NARUTO NÃO ME PERTENCE- E SIM A MASASHI KISHIMOTO

ESTA HISTÓRIA TAMBÉM NÃO- É UMA ADAPTAÇÃO DO LIVRO DE SUZANNE ENOCH!

Capítulo V parte 2 (final)

— Não fique parando à toa — Sasuke se irritou. — Lembre-se de que Sakura está lá com ele, mantendo-o ocupado.

— Naruto e Hinata estão com ela. — Neji olhava a casa atrás dos arbustos. — Prefiro que não me vejam entrando.

— Ele não está em casa, Neji. Além disso, vamos usar máscaras.

O terceiro comparsa estava recostado a um olmo. Não observava a casa, e sim Sasuke, que acabou se voltando para ele, exasperado.

— Vamos logo?

— Desculpe, mas está difícil entender essa sua roupa... — comentou o duque de Wycliffe, divertido.

— Arre! É só um disfarce. Querem saber? Estou indo. — Decidido, Sasuke colocou a máscara de tigre e atravessou a rua, tentando não mancar para não ser reconhecido. Wycliffe e Neji o acompanharam com suas respectivas máscaras.

— Estão prontos? — Sasuke segurou a aldrava da porta.

— O escritório primeiro, depois a biblioteca e o quarto. Se não encontrarmos nada, vamos revirar a casa toda.

Os dois concordaram com um aceno de cabeça. Sasuke bateu à porta, que se abriu um instante depois.

— Ladrões! — O velho mordomo assustou-se. Sasuke forçou a passagem. O idoso recuou aos tropeções e tentou golpeá-lo com a bengala, mas Sasuke a interceptou, torceu-a e a tomou com facilidade.

— Entre aí. — Apontou a despensa da sala íntima, e o homem obedeceu. — Vocês dois! — Sasuke, apontando a bengala como se fosse uma pistola, avançou contra os dois lacaios que vinham da área de serviço. — Entrem no armário também. Rápido!

— São seis criados ao todo — Wycliffe avisou, segurando o mordomo.

— E vocês são só três... — o lacaio mais corpulento ameaçou, brandindo os dois punhos cerrados.

— Não queremos machucar ninguém, mas não atrapalhem! — Sasuke se impacientou, alerta.

— Caiam fora! — O lacaio desferiu um soco. Sasuke abaixou-se e o golpeou na têmpora com a bengala, jogando-o, desfalecido, ao chão.

— E você, prefere entrar ou cair? — Dirigiu-se ao segundo lacaio, que, andando de lado, entrou na despensa.

Neji arrastou o empregado caído para dentro do depósito.

— Faltam três. — Sasuke foi á cozinha, ao fim da área de serviço. — Vá ver lá em cima.

Neji seguiu escadaria acima, enquanto Wycliffe vigiava os três na despensa. Os criados não deviam co nhecer as atividades de Kiba, mas não podiam ficar soltos para não irem buscar reforços. A revista tinha de ser rápida, antes que Kiba voltasse.

O cozinheiro e o copeiro lavavam panelas na cozinha e, dessa vez, bastou a postura ameaçadora de Sasuke para que se convencessem a entrar na despensa, junto com os demais. Neji desceu as escadas, trazendo à frente a governanta apavorada. Com todos dentro da despensa, Wycliffe os trancou e pôs uma barricada em frente á por ta da despensa.

-Vamos encontrar esses malditos documentos- murmurou, resoluto.

X

— Bonito baio — Kiba comentou, tão próximo de Sakura que seu hálito a aqueceu no rosto.

— É lindo — ela concordou, usando toda a força de vontade para não se afastar dele. — Mas já o vi em algum leilão anterior, não?

— Já. Ele derrubou lorde Rayburne na semana passada, e no outono mordeu o filho de Totley.

— Nesse caso, talvez um pouco indócil para meu pai.- Ela vira Itachi instantes atrás em uma sacada, acompanhado de belas mulheres de reputação duvidosa. Com Naruto por perto, e Itachi à espreita, devia sentir-se absolutamente segura. Mas tinha de levar em conta que aquele homem a seu lado estivera em sua casa, conversara com seu pai, mentira fartamente, beijara-a e ainda a pedira em casamento.

E, segundo a opinião geral, o que faltava confirmar, furtara documentos que poderiam deflagrar uma guerra e espalhara um boato para prejudicar um semelhante. Por quê? Sasuke fora uma vítima escolhida, ou uma ferramenta útil?

De um jeito ou de outro, o processo de incriminá-lo estava em andamento.

— É interessante domar um animal indócil — Kiba comentou.

Sakura olhou o cercado em frente, repleto de cavalos. Estaria Kiba falando em termos genéricos, ou teria feito uma insinuação a respeito dela?

— Espera ser nomeado para um posto na Índia, não? — Hinata perguntou, vivaz.

— Isso mesmo. Wellington serviu lá e não reclamou.

— Levaria sua esposa?

— Eu gostaria de tê-la ao meu lado. — Kiba fitou Sakura.

Ela entreouvira a conversa quando o pai deixara claro que a decisão de acompanhá-lo à Índia seria dela. Mas não podia tocar no assunto para não se denunciar.

Estranho, porém, que não sofrera com a possibilida de de o futuro marido passar anos na Índia sem ela, enquanto a perspectiva de Sasuke ir embora de Londres a deixava arrasada.

Ainda bem que aquela conversa era um faz-de-conta. Forçou um sorriso.

— Ouvi coisas encantadoras sobre a Índia. As especiarias, a música... O general vai gostar muito, tenho certeza.

Algo passou pelos olhos verde-esmeralda.

— O general Haruno, na Índia? Ele será bem-vindo, óbvio, mas duvido que goste de lá. Sem os amigos, não vai ter a quem contar suas memórias.

— Mas eu e você estaremos lá — reforçou Sakura.

— Claro que seria uma honra hospedar um oficial su perior com a reputação do general. Porém ele não é mais tão jovem. Não creio que vá se sentir à vontade em um lugar tão distante e exótico. A própria viagem de navio é sacrificada.

Que interessante. A presença do general, homem honesto e probo, na certa não facilitaria as coisas para um genro recém-formado major, que, aparentemente, pretendia enriquecer às custas de contrabando, coerção e especulação.

— A viagem é assim, tão sacrificada? Nossa... Se é assim, também não sei se vou me sentir à vontade.

Ele sorriu, evasivo.

— Esse assunto é para ocasião mais propícia.

— Quero apenas conhecer seus planos, Kiba. Você pouco me falou deles. Se quer se casar comigo, devo, no mínimo, ter o direito de saber onde vou morar.

— Você é filha de um general, está acostumada ao estilo de vida militar.

— Eu era muito criança quando meu pai combateu no continente. Fiquei com minha tia, e freqüentei várias escolas para moças. Ele não queria me ver morando em casernas.

