Olá.
Aqui está a atualização de O SIGNIFICADO DAS TREVAS. Espero que gostem deste curto e confuso capítulo.
Tive uma louca semana de termino de bimestre. Nesse fim de semana estarei "amarrada" com o colégio por causa dos festejos julinos... Então me adiantei ao máximo para postar o capítulo hoje, conforme havia prometido.
Como sempre, ou, pior ainda do que sempre, este foi digitado com muita pressa e pouca revisão. O que me preocupa são algumas "idéias subentendidas" que não sei se ficarão muito claras, espero que sim... só as reviews de vocês vão me tirar essa dúvida.
Deixo vocês então com essa rápida atualização. Agora estamos também quase entrando em outra etapa de SdT. Quem sabe no próximo capítulo algumas revelações maiores esclareçam mais fatos do que as revelações de hoje o farão.
Beijos e obrigada sempre à:
NANDA – GIBY – KIANNAH – NIMRODEL – PITYBE – TELPË – AKAI – LELE – TENIRA – MYRIARA – CAUINHA – LENE – JURUBY – LYTA – LARWEN – GREYHAWKSLASH – GIOZINHA – KARINA – LEKA – BOT – TRIX – IDRIL ANARION – THAISSI – PRI – GABY GRANGER – NININHA FERRARI - FLAVINHA
nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos silêncio
Clarice Lispector
CAPÍTULO 11 – OS INDECIFRÁVEIS CAMINHOS DA LUZ
Do que se decorreu naquele espaço de tempo que pareceu infinito, Legolas pouco se lembrava. O que ficara em sua mente fora o ato de segurar a mão do jovem Fowler e deixar-se guiar. Os protestos do amigo Aragorn soaram-lhe durante todo o caminho e o silêncio preocupado de Elrohir também lhe induzia a devida preocupação com o que estava para fazer. Embora ele não soubesse ao certo o que seria.
Conversas desencontradas enquanto o julgavam adormecido tinham-lhe semeado idéias não muito claras sobre a cura de Estel. Entretanto, não havia como não concluir, principalmente agora com os comentários que ouvia no caminho, que, compreendesse ele ou não, o arqueiro estava certo de que tivera alguma contribuição naquela estranha e quase inexplicável melhora do amigo guardião.
Agora tudo era a mesma estranha escuridão, na qual, porém, ele sentia mais frio do que o costumeiro. Elrond segurava fortemente seu braço e o arqueiro percebia que mesmo o corpo do curador também estava mais frio do que o habitual.
"Vamos conversar, ion-nin." Pediu o lorde elfo e Legolas sentiu que o mestre queria tirá-lo do quarto de Skipper.
"Não. Lorde Elrond. Deixe Squirrel ajudar, por favor." Legolas ouviu a voz angustiada de Fowler, um pouco distante dele. O menino posicionara-se ao lado da cama do pai e segurava agora a mão do agonizante Skipper, cuja voz também já chegara aos ouvidos do príncipe da Floresta.
"Ele sofre, mestre." Legolas reforçou a súplica do jovem amigo, ele mesmo agoniado com as palavras desconexas que ouvia o velho dúnadan dizer. "Eu posso ajudá-lo."
Elrond sacudiu a cabeça, mal podendo conter os sentimentos confusos que o estavam dominando. Ele olhou mais uma vez para Aragorn e Elrohir com um ar mais severo do que qualquer palavra que pudesse dizer e os dois filhos moveram-se constrangidos em seus lugares, sem saber o que levantar em suas defesas. Eles bem que tentaram convencer o amigo louro de que a posição tomada não era a mais acertada, mas foram pouco felizes.
Legolas então puxou um pouco o braço que o curador ainda segurava e Elrond voltou a reforçar o aperto de seus dedos em volta dele.
"Mestre..."
"Legolas." O tom do curador ganhou gravidade. "Não se lembra do que aconteceu. Lembra-se?"
