CAPÍTULO 11 – INFORMAÇÃO É PODER

"Você prometeu se casar comigo!"

Ah, Maria! Se você soubesse quantas promessas eu lhe fiz desde que você nasceu, mesmo sabendo que seria impossível cumpri-las...

Sim, de todas as coisas que ela poderia falar, o primeiro tópico tinha que ser este. Vejo-a com os pequenos punhos cerrados e me pergunto o que ela pensa que pode fazer com eles, tão pequenos e fracos. Então, pergunto-me se é assim que Ren me vê quando eu o desafio e uma sensação desagradável se instala em meu peito.

Por mais que eu queira adiar o que me aguarda, há muito tempo eu descobri que adiar o inevitável só traz mais sofrimento.

Eles me deram dois dias para eu me recuperar antes de assumir minha posição no Clã Tsuruga. Eu não preciso de tanto tempo, mas imagino que eles tenham incluído Maria no cálculo. Eu pensei que ela estaria furiosa comigo, afinal, eu minto sobre quem eu sou desde que ela se entende por gente. Mas então, eu lembro que é de Maria que eu estou falando, com sua habilidade única de sentir a real intenção das pessoas, logo, talvez ela sempre soubesse que eu escondia algo dela.

Talvez ela até saiba quem eu sou realmente.

"Eu não prometi me casar com você: eu disse que me casaria com você, se eu pudesse" Faço um amplo gesto com as mãos, indicando todo o meu corpo. "Bem, como você vê, eu não posso".

Ela fica furiosa e eu quase sorrio. Então, ela relaxa e a fúria se transforma em tristeza.

"É tão importante assim me manter afastada?"

É quase como um soco no estomago, a falta de ar e o enjoo repentino. A habilidade de Maria está se fortalecendo a cada dia.

Abaixo-me diante dela, como tantas vezes eu fiz como Rato, e a seguro pelos ombros.

"Maria, escute-me bem. É importante"

Eu espero a confirmação dela. Maria adora quando a situação parece solene, como se fossemos duas pessoas de extrema relevância prestes a salvar o maldito mundo. Após um aceno com a cabeça, eu prossigo com a minha advertência.

"Sobre isso que você faz, de sentir a intenção das pessoas... mais alguém sabe?"

Ela nega com a cabeça. Uma resposta rápida demais, principalmente vinda de uma criança de cinco anos, para que eu a considere minimamente confiável.

"Pense bem, Maria! Eu quero a resposta correta, não a resposta que você sabe que eu quero ouvir!"

Ok, difícil demais para uma criança. Eu penso um pouco melhor, talvez se eu reformular a pergunta...

"Maria, sobre as pessoas com as quais você está convivendo... o que elas querem de você?"

Ela inclina a cabeça para o lado. Agora sim, eu sei que ela está pensando.

"Bem, Lina quer um bebê"

Sim, muito bem. Parece que agora ela entendeu a minha pergunta.

"Kouki quer que eu faça Lina feliz"

Ok, não é o mais zeloso dos pais, mas desde que ele não queira ferir Maria, estarei satisfeita. Por enquanto.

"Lory quer uma porção de coisas de mim"

Opa.

"Uma porção de coisas?"

"Sim! Ele quer que eu chame ele de vovô, Kouki de papai e Lina de mamãe. Também quer que eu confie nele"

"E você não confia?"

"Não"

"Por que não?"

Maria apenas levanta os ombros, como se não soubesse responder. Sinais de alerta disparam na minha cabeça e eu volto a pensar que preciso tirar Maria dali, afinal.

"Mas ele não vai me fazer mal"

Oh?

"Eu sei que você quer saber se eu corro algum perigo aqui. Eu sei que você está com medo de que algo ruim aconteça comigo"

Eu não posso negar o que para Maria é óbvio. Aliás, foi por sentir meu desejo de protege-la e de tê-la por perto que Maria se colocou em perigo ao me seguir pelo Distrito Kotonami.

"Lory também tem medo de que algo ruim aconteça comigo"

"Verdade?"

As respostas de Maria não param de me surpreender.

"Sim, ele quer me proteger tanto quanto você. E Ruto também quer!"

Agora minha cabeça está fervilhando. Espera um pouco... Lory quer proteger Maria?

Lory quer... proteger Maria.

Lory. Quer. Proteger. Maria!

Minha respiração está curta e acelerada. De todos os planos, dentre todas as hipóteses...

Então, a chantagem foi um blefe. A minha cooperação como procriadora de Ren em troca da segurança de Maria se baseou em uma ameaça vazia de entrega-la ao Clã Fuwa!

