The Last Storm
por Noah Black


Estávamos quebrados.

E meias-verdades, Draco, se chama verossimilhança. E até isso na gente era mais de acordo com o verídico. O que é verdade em nós soa mais falso que o nosso amor – e nem ousemos a tanto; bastaria apenas olhar para o lado e ver o nosso balançar de mãos dadas.

A minha aqui. A sua ali. Afastadas por uma distância considerável e segura. Segura para que não nos tocássemos.

Para que não nos sentíssemos.

Você sabia o que isso ocasionaria. Tinha plena ciência da descarga de não-sentimentos que se acumularia nesse ato – por isso nunca o fizemos, mas idealizamos. Ou costumávamos a assim fazê-lo. Ou apenas eu.

Eu me lembro... você me desprezava e eu também. A mim. Achei que você tinha razão quanto ao que eu era – que, porque você sempre disse que não sou digna de quem-, que em minha carne só havia resultados de uma infernal seqüência mal sucedida de erros.

E que eu era o último erro de minha família.

Você me quebrava aos poucos, Draco; tão aos poucos que eu não notava – apenas consentia que degradasse cada pedaço de minha carne. Não. Pedaçonão.

Fatias.

Você levava tudo o que queria de mim, mesmo que negasse isso, mesmo que não quisesse. Porém, este é o nosso fardo: ter o que nunca quisemos possuir. Você me teve. Você me possuiu – e tudo o que euqueria de você era poder unir nossas mãos uma vez ou outra, uma noite ou outra.

Em outra vida ou outra morte.

Nós morremos juntos – e vivemos felizes assim.

Sua mão balança agora mais longe da minha e mais perto de outra, tão perto que você se permite o toque. Você sabe o que isso significa, não sabe? Esse toque? Ele é o meio pelo qual você encontrou o que quis ter: negar-me. Mas você também sabe o que isso implica antes; implica você se lembrar de mim.

Lembrar para me esquecer, e sempre que esquece, não me nega o suficiente para ser duradouro e acaba por ter-me, dentro desse ciclo alógico, perto e distante de você.

Você consegue e não consegue o que deseja. Você me deseja e me odeia, numa intensidade de forças que elas não se anulam em suas oposições, mas unem-se e se fortalecem. E essa é a sua heroína.

A sua alucinação. E isso é repugnante. O vício não é novo; é um velho artifício de metáfora. Vocêé um velho artifício de vida – e nunca irá me esquecer exatamente por eu não ter desejado o mesmo vil artifício que você. Não irá me esquecer em seu ódio porque eusou a fonte dele, dona dele.

Ele.

Você não vai conseguir cessá-lo porque é nele que está baseado a nossa condição de sermos um para o outro – e você não vai parar com essa necessidade de me odiar porque nisso está contido a minha decisão.

Eu não acredito mais em você – e escolhi ser alguém perto de quem você mais odeia; sendo assim, ganhei o cargo de ser a mais odiada por você. Sinta a sutileza nisso: ganhei a sua completa atenção e nós dois sabemos que isso é para sempre.

Seremos continuamente assim, Malfoy. Quebrados e verossímeis.