"Não, senhor."
"Então por que julga que pode ajudar?"
"Porque posso, mestre. Sinto que posso."
Elrond balançou a cabeça.
"Sente, ion-nin? Sente como? Como é esse seu sentir?"
"Eu... Eu não sei, mestre." O príncipe enfatizou, mostrando-se incomodado, sua voz refletindo os mesmos tons que usara em sua chegada em Imladris. As feições de Elrond também se alteraram e o curador só pôde lamentar ver todo o seu esforço esvair-se em quase nada. Legolas perdia a pouca paz que parecia ter encontrado e a forma como se colocara na defensiva, enlaçando instintivamente o pulso da mão que o segurava, já mostrava ao lorde elfo o quão longe tinham chegado suas perdas.
"Sabe que não quero seu mal." Elrond reforçou, pousando suavemente a outra mão sobre a do príncipe, esperando que sua atitude de represália anterior não se repetisse como fora no passado próximo.
O peito do arqueiro oscilou em seu arfar contínuo e ele mexeu levemente os ombros, como se se contivesse com um grande esforço.
"Eu sei, mestre..." As palavras escaparam de sua boca com um suspiro, mas Elrond via que não havia desejo de proferi-las. Legolas parecia ter sua atenção presa ao que acontecia no leito daquele quarto, sua mente tomada pelos lamentos do Dúnadan ferido. "Eu... só não tenho a resposta que o senhor precisa e não posso esperar por ela."
"Legolas..."
"Eu sinto, mestre... Uma atração que não posso explicar... Uma atração e uma repulsa mescladas... Eu... Eu não quero tentar, algo me diz para não fazê-lo, mas outro... outro sentimento me obriga, me cobra como se fosse... fosse algo cuja validade eu sequer devesse estar questionando... Eu..."
Ele fechou os olhos então, apertando-os e voltando a abri-los muito, como se estivesse se sentindo em algum sonho e desejasse despertar. Elrond não compreendeu e aquela incompreensão de tudo foi suficiente para selar os limites que o curador procurava.
"Não posso permitir, criança. Se não se lembra de fato do que ocorreu no instante da outra cura, isso se faz mais um motivo para que eu lhe peça que me dê mais tempo. Ainda tenho alguns recursos que desejo usar."
"Mestre." Legolas reforçou a voz e seus olhos se alinharam com o do lorde de Imladris. Elrond uniu as sobrancelhas, sentindo aquela incômoda sensação que essa atitude involuntária parecia despertar em todos. "Não há tempo... Não há tempo, meu mestre."
"Misericórdia, Lorde Elrond." Fowler suplicou em voz alta, em um reforço absoluto à constatação do arqueiro da Floresta. O rosto já banhado pelas lágrimas de desespero. Elrond lançou-lhe um olhar angustiado. As bandagens de Skipper começavam a avermelhar-se novamente. Era a quinta vez, apenas naquela manhã, que eles tinham-nas reposto. Legolas puxou novamente o braço e desta vez o curador não se sentiu capaz de objetar, apertando apreensivo os lábios ao ver o rapaz chegar, com a ajuda de Idhrenniel, à cama do paciente.
No outro lado do quarto, em seu silêncio peculiar, estava Elladan. O jovem elfo quedava-se em pé ao lado do leito e agora mantinha uma mão apoiada no ombro de Fowler. Seus olhos, no entanto, quase não deixaram os do irmão gêmeo deste que Elrohir entrara acompanhando os demais e as informações que eles trocavam agora não pareciam apaziguar a nenhum dos dois.
O príncipe achegou-se enfim ao paciente e, erguendo hesitante uma mão, percorreu as dobras do lençol até conseguir encontrar o que queria. A mão do amigo dúnadan no leito, agora presa na sua não retribuía ao aperto que recebia, o que por si só já atestava a urgência de qualquer que fossem as atitudes a ser tomadas.