— Sua demora em responder ao meu pedido de casamento não era por causa dos problemas de Uchiha, e sim porque, na verdade, não quer se casar comigo?

Mais essa! Ela o provocara sem querer, pois, suspeitando dele, sua irritação fora aumentando a cada frase que ele dizia.

— Eu não disse isso. Só queria saber dos detalhes.

— Olhe, Sakura, aquele baio é maravilhoso — Hinata interveio.

— E quis conversar sobre isso logo aqui? — Kiba insistiu, meio ríspido, ignorando a amiga dela.

Sakura comprimiu os lábios.

— Você acabou de dizer que gostava de domar animais indóceis... — ela retrucou, tentando virar o jogo. — Como devo interpretar sua afirmação?

— Responda-me uma coisa, Sakura. — Ele segurou o braço dela com força. — Depois que esta confusão com seu amigo acabar, vai aceitar meu pedido de casamento, ou está me provocando apenas para divertir seus amigos?

Ela não teve tempo de interpretar o que Kiba di zia no olhar, pois ele simplesmente se virou e se afastou a passos largos.

— Kiba! — ela o chamou, aflita. — Aonde você vai?

— Você exagerou, não? — Naruto sussurrou, discreto.

— Se eu agisse com displicência, ele desconfiaria.- Ansiosa, Sakura olhou para o lugar onde estava Itachi. Ele desaparecera. Tomara tivesse ido avisar Sasuke que Kiba, talvez, estivesse a caminho de casa.

— Sou uma idiota!

— Não, não é — Hinata contestou. — Você está certa. Ele ia desconfiar mesmo que nós o estávamos retendo aqui sem motivo. Por isso Itachi estava de olho em nós.

— Como vocês vieram? — Naruto as guiou pelos braços, afastando-as dos cercados.

— Num coche, onde minha aia está esperando. Ele não vai descontar nela, vai?

— Creio que não. Mas vai mandá-la sair, e isso pode de morar algum tempo. Itachi está a cavalo: terá uns cinco a seis minutos de dianteira à frente de Inuzuka. Espero.

— O que vamos fazer?

Sakura ainda se culpava. Devia ter agüentado quieta mais um pouco.

Céus! E se os três ainda não tivessem encontrado os documentos? Sasuke corria o risco de ser exposto e incriminado.

— Você disse que seu pai tinha uma reunião hoje de manhã? — Naruto perguntou.

— Tinha, sim, na Guarda Real Montada.

– Vamos lá visitá-lo. Se Kiba tem os documentos e pretende incriminar Sasuke, terá que mostrá-los para alguém.

X

— Não estão aqui também — Sasuke resmungou e le vantou a máscara.

Maldição. O escritório estava imaculado, como se jamais frequentado, embora não estivesse em bom estado de conservação. Na biblioteca, os livros também pareciam em ordem.

Agora estavam espalhados no chão, e assim iam ficar, para compensar a desordem que aquele infeliz fizera em sua vida.

— No armário também não estão. — Neji levantou-se e olhou para Wycliffe, que vasculhava em vão os livros e papéis espalhados na estante de carvalho.

— Estão aqui, em algum lugar! — Sasuke exclamou.

— Se você tem em casa documentos que podem render muito dinheiro ou pô-lo na prisão, vai querê-los por per to, para não correr o risco de alguém encontrá-los por acaso. E num lugar tal a que os criados não tenham acesso, e que não o obrigue a se expor quando for consultá-los ou pegá-los.

— Disso se deduz que ainda faltam muitos lugares pos síveis — Neji observou, limpando as mãos na calça.

Sasuke andava de um lado para outro, imaginando a planta baixa do lugar. Era uma casa pequena, alugada, indício de que Kiba não estava com os bolsos muito cheios.

Mesmo assim, ele se proclamava um herói de vasta reputação... Herói que, para ser promovido a major, pretendia casar-se com a filha de um general ou deflagrar uma guerra.

— A farda — Sasuke lembrou-se, indo para a escadaria.

— Onde ele guarda a farda?

— Que farda? — Neji duvidou.

— Ele ainda está no Exército. Deve estar em algum armário, pronta para ser usada em uma ocasião especial...

— Uma entrada triunfal na prisão, por exemplo — o irmão ironizou, seguindo Sasuke de perto até os aposentos de Kiba. — Não seria meio esquisito guardar documentos em uma farda?

— Não para quem vê nela um meio de ser promovido.

— Estou quase acreditando nisso, mesmo sem ter encontrado nada ainda — acrescentou Wycliffe.

— Já pensei muito no assunto. — Sasuke abriu a porta do quarto.

Para um rendimento modesto, a quantidade de guarda-roupas na suíte surpreendia e explicava onde lorde Kiba gastava todo o seu dinheiro.

— E eu pensando que Tenten tivesse roupas demais! — Neji murmurou, dirigindo-se ao armário mais distante.

Sasuke abriu o mais próximo e procurou entre casacas, coletes, calças e calções. As camisas deviam estar em outro armário. De joelhos em frente às gavetas de baixo, encontrou meias e cachecóis, mas nenhum uniforme.

No silêncio da casa, o som da porta da frente se abrindo teve o efeito de um tiro. Ele se aprumou rapidamente e foi ao corredor. A idéia de arrancar a confissão de lorde Kiba a sopapos começava a fazer sentido.

— Tem algum ladrão aqui? — Era a voz de Itachi.

— Aqui em cima! — Sasuke o chamou, debruçado na balaustrada.

— Ele está vindo... — Itachi ofegava. — E parece zangado.

— E Sakura?

— Ficou lá. — Itachi subiu a escadaria. — Parece que tiveram uma discussão, e ele se retirou. Foi direto para a carruagem. Deve chegar aqui em minutos.

— Achei uma coisa! — Wycliffe alardeou.

Sasuke correu de volta ao quarto, onde o duque puxava um baú raso de carvalho debaixo da cama.

— Está fechado a chave.

— Se a farda estiver aí dentro, a chave deve estar com Kiba.

Sasuke examinou a fechadura, que era de boa qualidade. Quando tivera a extrema sorte de escapar do Castelo Pagnon, usava apenas a calça e a camisa rasgadas e sujas de sangue. Mesmo que o uniforme estivesse inteiro, ele o teria queimado, tal fora o desgosto que este lhe trouxera.

Kiba, ao contrário, tinha orgulho do prestígio que a farda lhe trazia...

— Tem que estar aí.

— Vamos levar o baú — Itachi sugeriu.

— Não há tempo. — Sasuke pegou a pistola na cinta.

— Para que trouxe isso? — Itachi interpelou.

— Imprevistos...

Sasuke armou o gatilho e disparou, sem rodeios. Não fazia aquilo havia quatro anos, mas sua pontaria ainda estava boa.

Abriu a tampa. Ali dentro jazia, agora com um furo no lado esquerdo da casaca muito bem passada, uma farda de capitão.

— Um tiro perfeito. Bem no coração... — Wycliffe pegou o paletó e o sacudiu.

