Capítulo XI
Sesshomaru Taisho entrou no White's, o clube masculino mais exclusivo de Londres, precisamente às quatro horas da tarde. Passara boa parte do dia tentando reunir informações sobre Naraku Dorchester, mas não apurara nada importante.
Esperava que seu cunhado, marquês de Dardington, tivesse mais sorte em suas buscas. Tinham combinado de encontrar-se no clube. Um rápido olhar pelo salão revelou que o marquês ainda não chegara. Um garçom aproximou-se discretamente.
— Posso servir-lhe uma bebida, milorde?
Taisho tirou o casaco e o chapéu e entregou-os ao recepcionista.
— Estou esperando o marquês de Dardington. Traga-nos uma garrafa do melhor clarete assim que ele chegar.
— Pois não, milorde. — O garçom fez uma reverência e desapareceu.
Os olhos de Sesshomaru correram pelas cadeiras de couro dispostas ao redor das mesas de mogno, em busca de um lugar tranqüilo. Quando localizou, atravessou o salão cumprimentando os conhecidos.
Sentou-se perto da lareira, de frente para a entrada. Momentos depois, o marquês juntava-se a ele.
— Desculpe o atraso — disse Dardington sentando-se. — Tive que passar pela joalheria para pegar a lembrancinha que encomendei a sua irmã. Foi difícil decidir o desenho, mas o joalheiro superou minhas expectativas ao trabalhar com safiras e diamantes.
O marquês instintivamente alisou o bolso do paletó e Sesshomaru distinguiu as linhas de um estojo grande. Podia imaginar a magnificência e o preço da "lembrancinha". O marquês era mais do que generoso com sua esposa e, em sociedade, sabia-se que lady Sango possuía uma das mais preciosas coleções de jóias da Inglaterra, rivalizada apenas pela realeza.
— Você mima demais a minha irmã.
— Ela merece muito mais. — O marquês sorriu com orgulho. — Esses adornos agradam-na. Além disso, Sango sabe muito bem como agradecer.
Sesshomaru conseguiu sorrir da repentina pontada de inveja. O casamento da irmã começara tão ou mais errado quanto o dele, mas ela e o marquês tinham superado os problemas e, agora, formavam um casal realmente feliz. Talvez devesse pedir a Dardington o endereço do joalheiro.
Atendendo ao pedido de Sesshomaru, o garçom imediatamente levou a garrafa de vinho. Assim que ele se afastou, a conversa foi reiniciada.
— Apesar da manhã exaustiva de visitas e conversas, não descobri nada de importante sobre Naraku Dorchester — Sesshomaru reclinou-se na cadeira, tentando não se mostrar tão ansioso.
— O que você descobriu?
O marquês bebeu um gole de vinho antes de responder:
— Pelas informações obtidas, o homem é um verdadeiro cavalheiro. Costuma vir a Londres várias vezes ao ano. Faz suas roupas com um alfaiate londrino e freqüenta a sociedade, embora muitos dos meus amigos e conhecidos nunca tinham ouvido falar dele, antes do baile de ontem.
— Isso é muito estranho — Sesshomaru observou.
— De acordo com as pessoas que o conhecem, Dorchester tem profundos conhecimentos sobre cavalos; é conhecido como um parceiro de jogo que, de boa vontade, perde mais moedas do que ganha; é amável a ponto de dançar com moças mais sem graça ou com damas de companhia, se lhe solicitarem, e faz questão de pagar a conta depois de uma rodada de drinques ou um jantar.
Sesshomaru tamborilava na mesa.
— Kagome mencionou que ele goza de boa reputação na comunidade deles, mas ela e meu irmão sentem que há alguma coisa escondida sob a fachada de homem generoso.
Dardington refletiu por alguns instantes; depois, balançou a cabeça.
— Ainda não tive oportunidade de olhar dentro dos olhos dele, de modo que é difícil avaliar seu caráter. Entretanto, não dá para acreditar que exista um homem assim, modelo de perfeição. Nenhum homem, por mais cavalheiro que seja, é tão perfeito e decoroso, a menos que seja o mais estúpido dos homens! — O marquês sorriu. — Exceção feita a você.
— Não mais. — Sesshomaru surpreendeu-se com a própria calma. Durante muito tempo, ele lidara com quase todas as situações de modo a manter sua reputação acima de quaisquer dúvidas ou censuras.