Tudo se converteu em alguns instantes de apreensão, no qual o silêncio fora sepulcral. Legolas havia fechado os olhos, tentando intuir sobre o que fazer, mas sentindo-se perdido em um caminho que deveria conhecer. Ele levou a mão direita a ajudar a esquerda, mantendo a do amigo agora envolta por ambas as suas e voltou a apertar os olhos fechados.
Ele sabia pelo que aguardar. Não lembrava do que fizera, mas a sensação fora bem gravada em sua mente. A sensação da queda de quem sonha, uma vertiginosa queda sem fronteiras, seu corpo rasgando o vento com rapidez, a escuridão escondendo imagens que ele não sabia se queria ver.
Era uma estranha sensação, como se buscasse por uma idéia conhecida, mas cuja memória insistia em esconder-lhe.
Flashes de sensações.
Sensações de frio.
De agonia.
Sensações de medo.
A solução por trás de uma porta inevitavelmente trancada. Uma porta enorme, sem qualquer fechadura aparente.
"Não posso..." Disse o príncipe em um sombrio e súbito desabafo. Soltando todo o ar do peito pelos lábios entreabertos e erguendo a cabeça. Seu rosto estava mais pálido, seus traços trêmulos, o cansaço de um grande esforço estampado em seu rosto. "Não está certo."
"O que não está certo?" Elladan indagou então, olhando preocupado para o amigo louro. Elrohir e Estel aproximaram-se um pouco mais.
"É... é magia... Precisa ser combatida." O príncipe respondeu, apoiando a palma na face esquerda e oferecendo-lhe uma certa pressão. A mão de Elrond tomou seu ombro.
"Está se esforçando além de seus limites, criança."
"Não, mestre... É magia... Falta... Falta algo."
"Como assim?" Os gêmeos perguntaram em uma única voz.
"Algo está... faltando... Mas não sei o que... o que é..."
Os três irmãos presentes voltaram a se entreolhar preocupados, mas as feições de Elrond se transformaram com aquela informação. As palavras de Glorfindel ecoaram em sua mente.
"Falta um elemento e você sabe disso, Elrond."
O curador fechou os olhos, pelos poucos segundos que seu senso de responsabilidade lhe permitiu. Depois disso Elrond aproximou-se mais, erguendo as palmas e colocando-as por sobre o peito de Skipper, como fizera com Estel no momento da cura.
"Temos que repetir nossa parte." Ele afirmou com veemência, sua voz poderosa trazendo um tremor aos presentes.
Elladan franziu momentaneamente os olhos ao receber um breve olhar do pai. Foram necessários alguns instantes para que o jovem curador decifrasse aquele olhar e o pedido que traduzia. Quando descobriu, ergueu rapidamente as sobrancelhas, empalideceu, mas tomou sua posição no lugar que ocupara da vez anterior.
"Tentemos então, ion-nin." Legolas ouviu a asseguradora voz do mestre. "Tentemos todos juntos, como no passado."
O elfo louro estremeceu, mas esse foi o único sinal de hesitação que transmitiu, antes de voltar a concentrar-se em sua busca, a abertura daquela tão estranha porta, tivesse ela o quer que fosse por detrás.
E o trio de elfos pareceu concentrar-se de tal forma que o frio agravou-se dentro daquela sala. O frio das incertezas. Fowler arregalou os olhos ao ver a forma como brilhavam agora, cada qual oferecendo algo de seu. Era o que o menino chamaria de magia, não importa os nomes que os outros usassem para classificá-la.
No entanto, o corpo de Skipper parecia não reagir.
"Não funciona." Elladan soltou agoniado os braços. Estava exausto e não podia deixar de sentir-se culpado por não descobrirem um caminho que tirasse o bom Skipper daquele destino cruel. Foram dias de dedicação, mas a graça da descoberta não lhes sorrira. Fowler voltou a soluçar, segurando agora a mão do pai entre as duas suas e apoiando o rosto delas.
