No capitulo anterior:

Shirayuki saiu para os portões assim que terminou de organizar tudo o que desejava levar, segurando com as duas mãos a pequena bolsinha de pano. Olhou para o céu acinzentado e sentiu o coração bater rápido, ansioso, repleto de esperança. Riu baixinho, sem saber exatamente o motivo e levou as mãos ao peito, buscando se acalmar, já que em breve iria encontrá-lo e foi então que sentiu um aroma adocicado de flores sendo trazido pelo vento e virou-se para o portal, prendendo o ar em expectativa.

- Shirayuki. - o timbre poderoso do deus-cão dourado surpreendeu a princesa, que recuou um passo. - Onde pensa que está indo?

- P-papai…!

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11 - Seguindo as luzes

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A expressão de Kinugami mudou drasticamente, contorcendo-se de raiva ao notar que sua filha estava prestes a fugir daquele lugar. As mãos fecharam-se imediatamente e avançou com passos firmes, vendo-a recuar na mesma proporção. Sem esconder a energia sinistra que emanava, rosnou baixo, a memória sendo revivida de momentos que queria esquecer e incentivando-o a criar novos que jamais desejaria começar.

- Papai, eu posso explicar… - murchando as orelhas felpudas, parou de fugir e permaneceu cabisbaixa, culposa. - Tem alguém que eu queria encontrar e, eu juro que voltarei em seguida, então, por favor, deixe eu descer a montanha!

- Você não vai a lugar algum! - o tom ameaçador vibrou no ar. - Jamais!

A presença dele se tornou tão intensa, que os gêmeos pararam de arrumar as coisas da viagem e olharam imediatamente para o rumo da porta, alarmados. Trocaram um olhar rápido, lendo a mente um do outro e saíram correndo para fora, abandonando tudo, preocupados com a princesa.

- Shirayuki! - chamaram em perfeito sincronismo, assim que a viram lá fora.

- Não venham… - a jovem implorou, lançando os olhos negros na direção deles.

Teve que respirar fundo para não deixar que seu espírito desmoronasse ali, pois não iria suportar ver alguém se ferir por causa dela, de novo. Preferia enfrentar o pai, aceitar qualquer que fosse o castigo e seguir vendada nesse mundo branco de neve e neblina, já havia aceitado esse destino, restava apenas se conformar - o que não seria difícil também.

- Que direito tem, de fazê-la sua refém? - Hayato vinha caminhando lentamente do templo e passou pelos irmãos, tocando em seus ombros, acalmando-os. - Ela é livre.

- Por favor, mestre… - pediu Ryo, curvando-se.

- Nós imploramos, mestre… - intercedeu Ren, ajoelhando-se.

Aquela ladainha toda só aumentava a ira do deus-cão dourado. Travando o maxilar, começou a bufar, odiava ser contrariado, odiava toda essa insistência, odiava quando as coisas saiam de seu domínio. Era muito ódio dentro de si, estava ficando cansado, desgastado… Sempre sendo o vilão de tudo o que acontecia.

- Calados! - o urro foi ensurdecedor, brutal, obrigando a todos cobrirem suas orelhas.

- Não dessa vez! - com determinação elevada, Hayato voltou a confrontá-lo. - Princesa, vá.

- Não posso deixar vocês assim. - tentou conter as lágrimas, sussurrando sentida.

- Tudo ficará bem… - levantando-se, Ren deixou a expressão ficar séria e aquela era a primeira vez que ele assumia esse tipo de postura.

- … É uma promessa. - Ryo seguiu do mesmo modo que o outro gêmeo, confiante.

Tomaram a frente, deixando o líder protegendo Shirayuki e assumiram a ofensiva, visto que Kinugami começava a se mover, sem nenhum indício de que desistiria. Precisavam abrir caminho para que os dois fugissem pelo lado mais seguro da montanha, já que descer pelo precipício do jardim branco era muito arriscado. Necessitavam de uma grande distração…

- Ele está vindo. - sussurrou Ryo, franzindo o cenho.

- Vamos pará-lo. - respondeu Ren, respirando fundo.

Lado a lado, estenderam a mão na direção do outro e as palmas se tocaram. Este movimento alertou o deus-cão dourado, fazendo-o parar por um instante e negacear em surpresa, sem acreditar que iriam fazer aquilo. Porém, a dupla já havia ido longe demais para desistir e por isso seguiriam com o plano, elevando a energia sinistra também, fazendo a montanha inteira tremer.