Imediatamente, folhas de papel adejaram para o chão. Sasuke cerrou os olhos por um instante. Ele estava certo!

Agora precisava encontrar os mapas também, não só para incriminar Kiba, mas para não levar a Inglaterra a outra guerra contra Napoleão.

— É a lista! — Neji constatou com raiva- Ingleses simpatizantes de Napoleão. Pena não podermos ficar com ela por alguns dias, para irmos visitar uns e outros...

Sasuke vistoriou a farda com mais atenção e tocou um pergaminho enrolado debaixo da espada. Retirou-o. Ali estava, diante de todos, com distâncias, cotas e a planta do forte local, a ilha de Santa Helena.

— Os mapas! Você conseguiu! — Exultante, Neji sacudiu o ombro de Sasuke.

— Vamos embora — Itachi sugeriu. — Não me incomodo de ser herói, mas não quero ser preso por furto e agressão contra criados.

— Estão trancados na despensa — Neji informou, empilhando os papéis e colocando-os debaixo do braço.

Desceram a escadaria, saíram pela porta da frente e se dirigiram às montarias. Não havia sinal de Kiba, que certamente iria zangar-se quando chegasse.

— Preciso desses papéis — Sasuke pediu, antes de montarem, estendendo a mão para Neji.

— Vou levá-los para a Guarda Real Montada — Neji contestou. — Não se preocupe, Bit. Agora basta que vá para algum lugar onde possa estar em segurança.

— Esses papéis não vão para a Guarda Real Montada.

— Como? — Wycliffe arregalou os olhos.

— Lorde Kiba conseguiu acesso a esses documentos por intermédio do general Haruno, cuja carreira podemos destruir se os entregarmos diretamente aos seus superiores.

— Pensei que não gostasse muito do general Haruno.

— E não gosto. —Sasuke pegou os documentos das mãos de Neji, dobrou-os e os guardou em seu blusão de vaqueiro. — Mas gosto da filha dele.

Prejudicar o general seria o mesmo que prejudicar Sakura, e Sasuke não queria isso. A animosidade entre eles era uma questão pessoal. Ele não queria destruir um homem que, aos olhos de todos, era honrado e honesto.

— Vamos à casa do general?

— Não. — Sasuke montou Tolley. — Euvou sozinho. Vocês vão para a Mansão Uchiha, e estejam preparados, ou para informar às autoridades que fugi para os Estados Unidos, ou para testemunhar o fato de termos encontrado os documentos com Kiba, no baú da farda.

—Você manda, Bit. — Neji suspirou. — Mas tenha muito cuidado.

— Terei.

Sasuke respirou fundo. Sua integridade dependeria de como o general Haruno receberia a notícia. Contudo ele estava disposto a correr o risco. O que estava em jogo não era o apenas o futuro de Kiba ou o seu, mas também a felicidade da filha dele.

X

Sakura percebeu, no rosto das sentinelas, que Hinata não era bem-vinda na Guarda Real Montada, mesmo em companhia da filha do general Haruno. E a presença de Naruto os deixara ainda mais nervosos.

Sentiu-se até aliviada em saber que o pai já fora embora. Ele também não gostaria de vê-la em tais companhias.

— Ele deve estar em casa. — Ela entrou no coche, amparada por Naruto. — Melhor assim, pois posso conversar com ele a sós e ver se o chamo à razão. Se entrarmos todos de uma vez, meu pai pode ficar na defensiva.

— Não deveria enfrentá-lo sozinha. — Hinata evidenciava no rosto rugas de preocupação.

— O problema não é enfrentá-lo, é conseguir que ele seja receptivo.

Sakura esperava que, naquele grandioso esquema de Sasuke, alguém tivesse a incumbência de vir avisá-la que ele encontrara os documentos e saíra a salvo da residên cia de Kiba.

— Está se arriscando, Sakura. — Naruto dirigia a carruagem. — Se acusar Kiba, não tem como voltar atrás. E Sasuke não estará em posição de defend...

— Ela sabe, Naruto. — Hinata o interrompeu, pondo sua mão sobre a do marido.

Sakura agradeceu o voto de confiança. Sabia que acusar Kiba era uma questão grave. Quanto a Sasuke, o que a deixava insegura não era sua capacidade de desmascarar Kiba, mas a possibilidade, depois de fazê-lo, de ele voltar às trevas, para dentro de si mesmo.

Em frente à casa de Sakura, a carruagem parou.

— Tem certeza de que não precisamos esperar aqui? — Hinata insistiu.

— Tenho.

— Se eles encontrarem os documentos — Naruto acrescentou —, é provável que vão diretamente à Guarda Real Montada. De lá devem chamar seu pai para ver as provas.

— Ao menos posso deixá-lo preparado para a notícia. — Sakura desceu da carruagem acompanhada de Helena.

— Então, boa sorte. Nós vamos para a Mansão Uchiha, onde o resto da ação vai se desenrolar. — Ao comando de Naruto, a carruagem tomou o caminho da estrada.

— O general está no escritório — Ballow avisou, abrindo a porta e pegando o xale de Sakura. — Há alguma coisa errada, senhorita.

O que seria? Era muito cedo para algo ter acontecido. Ela rumou para o escritório, apressada. A porta esta va trancada.

— Papai! — Bateu, nervosa. — Preciso falar com o senhor.

Passos pesados aproximaram-se. A porta rangeu e se abriu.

Sakura se deteve ante a fisionomia grave e zangada do general.

— Também preciso falar com você. — Ele se afastou de lado para que ela entrasse.

— O que está havendo? — Mal perguntou, conteve-se, perplexa. Apoiado no peitoril da janela, estava Kiba. — Kiba? — Ela procurou o que dizer. — Por que me largou em Tattersall? O que está fazendo aqui? O que está havendo, afinal?

— Eu já estava de saída. — Ele se despediu dela com um frio aceno de cabeça ao rumar para a porta.

A primeira coisa que ocorreu a Sakura foi que, se Kiba estava ali, Sasuke teria mais tempo para a revista.

— Eu o ofendi de alguma maneira? -No vão da porta, ele parou para fitá-la.

— Você me decepcionou. Eu a tinha em alta conta.- Saiu, então, e ela se voltou para o pai, que a fitava, lívido.

— Você me enganou — ele disse, calmo. — Pediu-me para esperar, e usou o prazo que eu lhe dei para magoar alguém que considero amigo, e que eu esperava fosse mais que um amigo para você.

— O que ele andou contando para o senhor? -Kiba não poderia saber o que estava acontecendo.

Caso contrário, teria ido diretamente para casa, e não vindo conversar com o general.

A menos que os documentos não estivessem lá, ou estivessem tão bem escondidos que seria impossível achá-los. A menos que ele já tivesse tomado as providências necessárias para se proteger.