Agora, porém, reputação e convenções sociais estavam perdendo lugar em favor das emoções que envolviam sua esposa.
— Ninguém teve coragem de expressar em voz alta ontem à noite ou nesta manhã, mas tive a nítida impressão que aqueles que presenciaram o entrevero culpam a mim pelo comportamento de Dorchester. — Sesshomaru acrescentou.
O marquês fitou-o com expressão compreensiva.
— Ouvi rumores, mas prefiro não mencioná-los a você.
— Isso não tem a menor importância. Os dias em que eu preferia morrer a ver meu nome envolvido em rumores estão chegando ao fim.
— Estou contente por ouvir isso. Mesmo assim, acho injusto você carregar a culpa pelo comportamento agressivo de Dorchester. — Dardington encolheu os ombros. — Se você estiver certo quanto ao verdadeiro caráter dele, ele poderá causar problemas sérios. Ele acredita que você, e não Inuyasha casou-se com Kagome no início do ano, em Wiltshire. Certamente, estranhará o fato de você ter demorado tanto tempo para apresentar sua esposa à sociedade.
— Se questionado a esse respeito, espero saber lidar melhor com a verdade que Dorchester. Só não quero que Kagome seja tocada por um escândalo.
— Protegendo a reputação da família novamente?
— Ela é minha esposa, Dardington. Os sentimentos dela são muito importantes para mim.
O marquês pigarreou, mas não conteve o riso.
— Eu o conheço há muitos anos, Taisho, e nunca imaginei que, um dia, você permitiria que o coração comandasse sua cabeça.
— Eu jamais permitiria isso — Sesshomaru retrucou.
O marquês não parecia convencido. Sesshomaru rememorou a conversa, e percebeu que não fora sincero. Era mais difícil do que imaginara admitir o quanto Kagome era importante para ele.
— Descobri um fato realmente problemático sobre Dorchester — o marquês anunciou. — Sua companhia mais constante nestas últimas semanas tem sido a srta. Manning.
Sesshomaru assobiou de surpresa.
— Sim, muito problemático. A srta. Manning está muito magoada comigo. Não posso culpá-la. Ela tem todo o direito de estar agastada e com raiva. Embora não pudesse evitar, reconheço que fui um tanto rude com ela.
— Uma mulher desprezada é capaz de tudo, Taisho. E não esqueça que a srta. Manning é uma das poucas pessoas sem ser da família que sabe a verdade sobre o seu casamento.
Sesshomaru bebeu o último gole de vinho e empurrou o copo vazio.
— Ela não pode dizer nada sobre isso se não quiser ser envolvida no escândalo.
— Não se ela assumir o papel de donzela ofendida — o marquês observou. — Com essa tática, ela granjearia a simpatia de todos, principalmente das mulheres.
— Agora é tarde. Ela poderia ter revelado a verdade sobre nosso relacionamento assim que soube de Kagome.
— De qualquer modo, aconselhou-o a ficar alerta, Taisho. As mulheres sempre escolhem os momentos mais inconvenientes para fazerem drama. A temporada mal começou e com tantas atividades sociais não será impossível encontrar Dorchester ou a srta. Manning num baile, no teatro, num piquenique ou qualquer outro evento.
— Prometo ser cuidadoso. — Sesshomaru esfregou o queixo. — Talvez seja prudente contratar alguns homens de Bow Street para ficarem de olho no fidalgo. O que você acha?
— Concordo plenamente. Meu pai tem muitos conhecimentos nesse particular. Vou providenciar tudo para você. Discretamente, claro.
— Obrigado.
Os dois homens conversaram rapidamente a respeito de quem pagaria a conta. Depois de Sesshomaru assinar a nota, ambos saíram juntos do clube, marcando novo encontro para a tarde seguinte.
Ao chegar em casa, lorde Taisho notou os candelabros acesos. Era mais tarde do que imaginara.
— Minha mãe e lady Taisho já saíram para ir ao teatro? — Sesshomaru perguntou ao mordomo.
— Há vinte minutos, milorde. O conde decidiu ficar em casa. Uma nova remessa de livros sobre a arquitetura da Grécia antiga acabou de chegar. Ele está no salão dourado. Jantarão juntos?
— Provavelmente — Sesshomaru resmungou.
Sesshomaru apreciava as representações teatrais e lamentava não estar presente à estréia daquela noite. Lamentava mais ainda perder a oportunidade de introduzir Kagome às delícias de uma produção profissional londrina.