Um único anel de fogo circundava os gêmeos, unindo-os em meio a um enorme turbilhão de chamas. Estava tão quente ali, que a princesa precisou proteger os olhos e acompanhou a pulsação das labaredas, que cresciam de modo descomunal, rasgando as nuvens carregadas. A sombra desenhada de um animal colossal surgiu entre o vermelho-alaranjado, dissipando totalmente o fogo assim que o uivo da forma bestial ressoou, ecoando quase que infinitamente no céu.

Shirayuki cobriu os lábios, boquiaberta ao ver o grandioso demônio-cão negro que rosnava para Kinugami, mostrando as presas. A fusão dos dois gerou um enorme youkai, ele quase não cabia na área de entrada do templo e seus olhos raivosos - um azul e o outro verde - ameaçavam um ataque a qualquer instante. E ela prendeu a respiração em seguida, tomando consciência da proporção que esse problema tomava: se ficasse, todo o esforço deles seria em vão e se fugisse, não saberia como essa situação terminaria.

- Vamos descer pelo portal, contornar a montanha e continuar pela floresta. - a voz de Hayato a trouxe de volta a si. - Não desista, princesa. Vamos fazer de tudo para que consiga sair daqui.

- Eu… Vou continuar... - uniu as mãos contra o peito, juntando a mesma coragem que eles tinham para poder seguir em frente.

- Correremos assim que atacarem. - alertou, ficando o mais próximo dela, protegendo-a da luta que começava.

Atento no novo obstáculo, Kinugami saltou para acertar a cabeça do imenso cão e acabou sendo repelido por uma patada rápida e pesada. Seu corpo atingiu a neve, que amorteceu a queda e ao se levantar, viu os outros dois fugindo pela lateral, quase chegando ao portal que dava acesso a descida íngreme da montanha. Bufou ainda mais revoltado, correndo até eles e nesse momento foi barrado por um novo golpe. Mesmo que a forma animal dos gêmeos fosse veloz, não tinham a força necessária para derrotá-lo, nem unidos eram capazes de detê-lo. Para um youkai que se alimentou com mais de mil almas, até o atual governante do Makai cairia de joelhos perante todo o seu poder.

- Saiam do meu caminho, malditos!

Dessa vez foi Kinugami quem bloqueou a investida, segurando o maxilar aberto daquela criatura, que atacou com os dentes afiados, ansiosos para mordê-lo. Sem se intimidar, soltou aquela boca descomunal, deixando-o abocanhar o ar e chutou o focinho dele na sequência, fazendo-o soltar um guincho, fino e choroso, recuando na mesma hora.

A princesa virou só o rosto para trás, preocupada e encontrou o pai em seu encalço, à poucos passos de distância, estendendo o braço para capturá-la. Seu instinto foi se abaixar, protegendo-se com as mãos e olhou por uma segunda vez, vendo Hayato entrar na frente, virando alvo do agarre:

- Shirayuki, pule agora! - pediu, forçando Kinugami para trás. - Rápido!

- Não vá embora! - insistiu, gritando com a filha.

- Lá embaixo, a resposta que procur… - o servo não conseguiu concluir a frase, já que por pouco não levou um soco no queixo.

- Oras, seu! Vou fechar essa sua boca de uma vez por todas. - desta vez avançou com as garras, visando a garganta do amigo.

- Princesa! - chamou em um último apelo, incentivando-a.

- Se você ir…

Uma ponta de desespero.

Sob a máscara da brutalidade que o poderoso Inugami dourado usava, havia medo. Foi o que ouviu, naquelas palavras uivadas e viu, naqueles olhos escuros antes de pular, libertando-se de uma vez por todas.

Não conseguia entender o motivo de tanta reprova, a verdadeira razão do mestre das montanhas pontiagudas proibir, terminantemente, sua saída. O que havia de tão temeroso no pé daquela montanha? Que mal poderia acometê-la, subitamente, sem lhe dar chances de explorar aquele mundo tão fascinante e misterioso?

Puxou o ar com força, se transformando em uma fera, assim como Ren e Ryo fizeram. Não era tão grandiosa como eles, nem ameaçadora, os pelos brancos e longos deixavam a sua aparência mais fofa do que temível. As chamas que deveriam queimar como o dragão negro selado no braço de um youkai maligno, na verdade, eram azuis como as almas que salvava, puras, brandas.

Saltando com cuidado, aproximava-se do chão e antes mesmo de alcançá-lo, retornou a sua forma humanoide, caindo com suavidade sobre a neve acumulada. A princípio, olhou ao redor e depois para o alto, sem conseguir sentir a presença deles. O silêncio era tão esmagador que a angústia e a impotência surgiram para lhe sufocar, entretanto afastou esses sentimentos com um aceno determinado, não voltaria atrás. Precisava continuar fugindo e quando definiu o caminho que deveria seguir, avistou uma pequenina alma. A bolinha branco-azulada flutuava ao seu redor, chamando-a e depois vagou pela direção oposta, ziguezagueando.