— Ele disse — o general falava alto, e nem fechara a porta — que você conspirou com seus ditos amigos para afastar as suspeitas de Sasuke Uchiha, e incriminá-lo do roubo na Guarda Real Montada.

— Eu...

— Contou também que Uchiha planejou plantar as provas na casa dele, e por esse motivo ele teve que vir aqui para me contar.

O que não faltava a Kiba era coragem. O sabor de verdade de sua justificativa tomava muito difícil refutá-la,

— Papai, há muito mais por trás disso do que o senhor possa imaginar.

— Do que eu possa imaginar? Suponho que trinta anos no Exército de Sua Majestade, e três anos no estado-maior da Guarda Real Montada não valham nada em comparação aos planos dos seus amigos.

— Não é bem assim...

— Perdão, senhor, mas o senhor não tem permissão de entrar nesta casa. — Era a voz de Ballow, transtornado.

Sakura voltou-se a tempo de ver Sasuke empurrar o mordomo contra a porta e irromper saguão adentro com um olhar de vitória. Depois de um instante de exultação, porém, ela entrou em pânico pois, se ele tivesse encontrado os documentos, devia ter ido diretamente à Guarda Real.

— Sasuke! — ela exclamou, trêmula. — O que está fazendo aqui?

— Sakura. — Ele parou ao lado dela, os olhos fixos no pai dela. — Preciso conversar com o general Haruno, a sós.

— Saia já da minha casa, seu patife! Não tome minha paciência por tolerância!

— Saky, espere por nós na biblioteca, por favor.

— Está tudo bem? — Ela tocou a manga da camisa de Sasuke.

— Vai estar... em breve.

Ele esperou Sakura afastar-se, depois encarou o general.

— Vamos para seu escritório, ou conversamos aqui mesmo?

— Não vamos a lugar nenhum. Não me force a enxotá-lo pessoalmente, Uchiha. Tenha a dignidade de sair com os próprios pés!

— É o que farei, daqui a pouco. Por favor... — Sasuke indicou o escritório, tentando ocultar a raiva.

O general Haruno o avaliou. Mascar vidro seria mais fácil do que enfrentar o homem à sua frente, concluiu, depois de considerar os dez centímetros de altura a mais de Sasuke, e os vinte e cinco anos de diferença entre eles.

— Dois minutos.

Sasuke o seguiu, entrou e fechou a porta.

— Você é um traidor, Uchiha. Não vai me convencer do contrário. Portanto, a menos que me mate, o que não recomendo em vista da quantidade de testemunhas presentes, é melhor que vá embora. Não só daqui, mas deste país. E o único favor que posso fazer a você, e apenas por Sakura.

— Em abril de 1814 — Sasuke fitou o amontoado de papéis em cima da escrivaninha —, o senhor comandava uma divisão do Exército no cerco a Bayonne.

— Sei onde eu estava, não precisa me lembrar.

— Preciso, sim. Napoleão tinha sido derrotado, o cessar-fogo fora declarado... Mas o senhor sabia que o General Thouvenot ainda resistia em Bayonne, e que ele pretendia atacá-lo segundo o depoimento de prisioneiros franceses.

— Não era uma informação precisa- disse o general

— Por isso, à noite, o senhor enviou uma patrulha de reconhecimento até as trincheiras francesas?

— Correto. Mas o que...

— Era a minha patrulha, general Haruno. — Sasuke teve que cerrar os punhos para manter-se calmo. — Mil franceses contra quinze ingleses, que morreram sem esboçar defesa... Quanto a mim, espancaram-me e levaram-me desacordado.

— Fui informado de que todos os soldados da patrulha tinham sido dizimados. — O rosto do general desbotara.

— Todos... menos um. Vinte dias depois que o senhor o forçou a recuar para Bayonne, Thouvenot admitiu a abdicação de Napoleão, e a guerra terminou. — Robert fitou os olhos do general. — Mas não para mim. Os ocupantes do Castelo Pagnon não se renderam e, no entanto, o Exército inglês nunca tentou tomá-lo. A resistência tramava a fuga de Napoleão. Queriam saber sobre o senhor, comandante da minha divisão, e sua família. Pensavam inclusive em matar ou chantagear comandantes ingleses.

— O senhor...

— Eu não disse nada, general. Até que, sete meses depois, quando percebi que não agüentaria muito tempo mais, e depois de presenciar atrocidades inesquecíveis, simulei atacá-los para que me matassem. A tentativa valeu a pena. Pensaram que eu tivesse morrido e despejaram-me lá fora, por cima do muro do castelo. A resistência espanhola me encontrou dois dias depois e me cobriu com ataduras. Eu sobrevivi.

Fora tudo bem pior, mas de nada adiantaria entrar em detalhes, os quais ele guardaria consigo para sempre. Ele não era traidor. Mas precisaria convencer o general Haruno.

— Está me culpando pelo que lhe aconteceu? — A voz do homem saiu rouca de sua boca ressecada. — Foi por isso que...

— Sim, eu o culpei, mas não quero me vingar. E muito menos reiniciar a guerra. O que aconteceu comigo, não desejo para ninguém. Mas preciso que me ouça, e com atenção. Não por mim, ou pelo senhor, mas por Sakura. Sem interrupções ou contestações, até eu terminar. Fui claro?

— Foi. Se é a única maneira de me livrar de você. —A voz faltava convicção, mas a rispidez voltara ao semblan te do general.

— É a única. Em primeiro lugar: entre o desaparecimento dos documentos e a notícia do roubo, quanto tempo se passou?

— Um dia.

— Depois que o senhor contou a lorde Kiba Inuzuka que eu estive preso no Castelo Pagnon, em quanto tempo a notícia veio à tona?

— Não sei.

— Responda à pergunta, por favor.

O general pensou. Havia relutância em seu olhar.

— Doze horas, talvez menos.

— Como vê, transformei-me em um excelente bode expiatório, general, mas não fui eu quem roubou os documentos da Guarda.

— E acha que foi Kiba.

— Eu sei que foi ele. — Sasuke pegou de dentro do pa letó os papéis e cópias, e os abriu sobre a mesa do general. — Encontrei-os há pouco, no baú da farda de Kiba. O duque de Wycliffe pode testemunhar, se for necessário.

— Você os colocou lá! Kiba me alertou que você tentaria inculpá-lo do roubo.

— Por quê? O que eu teria a ganhar?

— E Kiba, o que ele teria a ganhar? — rebateu o general.

— Kiba quer um posto de comando na Índia. No momento, ele não passa de um soldado competente, com um nome importante. Poderia se casar com Sakura e ser promovido, mas, para isso, ela precisaria concordar. Assim, Kiba precisaria de garantias. Com estes documentos em mãos, poderia vendê-los para conseguir dinheiro... ou reiniciar a guerra contra Napoleão. Num ou noutro caso, ele conseguiria o que quer.

— E seu envolvimento nisto? — quis saber o pai de Sakura, fitando-o com olhos estreitos.

