CAPÍTULO 11: O CONFRONTO FINAL

Na madrugada, lá estavam os irmãos Winchester e Tanaka a espreitar o grande galpão que passava despercebido na paisagem do bairro de Chinatown. Localizado numa esquina, com paredes antigas de tijolos à vista e grandes janelas parcialmente quebradas que revelavam um ambiente sombrio até mesmo para quem estava acostumado a este tipo de coisa.

Silenciosamente, através das vidraças quebradas, avistaram dois caminhões baú sendo carregados por rápidos e franzinos homens orientais. Carregavam caixas nas cabeças, nos braços e onde mais pudessem ser trasladadas pelos pequenos homens de ferro. A luz fornecida por pequenos refletores direcionados ao destino da carga era pouca, o que fazia com que as sombras daqueles homens se projetassem nas paredes opostas, formando grandes imagens que chegavam a assustar.

- E aí, convencido, sabe exatamente o que vai fazer?

- Shhh, cala a boca, Sam... Está vendo aquela entrada ali? – Dean apontou para os caminhões – Vocês vão por ali, eu vou por entre as caixas. Se formos silenciosos eles nem perceberão de onde vieram os ataques...

Dean levava nas costas a mochila branca com a katana. O loiro entegou a mochila a Tanaka, conferindo seus punhais e facas guardados na jaqueta.

- Vai precisar disto, guerreiro... – Tanaka estendeu mais uma vez a espada a Dean.

O rapaz olhou no fundo dos olhos do velho e sabia que não podia recusar a oferta. Sentia que aquela espada era a resposta e a solução. Pegou - a e sentiu - se novamente leve e forte. Samuel fez um sinal para que Tanaka o acompanhasse, dando a volta na esquina sorrateiramente.

Dean pulou uma das janelas dos fundos do galpão e começou a andar por entre as fileiras de caixas de todos os tamanhos, pesos e materiais. Realmente era algo vindo de fora do país e, certamente a carga que Sarah estava aguardando, pois as etiquetas mal raspadas denunciavam sua origem e destino.

Esgueirava - se por entre os estreitos corredores quando ouviu gritos vindos da direção para a qual mandara seu irmão e o Senpai. Começou a correr guiado pelo barulho, quando saiu num grande espaço vazio entre as rampas dos caminhões e o começo das fileiras da carga.

Próximo às rampas, todos os homens que trabalhavam naquela noite estavam mortos, cobertos de sangue. Samuel e Tanaka chegaram naquele momento ao local e também se assustaram com aquela cena. Dean virou - se para uma das paredes, onde estava projetada a sombra do que parecia ser o animal em questão. Mas quando virou - se para vê - lo, arregalou os olhos.

Era um jovem oriental que batia exatamente com a descrição do sobrinho de Tanaka.

- Não era para você aparecer por aqui... – O jovem lançou um olhar petrificante a Dean. Porém seus olhos eram completamente vazios e sem vida. Era como se a criatura o reconhecesse de algum lugar.

E aquela presença fez Dean ficar mais perturbado.

Desde aquela sessão de orações na salinha de Tanaka, estava com a mente inquieta. Era como se soubesse que faria algo muito importante, além do que já fazia nas suas caçadas.

Num movimento mais do que rápido, Hiroshi empurrou o loiro, lançando - o contra a parede na qual a sombra animalesca estava projetada. Dean bateu a cabeça, e caiu atordoado no chão.

- Dean!

- Não, Samuel, ele precisa fazer isso sozinho!

Tanaka segurou Sam, confiante de que aquela seria a noite do resgate da honra de seu ancestral.

Logo Dean pôs-se de pé e levantou sua cabeça. Piscou lentamente os olhos, inspirou profundamente. Girou o pescoço, fazendo-o estalar. Em passos lentos foi em direção a Hiroshi e, à medida que se distanciava da parede na qual se chocou, sua sombra projetada crescia. Mas o desenho da sombra não era mais de Dean.

Samuel e Tanaka só conseguiam assistir a tudo, estupefatos.

Dean ficou bem próximo a Hiroshi e lhe disse algo numa língua estranha. O caçula não reconhecia a voz do irmão.

- Ele disse que está na hora de voltar para o lugar de onde veio... – Tanaka sussurrava a resposta da pergunta invisível do mais novo.

Hiroshi soltou um grito aterrorizante e Dean, ao mesmo tempo, sacou a katana com tamanha naturalidade e destreza, como se fizesse isso há séculos e colocou-se em posição de ataque.

Na parede onde as sombras apareciam, via - se o Inu e o Samurai, preparados para o confronto final.

O espírito trouxe rapidez e bons reflexos para o corpo do franzino rapaz, que avançou sobre Dean. Porém o loiro se esquivou rapidamente, conseguindo acertar o braço de seu oponente, que ganhou um corte longo.

Samuel assistia a luta sem tirar os olhos do irmão. Tanaka assistia a luta através das sombras.

O Samurai gritou algo na língua estranha para o Inu, que viu-se debilitado pelo contato da lâmina no corpo de seu hospedeiro. O Inu avançou novamente, furioso com o que ouviu. O Samurai pôde apenas saltar de lado desviando do ataque, defendendo-se com a espada. Mas dessa vez, não acertou a criatura, e pelo golpe dado no ar, acabou desequilibrando-se e recebendo outro corte, agora no braço esquerdo.

