- Toby, posso passar a tarde aqui hoje?

Tínhamos terminado de estudar mais cedo e Spencer me perguntou aquilo assim que fechou os livros. Aquela pergunta me deixou meio intrigado. Permanecemos sentados, olhando um para o outro, ela esperando com expectativa uma resposta minha e eu de testa franzida.

- Desculpe por perguntar, mas por que quer ficar aqui?

- Meus pais saíram e Melissa não foi trabalhar, está passando mal. As coisas não estão muito bem entre nós então... Não quero ficar sozinha com ela em casa. Posso ficar aqui?

- Claro!

- Obrigada.

Ela deu um sorriso amarelo e se levantou devagar. Perscrutou a casa minuciosamente, virando a cabeça lentamente de um lado ao outro com as mãos juntas nas costas. Continuei sentado enquanto ela andava pela casa, examinando as coisas com um olhar inquisitivo. Havia alguns dias desde que a polícia tinha me inocentado da morte de Alisson e Spencer estava um pouco menos tensa e mais receptiva a essa ideia. Já não tinha tanta relutância em se aproximar de mim e estava menos seca. Ela se virou para mim e deu um sorriso.

- Toby, eu gostaria que você me mostrasse sua casa, se não for muito incômodo para você, ela disse se aproximando da mesa.

- Não, não é nenhum incômodo.

Levantei com um pulo da cadeira e ela reprimiu uma risada quando a cadeira quase caiu no chão. Dei um sorriso em resposta.

- Já vou avisando: a casa não é nenhuma mansão.

Virei para o corredor e fiz sinal para ela vir atrás de mim, já que nele só cabia uma pessoa. Nossos passos faziam barulho no chão de madeira velha da casa enquanto andávamos pelos quartos.

- Esta é a sala de televisão, que acho você já deve conhecer..., fiz com a mão.

Ela colocou a cabeça dentro do quarto e assentiu com a cabeça. Assim que ela se voltou para mim, me virei e segui em frente.

- Este, apontei com o dedo, é o quarto de Jenna.

O quarto dava a impressão de ser pequeno, com a porta de madeira escura e polida meio aberta, deixando a escuridão sair do quarto. Raramente entrava no quarto de minha irmã, especialmente quando ela estava em casa. Aquele quarto me remetia a péssimas lembranças... Olhei para trás e vi nos olhos de Spencer uma curiosidade tamanha que temi entrar naquele quarto. Voltei-me para a porta e levei um momento encarando-a, tomando coragem para entrar ali. Abri a porta lentamente e dei alguns passos adiante. Quando Spencer e eu já estávamos ambos dentro do quarto, entreabri a cortina para deixar alguma luz entrar. Spencer passeava pelo quarto com passos medidos e silenciosos, como se ao mínimo movimento tudo ali dentro fosse explodir. Ela forçava a visão para ver na meia luz tudo o que tinha naquele quarto. Seus olhos estavam inquisitivos como antes e ainda mais curiosos. Senti que ela queria ver o quarto de Jenna desde o princípio, pouco importava à ela o resto da casa. Fiquei postado ao lado da janela enquanto ela passava o olho em cada centímetro do aposento, sempre muito atenta aos detalhes, como se estivesse olhando para um quadro em um museu.

- Spencer, chamei.

- Sim?

- O que está procurando?

- O quê?

- O que está procurando aqui? Deve ter algum motivo para você ter me pedido para ver a casa.

- Não, não há nenhum motivo. Só estava curiosa.

Algo dentro de mim gritava para eu não acreditar no que ela estava dizendo, mas resolvi fingir que acreditava e simplesmente assenti para ela. Ela se virou para mim de repente e se aproximou.

- Acho que falta um quarto, certo?

- Sim, respondi. O meu.

- Posso vê-lo?

- Na verdade, ele não está muito arrumado. Se quiser, outro dia lhe mostro.

- Tudo bem, ela assentiu sorrindo.

Ficamos um minuto olhando um para o outro e naquele momento, à meia luz daquele quarto sombrio eu percebi o quanto Spencer era bonita. Seu rosto fino e magro fazia contraste com os cabelos marrons cacheados e volumosos, que caíam sobre seus ombros como uma moldura. Seus olhos tinham um brilho de vivacidade e curiosidade que me prendiam a eles como uma âncora se prende ao fundo do mar. Seus lábios se iluminavam quando ela sorria e suas bochechas faziam covinhas charmosas. Engoli em seco quando percebi que aproximava meu rosto do dela e sacudi discretamente a cabeça.