"Espera, Maria. Você diz que ele quer protege-la, mas também disse que não confia nele"

"Sim. Ele... pensa demais? Hum... muita coisa acontecendo aqui"

Ela aponta para a própria cabeça. Faz sentido, Lory parece o tipo de pessoa que está sempre maquinando algo.

"Coisa demais, é difícil acompanhar. Ele... muda de intenção o tempo todo. Muita preocupação, também. Mas com Maria é sempre a mesma coisa: ele quer me proteger"

"Mas você não confia nele?"

Eu preciso insistir neste ponto. Talvez haja algo que ela não saiba como me dizer.

"Eu não sei por que eu não deveria confiar nele, mas você me dizia para só confiar em você, então eu só confio em você. Mesmo que você também pense demais e esconda uma porção de coisas de mim"

Ouch. É verdade.

O alívio me inunda e Maria sorri. Se um Mestre de Clã e membro do Conselho quer protege-la, eu posso me concentrar em outras frentes.

A batalha está apenas começando.

"Você vai fazer algo tolo, não vai?"

A tristeza dela está de volta. Se eu pudesse escolher, arrancaria minha mão direita a dentadas antes de deixar Maria triste. Porém, há muito tempo eu fiz uma escolha.

"Sim, Maria. Portanto, eu preciso que você seja uma boa menina por enquanto"

"Por quanto tempo?"

"Eu não sei ao certo. Alguns anos, talvez. Se tivermos sorte. Para sempre, se eu falhar"

"Para sempre?"

Ótimo, agora ela está chorando.

"Mas eu não pretendo fracassar! Eu tenho um plano desta vez. Um plano arriscado, é verdade, mas se ele funcionar..."

"Se o plano funcionar, você vem me buscar?"

"Maria, se o plano funcionar, eles não terão outra escolha senão entrega-la a mim!"

Estamos sorrindo uma para a outra como duas idiotas. São raros, estes momentos preciosos em que nos atrevemos a sonhar que tudo dará certo.

"Eu conto com você, Maria, para me ajudar com o plano. Tudo que você precisa fazer é ser uma boa menina, especialmente para Lory, mas não deixe ninguém saber o que você pode fazer, ou a intenção deles com você pode mudar, você me entende?"

Ela acena solenemente com a cabeça. Ótimo, eu já tenho algumas preciosas informações. Hora de descobrir o que mais eu posso extrair da situação.

Hora de consultar minhas valiosas informantes.

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Bordel. Puteiro. Casa de tolerância. Zona de baixo meretrício.

Era assim que os antepassados chamavam esses lugares. Agora, eles têm o irônico nome de "centro de reprodução humana".

Antigamente, as mulheres eram pagas pelos serviços, então acho que antes era melhor. Hoje em dia elas só recebem abrigo e alimento, ou seja, o direito de permanecerem vivas.

Eu cumprimento Sawara e peço as duas moças de sempre pelo período de uma hora. Ele faz um comentário murmurado sobre o vigor da juventude e pede ao assistente para avisar Kanae e Chiori. "O quarto de sempre", é o que ele me diz. Eu pago e saio.

Os olhos das duas se iluminam quando me veem. Nem sempre foi assim. No início, eu vinha ver apenas Kanae. Eu era o garoto cuja irmã fora adotada pela extensa família dela, então no primeiro dia ela ficou decepcionada que eu a tivesse escolhido.

Ela veio para cá por um infortúnio, como a maioria das garotas. Assim que completou dezesseis anos, ela foi escolhida como procriadora para o Clã Koenji, mas Erika, outra procriadora, sentiu-se ameaçada pela beleza da rival e abriu um talho no rosto de Kanae, desfigurando-o. Eu mesma acho que ela continua bonita, mas para os nobres ela se tornou mercadoria defeituosa.

Sina parecida se abateu sobre Chiori, só que quando ela era mais jovem. Ainda menina, envolveu-se em um incêndio no distrito em que residia com a família.

Uma pequena queimadura, e é isto. Uma cicatriz no rosto, e você já era. Os homens podem ser desdentados, flácidos, estúpidos, malcheirosos, e ainda assim, serem bons o bastante para rotularem jovens como Kanae e Chiori como "inapropriadas ao consumo".

Ok, não é assim que elas são oficialmente chamadas, mas dá no mesmo. Boas o bastante para foder e engravidar, maculadas o suficiente para nunca se tornarem esposas.

Não sei como o Monstro pode me querer depois de ter visto a cicatriz que eu tenho. Provavelmente, ele quer apenas me ter por perto para descobrir o que eu posso fazer e conseguir alguma vantagem com a minha habilidade.