"Pai... Por favor, pai... Não me deixe..." Ele implorava agora em um tom baixo, cuja tristeza era demais para qualquer coração élfico. Elrond fechou os olhos, Idhrenniel colocou pesarosa a mão por sobre o peito. Elladan apoiou-se na cabeceira da cama e Elrohir tomou o lado do irmão, mantendo uma mão em seu ombro.
É amargo o peso da vulnerabilidade.
Legolas suspirou tristemente.
"É magia... é só magia..." Ele sacudia a cabeça inconformado, revirando o turbilhão de sensações que tinha em busca de qualquer sinal que lhe esclarecesse onde estava errando. "É como as grandes poções... um pouco... um pouco de cada elemento..." Ele continuou seu diálogo interno com tristeza. "Eu sinto que é isso...".
"Mas... por que... por que... não... não funciona?" Fowler indagou entre soluços.
"Talvez, por estarem cansados..." Foi Idhrenniel quem levantou uma hipótese. "Não estejam munidos de energia suficiente. Eu posso ajudar."
Nisso a elfa aproximou-se também e apoiou as mãos ao lado das de Elrond. Sempre valeria a pena tentar.
Novo brilho, novo passar doloroso de tempo.
Mas nada aconteceu.
E tudo o que restou foi o pranto mais acentuado de Fowler, ao perceber que o pai deixara até de proferir seu lamento, estava totalmente sem forças para o que quer que fosse.
"Não entendo." Legolas voltou a sacudir a cabeça e Elrond segurou-o pelos ombros.
"Legolas..." Ele chamou com firmeza, ao perceber os sinais de abatimento se acentuarem no rosto do príncipe. "Ouça o que digo. Não é culpa sua."
"Mas funcionou, mestre... Funcionou da outra vez."
"Talvez essa experiência seja diversa da anterior, ion-nin. Ainda não conhecemos inteiramente o mal que enfrentamos." Propôs o curador pacientemente. Sentindo-se dividido entre a dor de perder um paciente e o alívio do processo de cura não ter funcionado. Ele se lembrava bem do que acontecera a Legolas durante os estranhos estágios que levaram Aragorn a ver-se livre daquelas marcas assustadoras.
Legolas cobriu o rosto, tornando a apertar a face esquerda com vigor.
"Quero ajudar, mestre... Diga-me como fazê-lo." Ele pediu e Elrond envolveu-o paternalmente com o braço esquerdo.
"Gostaria de sabê-lo, ion-nin." Respondeu o curador com pesar, apertando um pouco o abraço que oferecia. "Mas vamos encontrar um modo. Talvez por um caminho diverso do que tomamos no leito de nosso outro paciente..."
Nesse instante Legolas levantou a cabeça. Seus olhos muito abertos pareciam contemplar uma atordoante visão, a mão ainda segurando a de Skipper.
"Estel!" Ele quase gritou e o guardião sobressaltou-se, aproximando-se rapidamente para tomar a mão livre que o príncipe erguera em sua direção.
Aragorn tinha o questionamento preparado em sua boca, mas não teve tempo de proferi-lo, pois, ao segurar a mão de Legolas, Skipper soltou um grito agoniado, fazendo com que tudo a sua volta se convertesse em uma dolorosa urgência. Elrond e Elladan retomaram instintivamente suas posições.
Era fato.
Faltava um elemento.
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O sol já se fora havia algumas horas e o suave ondular da luz do lampião criava estranhas imagens na parede branca do quarto do príncipe. Aragorn ergueu os olhos em direção a elas, desenhando, mesmo sem o querer, imagens com os desconexos traços.
Estava aflito e seu inquieto coração palpitava incansável em um ritmo que lhe roubava as energias rapidamente.
"Não entendo..." Ele disse pesaroso, afastando-se do encosto da poltrona e tomando a mão de Legolas mais uma vez.
