Para quem havia planejado uma celebração, a casa estava muito mais silenciosa e vazia do que o esperado. Depois da saída intempestiva de Ben, o Sr. Clearwater, preocupado com a segurança do filho – que havia acabado de ser procurado por uma criminosa à solta, e saíra sem destino e sem avisar para onde ia – acabou partindo para Hogwarts poucos minutos depois, e agora Gustavo e Penny se encontravam novamente sozinhos. Mas Penny não conseguia parar de pensar no que havia acontecido. Descobrir a verdade sobre a morte de sua mãe foi algo tão impactante que ela não conseguia falar sobre o assunto, e estava achando difícil decidir se queria ou não a companhia de Gustavo; quando ele estava por perto ela queria ficar sozinha, e quando estava sozinha queria estar com ele. Resolveu quebrar o silêncio somente à noite, quando o bolo que se formara em sua garganta a impedia de engolir qualquer coisa comestível à hora do jantar.

- Por que sempre tem que dar tudo errado comigo? – Ela suspirou, esfregando o rosto com as mãos.

Gustavo ergueu a cabeça para ela e viu uma lágrima escorrer pelo seu rosto; respeitara até ali o silêncio da namorada e, quando falou com ela, procurou usar o tom mais brando que conseguiu:

- Ainda podemos marcar o noivado para um outro dia...

- Eu não quero marcar outro dia; será que ninguém me entende? Ninguém se importa comigo, só se importam com o Ben...

- Ele acabou de descobrir que é filho bastardo de uma assassina e que o seu pai teve que criá-lo contra a própria vontade; tente se colocar no lugar dele.

- E alguém já tentou se colocar no meu lugar? Alguém já procurou entender como eu me sinto?

Gustavo se aproximou dela procurando se mostrar compreensivo.

- E como é que você está se sentindo agora?

- Eu me sinto como... – as palavras lhe faltaram. Toda a tensão da discussão que tivera pareceu desabar de uma vez, fazendo-a perceber o quanto tinha sido injusta com o irmão ao lhe desejar a morte. – Me sinto como... um monstro...

As lágrimas lhe escorreram pelos olhos e ela enxugou o rosto com a manga da blusa.

- Você pegou pesado com ele – disse Gustavo. – Essa rivalidade entre vocês dois não deveria existir; vocês são irmãos! Deviam procurar se entender.

- Como é que eu vou falar com ele? – indagou Penny. – Como vou ter coragem de olhar para ele depois de tudo o que eu falei? Você, você bem que podia tentar falar com ele por mim...

- Eu não posso. Não posso me envolver nos assuntos da sua família; eu já tentei uma vez, e quando eu menos esperava vocês já tinham se entendido. Esse é o tipo de coisa que vocês têm que tentar resolver sozinhos.

- É, você tem razão – suspirou Penny. – Vou falar com ele assim que ele voltar de Hogwarts para as férias de verão, em julho. Enquanto isso ele vai ficar pensando que eu sou a pior irmã do mundo...

- A minha mãe costuma dizer que os pensamentos podem deixar marcas mais profundas do que qualquer outra coisa – disse Gustavo. – Então, quando antes você puder resolver isso, será melhor.

Algumas semanas depois, ele encontrou a namorada amarrando um pergaminho na perna de Celestina. A garota levou um pequeno susto ao se deparar com ele, antes de soltar a coruja e vê-la bater asas no céu quase limpo.

- Ela já está curada, pronta para voar de novo – explicou ela.

- E para quem é a carta? – interessou-se o rapaz.

- Para o Ben. É o aniversário dele agora em maio e eu quero tentar me entender com ele; não quero prolongar esse clima de esquisitice até julho...

Mas o garoto demorou para responder. O sol voltara a brilhar intensamente sobre a grama que se ondulava à brisa mansa de junho quando Penny finalmente viu a sua coruja, bege e vistosa, sobrevoando no céu sem nuvens que sorria para o povoado de Godric's Hollow. A garota viu que a coruja trazia um pergaminho enrolado à perna e, junto com Gustavo, desenrolou-o ansiosa para ler a carta escrita na caligrafia de Ben:

Penny,

Recebi a sua carta; eu só não respondi antes porque estive treinando para a final do campeonato de quadribol. Não que isso tenha adiantado muita coisa; devo admitir que o nosso time este ano esteve uma bela duma porcaria. Os novos artilheiros até que não são ruins, mas a Cho não tem estado nada bem ultimamente; ela ficava chorando pelos cantos antes dos treinos e isso meio que atrapalhou o desempenho dela como apanhadora. O Rogério, em vez de ajudar, acabou chamando ela para sair porque acredita que essa é a única solução para tudo. Mas, como ela se recusou, ele arrumou uma namorada nova e por isso não sobrou muito tempo para treinar a equipe. Sinceramente não sei como conseguimos chegar à final. No fim das contas, no último jogo eu também não estava me sentindo muito bem e acabei tomando mais frangos do que o Rony Weasley, que era disparado o goleiro mais vazado de toda a temporada. Por conta disso, perdemos a final para a Grifinória por duzentos e vinte a quarenta. Quem gostou foi a Alicia Spinnet; ela tem estado brava comigo desde o dia em que foi atingida nas sobrancelhas com um Feitiço para Engrossar os Cabelos. Eu não fiz nada de mais, só que ela ficou com as sobrancelhas tão grandes que chegavam a tampar os olhos e a boca, e eu, lógico, levei um baita susto. Parece que ela não gostou muito da minha reação porque passou a me ignorar depois disso.