— Como já afirmei, não passei de um bode expiatório para Inuzuka. Não sou muito popular, além de um rival em potencial em relação a Sakura. Mas a pergunta mais pertinente no momento é: qual o seu envolvimento nisso tudo, general?

— Está me acusando? — O general levantou-se abrup tamente.

— Não, não estou. Mas o acesso de Kiba à Guarda Real Montada deu-se por seu intermédio, e, como ele alardeia que o senhor é o mentor dele, o caso pode trazer-lhe repercussões adversas.

— Ele esteve aqui há pouco — Haruno falou quase consigo. — Dizendo que Sakura e as amigas estavam conspirando contra ele, e a seu favor. Essas amigas de Sakura, eu me lembrei depois, casaram-se também com verdadeiros tratantes: Neji, e um tal de Naruto... Não sei por que resolveram não gostar de Kiba. Sakura gosta dele... ou gostava.

— Gostava. — Sasuke levantou-se, controlado. — Bem, além dos documentos recuperados, o senhor tem a minha história para opor à de Kiba, e sua própria reputação em jogo. Vou para a biblioteca... Espero lá por sua decisão.

— E, para depois de desacreditar a Kiba e a mim, sair por aí, lampeiro, debochando de nós...

— Não, porque não quero magoar Sakura. — Sasuke se perguntou se o general estaria dando a devida importância a esse detalhe. — Vou acatar sua decisão. Só peço, se o senhor me julgar culpado do ocorrido, para não envolver minha família na acusação.

Apesar dos riscos, inclusive o de ser levado dali por um pelotão, Sasuke sabia que a decisão cabia ao general Kakashi Haruno.

Sakura encontrava-se sentada no sofá da biblioteca, olhando para fora. Tinha as articulações dos dedos muito brancas, e quase vibrava de tão tensa, mas, para quem não a conhecesse, era o espelho da tranqüilidade.

— Sakura... — Sasuke entrou.

— Como foi a conversa? — Ela se levantou rapidamente e cravou os dedos nas mangas da camisa dele. —Você encontrou os documentos? Kiba esteve aqui. Não sei o que contou ao meu pai, mas ele tentou culpar...

Sasuke inclinou-se e a beijou nos lábios. Imediatamente, sentiu-a ardente, viva. Totalmente diferente do momento em que a vira na presença do general.

— Encontrei.

— Ainda bem! — Ela o abraçou, trêmula. — Eu estava tão preocupada... Quando vi Kiba aqui, não sabia o que pensar

Ele recuou para fitá-la. Ficava cada vez mais difícil se lembrar de que sua vida era tão insípida antes de Sakura, cuja compreensão e beleza tinham-na coberto de cores. Se o incidente tivesse ocorrido no ano anterior, ele teria ido embora. Naquela ocasião, nada importava para ele. Mas a esperança de Sakura o comovera.

Ali, abraçada a ele, parecia tão frágil que poderia desvanecer no espaço se ele cerrasse os olhos. Mas ela era forte, amorosa e sincera.

Sasuke pensou em dizer a ela o quanto a amava, mas não seria justo. Sakura queria casar-se com alguém simples e amistoso, que o pai aprovasse, e esse alguém não era ele.

— Sasuke — ela sussurrou, preocupada —, o que houve?

— Nada. — Ele sorriu forçado. — Deixei a decisão para seu pai.

— O que disse a ele?

— Não posso contar, Sakura, foi uma conversa entre dois soldados.

O general pigarreou e os dois se viraram ao mesmo tempo. O pai dela observou os braços de Sasuke em torno da cintura de Sakura, os dela segurando os ombros dele com ânsia. Sasuke teria se afastado se ela não o tivesse impedido, segurando-o pela nuca.

— Sakura — o general tinha mas mãos os documentos roubados —, o sr. Uchiha e eu temos de sair.

A respiração dela paralisou. Sentiu os músculos de Sasuke se contraírem sob seus dedos, mas ele não se moveu. Sobre o que teriam conversado? Qual teria sido a decisão de seu pai?

Com medo, não quis deixá-lo ir, sentindo que talvez nunca mais pudesse abraçá-lo de novo.

— Aonde vocês vão? — ela perguntou.

— A Guarda Real Montada.

— Não, papai, não foi Sasuke!

— Sei que não. — Ele olhou para Sasuke, depois para ela. — Sakura, você me faria um favor?

Ela chegou a pensar, pela primeira vez na vida, em perguntar que favor, antes de concordar. Mas lembrou-se da eterna confiança que sempre tivera no pai.

— Por certo que sim.

— Deduzo que os demais conspiradores estão na Mansão Uchiha, não?

— É lá que se reúnem. — Sasuke aquiesceu.

— Pois bem. Sakura, quero que vá até lá e peça aos seus amigos para localizarem Kiba Inuzuka. Não quero que façam nada: apenas que o localizem e retor nem à casa dos Uchiha. Sasuke e eu estaremos lá em breve.

— O senhor promete?

— Prometo. Ainda está em tempo de eu tomar a atitude correta.

— Vou pegar meu chapéu. — Sakura correu escada acima.

— O senhor sabe o quanto essa atitude correta pode lhe custar? — Sasuke ponderou.

— Se acharem que a culpa foi minha, enfrentarei as conseqüências. Eu não deixaria Kiba impune para me safar.

Sasuke esperara, na melhor das hipóteses, que Kiba fosse enviado a uma viagem inesperada à Austrália ou aos Estados Unidos, e que os documentos, num passe de mágica, aparecessem de novo na Guarda Real Montada. Passara anos a fio observando o general em busca de atos e atitudes que ilustrassem a tirania e a covardia carac terísticas de quem enviara uma patrulha de reconheci mento para uma emboscada fatal. Agora, ao que parecia, tinha sido rigoroso demais.

— Vou de coche com Helena. — Sakura ofegava, an siosa. — Vamos começar as buscas.

— Tome cuidado, Sakura — Sasuke a lembrou.

Já quase saindo, Sakura deu meia-volta, aproximou-se dele, puxou-o pelos cabelos e aplicou-lhe um sonoro beijo.

— Tome cuidado, você.

O general fitou Sasuke, inquisitivo, porém ele lhe respondeu com um olhar sereno. O homem que tirasse suas conclusões. O que se passava entre ele e Sakura dizia respeito só aos dois, a ninguém mais.

O general Haruno mandou arrear sua montaria, e, junto com Sasuke, rumou para a Guarda Real Montada. Sasuke não falava porque não queria. Haruno, porque pensava, absorto.

— Recebemos informações contraditórias — Haruno rompeu o silêncio de repente. — Disseram-nos que Thouvenot poderia invadir a cidade de Saint Etienne na manhã seguinte, por isso mandei levantar a movimentação das tropas e a localização dos canhões. Se eu soubesse, não teria enviado a patrulha.

Não era um pedido de desculpas. Se fosse, Sasuke não o teria aceitado.