Mas voltando a Kanae, eu a procurei especificamente porque ela me intrigava. Ela contrariou a família ao aceitar a proposta do Clã Koenji para ser uma procriadora. Da mesma forma, foi escolha dela vir para o centro de reprodução humana de Sawara, ironicamente denominado Love Me por ninguém menos que Lory. Ambos os convites foram aceitos para fugir da extensa família de lunáticos, conforme ela alegou, mas eu desconfio que ela quisesse apenas evitar ser um fardo que a numerosa família precisaria vestir e alimentar. As crianças que eles sempre recusaram a vender para os nobres precisavam de cuidados, afinal, e Kanae não queria ser mais uma despesa.

Mal tínhamos completado dezessete anos quando eu a procurei aqui.

Nobres falam. Ou, como Chiori gosta de brincar, "eles não sabem como usar corretamente as bocas". Um bando de putas iletradas ouve todo o tipo de segredo apetitoso capaz de inverter a balança de poder, já que os clientes as consideram estúpidas demais para compreender a seriedade do que eles estão revelando.

Então, quando eu disse a Kanae que eu só queria saber o que ela estava ouvindo, foi com alívio que ela recebeu a notícia. Depois, veio o receio.

"O que você quer fazer com tais informações? Não me diga que você é um dos rebelados!"

Tive vontade de rir. Eu, com os rebelados? Um bando de amadores que se esconde no deserto e tenta criar uma sociedade alternativa baseada na igualdade entre seus membros, que piada! Formados por Desterrados descontentes, pessoas acusadas injustamente, homossexuais... enfim, tudo que a atual sociedade despreza se amontoa no deserto sob o estúpido codinome de Bridge Rock, graças à formação rochosa que serve de ponto de referência ao esconderijo deles.

Eu, com eles?

Eu disse a Kanae que não, mas ela não acreditou. Recusou-se a me ajudar, alegando que seria arriscado demais para ela. Eu poderia já estar com a corda no pescoço por me envolver com tais tipos, mas ela não era estúpida para me acompanhar ao cadafalso.

Sim, ela não era estúpida. Então, ofereci a ela o que ninguém jamais ofereceria: instrução.

Uma troca justa: ela me dava informação, eu dava informação a ela. Pouco depois, Chiori foi incluída no esquema. "Para facilitar nossos encontros", foi como Kanae justificou, mas eu desconfio que ela só quisesse ajudar a jovem de sina parecida com a dela. Por outro lado, foi uma decisão satisfatória, já que agora eu tinha quatro ouvidos astutos me trazendo informações que eu não obteria de outra forma.

Elas nunca me perguntaram como um Escavador aprendeu a ler e a escrever. Acho que é o tipo de informação que elas consideraram mais seguro não ter.

Tenho quase certeza de que elas acham que eu sou um garoto gay que coleta informações para os rebelados, o que me fez rir sozinha algumas vezes. Hikaru também acha que eu sou um garoto gay, julgando pela quantidade de vezes que eu o flagrei olhando para o meu traseiro, mas por tal fato eu nunca ri. Não é engraçado ser mais uma decepção para uma pessoa que a vida já se encarregou de foder de todas as formas.

Retorno ao momento presente enquanto as duas assumem suas posições de costume, olhando-me ansiosas. Infelizmente para elas, hoje eu não trago literatura, filosofia ou matemática, apenas as perguntas de sempre e uma proposta ousada.

Elas me contam sobre a elevação de Ren a Mestre de Clã e o descontentamento que tal manobra provocou. O território Tsuruga não passa de uma expansão dos territórios Takarada e Hizuri, nada que alguns Nobres entendam como uma conquista de Ren, o que apenas deixou óbvio que Lory e Kuu queriam mais um votante a favor deles nas questões administrativas.

Eles estão divididos, os filhos da puta. Os Clãs Takarada e Hizuri, apesar de possuírem territórios mais vastos e ricos, acumularam desvantagens importantes quando o assunto era votado entre os Clãs, especialmente considerando-se a aliança formada pelos Clãs Fuwa, Morizumi e Nanokura. A solução encontrada foi conceder terras a Ren, para que ele trabalhasse nelas como preposto, até faze-las fruírem o suficiente para que o território outrora pertencente às divisas entre Takarada e Hizuri fosse considerado autossuficiente.

Como recompensa, Ren foi elevado a Mestre, uma decisão de Conselho. Ou seja, acima da competência da aliança rival. Distante demais para Fuwa, Morizumi e Nanokura, mas ao alcance das mãos para Lory.

