Nota: A música que toca no carro do Misha é At Last, da Etta James. Além de dar o clima propício, a letra combina com o momento dos personagens envolvidos na cena, então dar uma conferida na letra é benéfico ^_^ Link do youtube: ht*tp:/ww*w.*you*tub*e.*com/watch?v=rOKd8dsqqQU
Chapter XI
Alan cambaleou enquanto as palavras ressoavam no ar repentinamente tenso da sala. Jensen estava branco feito osso, paralisado, incapaz até de respirar. Pela cabeça do garoto, passavam milhões de coisas e ao mesmo tempo nada e ele só conseguia pensar no quanto fora estúpido. Claro que seu pai estragaria tudo.
- Ah, tanto faz. – o homem ébrio disse, fazendo um gesto que o fez perder o equilíbrio e quase se estatelar no chão. – Cadê a sua mãe, moleque? – perguntou, apoiando-se no sofá. – Eu perguntei cadê a sua mãe! – repetiu, alteando a voz, diante do silêncio atônito do filho.
- I-i-igreja. – Jensen gaguejou, a voz raspando a garganta.
- Como sempre, não fazendo nada de útil! – Alan esbravejou. – Cadê a comida?
- N-não está pronta a-ainda. – o loiro respondeu. Não era totalmente inverdade, já que o peru ainda estava assando.
Alan ouviu a resposta e por alguns instantes apenas balançou-se instavelmente, puxando o ar em grandes lufadas. Por fim fez um careta e um barulho de desaprovação.
- Eu não sei por que ainda me incomodo de voltar pra essa porcaria de casa. – falou, virando as costas. Caminhou até a porta com passos irregulares. Antes de levar a mão à maçaneta, porém, virou-se para o filho. – E você veja se não vai ficar se agarrando com esse aí e esquecer a sua irmã.
Antes que Jensen ou Sebastian pudessem esboçar alguma reação, Alan saiu, batendo a porta com força. O loiro mais novo continuou paralisado, o coração aos pulos no peito. Gradativamente, o branco do rosto foi dando lugar a um tom intenso de vermelho. Jensen precisou de muita coragem para olhar para Sebastian.
- S-Seb eu-eu-eu sinto muito. – gaguejou. Céus, que vergonha!
- Está tudo bem, Jensen. – o mais velho disse. – Não se preocupe comigo. Acredite, já passei por momentos piores com o meu pai. Eu quero saber é se você está bem.
- Eu? – Jensen perguntou. – Eu... ah... Eu estou bem. – respondeu, meio seco. – Eu devia ter imaginado isso. É só que... por um momento eu achei que pelo menos hoje seria diferente. Sabe, ele nem sempre foi assim.
Os olhos turquesa de Sebastian o olhavam com suavidade.
- Nem sempre a magia do Natal funciona, não é? – ele disse, aproximando-se e pousando uma mão no ombro do mais novo. – Mas não deixe o Grinch acabar com tudo, Jenny Boy. E se até o velho Scrooge mudou um dia... quem sabe?
Jensen sorriu e desejou que pudesse mesmo ser verdade. Mas antes que pudesse dizer alguma coisa, o cronômetro culinário disparou na cozinha, indicando que o peru estava pronto.
- Bom, vamos lá tirar o peru do forno. – disse Sebastian, no seu tom maroto. – Afinal de contas não queremos que ele fique seco, não é? Todo mundo sabe que o peru tem que estar bem molhadinho pra "descer" melhor...
Dessa vez Jensen teve que rir e balançar a cabeça.
- Ah, Sebastian, vou repetir: você não vale nada!
- Não disse nada demais, Jenny! – o mais velho se defendeu. – Não tenho culpa se essa sua cabecinha é poluída e distorce minhas inocentes palavras.
- Como se houvesse alguma coisa em você que ainda tem inocência... – Jensen caçoou, enquanto entravam na cozinha.
O cheiro agradável da comida enchia o ar cálido e trouxe um pouco mais de calma para Jensen. O loiro pegou as luvas e abriu o forno, enquanto Sebastian fazia cara de ofendido com o que ele tinha acabado de dizer.
- Eu sou puro como um anjo. – falou, mas o tom irônico estragou o efeito da afirmação.
- Só se for um anjo caído. – Jensen retrucou e os dois gargalharam.
Jensen já estava bem calmo quando terminaram de arrumar a mesa, os pratos, talheres e copos em volta dos alimentos. O incidente com o pai já estava quase esquecido quando houve um novo barulho na sala. Os olhos verdes e turquesa encontraram-se brevemente, mas logo uma voz aguda ressoou.
- Jen? – e logo depois Donna apareceu, trazendo Mackenzie pela mão.
- Oi, mãe. – o loiro cumprimentou, a voz carregada de alívio. Os olhos da mulher pousaram no loiro mais velho, que tinha se levantado da cadeira onde estivera sentado. – Ah, mãe, esse é o Sebastian, o meu amigo do trabalho.
- É um prazer, Sra. Ackles. – Sebastian se adiantou, estendendo a mão.
- Ah, o prazer é nosso, querido! – ela respondeu, afetuosa. – Eu fico muito feliz de receber um amigo do Jen aqui em casa. Ele me disse que sua família não é daqui, que você ia passar o Natal sozinho... Isso é quase um crime!
Sebastian riu de leve.
- Ah, eu me acostumei. – respondeu. – Não é nada demais. Mas claro que é bem melhor estar na companhia de pessoas agradáveis como o Jenny e a senhora. – Donna sorriu com o galanteio e ele continuou: - Sem falar em toda essa comida que deve estar maravilhosa!
