Quebrado - Ato 3
por Scila
Estava segurando a mesma taça de champanhe desde que Pansy decidiu visitar o banheiro para retocar a maquilagem. E, era conhecimento geral entre os ex-sonserinos, quando Pansy retocava a maquilagem ela passava metade do tempo se admirando no espelho e a outra flertando com os garçons no caminho de volta.
Blaise, de pé ao seu lado, olhava o salão com desdém e tédio, sem sequer vontade de fazer comentários azedos sobre os outros convidados. Draco compartilhava seu desânimo. Não havia nada pior do que uma festa beneficente, onde a maioria dos convidados estava mais preocupada em manter uma imagem de perfeição e bondade do que realmente aproveitar a bebida e a música.
Sem falar no fato que era uma festa de arrecadação de fundos para vitimas da Segunda Guerra.
Draco não gostava de lembrar-se da guerra.
- Isso me lembra o funeral do terceiro marido da minha mãe.
- O magnata japonês de um metro e meio de altura ou o escocês que subiu o Everest?
- Nenhum dos dois. O russo que não conseguia rir.
Draco abriu um sorriso nostálgico, lembrando de todos os funerais e velórios de maridos da Sra. Zabini. Blaise, Theodore e Draco várias vezes escaparam das cerimônias, preferindo beber e jogar cartas no cemitério próximo. Pansy costumava chutar sua canela por deixá-la sozinha, mas Draco retrucava que era culpa dela se tinha medo demais de se aventurar pelo cemitério.
- Ah, eu me lembro dele. Ou melhor, do caixão dele.
- Madeira nobre, mogno com pedras preciosas adornando as laterais. Minha mãe fez questão de usar o melhor. Não mediu despesas.
- Claro que não, afinal herdou toda a fortuna dele.
Blaise deu um meio sorriso.
- Se tem algo que faz valer a pena casar com um homem que não sorri é a fortuna dele.
- Alguma sugestão para não valer a pena casar?
O amigo levantou uma sobrancelha, achando divertida a situação em que Draco se encontrava.
- A caçula Greengrass está te pressionando?
Draco engoliu o conteúdo da taça, fazendo uma careta para Blaise, que a interpretou corretamente como "Ela praticamente está me sufocando".
- Podia ser pior, ela podia tomar as rédeas da situação e comprar o anel sozinha – era o máximo de consolo que sairia dos lábios de um Zabini.
Pansy finalmente voltou, segurando duas taças de vinho, desapontamento na face achatada.
- Não sei o que é pior, os garçons ou a comida que eles levam nas bandejas.
- Nenhum flertou de volta, Pansy? – Blaise perguntou, fingindo se importar. – Que surpreendente.
- Se acha que vou flertar com moleques burros e feios, está ficando louco, Blaise. Vamos embora? Jogar cartas com a minha mãe é mais divertido que esse lugar.
- O que você acha, Draco?
Deu de ombros.
- Meus pais insistiram que eu aparecesse e fosse fotografado, para melhorar a imagem da família. Acho que já melhorei o bastante.
Os três ficaram de pé, esvaziando as taças e se dirigindo à saída com Pansy e Blaise na frente dele, trocando insultos e indiretas. A verdade era que Draco tinha outro motivo além de tédio para ir embora. Astoria Greengrass estava em algum lugar do salão, ansiosa para vê-lo e ele estava a evitando como a peste bubônica, apavorado pela simples possibilidade de ter que manter uma conversa com ela por mais de cinco minutos.
Ele estava apaixonado por Astoria, não podia negar. Mas a última coisa que Draco queria era ser jogado contra a parede sobre o futuro dos dois. Sem falar que todas as tentativas de desviar do assunto com piadas e sarcasmo foram ignoradas por completo.
Enquanto chegavam à entrada, só ouvia a conversa de Blaise e Pansy, andando ombro a ombro. Os dois andavam com ele por hábito, concluiu. Se tivessem escolha o deixariam para trás.
E dito e feito. Na saída, Blaise notou que esquecera um casaco e voltou, Pansy acompanhando. Ambos seguiram para o banheiro mais próximo e Draco revirou os olhos.
Estavam na fase de "amigos coloridos".
Suspirou e encostou-se a uma parede, observando a porta do banheiro feminino, esperando até que terminassem. Fechou os olhos e se imaginou em um lugar completamente diferente, bem longe da humilhação recente, jornais e tribunais.
Sapatos bateram contra o mármore apressadamente e ele ouviu um choro fraco. Depois veio o barulho de uma maçaneta sendo forçada e então xingamentos em uma voz feminina vagamente familiar.
- O banheiro está ocupado – Draco anunciou para a pessoa, ainda de olhos fechados. – Tem outro perto da mesa do ponche.
A mulher preferiu ignorá-lo e continuou tentando abrir a porta. Curioso, abriu olhos e encontrou a única filha Weasley, namorada do Potter, com olhos vermelhos e levemente descabelada.
- Já disse, esse está ocupado – insistiu, colocando a mão no bolso das vestes. – Você pode esperar se quiser. Normalmente Blaise leva cinco a oito minutos, não mais que isso.