Samuel queria a todo custo ajudar seu irmão, mas Tanaka mantinha- se tão tranqüilo ante aquela situação, que o mais novo não quis duvidar da sabedoria e conhecimento do Senpai.

Os espíritos estavam frente a frente, curvados, sentindo as dores dos corpos feridos. Mas nenhum desistiria, pois ali seria decidido o destino deles. Libertar-se ou aprisionar-se novamente.

O Inu sentia o efeito da lâmina banhada em sândalo, soltando um rugido constante que fazia arrepiar a pele dos mortais presentes. O Samurai respirou profundamente mais uma vez, encarando o seu rival. Sabia que os novos cortes dos braços eram profundos e o corpo que estava lhe servindo não agüentaria muito tempo se a luta permanecesse nesse pé. Mas sentia que a alma que era dona daquele corpo era muito nobre e forte, forte como a de um guerreiro de sua casta. Por esses e outros motivos, estava ali, e estava disposto a cumprir seu destino.

- Kyai!

Dessa vez foi o Samurai quem avançou. O Inu deu um salto, em posição de defesa, mas não teve chance. Num golpe certeiro, foi atingido pela espada no coração.

Neste momento uma forte luz branca emanou da espada. As imagens do animal e do guerreiro, projetadas nas sombras, ficaram distorcidas. Os corpos dos rapazes foram lançados em direções opostas, como se a luz os tivesse atingido e empurrado.

- Dean!

Samuel correu em direção ao irmão caído no chão, desacordado. Tanaka correu em direção ao seu sobrinho, que convulsionava, nos últimos instantes de sua miserável vida.

As sombras ainda permaneciam na parede, movimentando-se suavemente. O Samurai estava em pé, o Inu estava caído, com a katana transpassada em seu peito.

- Tio... Eu... Sinto muito...

Tanaka não pôde sentir outra coisa a não ser pena de seu sobrinho. Ele, da pior forma possível, arcou com as conseqüências de seus atos, nem que fosse uma única vez, a última vez. Fechou os olhos do rapaz, agora morto em seus braços.

Quando as baterias das luzes acabaram, as sombras se desprenderam da parede e se dissolveram no ar.

Samuel estava com o irmão mais velho em seus braços, tentando fazê-lo acordar. Percebeu que os cortes dos braços e os machucados feitos durante a luta haviam desaparecido, como num passe de mágica.

- Cadê aquele japonês filho da p...?! Eu vou abrir os olhos dele na porrada! - Num susto, Dean despertou.

- Hey, calma aí cara... Você está bem?

- Não, não está vendo... – Dean passou sua mão pela testa, onde antes de desmaiar sentiu um filete de sangue escorrer. Mas não havia cortes, nem sangue. Passou a mão pelo seu ombro, onde antes havia o ferimento que latejava, não sentiu nada. Olhou desconfiado para o irmão e Tanaka, que se aproximou dos dois.

- Por acaso eu perdi alguma coisa?...- Dean levantou-se, sacudindo a poeira do chão em sua roupa, ainda um pouco atordoado.

- Você não se lembra de nada? – Samuel perguntou num sorriso de alívio, pois nada acontecera a seu irmão.

- Por acaso eu deveria? – Dean, apesar de estar bem, parecia confuso.

- Meu jovem, o que aconteceu nesta noite foi algo a lembrar-se para as próximas gerações... – Tanaka aproximou-se dos jovens e repousou suas mãos sobre os ombros deles – Venham, acho que devo algumas explicações a vocês dois...

Naquela madrugada, durante a volta para casa, Tanaka contou toda a história de sua família e seus ancestrais, elucidando muitas informações para os irmãos Winchester.


- Mas então foi tudo premeditado, você nos usou! – Dean andava de um lado para o outro na sala da casa de Tanaka.

- Está enganado, Dean... Não premeditei nada disso. Não sabia que era um Inu que Hiroshi invocou, nem sabia que era o momento da redenção da alma de meu ancestral. Só soube que era o momento quando você tocou na espada.

Tanaka mantinha o olhar sereno, o mesmo do começo daquela noite. Dean olhou para o velho e viu que ele falava a verdade.

- Quer dizer, então, que Dean foi possuído pelo espírito... – Samuel, sentado no sofá, mantinha o queixo apoiado nas mãos, tentando racionalizar o que tinha acontecido.

- Na realidade, um espírito guerreiro escolhe de maneira especial seu hospedeiro... – Tanaka respondeu.

- É, pelo menos ele teve bom gosto... – Dean olhou para o mais novo levantando as sobrancelhas num sorriso maroto – Bom, fora a parte de ter um japonês carateca dentro de minha pessoa, e eu não me lembrar de nada do que aconteceu, acho que nos saímos bem em mais um trabalho... que ainda não terminamos...

- Do que você está falando, Dean? Não terminamos? – Agora foi Samuel quem levantou as sobrancelhas.

- Oras, quem você acha que vai pegar as encomendas roubadas da Sarah? A polícia de NY?... Difícil. - Dean espreguiçou-se, bocejando. – Chega de 'Aventureiros do Bairro Proibido' por hoje...

O loiro se recolheu por entre os canutilhos da cortina do corredor. Samuel o acompanhou instantes depois. Tanaka apenas assistiu à cena, sorrindo.