Disclaimer: Baseado em fatos reais
Categoria: General
Classificação: Livre
Beta Reader: Não foi betado
Sinopse: Apenas mais uma reflexão pagã.
Tempestade de Verão – by Blodeu-sama
Um estrondo grave e forte ricocheteia pelo céu, e chego na janela a tempo de ouvir varias janelas batendo para que as pessoas em seu interior se protejam da tempestade que está vindo. Faço menção de repetir o gesto, mas acabo me deixando ficar a observar os pássaros negros alvoroçados entre os prédios, sentindo o vento fresco no rosto.
O céu brilha ofuscante com a promessa eminente da água.
Uma outra pessoa sai na janela...e depois outra. Penso que afinal não devo ser a única que sente essa inquietação quando os raios cortam a atmosfera deixando tanta energia pra trás. Não é medo, nem apreensão...apenas uma sensação que preciso fazer algo para usar toda essa energia, e ao mesmo tempo uma certa incapacidade de fazer algo além de ficar olhando para o céu a espera do desfecho final dessa opera da natureza.
Uma musica new age toca dentro de minha casa, e sorrio para ela. Talvez alguma ancestral, pintada de azul ou coberta de ramos, quando ouvisse o primeiro trovão já se postasse no meio de músicos com tambores e dançasse para dar as boas vindas a chuva. Ponho-me a imaginar como seria tal dança.
Ela ficaria no meio da roda, enfeitada e bela, no começo apenas mexendo levemente o corpo ao som das batidas, sem sair do lugar. De repente um trovão se juntaria as batidas ritmadas e ela saberia que era hora de fazer algo mais. Seu corpo sagrado saberia o que fazer, antes que ela mesma soubesse, e seus braços se ergueriam acima da cabeça, com as mãos espalmadas. E então puxariam a chuva para baixo junto com seu corpo. Seus braços se estenderiam a frente de si, as pernas dobradas, e ela rodaria sobre si mesma, espalhando a fertilidade para os quatro cantos do mundo. Seu corpo, sua cabeça, girariam como o sol e a lua, não totalmente sincronizados mas em perfeita harmonia. Suas mãos passeariam pelo seu corpo, tocando cada ponto sagrado...os seios da abundancia, o ventre da fertilidade, a testa da visão, os pés da firmeza...e tocariam o solo, e ergueriam o solo e ela espalharia a terra fértil para todos os cantos novamente...
Sinto o primeiro pingo de água tocar meus lábios, e outros o seguem, acoitando minha face com uma água gelada e pura. Sorrio e deixo a chuva me lavar por alguns minutos, absorvendo sua pureza e seu poder.
A sensação inquietante passa, e finalmente fecho as janelas. O ritual das tempestades está completo, agora os Deuses se encarregarão de continuar o ciclo...eternamente.