- Oh, o que é isso! – Donna disse, fazendo um gesto com as mãos.
- Mãe, a gente pode comer logo? – Mackenzie interrompeu. – Eu tô faminta!
- Mack! – a mulher a repreendeu, mas Sebastian disse:
- Acho que ela tem razão, Sra. Ackles. Não queremos que a comida esfrie, queremos?
- Bom... não. – ela concordou. – Vamos lá, então. Mas primeiro vá lavar as mãos, Mack!
Fazendo um biquinho emburrado a garota saiu da cozinha. Enquanto Sebastian se sentava à mesa, Donna olhou para Jensen e mexeu em alguma coisa qualquer na pia. O garoto entendeu e aproximou-se.
- Seu pai apareceu? – ela perguntou, em voz baixa.
- Aham. – Jensen respondeu, seco. – Mas já foi embora e pelo jeito não volta hoje. Ou assim eu espero.
Donna não respondeu e Jensen não soube decifrar se o que estava na expressão dela era alívio ou tristeza. Sem saber o que fazer, ele tocou de leve o braço da mãe e abriu a boca, mas foi salvo de ter de encontrar alguma palavra pela volta de Mackenzie. O sorriso voltou a aparecer no rosto dela e Jensen sentou-se, acompanhado da mãe e da irmã. Bem, era como Sebastian dissera: não deixaria que o Grinch roubasse seu Natal. Ele simplesmente não tinha aquele direito.
J & M
- West, pelo amor de Deus, quer parar de puxar o cabelo da sua irmã? – Danielle gritou para a sala, de onde se ouvia a garotinha chorar e reclamar. – Misha, faça alguma coisa!
Misha sorriu, divertido, para irmã que corria de um lado para o outro da cozinha, acertando os últimos detalhes dos pratos da ceia. O moreno até ajudaria, mas a irmã era uma ditadora ali e, segundo ela, muito ajudava quem não atrapalhava. Elizabeth era a única que era boa o suficiente para tomar parte nos preparativos culinários.
- Eles são só crianças, Dan. – argumentou. Na verdade Misha gostava daquela algazarra toda. Sua casa era tão silenciosa na maior parte do tempo, era tudo tão impregnado de nostalgia que a energia infantil trazia um sopro novo.
- Mas não os quero se matando! – ela respondeu, irritada. – Aproveite e vista-os, que já está quase tudo pronto! Onde está o inútil do Sasha?
Era uma pergunta retórica, por isso Misha não se deu ao trabalho de responder. Aliás, era a coisa mais inteligente a se fazer. Sabia reconhecer os sinais de perigo que a irmã dava. Era melhor Sasha voltar logo com o vinho ou ia acabar com algumas marcas roxas pelo corpo. Quando chegou a sala, encontrou os dois sobrinhos engalfinhados no chão.
- Ei, ei, ei, vocês dois! – chamou, com uma autoridade moderada na voz. – Sem brigas, sem brigas. Ou então Papai Noel não traz presente hoje!
As duas crianças pararam imediatamente. West ficou em pé, ajeitando as roupas bagunçadas e Maison sentou-se no chão, os cabelos amarfanhados. West tinha cinco anos, um a mais que a irmã. Mas ela nada devia a ele em matéria de traquinagens. Até Misha tinha que reconhecer que, se fosse para cuidar deles o tempo todo, teria um temperamento irritadiço como o da irmã. A sorte era que Richard, o marido dela, era um poço de calma e equilibrava um pouco a família.
- Sua mãe mandou vocês se vestirem para a ceia. – Misha disse. – Sem reclamações! – emendou, quando um beicinho surgiu nas duas crianças. – Vamos, vamos! – disse, estendendo os braços para pegar Maison no colo.
West seguiu o tio e a irmã escada acima. Quando chegaram à porta do quarto onde estavam hospedados, Misha bateu de leve e esperou alguns momentos antes de entrar. Richard subira para se arrumar, depois de ter ajudado o cunhado a colocar a mesa na sala de jantar. O homem estava de frente ao espelho pendurado a um canto, terminando de pentear os cabelos ruivos e já um pouco ralos.
- Hora de arrumar os pestinhas? – perguntou, sorrindo para as crianças, e Misha afirmou com a cabeça. – Maison, olha só esse cabelo!
A garotinha deu um sorriso maroto e se agitou nos braços do tio, querendo descer. Misha colocou-a no chão. As roupas das crianças já estavam devidamente separadas e colocadas sobre a cama. West já estava na idade de querer fazer tudo sozinho, então recusou a ajuda para vestir as calças e o suéter azul. Maison deixou que o pai lhe vestisse o vestido rosa claro e que Misha lhe penteasse os cabelos louro-escuros depois.
- Agora sim, estão bonitos para ver o Papai Noel! – Misha brincou, pousando a escova sobre a cama.
- Eu tô bonita, mas o West não. – Maison disse, olhando feio para o irmão. – Ele é um bobão! – completou e fez língua para o menino.
West tencionou revidar, mas o pai o conteve, segurando seus ombros.
- Que coisa feia, mocinha, falando assim do seu irmão! – Misha disse para a sobrinha.
- Ultimamente eles têm brigado mais que cão e rato. – Richard explicou. – Maison está com ciúmes porque West vai para a pré-escola ano que vem.
- Não tô nada! – a menina disse, mas fez um beicinho. Misha deu um risinho divertido. Bem ele queria que seus alunos ficassem ansiosos como a sobrinha deveria estar para ir para a escola.
- Não se preocupe, Maise!– o professor disse, apertando de leve o nariz dela. – Logo, logo você será a sua vez. E, assim como o West, você vai fazer novos amiguinhos e aprender muito na escola!
