Nota da (ilustríssima) autora: mais uma vez, quero agradecer a todos pela atenção dada a esta fic.
Aranhas
Naquela manhã Thranduil acordou a pensar em Aarne e em Yrjan. Fitou o tecto alto do quarto, sem piscar, o cérebro acabado de acordar a trabalhar a uma velocidade impressionante. Tomada uma decisão acertada, o rei levantou-se.
Tomou um pequeno-almoço frugal, sozinho no grande salão, e depois foi ver como estavam os seus soldados. Jubilou ao saber do regresso de Taisto, mas ao obter o quadro clínico do seu soldado ficou novamente abatido:
-E temos de agradecer ao Aarne, - finalizou Yrjan, tapando o corpo frio de Taisto - por ter reparado que ele estava a asfixiar.
-A asfixiar... - repetiu Thranduil, cruzando os braços. O outro elfo assentiu:
-Inchou-lhe a língua... - explicou Yrjan. O rei elfo mordiscou o lábio inferior, nervosamente - E... e receio não ter nada que possa contra-atacar o veneno destas aranhas...
-Já chega de más-notícias... - resmungou Thranduil, virando-lhe as costas e afastando-se - Eu próprio vou encontrar o Aarne e agradecer-lhe. E fazer-lhe uma proposta irrecusável.
-Que proposta? - o conselheiro quis seguir o seu rei mas este já alcançara as portas. Thranduil olhou para trás de sobrolho erguido - Não te vais aconselhar comigo?
-Não.
-Thranduil!
-Vai acabar por te favorecer, deixa-me em paz elfo chato! - e com isto fechou a porta. Encaminhou-se para os estábulos, queria ver como estava o seu precioso cavalo. Depois disso procuraria Aarne; devia estar a limpar o já imaculado quarto do príncipe, possivelmente...
Um fino véu de névoa filtrava os raios de sol e o palácio estava mais escuro do que o habitual. Lá fora, o pátio de pedra adquirira um tom cinzento, monótono e lúgubre. Thranduil revirou os olhos; até a atmosfera condizia com o seu estado de espírito. Onde estaria o filho?
Entrou nos estábulos reais, passou pela boxe vazia de Ragnar e parou diante da de Cuchulainn. O grande cavalo negro petiscava umas palhitas do chão, e assim que se apercebeu da presença do dono ergueu a cabeça, interessado, e espetou as orelhas para a frente. Thranduil sorriu e tirou do bolso um torrão de açúcar para o cavalo. Depois olhou para o ferimento do seu corcel e o sorriso morreu-lhe no rosto sem idade:
-Estamos um pouco enferrujados, não é? - murmurou - Se não fosse a tua espádua, tinha sido o meu joelho... - dito isto, abriu a porta da boxe e fez sinal ao cavalo para o seguir. Animado com a perspectiva de mais um passeio, o cavalo negro seguiu o dono e encostou levemente a grande cabeça ao ombro de Thranduil. O rei elfo atravessou o pátio e conduziu o cavalo até um pequeno prado, separado do local onde as éguas pastavam. Aí, onde a humidade se concentrava entre a parede rochosa do palácio e as árvores imponentes, a erva era viçosa e elástica. No trajecto para esse local, Thranduil passou por baixo do terraço para onde Tjaden levara Aarne. O rei estacou e acenou a mão ao elfo de olhos verdes, captando-lhe a atenção:
-Vem cá. - ordenou o rei. Esperou um bocado e por fim Aarne apareceu a correr; parecia ainda mais franzino. O elfo sardento parou a pouca distância do rei e fez uma pequena reverência - Bom. Anda comigo, temos um assunto para tratar.
O rei seguiu caminho e Aarne seguiu atrás dele, engolindo em seco, com uma horrível sensação de pânico a apoderar-se-lhe do coração. Cuchulainn chicoteou a longa e ondulada rabada negra e acertou em cheio na bochecha alva de Aarne. Ofendido e assustado, o elfo deixou-se ficar para trás e observou a uma distância segura enquanto o rei abria a porta do cercado, deixava o cavalo entrar e a voltava a fechar. Seguidamente, Thranduil sentou-se na cerca de madeira e fez sinal a Aarne para fazer o mesmo.