"Deixe-o dormir, ion-nin." Elrond aconselhou de onde estava. Em pé, o curador observava o tímido cintilar das estrelas, agora levemente encobertas por uma não muita espessa quantidade de nuvens acinzentadas. "Ele melhorará ao amanhecer."
"Queria ter sua certeza, ada." Lamentou-se o guardião, passando suavemente os dedos por uma bandagem que cobria o braço esquerdo do príncipe. "Da outra vez ele melhorou com mais rapidez."
"Estão cedendo devagar." Elrond assegurou, aproximando-se. "Ele estava mais abatido agora, talvez por esse motivo esteja tendo mais dificuldades para ver-se livre desse infortúnio."
O guardião soltou os ombros, mas seu maxilar pressionava-se involuntariamente.
"Salvou Skipper."
"Não o fez sozinho." Elrond lembrou, apoiando a mão no ombro do filho.
"Que grande ajuda provi eu, ada?" O jovem dúnadan retrucou com vigor. "Não fui eu quem recebeu todas as cargas de dor que assolavam o pobre Skipper. Não sou eu que agora estou desacordado nesse leito, coberto de feridas mal cicatrizadas pela segunda vez em um prazo de tempo tão..."
Ele não pôde continuar, erguendo-se rapidamente e posicionando-se agora no lugar que o pai abandonara. Precisava de ar, mas parecia não conseguir encontrá-lo nem mesmo diante daquela imensa sacada aberta.
Elrond suspirou, olhando o príncipe adormecido no leito. No rosto as feridas que o jovem arqueiro assumira para si com o processo da cura do amigo dúnadan cicatrizavam-se com uma rapidez impressionante até mesmo para um elfo.
"Ele vai melhorar... Amanhã pela manhã estará em pé."
O forte som de incredulidade do filho foi a única resposta que o curador recebeu.
"Confie em mim, ion-nin. Legolas vai se recuperar como se recuperou quando fez o mesmo por você."
Aragorn cerrou os olhos, apertando-os em seguida. Quantas culpas carregaria? Mesmo as mãos do pai o envolvendo agora pelos ombros não pareciam aplacar sua intolerável dor.
"Ele estará em pé amanhã." Repetiu o guardião, não conseguindo evitar que a amargura temperasse-lhe a voz, enquanto passava a caminhar em círculos pelo quarto do amigo elfo. "Estará em pé ao meio-dia, pontualmente, nem um minuto a mais ou a menos, para cumprir sua rotina dolorosa de submissão e dor, envolto nessa escuridão absurda na qual está e para a qual ninguém consegue encontrar explicação."
Elrond acompanhava seus movimentos. Sua atenção voltada inteiramente para ele. Olhos calmos, face sem traço algum de amargura. Ele esperou paciente que a explosão do filho humano se efetivasse e findasse para enfim voltar a aproximar-se.
"Elrohir lhe passou alguns maus hábitos." Sorriu o pai, voltando a envolver o guardião com o braço direito e recebendo um suspiro de insatisfação como resposta. Entretanto, Aragorn não era Elrohir, seus acessos de inquietude e até agressividade eram raros e curtos, como fora este agora. O dúnadan já tinha o rosto baixo, olhos tristes novamente voltados para o amigo no leito.
"Quero ajudá-lo."
"Eu também, ion-nin. Mas para isso precisamos ser pacientes."
"Eu sei, ada. Mas algo me diz que apenas a paciência não removerá os obstáculos que temos no caminho."
"É fato, criança. No entanto, apenas ela e mais nada nos auxiliará a enxergar tais obstáculos a serem removidos."
Aragorn fechou os olhos, apoiando agora a mão aberta por sobre o peito e tomando mais ar para si.
"Teve notícias da Floresta?" Ele indagou então, decidindo mudar ligeiramente o foco do assunto que tratavam, para quem sabe, encontrar alguns desses obstáculos.
"O Rei Elfo mandou-me uma ave mensageira. Chegou esta manhã."
