicar todos que se aproximavam, e não parava de falar obscenidades.
Por fim foi pego por Carlinhos, e Harry segurou um casal de basset hounds, seguindo o outro bombeiro para fora. E assim terminou o resgate dos animais.
Ao sair, foi avisado que Gui Weasley já deixara o hospital com uma leve concussão, e que estava voltando para o local do incêndio. Harry admirou-se com a teimosia do capitão.
- É mal de família - resmungou por entre dentes cerrados, olhando na direção de Gina. Ela estava sentada no meio-fio, a família de gatos no colo.
Harry desejava unir-se a ela, compartilhar o momento de alivio após a turbulência, mas seu cérebro fervilhava. O que diria? O que sentia de verdade? Não podia deixar a confissão de amor de Gina passar sem um comentário, mas queria o momento certo.
Parecia que todos os seus planos para o futuro haviam mudado no instante em que a conhecera, refletiu. Viera a Baxter para usar a experiência como alavanca para a carreira. Ansiara pelo respeito dos outros, porém, nos últimos tempos, queria respeitar a si próprio, em primeiro lugar.
Compreendera que também estava apaixonado por aquela pequena cidade e seus habitantes.
Sorrindo emocionado, observou o cenário ao redor. Moradores, policiais, bombeiros e demais cidadãos se desdobravam, cuidando uns dos outros e dos animais. O prefeito junto à esposa e aos membros do conselho da cidade, segurava a pata do São Bernardo, que o fitava com olhar condescendente.
Os Cabeças de Metal lá estavam também, e haviam adotado o papagaio, que se empoleirava no ombro de K.C., cantarolando uma canção dos Beatles.
Concluindo que tudo estava sob controle pelo momento, Harry encaminhou-se até o prefeito Collins.
- Boa noite, senhor. Se não se importa, desejo levar o cachorro comigo para resolvermos um detalhe.
- Claro! Bom trabalho, bombeiro Potter.
- Obrigado, senhor.
Estalou os dedos, e o São Bernardo se aproximou, encarando-o com os tristes olhos castanhos. Harry estava admirado com sua inteligência e destreza. Todo bombeiro precisava de um cão, refletiu, imaginando se esse estaria à venda ou se era de propriedade particular de Roland.
Observou os fotógrafos dos jornais locais, que circundavam a cena e o prefeito, e concluiu que ajudariam como testemunhas, na hora de prender o motorista bêbado que ocasionara o incêndio.
Pobre Roland, lamentou consigo mesmo. Teria que reconstruir tudo.
- Precisa de ajuda?
Harry voltou-se ao som da voz querida, e seu coração bateu mais forte. Por certo estava cheirando à fumaça, suor e cachorros, mas desejava estreitá-la em seus braços.
Gina sorriu com meiguice, os olhos cheios de paz, e então ele soube que jamais a deixaria.
Parecia que, de repente, tudo se esclarecera e que todas as peças haviam se encaixado no devido lugar. Precisava admitir que não se apaixonara à primeira vista, mas talvez isso acontecera havia dois minutos, quando a vira sentada no meio-fio, amparando os gatinhos. Ou, quem sabe, quando ela servira de escudo no bar, e recebera o soco no olho...
Retirou as luvas e estendeu-lhe a mão.
- Ainda quer remexer no pote de biscoitos hoje à noite? - perguntou-lhe, junto ao ouvido.
Gina enlaçou-o pela cintura.
- Sem dúvida!
- Os estragos foram significativos - comentou o prefeito Collins, que se aproximara, sem perceber o interlúdio amoroso entre os dois. - A parede entre as duas lojas terá de ser reerguida.
- Foi um milagre o fogo não ter atingido a loja de Gina- comentou um dos membros do conselho.
Alheio a tudo a não ser aos olhos azuis que o fitavam, Harry só se deu conta
da conversa quando ouviu menção a Modas Weasley.
- Consertaremos tudo - disse em voz alta. Examinou o enorme buraco escuro que se formara na parede, e o São Bernardo latiu de leve, pedindo para ser solto. Harry deixou-o ir e voltou a fitar a amada.
- Gui está ótimo - disse Gina - e eu também.
- Os animais se salvaram.
- E você, Harry, está aqui comigo...
- Sim, chérie. Amo você.
- Verdade?- Harry sorriu.
- Oui.
- Repita.
- Amo você.
Ela se atirou em seus braços, agarrando-se com força, como se temesse deixá-lo partir. Harry inalou o perfume floral nos cabelos ruivos, certo de que desejava continuar a senti-lo pelo resto de sua vida.
- Detesto interrompê-los - pigarreou o prefeito - mas... o que é isto?
Com expressão confusa, estendeu para Harry algumas peças de roupa negras. Uma calcinha de cetim, cheia de rendas, e toda molhada, sutiãs transparentes, e uma cinta-liga de couro.
Harry passeou o olhar de Collins, para sua esposa, os demais membros do conselho, e, finalmente, deteve-se em Gina, a quem entregou as peças.
- Chegou a hora - murmurou ela.
Gina fitou o São Bernardo, que trouxera as peças de roupa na boca, e soube onde ele as descobrira. Acabava de delatar sua loja secreta.
O coração acelerado, por um instante sentiu o impulso de negar tudo.
