Capítulo 11 – Esclarecimentos

À medida que caminhava em direção à rua para um diálogo que julgava ser tenso, os pensamentos de Sam se tornavam complexos, confusos, profundos. Chegou até a se lembrar do pai e das intermináveis brigas que tiveram. Recordou-se de quando notou visíveis e inegáveis semelhanças entre Lúcifer e si mesmo; por ter um espírito rebelde e ser alguém determinado, que tinha a forte tendência de fazer tudo por conta própria, o Winchester mais novo foi o escolhido para ser o receptáculo de quem destruiria com a Terra e com os preferidos de Deus. Mas graças a grande quantia de sangue ingerida e a força de vontade que demonstrou antes da fatal luta entre Miguel e o irmão renegado, Sam conseguiu prendê-los na gaiola. Alguém, entretanto, o fez retornar ao planeta; quando achava que tinha saído do Inferno sozinho, Lúcifer reapareceu e, para surpreendê-lo, lutou contra Rafael e contra os desígnios dos anjos. Mas não por querer acabar com os homens ou com tudo que há de mais belo na Terra, e sim para proteger Castiel. O rapaz não sabia mais o que pensar, como agir. A solução, portanto, era escutar o que lhe seria dito, ainda que soubesse que Dean não concordava com tal decisão.

Ele continuava a andar. Viu Azrael e Bobby segurarem seu irmão pelo braço antes de fechar a porta que dava para a rua. Olhou, uma vez mais, para o interior do cômodo, a fim de verificar se Cass continuava a dormir, embora os três discutissem em um tom bastante alto. Como constatou que sim, respirou aliviado; não era bom que o anjo acordasse, devido ao desgaste que sofrera. Percebeu que era observado, assim que se virou de costas para a entrada da residência do caçador que considerava seu pai. Samael o encarava com uma expressão gentil, atitude que nunca, nem nos difíceis tempos do Apocalipse, se modificara.

– Disseram-me que queria me ver, o que foi? Posso ajudar em algo? – de um modo estranho, Sam sabia que o motivo do diálogo era esse.

– Sua intuição e a paranormalidade continuam no ponto, garoto – a fala do rebelde era calma, o tom baixo de voz denunciava que não queria tratar de um assunto tão sério ali. – Podemos ir a outro lugar? Quem sabe um bar... O que acha?

– Eu não sei... Meus amigos me esperam lá dentro e... Bem... O meu irmão... Você o conhece e...

– Relaxe, não vou enganar você, só preciso esclarecer algumas coisas.

– Está bem – embora soubesse que aceitar a companhia do anjo significaria abalar a confiança que Dean depositara nele após o Apocalipse, Sam sabia que necessitava ir com ele, para ouvi-lo e, assim, tirar suas próprias conclusões acerca do que seria dito.

Chegaram a uma lanchonete no outro lado da rua. O local perfeito para que não ficassem muito distantes da casa de Robert Singer, já que ambos concordaram em fazerem o possível para permanecerem atentos ao movimento na residência. Acomodaram-se e pediram os pratos que gostariam. Samuel solicitou à atendente um café e um sanduíche de carne com tomate; Lúcifer, por sua vez, pediu panquecas e um refrigerante.

– Pode deixar que eu pago tudo – comentou, o tom gentil de sempre. – Bem, acho bom iniciar a explicação que devo a você... – o rebelde o pôs a par de tudo que houve no Inferno após serem aprisionados na jaula. E disse, também, tudo que aconteceu quando Rafael o procurou; relatou-lhe, portanto, o caminho que Sam e que ele trilharam para voltar a Terra.

– Então você fez um tipo de ... Bem... – O Winchester mais novo fez uma pausa; não sabia como denominaria o ato de Samael. – ... Um pacto para nos libertar?

– Exatamente isso! – exclamou, contente por ter sido compreendido.

– Mas por que Rafael não foi até Miguel? Como ele nos encontrou primeiro?

– Eu escondi meu irmão antes; se ele fosse achado ao invés de nós dois, o mundo estaria perdido. Castiel e seu irmão não teriam forças contra o que viria, por isso o chamei a minha presença. Entende?

– Sim, claro. Quer que eu use meus poderes na luta contra os anjos, é isso?

Eles pararam a conversa por alguns instantes; a atendente lhes trazia tudo que solicitaram. Assim que ela saiu de perto deles, Lúcifer respondeu:

– É, você pescou a idéia. Não quero pô-lo em um perigo eminente. Mas você é importante nessa questão – fez uma pausa para analisar a expressão facial do interlocutor e prosseguiu: – Sei que Dean não concorda com isso, e que ele ficará uma fera ao saber que usará seus poderes psíquicos, mas não há outra alternativa viável; precisamos de ajuda, Sammy.