Maison olhou o tio, pesando as palavras. Não pareceu ter muita certeza daquilo, mas seu semblante ficou mais suave. Richard pegou o filho no colo e falou:
- Vamos descer e ficar preparados, antes que sua mãe venha nos buscar. Você vem, Misha?
- Eu preciso me arrumar ainda, Rich. – o professor respondeu, saindo do quarto junto com o cunhado e os sobrinhos.
Em seu próprio aposento, Misha despiu-se e trocou as roupas pelas mais formais que separara para a ocasião. O colete que colocou por cima da camisa social azul cobalto era novo, presente de Jim, que tinha passado ali pela manhã. Checou mais uma vez a fantasia de Papai Noel e já estava pronto para descer quando ouviu suaves batidas à porta. Elizabeth entrou depois de alguns segundos de espera.
- Hm, lindo como sempre, irmãozinho! – ela gracejou.
- Assim como você. – Misha devolveu, sorrindo. – A que devo a honra da visita aos meus humildes aposentos?
- Estou fugindo da guerra. – ela respondeu, rindo. – Sasha ainda não chegou e Dan está prestes a liberar as ogivas nucleares.
Misha fez uma careta. Pensou em ligar para o irmão e verificar o motivo da demora, alertá-lo para o perigo que corria, mas achou melhor não. Talvez fosse ser mais divertido ver o que aconteceria. Estava com saudades daquela agitação toda de sua família. Enquanto pensava, Elizabeth foi até o pendurador onde estavam suas gravatas e escolheu uma.
- Coloque essa, - disse, vindo em sua direção – vai ficar bem melhor.
Ela mesma passou a tira de tecido em volta do pescoço do moreno e começou a trabalhar no nó.
- E então... – começou, num meio tom entre a inocência e dissimulação. – Como vai o coração?
Misha pestanejou com a pergunta inesperada.
- Batendo. – respondeu, quase sorrindo com a ironia de que naquele momento seu coração tinha se acelerado.
- Muito espertinho. – Elizabeth deu um risinho. – Mas não foi isso que eu perguntei.
Ela terminou de ajeitar o nó e Misha se afastou, a pretexto de ir se olhar no espelho. Sentiu o rubor se espalhar pelo rosto.
- N-não estou entendendo, Lizzie. – desconversou.
- Mish... – ela se achegou por trás dele, encarando seus olhos no reflexo. – Eu reparei que você mudou a foto do Matt de lugar. Reparei também você mexendo no celular com mais freqüência do que de costume e sempre sorri quando faz isso...
Misha virou o rosto para olhar diretamente a irmã. Só mesmo ela para prestar atenção àquilo. Elizabeth era a mais nova dos seus irmãos, mas era a que mais lhe compreendia. Fora a primeira a quem contara sobre sua sexualidade, mesmo antes de entendê-la direito. Quando brigava com Matt, era ela quem o ouvia e oferecia o ombro para suas lágrimas. Enfim, era sempre com ela que podia se abrir. Mas muitas vezes ela também o confrontava, devido à sua natureza curiosa.
- Quem é o cara? – ela foi direta. – Quem é esse santo que parece estar fazendo o milagre de fazer você deixar o Matt para trás?
O rosto de Misha estava em chamas. Ele tentou fugir do olhar dela, quase correndo para a janela que, mesmo embaçada, deixava ver os flocos de neve caindo pesadamente lá fora.
- Ou é uma mulher? – Elizabeth continuou, indo atrás dele. – Porque teve a Lauren... Eu gostava dela.
- Lizzie! – o professor disse, elevando um pouco a voz, porque senão ela não pararia nunca. – Calma. Não tem nenhuma mulher. E nenhum... cara, eu acho. – acrescentou, meio incerto.
- Como assim? – ela sentou-se na cama, os olhos claros e inquisidores.
- É que eu não sei direito. – Misha respondeu. – Realmente eu decidi que já era hora de deixar o Matt no passado. E tem esse... esse meu colega, professor também. A gente se dá bem, ele é uma pessoa incrível, um bom amigo. E antes do fim das aulas eu ouvi duas professoras comentando que, hm, que eu estou caidinho por ele e... ele por mim.
Elizabeth sorriu e levantou-se, quase dando pulinhos de excitação, o que fez o moreno revirar os olhos.
- Mish! – ela exclamou. – Que coisa ótima! Você precisa me contar tudo, agora! Ele é bonito? Você gosta mesmo dele? Ele já te cantou? Já tentou te beijar? Quero os detalhes, os detalhes!
Misha fez o melhor que pôde para conter a avalanche de perguntas e contar como realmente se sentia naquela situação: incerto. Queria muito acreditar que Mark tinha interesse nele e que era recíproco, mas ao mesmo tempo tinha receio de que tudo não passasse de ilusão. Como previa, a irmã mostrou-se frustrada.
- Você sempre foi lento! – ela disse, cruzando os braços. – Se não fosse por mim você nunca teria engatado aquele seu namorinho com o Jason e provavelmente estaria no armário até hoje.
- Lizzie, não é assim! – ele tentou explicar. – Mark é o primeiro amigo que faço entre os professores daquela escola. O primeiro em muito tempo, aliás. E se eu estiver entendendo tudo errado? E se isso acabar estragando a nossa amizade?
- Então não é uma amizade verdadeira. – ela replicou. – Se ele for seu amigo e tudo for um mal-entendido, ele vai compreender. Você só vai saber se arriscar. – ela pareceu concluir. Mas enquanto falava foi andando na direção da escrivaninha. – A não ser... – disse, deixando as palavras no ar.