Mas o que tirou a minha concentração durante o jogo foi, na verdade, a preocupação com o nosso pai. Não que a desconfiança seja muita, mas não raras vezes tenho visto ele descendo os jardins do castelo em direção à saída de Hogwarts. Recentemente a sala dele estava com um forte cheiro de pus de bubotúbera – que por acaso é o ingrediente principal da Poção Embelezadora. Não quero me precipitar, mas tenho a leve impressão de que o nosso querido pai esteja se encontrando com alguém.

Gustavo e Penny se entreolharam espantados, depois se voltaram novamente para o pergaminho, as cabeças coladas como se fossem uma só:

O mais intrigante é que ele não parece estar sob o efeito de alguma Poção do Amor, e também não parece estar agindo sob o efeito da Maldição Imperius ou coisa parecida. Eu realmente não quero acreditar que isso tenha algum tipo de ligação com a tal da Lestrange, mas, se alguma coisa acontecer com ele ou comigo, é bom que vocês estejam avisados.

Vou terminar por aqui pois tenho que estudar para os exames. Parece que o Edu não vai me ajudar desta vez; ele anda revoltado com a Hermione porque ela confiscou a garrafa dele de Elixir Baruffio para o Cérebro e despejou todo o conteúdo num vaso sanitário. De qualquer forma, caso eu não apareça no seu próximo noivado, talvez eu tenha sido sequestrado, ou é porque eu nem queria ir mesmo.

A propósito, você sabe qual é o objeto que tem som, luz e ar e flutua na superfície do mar? Já citei todos os tipos de embarcações que existem, mas a demônia da aldraba não quer abrir a porta pra mim.

Mande a resposta com urgência.

Atenciosamente, Ben.

- E ainda termina a carta com "Atenciosamente", vê se eu posso com isso! – exclamou Penny, incrédula. – O que vamos fazer agora?

- Vamos pedir para ele nos manter informados – disse Gustavo. – Não há muito o que fazer.

- Mas... e se – ela parecia mais apreensiva do que nunca. – E se aquela mulher estiver mesmo agindo às escondidas? Se ela estiver tentando alguma coisa contra o meu pai? Se ela sequestrar o Ben?

- Não podemos simplesmente sair por aí tentando salvar as pessoas sem saber exatamente o que está acontecendo, Penny. Pode ser uma armadilha.

- Mas é o meu pai... É a minha família... Podem estar sendo perseguidos pela assassina louca que matou a minha mãe!

- Exatamente por isso; ela é perigosa. Vamos esperar por notícias, então procuramos ajuda.

A garota bufou contrariada, embora soubesse muito bem que nem ela e nem Gustavo podiam fazer algo para ajudar caso algo de fato acontecesse.

Gustavo agora morava na casa dos Clearwater e sabia que tinha apoiar a família, mas novamente havia chegado o momento de pensar num outro lugar para ficar, pois as férias estavam se aproximando e ele tinha a certeza de que não poderia passar o verão inteiro com os Clearwater enquanto todos eles não estivessem cientes das suas transformações. Se ao menos pudesse realmente se casar com Penny, viver com ela numa casa que fosse só deles, sem se preocupar em se esconder dos outros...

Ele esteve tão preocupado com isso que simplesmente não conseguiu se concentrar no trabalho no dia seguinte. Como não estava tendo sorte com fotos, resolveu sair para procurar lugares onde pudesse passar o verão, mas nada lhe parecia mais seguro do que Hogsmeade ou a casa de sua mãe. No fundo, ele sabia muito bem que não era nada disso o que ele queria...

Sem ter o que fazer até o fim da tarde, Gustavo desaparatou de volta ao vilarejo de Godric's Hollow e passou um tempo admirando os chalés de ambos os lados da via estreita. Com um suspiro desanimado de quem sabia que nem que vivesse duas vidas seria capaz de comprar um daqueles, observou as portas, os tetos idênticos, os pórticos, as janelas, e ocasionalmente reparou no chalé em ruínas bem ao lado da casa dos Clearwater. Não era tão ruim; era um chalé de dois andares caindo aos pedaços, mas que podia muito bem ser reconstruído com um pouco de magia.

Ele se aproximou; nunca havia tido notícias de que alguém morasse ali. Ao se aproximar do portão, viu uma placa de madeira e chegou-se mais perto para ler os seus dizeres:

"Neste local, na noite de 31 de outubro de 1981, Lílian e Tiago Potter perderam a vida.

Seu filho, Harry, é o único bruxo a ter sobrevivido à Maldição da Morte. Esta casa, invisível aos trouxas, foi mantida em ruínas como um monumento aos Potter e uma lembrança da violência que destruiu sua família".