– E por que eu auxiliaria dessa forma? – a pergunta não deveria parecer agressiva; não era essa a intenção do rapaz. Mas o tom para fazê-la não poderia ser outro.

– Porque seu amigo está em apuros, e porque sei que você não o deixaria passar por isso tudo sozinho.

– Refere-se a Cass, não é?

– Sim. Infelizmente ele é o alvo dessa vez – Samael o pôs a par, também, dos planos de Kasbeel para o corpo de Jimmy Novak.

– Entendo – murmurou Sam, com o ar preocupado. – Dean já sabe disso?

– Informei-o antes – esclareceu o rebelde. – Achei justo não deixá-lo a margem dos fatos.

– Não sei se foi uma boa escolha. Meu irmão tem sido muito duro com o anjo – explicou o caçador, em um tom de tristeza. – Não gosto quando Dean o trata assim; Cass nos ajudou tanto, fez muita coisa pela gente... E não é que meu irmão não seja grato, ele só é bastante...

– Rude – completou Samael. – Dean é insuportavelmente ríspido com Castiel. E é por aí que a coisa vai.

– Que quer dizer com isso?

– É nesse ponto que os anjos estão batendo, porque notaram que é algo real e que causa o efeito necessário.

– Hum... – o rapaz fez uma pausa para pensar um pouco; uma idéia lhe ocorria: – Eles pretendem forçar Cass a ir embora, de livre e espontânea vontade, para que Kasbeel assuma o controle... É isso? – questionou, certo de que não havia outra alternativa plausível.

– Creio que seja esse o plano deles, atacar por um lado psicológico, antes de um confronto mais direto – respondeu. – Por isso o chamei, também. Se for para Dean explodir, que o faça de uma vez só, e que entenda de uma vez por todas por que deve tomar cuidado.

– Ok, eu entendi. Só não sei como segurarei meu irmão. Mas concordo com sua idéia de usar meus poderes.

– Ótimo! É bom saber que quer cooperar conosco.

– Você... Não... Está me enganando, não é? – a pergunta saiu abafada. Sam não queria dar a entender que desconfiava do outro, mas precisava ter certeza de que não o trapaceariam.

– Não, claro. A situação abrange algo muito maior do que vocês dois, ainda que tenham grande relevância para anjos e demônios. Não há, porém, só os Winchester's no mundo, Sammy. Há, também, outros receptáculos poderosos, e Jimmy Novak é um deles.

– Eu sei... Eu sei... Só que... – as frases entrecortadas do jovem caçador denunciavam o nervosismo que sentia. – ... Depois da Ruby, não confiei em mais ninguém, e antes... Sempre brigava com meu pai e com Dean por causa do meu jeito de ser e de agir... Não quero que isso aconteça novamente.

– Fique tranqüilo – Samael pousou a mão esquerda na direita do Winchester mais novo, a fim de lhe trazer maior serenidade e prosseguiu: – Não estou aqui para uma missão destrutiva, ao menos não dessa vez. Pretendo, apenas, que Castiel tenha paz e alegria. Seja com vocês; seja no Céu; não me importa onde... Só quero vê-lo bem.

– Por que tamanho interesse em Cass? O conhece há quanto tempo?

Como Samuel não sabia da história contada a Dean, Lúcifer a relatou ao rapaz, que a ouviu atentamente. Como o rebelde e Sam eram ligados por questões sangüíneas, o caçador percebeu toda a culpa que preenchia o coração do outro.

– Arrepende-se da rebelião? – perguntou, como se quisesse que o interlocutor cuspisse o que o atormentava.

– Não sei se posso ou se devo proferir isso agora, Sammy. Mas sinto muito por não ter cuidado dos garotos como deveria... Por não tê-los orientado... – Engoliu em seco e continuou a falar: – Castiel é um guerreiro bastante hábil, mas é frágil e inocente ainda; e quando envolvem os amigos que ele ama em um perigo tão eminente, a situação se complica demais.

– Certo. O que me disse basta para que eu confie um pouco em você, mas serve, também, para que eu continue atento. Não é nada pessoal, acredite; apenas tenho de tomar alguns cuidados.

– Sei disso, pode deixar – o anjo retirou a mão de cima da do Winchester e passou a observá-lo.

– E então, como faço para ampliar meus poderes psíquicos? Tenho de beber combustível de novo? – Sam tinha um olhar assustado quando se referiu ao sangue de demônio.