Misha arqueou as sobrancelhas, tentando entender aonde ela queria chegar.
- A não ser...? – repetiu as palavras.
- A não ser que você esteja em dúvida. – Elizabeth disse, apanhando uma folha de papel das muitas em cima do móvel.
O ar suavemente aquecido do quarto encheu-se com o perfume marcante que desprendeu-se do papel e Misha compreendeu. Na manhã do dia em que seus hóspedes chegaram, estivera relendo os poemas e deixara-os em cima da escrivaninha. Na agitação que se seguiu, esqueceu-se por completo das cartas.
- Lizzie, você... – o professor disse, estupefato. Não era para ninguém ter lido aquilo.
- Foi sem querer, Mish. – ela se explicou, fazendo um gesto de desculpas com as mãos. – Eu precisava de um banheiro e o de hóspedes estava ocupado. O perfume das cartas me chamou a atenção e como estavam a vista eu acabei lendo, você sabe como eu sou curiosa.
- Isso não é nada, Lizzie. – Misha disse, embora uma pequena voz bem distante e fraca quisesse desmentir. – São cartinhas de algum aluno, só isso.
- Então por que você as guarda? – Elizabeth perguntou, incisiva.
- Por nenhum motivo especial. – o professor respondeu. – Eu gosto dos poemas, é só.
- Mish...
- Elizabeth, isso foi escrito por um aluno! – ele se exasperou. – O que você está sugerindo é... absurdo. – um absurdo que ele mesmo já havia considerado.
- Ok, ok. – ela pôs o papel de volta na escrivaninha. – Eu só queria cobrir todas as possibilidades. Eles são muito bonitos. – continuou, indo até o irmão e segurando sua mão. – A pessoa que escreveu tem um sentimento muito forte.
- É um adolescente, Lizzie. – Misha disse, olhando-a nos olhos. – É apenas uma paixonite boba.
- Não é porque ele é um adolescente que seja algo bobo. – ela rebateu. Algumas vezes parecia que Elizabeth nascera para contrariá-lo. – Você mesmo já teve essa idade, já se apaixonou assim, não devia desconsiderar dessa maneira.
- Não é isso. – ele tentou se explicar, mas não tinha certeza se podia. – Ah, deixa pra lá. O que foi? – perguntou, quando ela deu um risinho diferente.
- Nada. Foi só uma ideia que me passou pela cabeça. – Elizabeth respondeu. Misha a olhou de forma insistente, até ela continuar: - É só que isso bem podia ser obra do seu professorzinho gato. – o moreno arqueou as sobrancelhas. – Quer dizer, se ele for tão bobo quanto você. Afinal, ele é professor de Inglês, não é? Conhecimento literário e gosto pela coisa ele tem, escrever poemas é um passo.
Misha riu, incrédulo. Não, Mark não seria daquele tipo. E, mesmo se fosse, ele próprio comentara sobre as cartas na sala dos professores, defendendo-o dos colegas curiosos. Embora... se ele fosse o tímido o suficiente para ser autor de cartas de admiração secreta, obviamente não iria se revelar num momento como aquele. O professor balançou a cabeça e ia responder quando a porta abriu-se de repente.
- As duas comadres vão ficar de conversinha a noite inteira? – Danielle entrou, agitada. – Vamos, vamos, a comida está esfriando!
Misha e Elizabeth se entreolharam e deram um risinho. Não havia como discutir. A irmã mais velha saiu a frente e Misha começou a segui-la, mas a outra puxou-lhe a mão.
- Mish, seja descobrir quem é o admirador secreto, seja ver se esse Mark está mesmo interessado em você, faça alguma coisa. – ela disse. – Eu quero ver você feliz.
Misha olhou nos orbes azuis da irmã e deu um sorriso. Com um aceno de cabeça afirmou que seria feliz. Para ela e para si.
J & M
- Sra. Ackles, estava tudo tré bonne! – Sebastian disse, o rosto ligeiramente afogueado e um sorriso no rosto.
Donna riu, os olhos brilhando de encantamento com os elogios em francês, como havia sido durante toda a ceia. Jensen revirou os olhos e deu um soco de leve no braço do amigo. Já podia até ver a mãe dizendo despretensiosamente que ele poderia elogiar mais a comida dela, ou que a língua francesa era bonita.
- Você é muito gentil, Sebastian. – ela disse.
- Quando se é tão bem alimentado, a gentileza vem facilmente. – o rapaz gazeteou. – Mas infelizmente eu preciso deixar esse lar tão acolhedor. – ele acrescentou, olhando o relógio.
- Mas já? – Donna e Jensen perguntaram ao mesmo tempo. – Eu pensei que você fosse dormir aqui. – a mulher completou.
- Seria um prazer, - Sebastian respondeu – mas, como Papai Noel, eu tenho um longo caminho a percorrer essa noite.
Longe do olhar desconfiado que Jensen esperava, Donna colocou o melhor ar de decepção em seu rosto e lamentou que Sebastian tivesse que ir. O loiro fez uma nota mental para se lembrar de perguntar ao amigo como ser tão cativante. Enquanto sua mãe acordava Mackenzie, que já dormia com a cabeça apoiada na mesa e a levava para o quarto, ele levou Sebastian até a porta.
- Tem certeza de que não quer ficar? – perguntou, apanhando o casaco do loiro mais velho. – Já está bem tarde.
- Jenny! – ele retrucou, com um risinho. – Não é nem meia-noite ainda! A noite só está começando, cherrie!
- Você cismou com esse negócio de ficar falando francês, hein? – Jensen observou, rindo.