Aragorn intrigou-se.
"E o que dizia a mensagem?"
"Indagava apenas se Legolas estava aqui."
O guardião silenciou-se, seus olhos moveram-se novamente para o amigo no leito, para a janela, para uma imagem que só ele parecia ver, até que, enfim, ele soltou os ombros, como se vencido tivesse sido pela junção de todas aquelas informações.
"Veio para cá sem o consentimento do pai." A constatação lhe fez brotar um sorriso triste. "Como o fez inúmeras vezes."
Elrond compartilhou as sensações e conclusões do filho, seu olhar também voltado para o teimoso arqueiro da Floresta.
"Thranduil não deve estar muito feliz com isso." Concluiu o dúnadan.
"Thranduil é uma incógnita." Suspirou o elfo moreno. "Os sentimentos que habitam seu coração e as intenções de sua mente serão sempre um mistério para qualquer um."
Aragorn pendeu a cabeça, estranhando o tom amargo que sentira na voz do pai.
"O que quer dizer, ada?" Ele indagou, descendo sem perceber o tom de sua voz como se receasse que o amigo os ouvisse falar sobre o pai. Aragorn sabia o quanto desagradava a Legolas quando o rei era posto justa ou injustamente em julgamento.
A resposta foi um silêncio do lorde de Imladris, que se limitou a soltar vencido os ombros e voltar a sua posição contemplativa diante da sacada. Aragorn, no entanto, não parecia disposto a acompanhar a opção do pai. Ele colocou-se ao lado de Elrond, diante da mesma paisagem escura e cinza e aguardou.
"São muitos mistérios." O lorde elfo disse por fim, ao perceber que o filho esperava por uma resposta que fosse.
Contudo, não seria aquela resposta evasiva que calaria as dúvidas do sempre intrigado Estel.
"Ele indagou, não indagou? Preocupa-se com o filho, com certeza." Sussurrou o guardião com os olhos muito azuis voltados para o pai. Não acreditava que estava de fato defendendo Thranduil. Talvez estivesse, indireta ou inconscientemente, defendendo o amigo louro, tentando acreditar em uma verdade que fizesse bem a ambos.
"Disso não tenho dúvidas..." Elrond informou, cruzando as mãos diante do corpo. "Não digo que o rei não tem amor por seu filho." Ele explicou cauteloso. "Apenas digo que não sei como..."
"Como Legolas saiu da caverna sem que ninguém o impedisse?"
"Sim. Não faz o menor sentido, mesmo conhecendo o quão criativo Legolas é capaz de ser, quando precisa desvencilhar-se dos que querem lhe oferecer mais proteção do que ele deseja receber."
Foi a vez de Aragorn esvaziar o peito, voltando a olhar o amigo no leito.
"Tenho estranhas sensações sobre tudo isso. Sensações que não compreendo e nem sei se desejo de fato compreender."
"Sensações nem sempre são respostas, ion-nin. Às vezes são artifícios para que, na verdade, evitemos tomar o caminho da descoberta."
Aragorn voltou a suspirar conformado. Sábias eram as palavras daquele pai que o destino lhe dera e mais sábio ele seria se seguisse o que, nas entrelinhas, a fala do curador lhe propunha.
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"Um cantar! Claro! Foi só pelo tempo de um cantar e mais instante algum." Resmungava o sempre inquieto Elrohir, descendo rapidamente os degraus da casa grande, seguido por um muito pálido Beinion, que fazia um grande esforço para acompanhar o passo rápido do gêmeo mais novo.
"Por todos os Valar, Lorde El." Defendia-se o angustiado elfo, agora quase correndo para acompanhar o capitão moreno. "Juro-lhe por meus bons pais que não compreendo como o príncipe faz isso."