Com o placar empatando sempre em 3X3, cabe ao Conselho decidir, e lá está Lory, mais uma vez. Pft, o Mestre Fuwa deve estar tão puto!

Mas...

"Nossa, ela precisa mesmo dar esses gritos?"

Como de costume, enquanto Kanae relata o que ela entendeu das reclamações e comentários das últimas semanas, Chiori finge que nós estamos fazendo o que se faz ali, usualmente. Se alguém entrasse de surpresa no quarto, a despeito dos sons ardentes veria Chiori casualmente cutucando as unhas e esporadicamente prestando atenção ao que Kanae e eu conversamos aos pés da cama.

"Acredite ou não, ela é uma das favoritas aqui por causa disso"

Parece que eu estou torturando a pobre garota. Nunca entendi como os seguranças podem permitir tamanha atrocidade e nada fazerem. Quero dizer, supõe-se que eles protejam a "mercadoria", certo?

Quando Kanae termina o relato, Chiori chega ao fim da simulação. Elas trocam de lugar e eu agradeço a qualquer divindade existente pelo fato de que Kanae é mais afeita a gemidos baixos e suspiros.

Chiori também tem novidades sobre o Clã Tsuruga, o que não é uma surpresa, já que foi o evento mais importante dos últimos tempos.

"Ouvi dizer que o Clã Morizumi está furioso!"

Ok, nenhuma novidade aqui. Quem detém o poder raramente quer dividi-lo.

"Parece que o Monstro encontrou uma nova procriadora, vinda diretamente da favela do território Tsuruga, e ele sequer esperou os prazos de Ruriko e Kimiko terminarem antes de anunciar a chegada dela"

Puta merda. Que diabos está acontecendo?

"E ela não tem a idade padrão de dezesseis anos, mas vinte anos! Dá para acreditar?"

Dois dias, só faz dois dias e a notícia já virou fofoca?

"Quem me contou estava muito curioso, afinal, se ela fosse uma beldade, já teria sido recrutada há quatro anos, então o Mestre Tsuruga deve ter algum fetiche bizarro que os nobres estão loucos para descobrir"

Oh, sim. Fetiche define bem.

São duas joias, as minhas informantes: enquanto Kanae se atém às danças de poder, Chiori prefere comentar os jogos sociais. Ambas são muito espertas e as notícias que trazem se complementam perfeitamente. Talvez sejam as únicas mulheres do mundo com as habilidades ideais para realizarem o feito de colherem informações sem serem descobertas.

Também foi uma grata surpresa descobrir que Kanae se lembra de absolutamente tudo que lê, e Chiori consegue escrever a uma velocidade alarmante. Juntas, elas são as perfeitas reprodutoras, e eu sorrio com a ambiguidade. Eu não as quero para reprodução humana, mas para a reprodução de ideias.

Nosso tempo está acabando.

"Eu tenho uma proposta a fazer a vocês"

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Ela está quase seis horas atrasada. Eu sei que é improvável que ela descumpra o combinado, já que estamos usando Maria como chantagem, mas seis horas é tempo demais.

E se algo aconteceu no caminho até aqui? E se ela adoeceu? E se ela foi descoberta?

Lory garantiu que seria mais seguro ela vir sozinha. Enquanto planejávamos, pareceu razoável concluir que ela atrairia menos atenção se viesse sozinha e com o disfarce habitual. Também consideramos o fato de que ela provavelmente conhece meios inconspícuos de percorrer a distância que separa o território Takarada do território Tsuruga, mas diante do atraso eu só consigo pensar que nosso planejamento falhou.

Dois dias foi o tempo que concedemos a ela para se recuperar e, caso quisesse, reconciliar-se com Maria antes de assumir a posição que a obrigamos a aceitar.

Se ela já não me odiava antes, certamente ela me odeia agora.

A espera me deixa agitado. Yashiro está certo, eu me tornei paranoico ao longo dos anos. Apreensivo o bastante para repensar incessantemente todos os cenários negativos que podem ter ocorrido para justificar a demora dela em se apresentar a mim no horário combinado.

"A segurança do seu território é precária!"

Como se a zombar de toda a minha preocupação, lá estava ela, em um canto dos meus aposentos, tranquilamente sentada no chão. Se eu não tivesse decidido pegar um disfarce para iniciar uma busca por ela, não a teria encontrado pelas próximas três horas, no mínimo.

"O que você faz aí?"

Eu não queria soar ríspido, mas ela me assustou quando eu já estava com os nervos aflorados.

"Como assim? Não era este o acordo? Vocês não me chantagearam para que eu aceitasse... os seus cuidados?"