Mas aquiesceu com um gesto de cabeça, manifestando compreensão.

— O que contei ao senhor sobre o Castelo Pagnon deve ficar entre nós.

— Combinado. É melhor esperar no saguão — Kakashi aconselhou com um suspiro. — Ainda não o conhecem bem por aqui.

Ao descer da própria montaria, Sasuke notou os olha res desconfiados das sentinelas. O general Haruno entrou no prédio com os documentos nas mãos e, consigo, Sasuke pensou que estaria mais à vontade perto de Tolley, pois poderia ter de fugir de repente. Além do mais, aquele pátio fechado, onde se realizavam as paradas militares, lembrava muito uma prisão.

Desejou que o general fosse breve e convincente, para logo decidirem o que fazer com Kiba.

Depois, ele pensaria em como evitar que Sakura de dicasse suas futuras aulas a outra pessoa.

X

— Bit foi à Guarda Real Montada? Espontaneamente? — Neji perguntou.

Sakura tentava normalizar a respiração. Nunca conduzira tão rápido, mesmo assim aquém da necessidade.

— Meu pai prometeu vir o mais rápido possível. Precisamos localizar Kiba.

Estavam presentes Hinata e Naruto, Wycliffe, que permanecera com o grupo, os irmãos Uchiha e Tenten, aglomerados na enfeitada, e agora apertada, sala íntima.

— Vamos em pares — Itachi sugeriu. — Assim, se o acharmos, um poderá vir avisar, e o outro ficar de olho nele.

— Boa idéia — Neji concordou. — Wycliffe e eu, Itachi e Gaara, Naruto e...

— Eu também vou — Sakura declarou, decidida. — Sei onde procurar.

— Nós também sabemos — acrescentou Hinata.

— Eu vou também! — Yuu gritou.

— Com sua licença, milorde. — Dawkins entrou na sala depois de bater à porta. — Também sou voluntário, além de todos os criados e cavalariços.

— Precisamos agir com rapidez — incitou Wycliffe.

— Quando Kiba chegar em casa, vai saber que encontramos os documentos. Deve estar a meio caminho de Bristol agora.

— Acho que não — Sakura contestou. — Ele estava muito confiante em ter transferido a suspeita de volta para Sasuke. Só correria se fosse culpado. É mais pro vável que esteja tentando nos prejudicar ainda mais, ou insuflando a corte criminal para executar Sasuke como traidor da pátria.

— Não vamos tirar conclusões precipitadas. — Embora preocupado, Neji tentou amenizar a situa ção. — Muito bem. Dawkins fica aqui para receber as informações que forem chegando. Os cavalariços e lacaios serão os nossos mensageiros, mas Tenten deve ficar em casa.

— Eu vou com Hina e Sakura — contrapôs a viscondessa.

— Chibi vai comigo. — Naruto afagou os cabelos de Yuu.

— Mas aonde nós vamos? — Yuu quis saber.

— Eu vou ao White's, já que metade dos Uchiha foi banida de lá. E ao clube — Wycliffe se ofereceu.

— Nós vamos aos outros clubes. — Neji deu um tapinha de cumplicidade no braço de Gaara. — E à casa dele, caso ainda esteja lá.

— Bond Street? — Hinata sugeriu, e Sakura concordou.

Kiba poderia querer ir lá para comprar um presente para Sakura como desculpa por seu último com portamento. Além disso, lá estaria boa parte da popula ção feminina de Mayfair, ou seja, ouvidos solidários para com as queixas do belo capitão Kiba.

— Piccadilly — Naruto declarou.

— Eu fico com Covent Garden. — Itachi vestiu as luvas de cavalgar.

Foram todos para a cocheira. Tenten, ao subir na carruagem de Sakura, amparada por Neji, olhou o roseiral de Sasuke: uma muda já apresentava alguns brotos. Sorriu para o que lhe pareceu um bom presságio.

— Vocês três, tenham cuidado — Neji alertou-as— Se Kiba estava disposto a trair nosso país, não vai hesitar em agredi-las.

— Duvido. Não passa de um covarde. — A mulher dele segurou as rédeas e entoou o ruído de partida para sua parelha cinza, que saiu em passo de trote.

Hinata, no banco de trás, debruçou-se entre as duas.

— Tenten, adivinhe o que eu vi em Tattersall...

— Hina! — Sakura corou. — Estamos trabalhando.

— O quê? — Tenten insistiu em saber.

— Vi duas pessoas se beijando... E não era um beijo comum. Os dois estavam quase se engolindo!

— Que exagero! — Sakura reclamou, ruborizando ainda mais.

Tenten a fitou surpresa, mas a compreensão tomou-lhe os olhos castanhos.

— Você e Bit — concluiu, calmamente.

— Não sei como aconteceu — ela gaguejou. — Ele é extraordinário. Muito mais do que ele próprio imagina.

— Devia ter me contado! — Tenten reclamou— É sério?

Tão sério que ela sonhava com ele todas as noites, pensava nele o dia inteiro. Se Sasuke precisasse sair do país, iria com ele, ou iria ao seu encontro depois.

— Prefiro que isso fique entre mim e Sasuke. Olhem, chegamos! — Sakura respirou, aliviada. — Kiba montava um alazão quando deixou nossa casa.

— Vamos até o fim da rua primeiro, depois voltamos a pé.

Ao primeiro olhar, não viram Hércules, o cavalo de Kiba, mas havia muitas alamedas e ruas laterais onde um homem poderia amarrar seu cavalo.

Ao fim da rua, pararam. Sakura e Hinata saltaram para o chão, e Tenten desceu quase se arrastando.

Sakura ficou com todos os sentidos em alerta ao en trar na zona do comércio, pois queria ser a primeira a encontrá-lo. Kiba tentara destruir Sasuke, cortejara-a, beijara-a, pedira-a em casamento, e ao mesmo tempo tentara vender informações confidenciais para a França que poderiam reiniciar a guerra...

Outra guerra, da qual outras pessoas sairiam tão feridas quanto Sasuke.

— Saky, vá mais devagar. — Hinata pediu logo atrás, onde ia de braço dado com Tenten.

Ela olhou por cima do ombro, justificando-se:

— Não quero dar a ele a oportunidade de fugir.- Quando olhou à frente de novo, parou tão de repente que as duas quase esbarraram nela.

— Ele está ali — sussurrou, nervosa.

As abas do fraque cinza de Kiba sumiram dentro de uma numa loja de doces. As três recuaram, escondendo-se numa alameda.

— Tem certeza de que era ele?

— Absoluta!

— Para poupar Tenten, vocês duas esperem aqui. Eu vou avisar Dawkins e volto assim que puder — Hinata propôs, e correu para a carruagem.

— Temos que ficar de olho nele — Tenten insistiu. — Se Kiba desaparecer antes de chegar alguém, vamos ter que começar tudo de novo.

Sakura inspirou fundo, tentando normalizar a palpitação irregular do coração. Estava preocupada também com Tenten, já no oitavo mês de gravidez.