"Informar-lhe-ei então, Beinion." A voz de barítono do elfo moreno subiu mais alguns tons. "Informar-lhe-ei como devemos encarar uma questão sobre a qual não temos controle ou conhecimento. Isso em qualquer momento estúpido de nossas existências mais estúpidas ainda. Devemos ter cautela e atenção. Cautela e atenção, Beinion!"
"Mas, meu senhor... o príncipe Legolas não devia sair, ele não se apercebe do estado em que..."
Elrohir parou no meio do pátio e, esquecendo-se de sua pouca diplomacia, agarrou o agora mais pálido soldado pelas amarras da túnica, deixando seus rostos a poucos e perigosos centímetros de distância.
"Não se atreva, Beinion." Ele advertiu por entre os dentes muito brancos. "Não se atreva a dizer o que Legolas deve ou não deve fazer. Não se atreva a atar a ele qualquer um de seus abomináveis rótulos."
O pobre Beinion engoliu o nada que tinha na boca seca e seus olhos arredondaram-se como perfeitas luas em céu aberto. Naquele momento, a última coisa que faria seria se atrever a algo, ele deixaria de respirar se Elrohir assim o ordenasse. De fato, já se sentia deixando de fazê-lo
"La...men... Lamento muitíssimo, meu senhor."
Mas, como os Valar, por quem agora o bom soldado clamava desesperadamente, eram caridosos tanto para com grandes guerreiros quanto para com bons sentinelas, uma voz ao longe desviou a atenção do enfurecido elfo moreno.
"Elrohir!"
E o pobre Beinion, agora livre tanto das garras do gêmeo quanto do olhar fulminante que este lhe direcionava, pôde redescobrir os prazeres de poder respirar.
O filho do lorde de Imladris apoiou as mãos nos quadris, mas sequer olhou na direção da qual o viera o chamado. A última coisa que queria era dar satisfações sobre por que estava dando gratuitamente aquele espetáculo de indelicadeza em plena praça central. Tudo o que fez foi gesticular com igual impaciência e quase nenhuma diplomacia, dispensando o angustiado elfo que, mesmo amedrontado até os ossos, ainda ficara a seu lado esperando por uma ordem sua.
Beinion fez uma desajeitada reverência, as impacientes pernas quase ganhando vida própria rumo à casa central. O vulto passou tão rapidamente por Glorfindel que, se o lorde louro não o tivesse visto antes, teria dúvida em saber de quem se tratava.
Elrohir, no entanto, já parecia esquecido de que fora chamado e tomava novamente um dos atalhos do grande jardim.
"Alto, elfinho!"
Realmente, só Glorfindel podia se dar ao luxo de certos riscos, e o olhar enraivecido que recebeu ao aproximar-se do pupilo, parecia traduzir o quão delicada e arriscada estava sendo sua investida.
Arriscada ou não, o antigo senhor da Casa da Flor Dourada parecia realmente pouco se importar com o modo como dirigiria sua investida. Afinal, Elrohir aprendera bem como a diplomacia é certamente dispensável em certas situações.
Aprendera bem, porque ele fora tutor do gêmeo.
"Onde deixou sua educação está manhã, Elrohir?" Indagou o lorde elfo, agora a poucos passos do jovem moreno.
"No mesmo lugar que aquele sentinela incompetente deixou o cérebro dele." Retrucou o impaciente pupilo, quase roubando uma risada totalmente fora de hora de seu mentor. "Devia arrancar-lhe a cabeça do pescoço já que não tem serventia alguma."
"Ah, deixe de rodeios e diga logo o que aconteceu." Impacientou-se também o elfo louro. "Acho que a Terra Média já tem tirania o suficiente naquele emaranhado escuro que alguns chamam de floresta. Você não precisa querer equilibrar a balança agindo também como um reizito radical e temperamental que tudo quer resolver com os próprios punhos."
Os olhos de Elrohir escureceram-se como nunca, mas nem isso, nem o ar de pura ira que recebeu como resposta a seus comentários, pareceu abalar o lorde de Gondolin.