Sim, ela me odeia.

"Estou me referindo ao fato de você estar encolhida no chão"

"Bem... esta roupa é imunda, e aqui é tudo tão... impecável"

Pontada dolorosa.

"...Remova o capacete. Não gosto de falar com quem não posso ver"

Ela se encolheu ainda mais. Será que eu ainda estou sendo ríspido?

"Eu preciso mesmo? Sabe, eu pensei que eu poderia ficar com ele... ao menos com ele, quero dizer. Entende?"

"Não, não entendo"

Oh sim, eu entendo, mas torço para estar errado.

"Bem, não é como se você precisasse da minha cabeça para fazer... o que você vai fazer comigo. Então eu pensei em permanecer com o capacete. Ao menos... com o capacete. É pedir muito?"

Pontada dolorosa.

O que está acontecendo aqui? Onde está a bravata? A coragem? O deboche? A malícia? É como se eu estivesse falando com outra pessoa! Quantas pessoas diferentes ela é capaz de ser?

"Kyoko, remova o capacete"

Talvez eu esteja sendo cruel, mas agora, mais do que nunca, eu preciso olhar para ela.

Eu a ouço suspirar e reconheço o gesto como o de quem esperava a situação, mas torcia para estar enganado. Eu finalmente posso vê-la, mas ela se recusa a olhar para mim. Desnecessário, porém, já que os olhos dela são enormes órbitas que deixam transmitir toda a vulnerabilidade que ela está sentindo.

De alguma forma, eu sinto que agora eu estou finalmente vendo Kyoko. A pessoa diante de mim, diferentemente de todas as outras, encaixa-se perfeitamente no levantamento que fiz sobre ela seis anos atrás.

"Você não está acostumada a interagir cara-a-cara com as pessoas, está?"

Ela balança a cabeça, desconfortável. Tudo sobre ela me parece um enigma: destemida em um momento, vulnerável em outro; ora provocante, ora tímida. Antes, disposta a me enfrentar; agora, determinada a se fundir com a parede.

Meu escrutínio só está piorando as coisas.

"Aquela porta leva ao quarto de banho. Faça o que tiver que fazer, mas não demore, ou eu buscarei você"

Não é assim que eu gostaria de trata-la, mas ela não deve saber que minha vontade é abraça-la e prometer que tudo ficará bem. Para a segurança dela, é fundamental que ela me obedeça. Nem que, para tanto, ela precise me temer.

"E se eu não quiser?"

A rebeldia começou mais cedo do que eu esperava.

"Como assim?"

"E se eu não quiser me lavar? E se que gostar de ficar suja?"

"Tanto melhor para mim"

Ela me olha com a expressão de profundo nojo e por pouco eu não rio. É divertido lidar com uma pessoa que revela no rosto tudo o que está pensando. Uma grata mudança, considerando todas as vezes em que ela já me ludibriou.

Melhor esclarecer a situação, antes que ela consolide a crença de que eu sou contra a higiene.

"Ou você se lava ou eu lavo você. Estou lhe dando a chance de escolher. Claro que, se depender de mim, eu a banharei com prazer"

O nojo se transformou em choque, e o choque se transformou em pavor. Segundos depois, ela correu para o quarto de banho.

Não consegui evitar o riso. Em minha defesa, há anos eu não via uma pessoa ruborizar tanto.

N/A – Eu gosto de brincar com as referências de Skip Beat e esta fic me dá plena oportunidade para tanto. A habilidade de Maria veio do capítulo em que ela diz que as pessoas são falsas, sempre dizendo coisas diferentes do que elas realmente pensam. As habilidades de Kanae e Chiori são mais óbvias, não? XD

"Bridge Rock" fez sua primeira aparição, aqui como o codinome dos rebeldes, porque obviamente uma sociedade tão corrupta teria alguns descontentes, e eu justifiquei o nome como um ponto de referência para a localização do grupo. E sim, aqui Hikaru é gay. E também é apaixonado pelo Escavador 47, sem saber que se trata de uma mulher. Oh, Céus. Quando eu estava imaginando este universo paralelo, perguntei-me como os homossexuais seriam vistos em uma sociedade baseada na sobrevivência do mais forte e na perpetuação da espécie, então me deparei automaticamente com a ideia de uma sociedade machista e homofóbica.

Despeço-me com duas boas notícias: o próximo capítulo está praticamente pronto e todo o roteiro desta fic está completamente traçado na minha cabeça.

Abraços fraternos aos meus leitores, apoiadores constantes ou não, anônimos ou não! Vocês são os melhores!