- Ora! - diria com ar inocente e alegre. - Mas onde será que o cachorro descobriu isso?
Porém nesse exato momento a esposa do prefeito agarrou a calcinha de sua mão, como uma desesperada compradora de liquidação. A minúscula peça se desdobrou, revelando o detalhe de um coração vermelho de cetim, bordado na frente.
Então uma voz familiar interrompeu a cena, perguntando:
- Muitos danos?
Ao ouvir a voz de Gui, Gina largou a calcinha imediatamente, fazendo o elástico bater no nariz da primeira-dama da cidade.
O irmão mais velho se aproximava, amparado por Rony e Carlinhos, seguidos de Roland.
Além de mandões, refletiu Gina, os Weasley eram inoportunos com suas chegadas triunfais. Harry apertou-lhe a mão em sinal de solidariedade, e ela engoliu em seco.
Pegou um papel do bolso da saia, e entregou-o ao prefeito, dizendo:
- É a oportunidade certa para lhe dar isto.
- Do que se trata? - perguntou Collins.
- Um formulário pedindo para acrescentar lingerie e roupas de couro ao meu estoque.
O prefeito franziu os lábios, parecendo um Elvis Presley zangado.
- Discutimos isso há dois anos, Srta. Weasley. Uma loja de tal natureza, na rua principal da cidade...
- Oh, Franklin! Não acha que ficaria linda usando isto? Todos se voltaram para a Sra. Collins que, sem que ninguém houvesse percebido, correra para a butique ainda intacta e remexera nas caixas nos fundos. Com ar coquete, segurava na frente do busto um baby-doll transparente e cor-de-rosa.
Os olhos do prefeito quase saltaram das órbitas, sem conter a admiração.
Raciocinando rapidamente, concluiu que era função da autoridade máxima da cidade satisfazer todos os cidadãos na medida do possível... em especial sua esposa. Voltou-se para os membros do conselho e perguntou:
- O que acham, senhores?
Vendo ao vivo uma dama da cidade segurando a lingerie tão atraente, os homens sorriram com entusiasmo, cada qual pensando que adoraria ter a própria esposa na cama, usando aquela roupa tentadora.
- Aprovado! - exclamaram em coro.
Só a Sra. Markenson fez um muxoxo de desprezo, enquanto a pequena multidão em volta prorrompia em aplausos, liderados por Flash e suas motoqueiras.
- Quando pensou em apresentar esse formulário? - sussurrou Harry ao ouvido de Gina.
- Esta semana, embora tenha retardado a conversa com o prefeito porque estava muito triste, pensando em você.
Ele a abraçou com força.
- Pode ficar feliz, porque nunca mais a deixarei.
Chris se aproximou.
- Espero não estar interrompendo nada, Potter. Bom trabalho! - Voltou-se para os demais bombeiros, policiais e voluntários. - Parabéns a todos!
Harry apresentou-o à Gina.
- Chris Martin, do Corpo de Bombeiros de Atlanta. Estava de passagem por Baxter e foi de grande ajuda.
O recém-chegado apresentou um cartão de visitas para Harry.
- Sou chefe de um batalhão em Atlanta. Gostaria de propor-lhe um emprego.
Gina ficou tensa, retendo a respiração. O grande sonho de Harry estava para se tornar realidade, pensou. Os demais homens o fitavam com respeito.
- Telefone para mim - disse Chris, despedindo-se.
Harry enfiou o cartão no bolso e começou a receber os parabéns dos colegas.
Na confusão, separou-se de Gina , que aproveitou o momento para se afastar.
Sentia uma dor no peito e o coração pesado. Voltou a se sentar no meio-fio da rua, apertando as mãos, como se assim pudesse reter a breve felicidade que experimentara havia pouco.
- Por que desapareceu, chérie? - perguntou Harry, aproximando-se. Ela ergueu o rosto com relutância, vendo-o sentar-se ao seu lado na calçada
- Parabéns, Harry. Afinal conseguiu tudo que desejava. - Ele segurou-lhe a mão.
- Espero que sim. - Beijou-a de leve nos lábios. - Case-se comigo, e minha felicidade será completa.
Gina arregalou os olhos.
- Como? E Atlanta? O emprego na grande cidade? Sua carreira?
Ele afastou uma mecha de cabelos louros do rosto querido.
- Você e Baxter são tudo que desejo no mundo. Minha vida é aqui, ao seu lado.
O rosto másculo, sujo de fumaça, poeira e suor, continuava lindo, pensou Gina, e seus olhos cor de esmeralda espelhavam o futuro que teriam juntos. Haveria riscos, mas quem não passava por perigo na vida? Além disso, a felicidade que o amor lhe traria faria dela uma mulher forte e confiante, concluiu para si mesma.
- Case-se comigo - repetiu Harry. Ela sorriu.
- Oui!
E a fic acabou ( essa história não tem epílogo) Me desculpem a demora pra postar o final, fiquei sem tempo algum na semana.
Obrigado a YukiYuri, Joana Patricia, Lu Potter 17, Gabi G.W. Potter, Gisllaine Farias e Vanity nightwish por comentarem e me fazerem feliz.
E obrigado a todos que lerem e não comentaram.
Até a próxima!