- Vamos sair daqui, eu disse, esse cheiro de mofo está me matando.

Ela assentiu e saiu do quarto enquanto eu fechava cuidadosamente as cortinas e dava uma última olhada em tudo, checando se tudo estava em seu devido lugar. Saí do quarto e tive o cuidado de deixar a porta na mesma posição em que estava antes. Encontrei Spencer parada na sala, me esperando diante da mesa.

- Está meio abafado aqui, disse sem jeito. Não quer tomar um ar na varanda?

- Tudo bem, ela sorriu.

Saímos de casa e nos sentamos nos primeiros degraus de madeira da pequena escada em frente à casa, um ao lado do outro. Ficamos em silêncio por um bom tempo, apenas observando a rua e sentindo a leve brisa que soprava. Fechei os olhos e respirei fundo, sentindo o cheiro das flores que o vento trazia. Quando os abri novamente, vi que Spencer estava olhando diretamente para mim, os olhos com um pesar notável.

- Toby, me desculpe.

- Pelo quê, Spencer?

- Pelo Homecoming... por ter te acusado de uma coisa que você não fez, eu não tinha esse direito e eu também não tinha provas e além do mais...

- Spencer, Spencer!, exclamei, colocando a mão na dela e impedindo-a de gesticular. Está tudo bem. Eu te aceito suas desculpas.

- Você me perdoa, Toby?

- Eu te perdoo, Spencer.

Soltei minha mão e ela deu um sorriso largo, porém estava com o rosto transtornado. Ela murmurou um tímido "obrigada" e me abraçou. No começo fiquei sem reação, não sabia o que fazer, mas depois coloquei meus braços em volta dela e fechei os olhos, sentindo cada centímetro de nossos corpos juntos. Ela se afastou e percebi que estava chorando quando limpou o canto do olho esquerdo com a mão.

- Ei, por que está chorando?, perguntei colocando a mão em suas costas e me inclinando para olhar em seus olhos brilhantes.

- Eu errei sobre você, Toby... Eu errei.

- Shhh, fique calma!, sussurrei deitando-a em meu ombro. Todos nós erramos às vezes Spencer! E nem por isso temos de nos sentir assim! Eu já disse que te perdoo, então fique calma, ok?

Ela soluçou e assentiu timidamente com a cabeça sobre meu ombro. Levantei a cabeça dela e segurei seu queixo na mão, fazendo-a olhar para mim, olho no olho.

- Agora pare de chorar, ok?

- Ok, ela soluçou dando uma risada nervosa.

Soltei-a e ela respirou fundo, tentando se acalmar e limpou os olhos e as bochechas molhadas. Sorriu para mim assim que as lágrimas pararam de cair e logo depois deu uma gargalhada.

- Acho melhor eu ir embora, já te incomodei demais.

- Não! Não foi incômodo nenhum passar a tarde com você.

- Obrigada. Mas não quero mais te atrapalhar. Vou pegar meus livros e vou embora.

- Como queira..., mas você não me atrapalha em nada, só para constar.

Ela riu e se levantou, voltando para dentro da casa para arrumar e pegar suas coisas. Enquanto a esperava, suspirei olhando para a rua deserta, desejando que ela ficasse mais, que ela ficasse para sempre. Meus pensamentos se turvaram quando ouvi os passos de Spencer se aproximando, a madeira protestando sobre seus sapatos. Olhei para trás e ela já estava na varanda. Levantei-me rapidamente e ela se aproximou de mim.

- Até amanhã, Spencer.

- Até amanhã, Toby. E muito obrigada. Por tudo.

- Não precisa agradecer, disse sorrindo. Adeus.

- Adeus, Toby.

Nós nos abraçamos e dessa vez eu sabia o que fazer. Senti novamente o calor de nossos corpos e me senti feliz por estar ali, com ela. Porém, em um piscar de olhos, ela se desvencilhou de mim e foi embora, deixando-me parado na varanda, apenas desejando que aquela tarde tivesse sido eterna.