— Por que não espera aqui, e eu vou segui-lo?

— Vou com você.

— Ora essa, por que não damos uma volta, nós três? — A voz de Kiba veio da entrada da alameda. Sakura olhou para Tenten, e percebeu que não se atemorizara. Estava, sim, furiosa, pois ocupava um lugar especial no coração de Sasuke, que Kiba ameaçava.

— Kiba! — falou com surpreendente firmeza. — Ainda bem! Tenten está com vertigens... Pode nos ajudar ou ainda está muito zangado comigo?

— Claro que posso ajudar.— Kiba se aproximou.

— Aonde foi lady Uzumaki?

— Foi buscar lorde Neji, para ele trazer a carruagem.

— Bem pensado. Por que não vamos para o Dulce Café? Lá vocês poderão se sentar e esperar os reforços.

Reforços? Maneira beligerante de falar, mas em público seria difícil ele tentar algum ato covarde.

Kiba amparou o braço de Tenten, e os três dirigiram-se à rua principal.

Sakura não esperava que ele tivesse acreditado, mas a simulação de Kiba já lhes daria o tempo de que pre cisavam, pois sete cavalheiros ali chegariam em alguns minutos. A menos, é claro, que alguma coisa não saísse a contento na Guarda Real Montada.

Ela sentiu medo. Imaginou Sasuke sendo preso e arras tado para uma cela escura nos subterrâneos do palácio.

Por favor, apoie Sasuke... Ela pensou no pai, que infelizmente não era a única autoridade na Guarda Real.

No café, em uma mesa na calçada, Kiba sentou-se entre as duas. Aos olhos dos passantes, um casal de namorados com uma respeitável acompanhante. Aos olhos delas, uma ameaça em potencial.

Quando um objeto rijo tocou-a na lateral do corpo, Sakura viu, no bolso da casaca de Kiba, o característico contorno de uma pistola.

— Não se mexa, Sakura. Aqui ainda somos amigos — ele murmurou.

— Para que isso? — ela sussurrou, notando, pelos olhos arregalados de Tenten que a amiga percebera a movimentação.

— Para ver quem vem buscá-las. Todo homem tem que proteger seu patrimônio.

— Com uma pistola?

— Traga-nos chá com biscoitos. — Com a mão desimpedida, ele acenou para um lacaio.

— Kiba, que ridículo! Ontem mesmo falávamos de nosso casamento!

— Eu falava de casamento. Você se divertia à minha custa. Invadiram minha casa enquanto estávamos em Tattersall.

— Você avisou as autoridades?

— Avisei. Meus criados conseguiram descrever os elementos. — Ele olhou para Tenten. — E lamento informar que era o seu cunhado Sasuke, completamente alucinado. Espero que consigam prendê-lo para interro gatório, para não ser executado como cão raivoso...

O medo de Sakura evaporou diante do sorriso confiante.

— Se você o prejudicar, pode morrer antes de ser preso — afirmou calmamente.

—Pessoas como eu, querida, não vão presas. O príncipe regente nos condecora por nossos serviços à Coroa. Somos promovidos, ficamos ricos, precisamente como planejamos.

De repente, o pai dela dobrou a esquina a galope, ladea do por Neji e Itachi

E Sasuke? O que acontecera a Sasuke?

— Não é interessante? A carruagem da lady Tenten não veio.

— Deve ter havido um mal-entendido.

— Inuzuka! — o pai de Sakura gritou do cavalo.

— Levante-se!

— General Haruno... O que houve? — Kiba dissimulou. — Por favor, acalme-se. Sakura e eu estamos conversando, com todo o respeito.

Os demais comensais começaram a cochichar. Sakura continuou fitando o pai, esperando que ele percebesse que Kiba estava armado. Neji parecia zangado, mas não alarmado, e atento à sua pálida esposa.

— Ora, papai. — Sakura forçou um sorriso. — Pelo visto, o senhor esperava encontrar um arsenal, um tiroteio, ou coisa assim. Só estamos conversando...

O rosto de Neji ficou lívido, o maxilar de Haruno enrijeceu. Tinham entendido o sinal.

— Kiba, você não tem nada a ganhar — A voz do general era autoritária. — Venha conosco, queremos conversar.

— Estou bem aqui, obrigado. Onde está o aleijado do seu irmão, lorde Neji? Ele anda falando muito mal de mim.

— Está preso na Guarda Real Montada por sua causa — Neji respondeu. — Ao que parece, acusaram-no de ter invadido sua casa. Precisamos de sua presença para desmentir isso.

— Mas ele invadiu minha casa, sim, para tentar plantar os documentos roubados...

— Kiba, guarde sua pistola. Vamos conversar — O general estendeu as duas mãos à frente, para mostrar que não estava armado.

Comensais começaram a evacuar as mesas, transeuntes aglomeraram-se nas calçadas. No café, só os três e a pistola de Kiba. Apontada para ela, Sakura refletiu aliviada, e não para Tenten.

— Deixe Tenten ir, Kiba. Eu fico — Sakura sussurrou.

— Gosto de me sentar entre duas damas. Está confortável, não, viscondessa?

— Um pouco tonta com toda essa sua aflição — Tenten respondeu. — Guarde essa arma, porque, se nos ferir, vai agradecer por só morrer uma vez.

— Ora, foi-se embora nossa boa educação... Que pena, a tarde está tão agradável...

— E vai ficar mais ainda... — Bem atrás deles, Sasuke, instou com voz firme. No mesmo instante, a cabeça de Kiba inclinou-se à frente, empurrada com violência pelo cano de uma pistola.

— Vou matá-la, Uchiha! — Kiba ameaçou, mas já sem ironia na voz.

— Vai para a cadeia ou para o inferno, Inuzuka — Sasuke volveu por entre os dentes. — Escolha um!

Depois do que pareceu uma eternidade, a ponta da pistola de Kiba afastou-se lentamente de Sakura.

— Venha, Tenten — Sakura chamou a amiga com cuidado, para não irritar os dois contendores. Ajudou-a a se levantar, e as duas se afastaram.

Neji apeou e foi ao encontro de ambas no mesmo momento.

— Você está bem, Sakura? — O pai fez o mesmo e a segurou pelos ombros.

Sakura fitou Sasuke e Kiba, ambos ainda imóveis feito estátuas.

— Estou bem, Sasuke! — Sakura tentou tranquilizá-lo. — Nós duas estamos bem.

— Jogue a pistola no chão, Kiba! — ordenou Sasuke, a voz ainda carregada.

— Muito bem, Uchiha. — Kiba obedeceu. — Você ganhou. Nesse aspecto, podemos ser cavalheiros.

— Não podemos, não...

— Não, Bit, não atire! — Neji prendeu o fôlego ao ver a expressão do irmão.

Sakura também segurou o ar. Kiba cometera o grave erro de ameaçar a vida de gente que Sasuke levava no coração.