- O banheiro é feminino – retrucou, ácida.
- Ele não está sozinho – explicou com um meio sorriso.
A cara de nojo de Weasley lhe rendeu uma risada. O estado da mulher era deplorável. Enquanto ela largava a maçaneta e encostava-se à parede ao lado dele, Draco se pegou admitindo que estava curioso em saber o que causara o choro.
- Algum escândalo que me interessa?
Para sua surpresa ela soltou uma risada curta e nada feminina, limpando os olhos das lágrimas.
- Mais para prova de insanidade.
- A sua ou do Potter?
- Minha.
Não eram mais inimigos declarados, o testemunho de Potter a favor dos Malfoy os colocou na categoria de "conhecidos distantes". Mesmo assim, estava surpreso que ela escolhera responder com educação, não eram exatamente amigos.
- Não imaginava que Potter era capaz de brigar com você. A coleira sempre pareceu bem firme.
Dessa vez ela revirou os olhos.
- Confie em mim: nós brigamos.
- E foi isso que aconteceu agora?
Uma pausa.
- Por que você se importa, afinal?
Deu de ombros.
- Estou esperando meus dois amigos saírem do banheiro, o que isso te diz?
- Que a festa está uma droga.
- Também. E que estou entediado.
Ainda tinha suspeita no rosto, mas finalmente levantou uma das mãos e revelou um anel de noivado. Draco continuou sem entender.
- O quê? O diamante é pequeno e por isso está chorando?
- Tenho cara de quem se importa com tamanho de diamante?
Analisou-a por completo, dos pés as cabeças. O vestido era comum, não usava jóias, apenas um par de brincos simples.
- Definitivamente não. Então o que houve? Cansou dele?
- Se tivesse cansado não teria respondido sim e o anel estaria de volta na caixa. Você está lento hoje, Malfoy.
Revirou os olhos.
- Arrependida?
Weasley mordeu o lábio.
- Não – mas havia hesitação na voz.
Era uma sensação estranha presenciar a namorada de Harry Potter ali, com a vida tão confusa quanto à dele. Talvez houvesse chance para Draco afinal.
E, de repente, percebeu algo. Ela estava com medo, assim como ele.
- O que houve? – insistiu, ansioso para comprovar sua teoria.
- Eu disse sim e um segundo depois... Saí correndo. Deixei ele lá, parado. Me diz se isso não é atitude de uma louca?
- E não sabe o motivo? – riu quando ela negou com um aceno da cabeça. – Weasley, você está com medo do futuro e o que ele significa.
Ela o encarou com surpresa, mas não disse nada. E Draco continuou.
- E estava tudo tão perfeito, por que mudar? Por que arriscar? Mas ao mesmo tempo você quer o futuro, porque esperar seria estranho.
- Está lendo minha mente? – Weasley finalmente disse, olhos arregalados.
- Não. Estou passando pela mesma coisa.
- Você? – questionou incrédula.
- Merlin, Weasley, não precisa fingir surpresa – ironizou.
A ruiva suspirou, batendo a cabeça de leve contra a parede.
- Por que a gente não pode simplesmente ficar feliz com o que temos e deixar a paranóia para trás?
- Talvez gostemos da miséria.
Ela riu.
- Eu tenho uma carreira ótima. Um namorado perfeito. Amigos e família que me apóiam. Pode se dizer que me distancio da miséria.
- Ah, mas ai que você se engana! Justamente por sua vida ser tão perfeita que se sente atraída pela miséria. Para deixar as coisas mais interessantes.
- Talvez... – riu. - E a sua vida, Malfoy? Perfeição de menos?
- Minha vida sempre é perfeita – retrucou, defensivo.
- Exceto quando é hora de pedir a namorada em casamento?
Bufou.
- Você não conhece Astoria. Tudo é fácil para ela. Sem hesitação, sem medo.
- Me lembra o Harry.
Ficaram em silêncio, perdidos nos próprios pensamentos. A porta do banheiro abriu e dela Pansy e Blaise saíram, rindo e ajeitando as roupas. Ao ver o par estranho que Draco e Weasley formavam, Blaise levantou a sobrancelha e Pansy fez careta.
- Vocês são os próximos? – o amigo sugeriu, com um piscar de olhos. – Cuidado com o chão, está escorregadio.
Ele e a ruiva reviraram os olhos em sincronia, mas estavam um pouco vermelhos nas bochechas de qualquer forma. Preferiu acreditar que era de raiva, não embaraço.
Sozinhos outra vez, Weasley virou para ele, estendendo sua mão num gesto de amizade.
- Obrigada, Malfoy. Obrigada por me lembrar que não estou sozinha.
Aceitou a mão e os dois se cumprimentaram.
- De nada, Weasley. Nada parece tão assustador quando se tem alguém para dividir o medo.
Não sabia que aquele momento mudaria suas vidas. Durante os anos seguintes dividiriam diferentes medos em diferentes tempos, ignorando casamentos e filhos. Até que um dia, uma carta lembraria Gina do seu maior medo e Draco a perderia para Harry Potter uma última vez.