Entrou no salão amarelo e encontrou o conde sentado junto à lareira entretido com os livros recém-chegados.
— Brinks disse que minha esposa e a mamãe já saíram. Eu esperava acompanhá-las, mas não percebi o tempo passar e acabei me atrasando.
O conde levantou a cabeça e piscou distraidamente por um momento.
— Tive a impressão que sua esposa queria esperá-lo, mas, claro, sua mãe nem sonharia em chegar atrasada ao teatro. — O conde fechou o livro e deixou-o de lado. — Você sabe que ela não gosta da multidão que se forma em cima da hora.
— Elas estavam sozinhas?
— Não. Com lorde Berkley. Ele está sempre disposto a acompanhar sua mãe nessas ocasiões e ela o acha muito divertido.
— Por que não foi também, papai? Você sempre gostou de teatro.
— E gosto. Mas se eu quiser apreciar uma peça, não poderei levar sua mãe comigo. Ela tem a mania de sair antes do final da apresentação. Felizmente, Berkley não se importa.
— Mamãe mencionou se eles iam a alguma recepção depois do teatro? Ou a algum lugar para jantar?
— Ela não disse nada, mas desconfio de que venham direto para casa. Sua mãe sempre volta do teatro com dor de cabeça.
Sesshomaru ergueu as sobrancelhas.
— Se ela não gosta de multidões, se não está interessada na peça e volta com dor de cabeça, por que ela insiste em ir ao teatro?
O conde ergueu os ombros, como se não soubesse a resposta.
— Todos vão ao teatro. Deve ser por isso. Mas esta noite, sua esposa queria muito ir, e sua mãe ofereceu-se para acompanhá-la.
Naquele momento, o mordomo abriu a porta e ambos se voltaram. Sesshomaru olhou para o mordomo e, depois, para o homem sorridente que entrou na sala.
— Que surpresa agradável encontrá-los em casa como duas tias solteironas! Por que não estão se divertindo em algum dos diversos eventos sociais da temporada?
Houve um momento de silêncio. Perplexos pai e filho olhavam para o convidado inesperado. Finalmente, o conde abriu os braços.
— Inuyasha, meu filho! — Eles se abraçaram. — Ingrato! Por onde você andou? Metade da Bow Street está atravessando o país à sua procura.
Inuyasha deu um sorriso inocente.
— Estive viajando, papai. — O sorriso desapareceu ao fitar o irmão. — Taisho.
— Boa noite. — O coração de Sesshomaru bateu mais forte ao ver o irmão gêmeo, mas disfarçou a emoção. Durante semanas, estivera desesperado para falar com Inuyasha, mas agora que ele finalmente estava lá, sentia-se desconfortável e inseguro.
Em criança, eles eram inseparáveis e, rapazes, passavam praticamente todo o tempo juntos, participando das mesmas façanhas, testando seus limites e quebrando todas as regras da sociedade.
Mais tarde, Sesshomaru deixou para trás o comportamento irresponsável, enquanto Inuyasha continuou com a vida desregrada. Isso, porém, não diminuiu o afeto de Sesshomaru pelo irmão gêmeo, e esperava que, apesar das diferenças, eles pudessem ser amigos como antes.
Mas, depois das explicações, esclarecer por que se casara, usando o nome do irmão gêmeo, era um bom porto de partida.
Educadamente, Sesshomaru apertou a mão que Inuyasha lhe oferecia. Depois, respirou fundo, recuou e acertou um soco no nariz do irmão.
Covent Garden era um dos teatros mais populares de Londres. Kagome custava a acreditar que estava realmente ali.
A experiência era emocionante e encantara-a desde o momento em que desceu da carruagem, subiu a longa escadaria e passou pela cortina da entrada do camarote particular da família.
Só lamentava a ausência de Sesshomaru. No fundo, esperava que ele chegasse a qualquer momento, mas assim que a música começou e a cortina subiu, Kagome se conformou. Ele deveria ter outro compromisso. Apesar de repetir a si mesma que as coisas aconteciam desse modo no mundo de Sesshomaru, maridos e esposas conduzindo vidas separadas, a ausência dele anuviou sua alegria.
Ao fim do primeiro ato, um garçom entrou no camarote com uma garrafa de champanhe e três taças. Sorrindo, Berkley serviu a bebida e os três brindaram.