Desajeitadamente, Aarne sentou-se na fina trave de madeira, fortemente agarrado, com medo de se desequilibrar e cair, ou pior ainda, que o grande cavalo negro investisse contra ele e o mandasse ao chão. Mas Cuchulainn pastava pacificamente e não havia vento que pudesse perturbar o elfo. Fitou o rei, curioso; Thranduil vigiava o cavalo, ou aparentava estar a olhar para o nobre corcel. Mas não demorou para que os olhos verdes do rei se cravassem nos olhos verdes de Aarne. O majestoso elfo sorriu:
-Creio que não vai ser a última vez que te vou agradecer por prestares cuidados aos meus soldados. - começou o rei, e o seu sorriso aumentou. Thranduil era de extremos; podia ser tenebrosamente inexpressivo ou horripilantemente expressivo. Naquele exacto momento o sorriso do rei tinha algo de... felino. Aarne engoliu em seco novamente - Tenho uma proposta irrecusável para ti.
Valar! Aarne sentiu a praticamente inexistente cor furgir-lhe do rosto:
-O Yrjan disse-me que aprendes depressa, mas mais importante, que queres aprender. - prosseguiu o rei, sem por um único segundo largar os olhos assustados do outro elfo. Aarne detestava sentir-se estudado - E que tens jeito para medicina. Isso interessa-me, prevejo tempos em que o meu conselheiro vai precisar de ajuda competente. Por isso, - o seu sorriso alargou-se - decidi mandar-te para Imladris! Ainda tenho de escrever a Elrond, claro, mas tenho a certeza de que ele não vai recusar um aprendiz...
E o pequeno e frágil coração de Aarne partiu-se em dois; uma metade para Legolas e a outra para aquela nova perspectiva de futuro. E ambas tinham exactamente o mesmo peso e medida. Tentou manter o rosto inexpressivo, mas deve ter falhado porque Thranduil ergueu uma sobrancelha. Passados alguns minutos em silêncio, conseguiu reencontrar a voz:
-Agradeço a oportunidade, vossa majestade... mas...
-Dez anos. - cortou Thranduil subitamente, e o seu sorriso desvaneceu-se. Aarne abriu muito os olhos verdes; dez anos! A infância de um Homem! - Dez anos para te tornares alguém para acompanhar a família real até ao fim dos tempos. - o jovem elfo separou os lábios, atordoado. Dez anos...! O rei elfo desviou o olhar para o cavalo apenas por breves momentos, depois voltou a fitar Aarne como o cão de caça que agarra a traqueia da presa - Podes aceitar, crescer, voltar e ter um lugar de respeito ou podes recusar e ficar por aqui, a lavar pratos, a varrer o chão, a mudar as flores das jarras.
Aarne queria baixar a cabeça mas não conseguia. Queria pensar decentemente mas todo o seu ser estagnara, preso àquele par de olhos e àquela voz, decidida, que lhe falava:
-Se fores, o príncipe visitar-te-á quando tiver tempo para isso, escrever-te-á. - prosseguiu o rei. Virou a cabeça, lentamente, e admirou o quão belo era o seu cavalo - Se ficares, raramente se vão ver, vêm aí tempos... difíceis. E eu vou exigir a máxima concentração do príncipe.
O jovem elfo limitou-se a assentir. Que situação tão estranha! E um pouco desagradável... Baixou o olhar e fitou a biqueira das botas, como se estas fossem deveras interessantes. Thranduil observou-o pelo canto do olho, sentindo o seu desconforto. Suspirou e, para surpresa do elfo sardento, colocou-lhe uma mão no ombro:
-Não quero que fiques com a impressão de que sou um monstro... - declarou o rei, pacientemente. Aarne assentiu; o rei não era um monstro... ou era...? Oh, que confusão! - Não penses que te quero separar do Legolas, muito pelo contrário! Já que fazes tanta questão de permanecer ao lado dele, vou fazer de ti alguém preparado para meter algum juízo naquela cabecinha de vento!