- Um pouco de charme europeu sempre ajuda. – ele respondeu. – Muito obrigado pelo convite, Jenny Boy. Foi uma ceia muito agradável. – acrescentou, abrindo ele mesmo a porta.
- Eu fiquei muito feliz por você ter vindo. – Jensen disse, sincero. – E desculpe de novo por... bom, meu pai.
- Não precisa se desculpar. – Sebastian disse. – Só não deixe isso estragar sua alegria.
- Não vou. – ele prometeu.
- Feliz Natal, Jenny Boy! – o loiro dos olhos turquesa disse.
- Feliz Natal, Seb! – Jensen respondeu, observando o amigo entrar no carro amarelo ovo e arrancar para sabe-se lá onde.
O loiro voltou entrou em casa e ajudou a mãe a organizar a cozinha. No final das contas, tudo tinha corrido bem. O vinho que Sebastian trouxera era bem encorpado e o tinha deixado com sono, por isso logo subiu para o quarto. Já tinha colocado o pijama quando o celular tocou.
- Ei, Jare! – atendeu, depois de olhar o número no visor.
- Feliz Natal, Jen! – seu amigo disse, do outro lado da linha.
- Pra você também, alce cabeçudo! – Jensen brincou. – Como está Austin?
- Ah, a mesma coisa de sempre. – a voz dele soou entediada. – Minhas tias solteironas pegajosas, meus tios com as mesmas piadinhas de sempre...
Jensen riu em antecipação, porque sabia que o amigo ia imitar em tom jocoso a infame piada do pavê que um de seus tios sempre fazia nas festas de família.
- Sei, mas e aquela sua prima do ano passado? – Jensen cutucou, vendo com a imaginação o rosto do amigo se avermelhar imediatamente.
- O que tem ela? – ele perguntou, depois de um breve acesso de tosse. No Natal anterior, Jared e uma prima mais distante tinham "tido um lance" e ele sempre ficava todo encabulado quando Jensen tocava no assunto.
- Eu é que pergunto! – o loiro provocou, rindo.
- Ela está ótima. – o moreno respondeu, elusivo. – Na verdade bastante bem... com a namorada dela.
Dessa vez foi Jensen que teve um acesso de tosse.
- O quê? – perguntou, depois de se recuperar.
- Isso mesmo que você ouviu. – Jared confirmou. – É o assunto da família. Os pais dela quase não vieram e ela nem está aqui.
- Puxa! – o loiro coçou a cabeça. – Eu imagino como vai ser quando você sair do armário...
- Como é que é, Jensen? – o moreno esganiçou-se do outro lado. – Eu já falei que eu não gosto da mesma fruta que você!
Jensen riu e imaginou a cara do amigo.
- Relaxa, Jay, eu tô brincando. – disse. – Falando na sua heterossexualidade, e a Kate? Você não falou mais dela.
- Ah, a gente se viu mais umas duas vezes depois da festa, mas depois ela meio que sumiu. Acho que ela foi passar as férias com os pais, na Califórnia.
- Tô vendo que isso não vai dar em nada. – Jensen observou, em tom jocoso.
- Olha só quem fala! – Jared retrucou. – Você é que não anda nem desanda com seu playboy!
- Não precisava de golpe baixo! – o loiro disse, depois de fingir um gemido de dor. – Eu já falei que vou conversar com o Mike quando ele voltar. Mas a gente não deixou de se comunicar. Hoje mesmo ele me ligou, mais cedo. E desde quando você é partidário dele?
- Eu não sou! – a resposta veio rápida. – Quer dizer, eu ainda não confio muito nele, mas confio no seu julgamento. É só que essa espera toda está fazendo até eu ficar agoniado!
- Jay, você nunca foi o rei da paciência. – Jensen desconversou. – Mas relaxa e curte a sua família aí que eu me acerto com o Mike na hora certa. Ah, você nem adivinha quem veio para a ceia aqui em casa! – mudou logo de assunto.
- Se eu não vou adivinhar é melhor você contar logo, não? – o loiro sorriu. Seu amigo não resistia a uma novidade fresquinha.
- Seu garçom favorito em toda Manhattan. O Seb.
- E o que ele foi cheirar aí? – Jensen segurou o riso ao perceber a ponta de ciúme na voz do amigo. – Não tinha nenhum negócio escuso pra tratar hoje, não?
- Acho que até tinha, porque ele não quis dormir aqui. Mas fui eu que o convidei, já que o meu melhor amigo me largou aqui pra se divertir em Austin.
- Você sabe que eu daria qualquer coisa pra não ter que vir pra cá.
- Eu sei, eu sei. Só estou te enchendo. O que você ganhou de Natal?
O garoto se jogou na cama e ficou escutando o amigo contar o que tinha ganhado. Dali a conversa se estendeu, como sempre acontecia quando falava ao telefone com Jared. Não se lembrou de ter desligado o telefone, nem viu quando caiu no sono. Só tinha a sensação de que tinha sido uma noite de Natal muito boa, melhor do que esperava.
J&M
Misha já estava com saudades antecipadas dos sobrinhos. Até tentara convencer Danielle a ficar até o Ano Novo, mas ela dissera que iriam passar a virada com a família de Richard. O professor podia ver que ela não parecia muito animada com a ideia, mas compreendia a importância das "obrigações familiares". Mesmo assim, não deixava de se sentir triste com a partida das crianças.