Gustavo ficou em choque. Por alguma razão não conseguia encontrar palavras para dizer o que significava para ele estar diante da casa onde o maior bruxo das trevas de todos os tempos havia sido derrotado uma vez, e, naquele momento, ficou claro que uma segunda guerra bruxa estava prestes a começar, agora que o Lorde das Trevas estava vivo e pronto para atacar novamente – embora o ministério continuasse a afirmar que não houvesse fundamento algum nos persistentes boatos de que ele houvesse retornado. Ele poderia ter sido vizinho dos Potter, imaginou, se eles tivessem sobrevivido. Deixou, então, na placa, uma mensagem de boa sorte para Harry, no que quer que fosse que ele estivesse fazendo para provar à comunidade bruxa o retorno de Lorde Voldemort.

Na noite de sexta-feira, o ministro da Magia milagrosamente resolveu fazer uma declaração coletiva à imprensa confirmando que Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado retornara ao país e já começara a agir. Parecia cansado e nervoso ao se dirigir aos repórteres. Ele informou também a ocorrência de uma rebelião em massa dos dementadores de Azkaban, que demonstraram sua insatisfação em servir ao Ministério e aparentemente estavam também recebendo ordens do Lorde das Trevas, e que ele, junto com um grupo de Comensais da Morte, havia conseguido entrar no próprio Ministério da Magia na noite anterior.

Com isso, Dumbledore acabou sendo reconduzido ao cargo de diretor em Hogwarts, bem como membro da Confederação Internacional dos Bruxos e presidente da Suprema Corte dos Bruxos, e Harry voltou a ser tratado pelo Profeta Diário como "o menino que sobreviveu", e não como um exibicionista delirante. A edição do Profeta Dominical foi recheada de detalhes sobre os acontecimentos que provocaram essa reviravolta ministerial, e chegaram, inclusive, a republicar a entrevista que Harry concedera ao Pasquim meses antes.

- Agora o jornal vai começar a vir repleto de artigos ensinando a repelir dementadores – disse Penny com o Profeta em mãos, no primeiro dia das férias de verão. – Já estão noticiando as tentativas do Ministério para caçar os Comensais da Morte; só falta começarem a reproduzir as cartas histéricas das pessoas dizendo ter visto Você-Sabe-Quem passando pelo quintal das suas casas logo pela manhã...

- Espero que o Ministério faça a coisa certa desta vez, porque eu não quero nem ver quando isso começar para valer – suspirou Gustavo, fechando o jornal. – A que horas o seu pai vai chegar com o Ben?

- A qualquer momento – respondeu Penny. – E eu não duvido nada que eles estejam discutindo.

- Mas como é que você sabe que...

Foi dito e feito. Gustavo mal completara a frase quando a porta da sala foi aberta, e por ela entrou Ben, seguido pelo Sr. Clearwater, que parecia extremamente irritado.

- E tudo o que você me consegue é uma cicatriz permanente na mão dizendo "Não devo ofender os professores" – disse o Sr. Clearwater enfático ao passar pela porta. – Como espera conseguir passar nos N.I.E. M's desse jeito? Você já tem dezessete anos, Benjamin; é oficialmente um bruxo maior de idade. Sabe o que isso significa?

- Hã, posso usar magia e aparatar a hora que eu quiser? – arriscou Ben.

- Não! Significa que está na hora de você escolher uma profissão! Não foi você quem disse na orientação vocacional que iria prestar o teste para trabalhar no Gringotes?

- Na verdade, eu disse que você ia querer que eu trabalhasse no Gringotes...

- Mas você não conseguiu N.O. M's suficientes em Aritmancia; não pode nem participar do teste admissional desse jeito!

- Não preciso de nota em Aritmancia para a profissão que escolhi seguir. Só preciso do instrumento certo.

- Ótimo – o Sr. Clearwater se acalmou um pouco. – Certo, e que instrumento seria?

- Uma guitarra.

- Não vou comprar uma guitarra para você! – disparou o Sr. Clearwater, novamente aborrecido. – Não vou permitir que você se torne o guitarrista vagabundo de uma banda de rock desafinada e ensurdecedora! Quantas pessoas você conhece que ganharam dinheiro trabalhando com música?

- Você quer que eu diga por ordem alfabética ou o quê?

- Você não tem guitarra?

Os dois se viraram para olhar Gustavo, que acabara de fazer a pergunta, como se não esperassem que ele estivesse ouvindo a conversa. O rapaz pigarreou, apanhou a mochila e ficou em pé.

- Bom, se não se importa, Sr. Clearwater, eu gostaria de passar uns dias na casa da minha mãe.

O Sr. Clearwater olhou para ele, estudando-o. Então balançou a cabeça, deu-lhe uma breve palmadinha no ombro e disse:

- Você me entendeu bem.

O rapaz sorriu desajeitado, colocou a mochila nas costas e se despediu, segurando a mão de Penny pela última vez antes de virar-se e sair da casa para a rua ensolarada.