– Não, fique calmo. Você somente tem de treinar comigo, a fim de ampliar as habilidades mentais. Necessitaremos de dois ou três dias, no máximo. Como você retornou do Inferno por uma barganha minha, tem todos os poderes a pleno. Só deve elevá-los ao nível máximo.

– Certo. Mas, me diga uma coisa, quando isso tudo terminar, terei de voltar ao Inferno com você?

– Bem... – Lúcifer arregalou, de imediato, os olhos. Não queria falar em tal assunto agora, todavia não esconderia nada dele, bem como prometera a Azrael. – Infelizmente sim. Rafael não concordou em deixá-lo aqui em definitivo; como ele acreditou que eu cooperaria com Kasbeel, me soltou e libertou você. Mas só durante essa batalha. Depois tenho de buscar você.

– Não tem como abrir alguma exceção para mim, não é?

– Eu posso pensar nisso... Tentar encontrar um modo eficaz... Mas a princípio, não. Se eu não o levar de maneira sutil, os anjos o arrastarão para o buraco. E eu não quero que machuquem você.

– Ok, ok, obrigado por querer me ajudar. Mas e quanto aos treinos ... Quando começaremos?

– No que depender de mim podemos...

– Podemos dar o fora daqui – disse Dean, interrompendo a fala de Samael. – Você não vai se vender a esse filho sem mãe.

– Tente me escutar, por favor... – Sam parou de falar, devido ao estrondo do soco que o irmão dera na mesa.

– Cale a boca Sammy! – exclamou, impaciente. – Não vou deixar esses merdas usarem você de novo. O padrão sempre é esse...

– Ouça, rapaz, não pretendo usá-lo, quero que ele ajude Castiel, que ainda se encontra no corpo de Jimmy Novak, para que, dessa forma, a humanidade não sofra as conseqüências...

– Ah sim, você se importa muito com as pessoas do planeta; deve ser por isso que quis destruí-lo e levar todos nós à morte – o tom sarcástico do loiro irritou Sam, que, mesmo assim, fez de tudo para manter a serenidade.

– Olhe, Dean, fique calmo e vamos conversar, certo? – no calor do diálogo, nem Samael e nem os Winchester's notaram que a lanchonete estava vazia; era um sinal de que demônios circundavam a área.

– Está agindo do mesmo jeito de quando nós discutimos sobre a vadia da Ruby – comentou o mais velho, em um tom amargurado. – Quando vai aprender a se afastar dessa gente maldita e imunda?

– Ei, Dean, por favor, fique calmo – o modo sereno de falar do anjo Castiel preencheu o local; Bobby e Azrael o seguiam, preocupados; não queriam que o ser celeste se desgastasse ainda mais.

– Eu mandei ficarem de olho nele – o loiro apontou para o caçador mais velho e para o anjo.

– Você não manda em ninguém aqui – comentou Azrael, visivelmente desconfortável com aquela situação. – Meu irmão se sentiu aflito porque você saiu de maneira estabanada – completou.

– Eu estou falando com Sammy, não precisa se sentir assim; voltarei para casa depois. Vá com eles – pediu o Winchester mais velho.

– Não – respondeu Castiel. – Não sairei daqui até que você venha comigo. Deixe seu irmão; confie nele; Sam não vai pôr tudo a perder...

– E quem pediu sua opinião? – o tom ríspido de Dean era mais forte do que o normal. – Eu resolverei isso sozinho!

A sensação de impotência frente a tudo que escutou o fez se calar; ele queria reagir, sacudir seu protegido, lhe dar uma boa surra, como já fizera antes. Mas nada disso surtiria o efeito desejado, e Cass sabia que não poderia fazer coisa alguma. Em sua mente angelical, apenas as amargas lembranças de Uriel lhe dizendo que não fazia parte da família ganhavam espaço. Tentava se concentrar, conter as emoções; não conseguia. Queria ser parte da vida dos irmãos, desejava ser um Winchester, pois gostava muito da companhia dos dois. Tamanha vontade, porém, esbarrava no modo rude que Dean tinha de ser.

De pé, encostado a uma mesa, o ser celeste olhava para o nada, enquanto Bobby e Azrael pegavam cadeiras para se acomodar. Sam, por outro lado, mantinha os olhos fixos em Lúcifer – na seriedade que eles emanavam. E Dean, como de costume, os observava sem compreender coisa alguma. Mas no fundo o loiro sabia que cometera o mesmo erro de sempre: ser duro com seu protetor. E mal sabia ele que aquilo teria graves e inevitáveis conseqüências.