A ceia de Natal havia sido realmente divertida. A comida, como usual, estava deliciosa; a Sra. Novak tinha aparecido como quem não queria nada, só para trazer seus biscoitinhos e acabara ficando; Sasha escapara por pouco de ser torturado pela demora com o vinho, mas só porque de fato o acidente que congestionara as ruas do bairro tinha sido noticiado no jornal local. Mas o ponto alto tinha sido a aparição do Papai Noel. Todo ano, Misha se fantasiava e aparecia logo depois do jantar e entregava uma "prévia" do presente das crianças, fazia brincadeiras, essas coisas. Porém, o tempo passa e as crianças crescem...
Quando Misha apareceu naquela noite, West não parava de perguntar onde o tio estava, e a velha desculpa de que ele estava tomando conta do trenó do bom velhinho não convencia o garoto. Ele parecia particularmente interessado na barba falsa do professor, tentando puxá-la a todo momento. Maison ainda parecia acreditar em tudo, mas ao ver o comportamento do irmão ficou desconfiada.
- Acho que logo você vai ter que aposentar a fantasia, irmãozinho. – Elizabeth comentou, depois que as crianças tinham sido convencidas a irem dormir.
- Tudo tem um final, não é? – o moreno respondeu.
Tudo tinha um final. No entanto, era por causa dos finais que havia espaços para novos começos. Misha elucubrava sobre isso enquanto ajudava a irmã mais nova a arrumar as três malas que trouxera para apenas alguns dias, quando um barulho surdo veio do andar inferior.
Sem perder tempo, os dois irmãos desceram correndo as escadas. Os gritos de Danielle vinham da biblioteca. Chegaram ao cômodo ao mesmo tempo em que Richard e Sasha. O lugar estava uma confusão só: uma das grandes estantes de madeira de lei que ficavam encostadas às paredes estava tombada, os livros que enchiam as repartições por todo o lado. O móvel estava caído por cima da enorme escrivaninha que ficava logo em frente. Papéis, canetas e outros objetos de escritório também estavam jogados no chão. O lustre no teto parecia ter escapado do desastre, mas não a estante adjacente à que tinha tombado, que não tinha caído, mas se movera e derrubara vários tomos.
E em meio a tudo aquilo, o choro de duas crianças encontrava seu caminho até chegar aos ouvidos dos adultos. O choque paralisou a todos por agoniantes momentos. Misha podia sentir o coração martelando as costelas e a pressão nos ouvidos, olhando sem saber o que fazer. Foi Elizabeth quem primeiro se recuperou.
- West! Maisie! – ela chamou, avançando pela confusão de livros.
- T-t-tia Lizzie! – foi a voz de West que respondeu, abafada.
- Lizzie, cuidado! – Misha disse, recuperando um pouco da ação. Richard começou a avançar para o meio daquela bagunça, mas o professor o impediu. – É melhor uma pessoa só tentar tirá-los de lá, Richie. – ele explicou. – Elizabeth é menor e mais ágil.
Foram momentos tensos, enquanto Misha, Danielle, Richard e Sasha observavam Elizabeth enfiar-se debaixo da estante tombada. Danielle estava branca feito cera, o rosto molhado de lágrimas e parecia prestes a desmaiar. O marido a abraçou, mas ele mesmo não tinha muita cor no rosto. Uma onda de alívio percorreu o grupo quando a irmã Collins mais nova surgiu com West no colo.
- Mamãe! – o garotinho choramingou, estendendo os braços. Danielle se adiantou e pegou o filho.
- Mi, Sasha, vou precisar de uma mãozinha. – Elizabeth falou. – A cadeira está prendendo a perna da Maisie, mas precisamos levantar a estante para tirá-la.
Enquanto Richard e Danielle se preocupavam com West, verificando se cada pedacinho do menino estava bem, os dois Collins se colocaram um de cada lado da estante derrubada e a mais nova mergulhou novamente por baixo dela.
- No três. – Sasha disse e Misha balançou a cabeça. – Um... dois... três!
O móvel era de madeira maciça e foi preciso um bocado de força para levantá-lo. Embaixo, ouviu-se um barulho indistinto e logo Elizabeth apareceu com a sobrinha no colo. Misha e Sasha pousaram o peso da estante de volta sobre a mesa, os dois de rosto vermelho e suado. Danielle correu para a filha, que surpreendentemente estava bastante calma. Afora os olhos muito abertos, a menina não dava nenhum sinal de ter sido quase esmagada instantes antes.
- Parece que ela não se machucou. – Elizabeth disse, entregando-a para a mãe. – Mas é melhor levar ao hospital.
- Claro, claro! – Danielle disse. – Vamos logo! Richie, cadê as chaves?
- Não, não! – Misha interveio. – Eu levo vocês. – Não podia deixar a irmã ou o cunhado dirigirem naquele estado.
- Eu vou com o Sasha no carro dele. – Elizabeth disse.
De fato, Maison não tinha se machucado, nem West. A menina sofrera somente uma luxação no lugar onde a perna ficara presa e o garoto um galo na cabeça, mas sem chegar a ter uma concussão. A Sra. Novak dissera que elas tinham bons anjos da guarda, quando lhe contaram a história, depois de trazerem as crianças do hospital. Anjo da guarda ou não, fora mesmo muita sorte mesma ter agüentado o peso da estante carregada de livros, impedindo que ela caísse diretamente sobre eles.
Depois de passado o choque inicial, Danielle ficou uma fera. Misha imaginou que a rua inteira deveria ter escutado os gritos dela com as crianças. O professor não conseguia deixar de dar razão para a irmã. Tinha sido um susto e tanto. O que acontecera fora que Maison tinha desafiado o irmão a escalar a estante, desafio evidentemente aceito. O acidente não teria acontecido, porém, se a estante não estivesse infestada por cupins, como vieram a descobrir. A madeira corroída não suportou o peso extra e a movimentação do garotinho e acabou tombando.