- Ah, estou com tanta pressa… - sussurrou baixinho, segredando e franziu a testa, sem saber o que fazer. - Onde quer me levar?

Não conseguiu ignorar o pedido e foi, acompanhando o ritmo dela, vendo outras mais surgirem, criando um rastro luminoso. Após contornar algumas rochas, conseguiu sentir um aroma doce e algumas pétalas vinham acompanhadas do vento, incentivando-a a continuar. Correu um pouco desengonçada, os pés afundando no tapete alvo, que foi se transformando em um enorme mar de flores. O modo dedicado que cada uma delas foram colocadas naquele lugar, demonstrava o cuidado e carinho do autor, aumentando a sua curiosidade e no centro de todas aquelas cores, havia uma pedra menor, lembrando um pequeno altar ou uma lápide.

As almas se acumulavam e rondavam a pedra branca, atraídas por aquela que ali descansava. Então as palavras de Hayato surgiram em sua mente, a resposta que ele havia citado estava bem diante de si, tão perto por todos esses anos! Sentiu os olhos transbordarem em lágrimas, o choro vindo sem aviso e apesar de tudo, a atmosfera reconfortante e branda que a acolhida, não lhe permitia lamentar de modo algum.

Aproximou-se um tanto acanhada, os lábios finos se estreitando em um sorriso meigo e limpando as lágrimas, fungou, amável:

- Mamãe… Estou partindo.

Não tinha nenhuma dúvida sobre esse reencontro, pois até mesmo os espectros dançavam ao redor dela e do túmulo, alegres, festivos por este momento. E outra certeza veio acalentá-la…

Shiori sempre esteve olhando por ela, mesmo após a sua morte.

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O furor da batalha e da perseguição extinguiu-se após Kinugami vê-la saltar, fugindo. Permanecendo estático, moveu apenas os olhos na direção de Hayato e o questionou deste modo, aturdido pela atitude que a filha tomou, algo que jamais poderia acreditar.

- Ela… realmente… - seus braços caíram derrotados, alinhados ao corpo. - Shirayuki vai descobrir tudo! - e elevando a voz, desesperou-se.

- Já era tempo dela saber a verdade. - foi só o que o servo poderia dizer.

- Eu tentei protegê-la… Agora, deve estar chorando. - sussurrante, contorceu o rosto em desconsolo.

Pois para ele, a morte de Shiori era a maior dor de todas. Jamais iria superar essa perda e jamais queria que a filha sofresse por este mesmo motivo, que fosse por outras razões ou até mesmo por causa dele.

- Ela amava este lugar… - e ele a amava, incondicionalmente.

- Shirayuki e Shiori não são a mesma pessoa.

Recebeu essas palavras feito um golpe e sem forças, apenas riu, aceitando-as como um bom perdedor. Nada do que fizesse poderia trazer a sua amada de volta, pois já havia tentado de tudo e talvez essa mesma teimosia existisse no coração de sua filha, levando-a para frente, superando cada obstáculo. Deixou um sorriso escapar de seus lábios, aquela criança tão pequena finalmente cresceu e era forte como o pai e delicada como a mãe.

Não poderia estar mais orgulhoso.


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Notas do capítulo:

Eu acabei usando de base um personagem para criar a forma bestial dos Inugamis: o Sesshoumaru do anime/mangá Inuyasha. Ele assume a forma de um cão enorme e achei interessante usar essa ideia na história, também. Sem contar que a forma humanoide deles é baseada no próprio Inuyasha, exceto o fato de que eles têm cauda e o Inuyasha não (que eu saiba o_ô).

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Olá pessoal, tudo bem? Os bons ventos (quentes) da primavera me trouxeram até aqui.

Sinto a demora, mas este capítulo foi bem complexo para mim. Tantas reviravoltas e finalmente a Shirayuki conseguiu sair da montanha, descobrindo também o motivo de sua mãe estar sempre ausente. Kinugami poderia ter proibido Hayato e os irmãos de falar para ela, mas agora, vendo com os próprios olhos não tinha nada a ser feito. TuT fiquei feliz e triste, wa, tadinha...

Quero agradecer aqueles que comentam e acompanham, mesmo que aos poucos, a historinha vai seguindo. Um grande abraço e um beijo, até o próximo!