- Não, Sasuke...- Deu um passo à frente, cautelosa.

— Fique aqui!

O pai tentou segurá-la, mas ela se desvencilhou. Devagar, avançou mais um passo. Olhou fixamente para a mão de Sasuke, notando as articulações exangues que ain da empunhavam a pistola contra a cabeça de Kiba.

— Sasuke... — Ela se dirigiu ao lado oposto da mesa. — Ele vai para a cadeia, como você disse. Você conseguiu.

— Ele apontou a arma para você — ele falou, seco.

— Mas eu estou bem.

— Eu não a feri, Uchiha, contenha-se!

— Fique quieto, Kiba — Sakura ordenou, calma, segurando o ar por um segundo ao ver a mão de Sasuke tremer. — Ele fracassou... — Aproximou-se, as mãos es palmadas à frente. — Se o matar, você vai preso. Eu não quero você preso, Bit. Quero você a meu lado, comigo.

Kiba choramingou, mas, ameaçado mais uma vez, conteve-se.

— Só nós dois. — Ela pôs a mão no ombro de Sasuke, depois a desceu ao longo do braço e a pousou na mão gelada que empunhava a arma.

Sasuke exalou, trêmulo, então recuou.

De supetão, Kiba empurrou a cadeira para trás e o golpeou. No movimento, os três caíram no chão e a pistola soltou-se no ar. Em pânico, Sakura recuou pelo solo enquanto Kiba berrava e saltava sobre Sasuke. Ela gritou, apavorada. Sasuke esquivou-se para o lado e golpeou Kiba com um soco, fazendo-o tombar outra vez. Então pulou sobre ele, imobilizando-o, e passou a es murrá-lo no abdômen, nas costelas, no rosto.

— Agora vai aprender o que é lutar pela vida! — Sasuke o suspendeu pela lapela e o arremessou sobre a mesa do café.

— Sasuke, pare!

Neji e Itachi aproximaram-se e arrastaram Kiba para afastá-lo de Sasuke. Sakura se jogou sobre Sasuke e o abraçou com força.

Haveria falatório, sem dúvida, mas ela não se importava. Sasuke enfim a abraçou e a apertou contra o corpo.

— Eu morreria por você, Sakura.

— Não quero que morra por mim, quero que viva por mim!

Ela abaixou-lhe o rosto e beijou-o: uma, duas, três vezes. Sasuke retribuiu o beijo apaixonadamente.

— Eu te amo — ela sussurrou-lhe junto aos lábios.

— Eu também te amo, Sakura. Gostaria de estar à altura dos seus anseios.

Ela o fitou no fundo dos olhos.

— Eu quero você, Sasuke- Ele piscou, aturdido.

— Não sou igual aos outros. Posso tentar, mas...

— O item três da minha lista diz que, para um homem ser digno aos meus olhos, é preciso que ele se interesse por outras coisas além do aspecto físico. O item quatro, que deve ter consideração por meu pai... Sei que não gosta dele, mas mostrou muito mais respeito por ele do que Kiba. Portanto, você é a pessoa que eu procuro. Não quero uma vida simples e conveniente, Sasuke Uchiha. Quero você.

— Você me quer? — A tensão se dissipou no rosto bonito, e um sorriso tomou-lhe os lábios. — Você é uma boba.

— Ao contrário, eu deixei de ser boba- Sasuke inclinou-se e a beijou com ternura.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ele respirou fundo, e seus olhos pareciam azuis de tanto que brilhavam.

— Quer se casar comigo? Quer morar comigo?

— Quero me casar com você. E quero morar com você... Não seria feliz em outro lugar.

— Não sei respirar sem você, Sakura.

Neji se aproximou do irmão.

— Sem dizer que, sem você, as rosas dele morreriam todas... — Os olhos de Neji estavam mais fulgurantes do que o sorriso.

— É verdade — Sasuke concordou, erguendo-a pela cintura para girá-la no ar. — Você me devolveu a vida!

— E você me ensinou a dar ainda mais valor à vida... Portanto, empatamos.

Sakura enxugou uma lágrima solitária que lhe escorreu pelo rosto. Estranho ela chorar quando ali, nos braços de Sasuke, estava tão contente, tão aliviada, tão esperançosa.

Os demais comparsas tinham chegado. Naruto precisou segurar Yuu, para não deixá-lo chutar Kiba. Cada um apresentava uma surpresa e satisfação diferente no semblante.

E o pai dela nem estava tão aborrecido assim, impressionado com Sasuke depois da conversa que haviam tido no escritório.

O sorriso de Sasuke se abriu.

— O que foi? — ela perguntou, retribuindo o sorriso.

— Meu joelho não está doendo. Você faz milagres.

— Vou lembrá-lo disso na nossa festa de casamento, quando formos dançar.

Ele riu solto e Sakura sentiu o coração disparar. Era a primeira vez que ela o ouvia rindo; um som ao qual queria se acostumar.

Sasuke dissera que não poderia ser igual aos outros homens, mas não era verdade. Ele passara por maus momentos, ainda tinha lembranças sombrias, mas disso os dois cuidariam juntos dali para a frente. Queria ajudá-lo, queria estar ao lado dele quando ele enfim emergisse plenamente para a luz do sol.

Viu Hinata e Tenten de mãos dadas, rindo e chorando. As três tinham conseguido. Haviam ministrado suas aulas e encontrado o amor. Era uma idéia origina da da frustração, e em um dia chuvoso, o resultado fora muito bom.

Sakura olhou novamente para Sasuke e ele sorriu, meigo, antes de beijá-la nos lábios. Decididamente, a idéia delas tinha sido ótima.

X

È o fim!

Gente, THE END!

Então, no fim eu acabei adaptando as duas outras historias assim mesmo...

Aqui esta a de Tenten e Neji:

m. fanfiction s / 6973140 / 1 / A-aposta

E aqui a de Hinata e Naruto:

m. fanfiction s / 6973154 / 1 / Adorável-Pecador

E aqui tem outra adaptação minha SasuSaku:

m. fanfiction s / 6218684 / 1 / Sakura-enfeitiçada

Bem, pra terminar, o nome original dessa história é "O Segredo de Carroway", e é o 3° livro da série "Lições de amor" de Suzanne Enoch.

Aqui estão os nomes originais dos personagens.

Sakura Haruno - Lucinda Barrett

Sasuke Uchiha - Robert Carroway

Kiba Inuzuka - Geoffrey Newcombe

Neji Uchiha - Tristan Carroway

Itachi Uchiha - Bradshaw Carroway

Gaara Uchiha - Andrew Carroway

Yuu Uchiha - Edward Carroway

General Kakashi Haruno - General Augustus Barrett

Tenten Uchiha - Georgiana Carroway

Naruto Uzumaki - Micheal Halboro( ou St. Albyn, que é como tds o chamam)

Hinata Uzumaki - Evelyn Halboro