- Foi culpa minha! – Sasha havia dito. – Eu deveria estar tomando conta deles... Eu me distraí com o jogo na TV, foi isso.
- Calma, irmãozinho. – Misha tentou consolá-lo. – Se for assim também é minha culpa, por não ter percebido os cupins. Foi um acidente.
- Diz isso pra Dan. – o moreno mais novo disse, cabisbaixo.
- Ela está nervosa, só isso. – o professor respondeu. – Você sabe como ela é.
A despeito dos esforços de Misha e de Elizabeth para contornar a situação, o clima não era dos melhores quando todos se despediram. As crianças estavam de castigo, Danielle ainda nervosa e Sasha muito constrangido. E Misha com a biblioteca destruída.
- Vai dar um trabalhão consertar tudo. – Elizabeth disse, dando uma última olhada no cômodo, já com a mala na mão.
- Nem me fale, - Misha suspirou. – Nem me fale. Vou precisar verificar se tem mais cupim pela casa e torcer para que o resultado seja negativo. Não quero nem pensar em quanto vai ficar outra estante também...
- Hm... – ela murmurou e o professor conseguiu ouvir as engrenagens trabalhando em sua cabeça, ao mesmo tempo em que os olhos brilhavam. – Porque você não faz uma nova?
Os olhos azuis do irmão mais velho encararam os da mais nova, espantados.
- É, Mish! – ela continuou, a voz subindo uma oitava com a excitação. – Lembra quando você e o Sasha ajudavam o papai? Vocês faziam cada coisa linda!
Misha piscou e foi transportado de volta para a infância, por um momento. Seu pai tinha trabalhado como marceneiro. Antes dele, seu avô e antes ainda seu bisavô. Trabalhar a madeira tinha sido o "negócio da família" Krushnic desde muito tempo. A mudança para a América quebrara aquela tradição, mas Richard fizera questão de transmitir aos filhos aquela proficiência.
- Bom, a gente fazia mesmo. – o professor sorriu. – Lembra daquela casa de bonecas que Sasha e eu fizemos pra você e pra Dan?
- Claro! – ela concordou. – Era linda! Mas a nossa ideia de brincar de bombeiros com ela foi um pouco longe demais. – acrescentou e os dois irmãos riram. – Mish, acho que é uma excelente ideia você fazer uma estante nova. Quem sabe enquanto trabalha nela, você não discerne melhor aquelas suas preocupações?
- É... – o moreno coçou o queixo, avaliando. – Pode ser. Vou pensar nessa sua ideia, Lizzie.
- Só porque você é um chato, - ela disse, virando-se e andando pelo corredor – porque você sabe que eu estou certa.
Enquanto a gargalhada da irmã ecoava pelo corredor, Misha balançou a cabeça. Elizabeth não tinha mesmo jeito.
J & M
Jensen amarrou o avental do uniforme e deu uma arrumada no cabelo antes de ir para o salão do restaurante. Ficar em casa tinha sido muito bom, mas estar de volta também era agradável. A pausa tinha feito bem para todo mundo. Sebastian estava mais agitado que nunca, cheio de sorrisinhos e piadinhas a cada segundo. Isso normalmente teria feito o Sr. Beaver ficar nervoso e fechar a cara, mas o gerente tinha até rido uma vez. Jensen achava que isso talvez também tivesse a ver com o fato de que a Sra. Ferris tinha viajado logo depois do Ano Novo.
- E você, o que fez nessas "férias", Chad? – o loiro perguntou ao colega, enquanto organizava a sua sessão das mesas. Ainda era cedo e não havia clientes.
- Ah, nada demais. – o rapaz respondeu. – Em casa, com a família, essas coisas.
Chad Michael Murray era muito tímido. Ele raramente conversava com Jensen, Sebastian, ou qualquer um dos outros funcionários. Tinha começado no B & S um mês depois de Jensen, e só agora eles trocavam algumas palavras durante o dia. Não obstante, era um cara legal.
- E até que é bonitinho! – Sebastian dissera, uma noite em que falavam sobre o colega, no vestiário. – Quer dizer, é um pouco magrelo, mas nada que um pouco de academia não dê jeito. Ah, e precisa soltar aquela língua também...
- Eu aposto que você tem mil e uma ideias do que fazer pra ajudá-lo nesse sentido. – Jensen provocou.
- Tenho mesmo! – o outro respondera, sem perder o jeito. – Aliás, talvez eu faça uma intervenção mesmo. Assim como eu fiz com você, que também parecia uma menininha do interior quando chegou aqui.
Jensen se lembrava de ter feito uma cara de indignação e respondido alguma coisa, mas tinha que admitir que era um pouco verdade. Chad lhe lembrava um pouco de si mesmo – e não era só porque ele também era loiro e tinha olhos claros, embora os dele fossem azuis e não verdes. Podia ser que uma intervenção fizesse bem a ele de verdade.
O dia passou bastante tranquilo. Lá fora continuava frio e nevando, mas não tanto quanto nas últimas semanas do ano anterior. O novo cardápio de sopas e caldos do Sr. Beaver estava fazendo sucesso e à medida que a noite foi chegando, o salão ficou lotado.
- Uau, não imaginava que ia estar assim no primeiro dia depois do recesso de fim de ano! – a voz ligeiramente aguda fez o garçom dar um pulo de susto.
- Oh, Sr. Coll... quer dizer, Misha! – Jensen disse, o coração batendo rápido demais.
- Desculpe se te assustei. – o professor disse, erguendo as mãos.
- Ah, não tem problema... – o loiro respondeu.