Aarne não conseguiu esconder um sorriso. O rei também sorriu, um sorriso amigável e radiante. Mas esse sorriso esmoreceu e uma expressão nostálgica e sofredora apoderou-se da face de Thranduil. Voltou a fitar Cuchulainn, que dormitava num raio de sol que conseguira passar por entre os ramos das árvores:
-Não quero que o meu filho fique sem o que lhe é querido... - murmurou. Aarne franziu o cenho, pressentido que a estranha situação estava a ficar ainda mais estranha. O rei voltou a fitar Aarne, um sorriso melancólico a adornar-lhe a cara - Tinha imensos amigos, quando tinha a vossa idade. E era tão estúpido que acreditei piamente que onde estivesse, eles iam lá estar também, para me apoiarem e aconselharem. E sabes o que aconteceu? - arregalou muito os olhos e Aarne encolheu-se, abanando a cabeça involuntariamente. Nos lábios do rei formou-se um sorriso lupino, ou melhor, um arreganhar de dentes - Morreram! Todos! Mesmo à minha frente, mesmo ao meu lado! - o rei soltou um suspiro, e pareceu a Aarne que expelir o ar dos pulmões lhe era doloroso - Perdi amigos e pai, todos no mesmo dia... Que os seres superiores queiram que nunca tenhas de fugir, sabes?
-Porquê, majestade?
-Porque fugir quer dizer que deixaste alguém amado para trás. - as feições do rei contorceram-se de amargura e Thranduil baixou o olhar. Percebeu que ainda tinha a mão no ombro de Aarne e deu-lhe um ligeiro apertão - Claro que o Yrjan não morreu e é óbvio que o tenho na conta de amigo, de um querido amigo... mas... não é a mesma coisa.
O jovem elfo, que já não tinha bem a certeza do que dizer, ficou completamente mudo. Porque seria que as coisas estranhas da vida só lhe aconteciam a ele? Abriu a boca, mas depois voltou a fechá-la. Thranduil largou-lhe o ombro e saltou para o chão:
-Bom, pensa no assunto, depois dá-me uma resposta. Tens até amanhã. - disse o rei. Chamou Cuchulainn e logo o cavalo trotou para ele, tendo o cuidado de acertar novamente na cara de Aarne com a rabada.
O jovem elfo deixou-se ficar ali, como se um bicho o estivesse a comer por dentro. Parecia-lhe que todos os anos da sua vida lhe pesavam agora nos ombros, curvando-o, tornando-o mais miserável do que já se sentia. A dúvida dilacerava-o. Queria chorar, mas naquele momento não podia. O corpo todo tremia-lhe com os soluços abafados. E só tinha um dia para tomar uma decisão! Não o queria fazer sem Legolas, obviamente.
Escondeu a cara nas mãos, desesperado.
Anoiteceu. Mais uma vez, Aarne passou a noite em claro e tencionava ficar lá fora, ao relento, à espera, e isso só não aconteceu porque Thranduil o arrastou para dentro:
-Já que queres brincar às sentinelas fica aqui... - resmungou o rei, plantando o jovem elfo à janela. O vidro começava a embaciar por causa do frio nocturno. E Aarne ali ficou, sozinho, quando todos se recolheram e o palácio ficou mais escuro que as minas fundas dos anões.
Devia faltar pouco para a alvorada quando Aarne ouviu o tropel de cascos de cavalos. Piscou os olhos rapidamente, como que para acordar, e viu Legolas entrar a galope pelos portões adentro, acompanhado por uma figura vestida de castanho. A palavra 'banho' surgiu, luminosa e muito grande, na mente de Aarne, que largou a correr escada acima.
Antes, foi à enfermaria. Yrjan já lá estava e olhou-o curioso:
-O príncipe chegou, senhor. - informou o elfo sardento. O conselheiro sorriu:
-Excelente! Vou já avisar o rei! - rejubilou Yrjan.
Legolas desmontou e sentiu os músculos das pernas e das costas queixarem-se. Radagast olhava em redor, atrapalhado, e o elfo concluiu que o feiticeiro talvez precisasse de ajuda. Assim, ajudou-o a descer do arreio e evitou que o feiticeiro se desequilibrasse e caísse:
-Ufa, que foi por pouco! - exclamou Radagast - Obrigado, jovem príncipe.