Alguns amigos da condessa e de lorde Berkley foram cumprimentá-los no camarote, e Kagome não se importou por ser excluída da conversa. Quando solicitada, sorria e respondia gentilmente, de preferência com monossílabos, o que lhe perguntavam.
No início do segundo ato, Kagome sentiu uma sensação estranha, persistente, como se estivesse sendo observada. Achando que era só impressão, bebeu o champanhe que ainda havia no copo e ignorou o arrepio na espinha. Nada a irritaria naquela noite e nem empanaria a beleza da peça.
O tempo passou e, de repente, sentiu um toque no ombro. Assustada, ela se voltou e viu a condessa preparando-se para sair do camarote.
— O que aconteceu? — Kagome murmurou com voz preocupada. — A senhora não está bem?
— Não, querida. Agradeço sua preocupação. — A condessa sorriu. — Está na hora de irmos embora.
— Agora? Mas a peça ainda não terminou!
— Eu sei, mas é o único modo de evitarmos a multidão e o tráfego. O saguão do teatro torna-se simplesmente sufocante com tanta gente.
— Perderemos a melhor parte, quando os personagens principais morrem. — Kagome olhou ansiosamente para Berkley, esperando encontrar um aliado.
-— Ah, então você conhece a história. Ótimo. Assim, você já sabe o que vai acontecer — disse o lorde.
— Exatamente — concordou a condessa. — Se você quiser relembrar os pormenores, Sesshomaru a ajudará a encontrar uma cópia de Hamlet na biblioteca de casa. Ele tem a obra completa do Bardo de Avon.
Kagome abriu a boca para protestar, mas a condessa já saíra, e Berkley estava segurando a cortina para ela sair também.
Relutante, ela deu um último olhar em direção ao palco e seguiu a sogra pelo corredor semicircular.
Berkley ofereceu um braço a cada dama. O corredor e o saguão estavam desertos e, com facilidade, chegaram à calçada. Logo avistaram uma carruagem se aproximando.
— Deve ser a nossa carruagem — anunciou a condessa. — John sabe que eu sempre saio do teatro no máximo às onze horas. Devo elogiá-lo pela pontualidade.
Ainda pensando na peça e imaginando as cenas finais, Kagome não estava muito atenta ao que se passava ao redor, até ouvir o ruído da carruagem já bem próximo. Levantou os olhos e, surpresa, deparou com um coche preto e antigo no fim da rua, oscilando de um lado para outro.
O veículo parecia desgovernado, e o som das patas dos cavalos ecoava nos ouvidos de Kagome. Com os olhos arregalados, ela viu o cocheiro tentando conter os animais.
— Cuidado! — gritou uma voz masculina.
Kagome ouviu a voz e registrou o perigo, mas o choque e o medo impediram-na de correr. O ruído das rodas nas pedras da rua deixou-a paralisada. De repente, duas mãos fortes a puxaram, uma fração de segundo antes de a carruagem subir na calçada.
Kagome demorou alguns segundos para entender que o desastre fora evitado, que ela ainda estava inteira, com as pernas trêmulas, mas sem nenhum ferimento. Cambaleou, mas as mãos fortes a amparavam como barras de ferro, mantendo-a em pé.
À distância, ela ouvia as vozes da condessa e de lorde Berkley, tentando acalmá-la.
Ainda não totalmente refeita do susto, Kagome sentiu a mão do homem em suas costas, descendo para baixo da cintura.
— Devo lhe agradecer senhor, por ter me salvado. — Kagome inclinou a cabeça e fitou-o.
O homem sorriu maliciosamente.
— Foi uma sorte eu estar aqui no momento em que precisou de mim, lady Taisho.
— Fidalgo Dorchester? Meu Deus é você mesmo?
— Está feliz por me ver? — Ele sorriu novamente e acariciou-lhe os quadris.
Kagome estremeceu de repulsa. Respirou fundo, tentando recompor-se. Mas o choque do acidente e a identificação de seu salvador eram provas difíceis de ser superadas. Sua vista escureceu e, pela primeira vez na vida, ela desmaiou.
Muitas emoçoes nesse capitulo, e finalmente Inuyasha resolveu aparecer.
Obrigada Zanita Uchiha ( realmente a Kagome é muito sortuda, acho ele ciumento muito lindo *-*. continue acompanhando)
Até amanha.