"Pare de me olhar desse jeito. Creia-me, já vi ares mais aterradores do que este seu de criaturas bem maiores e incandescentes que você, elfinho." Ele ameaçou e segurou o braço do gêmeo, quando tudo o que este fez foi bufar mais uma vez e ensaiar um novo movimento de partida.
"Largue-me, Glorfindel. Preciso procurar por Legolas."
Mas a menção ao nome do príncipe só fez com que a força dos dedos do mentor no braço que segurava se agravasse involuntariamente.
"Por Mandos!" Ele disse. "Por que não me admira o fato do nome do Thranduilion estar temperando mais esse conflito? Pelas criaturas das trevas, nem um Troll ensandecido consegue causar tanta agitação! O que o miserável fez dessa vez?"
Elrohir puxou com força o braço.
"Ele nada fez, Glorfindel." Irritou-se mais o elfo moreno. "Apenas foi deixado só por um sentinela estúpido e incapaz que deveria levar um pontapé bem dado no..."
"E fugiu." Completou providencialmente o outro.
"Saiu do quarto."
"Fugiu. Como faz desde o dia que nasceu. Aliás acho que esse elfo não nasceu, ele 'escapou' da mãe dele."
Elrohir empalideceu. Aquela tinha sido a brincadeira mais infeliz que já ouvira o mentor fazer.
"Isso não teve graça, Glorfindel." Foi tudo o que o perplexo gêmeo conseguiu dizer, agora já totalmente esquecido de seu desentendimento com Beinion.
"Fico feliz." Respondeu o inabalável lorde elfo. "Pois a última fama que quero carregar é a de humorista."
E, sem que Elrohir encontrasse criatividade ou ânimo para uma resposta, o guerreiro louro já o puxava pelo braço na direção da saída da cidade.
"Onde estamos indo?"
"Não está procurando seu amigo fujão? Onde pensa que ele pode estar? Com sorte nenhum guarda do portal o deixou passar despercebidamente."
Elrohir sacudiu a cabeça.
"Ilúvatar não seria cruel a ponto de criar outra criatura tão estúpida quanto Beinion, seria um completo desperdício de matéria prima e notas musicais."
Para isto Glorfindel teve que ceder ao riso, que queria contagiá-lo desde o momento em que vira o apavorado Beinion erguido a centímetros do chão por um enfurecido Elrohir. Aquela cena era um quadro que, sem dúvida, faria par com aqueles destinados a formar harmoniosa decoração nas paredes de sua memória.
No entanto, nem tudo era riso em Imladris. Na verdade, naquelas últimas semanas, o riso convertera-se em momento raro. Glorfindel parou incrédulo e abruptamente. Então segurou o braço de Elrohir com mais força do que gostaria e por um motivo totalmente diverso do que fora o último. O gêmeo estranhou a princípio, mas depois, voltando para a direção que o amigo elfo fitava, ele também sentiu o desejo súbito de esfregar o olhos.
Pelo largo portal da cidade entrava uma valorosa comitiva, aproximadamente quinze cavalos, todos brancos ou quase brancos, com elfos distintos daqueles que habitavam Valfenda. Eram guerreiros sindar e silvestres com cabelos de diversos tons diferentes, uns de um louro claro, outros um tanto acobreados, alguns mais lisos, outros caindo em pequenas ondas.
Diante deles, em um enorme cavalo muito branco, vinha um altivo elfo, cujos cabelos e a beleza reluziam sob aquele sol de bondosa primavera. O grande guerreiro voltou-se no mesmo instante na direção dos dois elfos de Valfenda, como se percebesse que estava sendo observado. Em instantes envergou as douradas sobrancelhas, não parecendo muito mais satisfeito com sua presença ali quanto Elrohir e Glorfindel estavam ao sentirem-se obrigados a recebê-lo.
"Diga-me que estou tendo um pesadelo." Elrohir sussurrou.
"Diga-me que estou morto." Glorfindel completou.