O elfo ia retorquir quando as portas do palácio se abriram e Yrjan saiu, sorridente. Aos olhos do príncipe, o conselheiro parecia cansado, e aos olhos do conselheiro o príncipe parecia exausto. Desceu os degraus e saudou os recém-saudados, para depois franzir o cenho ao reparar que Legolas se afastava com os cavalos:
-Vou tratar deles. - desculpou-se o jovem elfo. Não havia necessidade de incomodar mais ninguém. E além disso, queria despachar-se, sentia-se preocupado com Aarne. Levou os cavalos para os estábulos e tratou primeiro do cavalo baio do feiticeiro. Ragnar virou as orelhas para trás, ofendido:
-Boas maneiras, vê-se logo que nunca ouviste falar em tal. - reprimiu-o Legolas quando veio tratar dele. O cavalo ruço limitou-se a revirar os olhos; tinha o pêlo espesso molhado do suor e da baba e as suas pernas tremiam. Legolas foi buscar água ao poço, despejou os baldes em cima do cavalo, escorreu-o com as mãos e por fim tapou-o com um cobrejão. Conduziu-o à boxe; tinha uma cama de palha fresca e mal entrou, o cavalo deitou-se. Cuchulainn fitou o vizinho, alarmado, mas depois de se aperceber de que não era grave voltou a voltar a sua atenção para a ração.
Tratado o cavalo, Legolas correu para o quarto. Algo lhe dizia que Aarne estava lá. E, com efeito, assim que abriu a porta, deparou-se com o elfo sardento. A visão fantasmagórica do amigo fê-lo franzir o cenho, preocupado, e avançou em passadas largas para ele:
-Pareces doente...! - observou o príncipe. E Aarne não devia estar no seu melhor, já que nem sequer atirara a bolinha de papel à testa de Legolas por este ter entrado com as botas sujas no quarto. Mas o elfo sardento limitou-se a abanar a cabeça e apontou a casa de banho. Obedientemente, Legolas foi para lá com Aarne no seu encalço.
A banheira cheia de água quente era deveras convidativa... Sorriu a Aarne, mas o amigo não lhe retribuiu o sorrio. Passava-se algo... numa situação normal, o elfo sardento estaria impossivelmente eufórico e completamente histérico... mas agora estava calado... perturbado com algo. Legolas meteu-se na banheira e Aarne começou a esfregar-lhe o cabelo; tinha as mãos ainda mais geladas do que o costume. O príncipe, então, olhou por cima do ombro:
-O que se passa? - perguntou. Aarne suspirou e fechou os olhos durante alguns segundos. Depois, lentamente, sentou-se na borda da banheira e ofereceu a Legolas um sorriso cansado:
-Conto-te depois de descansares...
-Não não, contas agora! - Legolas cruzou os braços, resoluto, e Aarne não teve outro remédio; apesar que querer muito falar com o amigo, queria que ele tivesse descansado primeiro, ao menos... E então contou, detalhadamente, como tinham sido os seus dias, e Legolas ouviu tudo atentamente.
Acabaram sentados na cama, encostados ombro a ombro, Aarne de mangas arregaçadas e Legolas com o cabelo húmido a cair-lhe solto sobre os ombros:
-E ontem o rei fez-me uma proposta irrecusável... - murmurou o elfo sardento - E eu não sei o que fazer. Bem... saber sei... mas...
Legolas mordiscou o lábio... sabia bem como eram as propostas irrecusáveis do pai... Tomou a mão gelada de Aarne nas suas e apertou-a:
-Qual foi? - perguntou. Obteve, ao fim de algum tempo, um soluço como resposta, e apressou-se a abraçar Aarne, consternado, e sentiu-se bastante zangado com o pai por ter deixado o pobre elfo naquele estado. Entre soluços, Aarne lá lhe explicou o seu dilema.
E quando terminou Legolas apertou-o mais, pesaroso, e fechou os olhos por momentos; ambos sabiam qual seria a resposta mais acertada, ainda que lhes custasse a aceitá-la.
Acabaram por adormecer.
Algumas horas mais tarde Thranduil entrou no quarto, silencioso. Sorriu perante a cena mas o seu sorriso desvaneceu-se rapidamente; previa um revoltado Legolas a exigir uma conversa séria com ele. Revirou os olhos; jovens... Tapou-os com o lençol e retirou-se.
E termina aqui o décimo primeiro capítulo. Review?
P.S: esta fic terá apenas mais dois capítulos.