- Acho que vou ter que começar a ligar antes e fazer reservas. Isso aqui está lotado! – Misha continuou.
- O movimento está muito bom mesmo. – Jensen concordou, passando a língua pelos lábios, para tentar diminuir a sensação de susto que o aparecimento repentino do professor causara. – O Sr. Beaver não esperava que seria tanto já hoje, mas parece que o cardápio novo de inverno agradou bastante!
- Ah, mas a Loretta se superou dessa vez! – o moreno comentou. – As receitas estão maravilhosas. Acho que até nem me importo de esperar por uma mesa livre.
- Não, não precisa esperar. – Jensen disse de imediato. – Quer dizer, o Sr. Beaver sempre faz questão de deixar uma mesa reservada para clientes como você.
- Oh, é mesmo? – Misha sorriu. – Agora até me senti importante.
- No B & S, sempre. – Jensen brincou.
O garoto levou o professor até a mesa e o atendeu. Enquanto anotava o pedido e levava até o balcão da cozinha, pensava no quão mais fácil era fazer aquilo, agora. Mas, mesmo que ainda tivesse aquela espécie de fobia de estar no mesmo ambiente que seu professor, nem teria tempo de se preocupar com ela. Corria de um lado para o outro, anotando e trazendo pedidos, limpando mesas, trazendo as contas. Isso tudo segurando o riso das gracinhas que Sebastian murmurava sempre que passavam um pelo outro.
Quando o movimento finalmente diminuiu e o fim do expediente chegou, Jensen sentia as pernas doloridas. Mas não estava descontente, muito pelo contrário. Aquela noite tinha rendido as melhores gorjetas em muito tempo. Jogou-se num dos bancos do vestiário e soltou um longo suspiro.
- Bela noite! – falou para Sebastian, que trocava de camisa.
- Excelente! – o loiro mais velho disse. – E eu achando que íamos ficar vendo moscas, por causa dessa neve toda. Falando nisso, hoje eu posso levar você, Jen.
- Ah, não precisa, Seb! – Jensen recusou. – Sério mesmo, a neve não está tão intensa assim, eu posso ir até a estação sem problemas. – os olhos esmeralda passaram sobre Chad, enquanto o colega terminava de amarrar os sapatos, a um canto. – Porque você não leva o Chad? O carro dele quebrou semana passada, está na oficina ainda.
- Ah é? – Sebastian olhou o colega com as sobrancelhas erguidas. – Ele não comentou nada... Bom, vou fazer porque você pediu.
Jensen sorriu, vendo o amigo se aproximar do colega tímido. Talvez a intervenção de Chad começasse mais cedo do que ele imaginava. Contente com sua boa ação do dia, o loiro jogou a mochila nas costas e se preparou para enfrentar o frio lá fora, apertando mais o casaco em volta do corpo.
Quando deu de cara com o professor Collins na porta do vestiário, levou outro susto.
- Ah, desculpa. – ele disse, com um sorriso meio amarelo. – Te assustei de novo.
- Eu, ah... é... – Jensen não sabia o que dizer.
- É que eu estava te esperando. – Misha disse, parecendo um pouco sem jeito. – Quer dizer, o garoto do porsche não apareceu de novo e está nevando...
- Oh! – o loiro compreendeu. – Não, professor. – disse, erguendo as mãos. – Não precisa da carona hoje. Quer dizer, a nevasca está densa, mas o vento não está tão forte, eu... eu posso ir a pé até o metrô. – acrescentou, tentando não soar tão rude.
- Não, Jensen, por favor. – ele insistiu. – A neve está a um metro de altura lá fora, não posso deixar você ir andando. Além do mais, gostei de conversar com você daquela última vez.
Jensen sentiu uma fisgada no estômago e o rosto esquentar. Baixou os olhos e torceu as mãos, completamente perdido. Por um lado, queria muito aceitar a carona; de fato, tinha sido muito bom a última vez. Por outro, sentia que o certo seria dizer não; tinha recusado a carona de Sebastian, não tinha? Mas então uma outra voz começou a argumentar, dizendo que não havia problema em aceitar uma carona e que a recusa da oferta de Sebastian tinha sido para dar oportunidade a Chad.
Tinha que pensar rápido. O que Sebastian iria dizer se o visse aceitando a carona do professor, depois de ter declinado da dele? Atrás da porta, podia ouvir os colegas já se preparando para sair também. Ergueu os olhos e encontrou os de Misha por um instante, inquisitivos, esperando pela resposta.
- Ah, tudo bem. – disse, e ele abriu um sorriso. – Eu acho. – acrescentou, baixinho, para si mesmo.
Jensen fez o melhor que pôde para chegar rápido ao estacionamento sem parecer muito estranho aos olhos de Misha. No caminho, acenou para o patrão e o professor fez o mesmo, provavelmente porque eles já tinham se despedido antes – ainda bem. O loiro ficou um pouco mais calmo depois que estava dentro do carro, sem ter sido visto por Sebastian.
- Uh, hoje o frio está com tudo! – Misha comentou, batendo a porta.
- Está mesmo! – Jensen respondeu, sentindo o rosto arder. O ar quente dentro do veículo era um alívio. – Uma das únicas coisas de que sinto falta no Texas é do calor. Quer dizer, não do forno que é no verão, mas do inverno mais ameno.
- Mas vocês não têm neve...
- Temos sim! – o loiro defendeu o Estado natal. – Bom... nas montanhas. – disse, diante do olhar do professor.
Misha riu e deu a partida no carro. Foi inevitável não rir com ele. "Ele tem o melhor riso!", Jensen se pegou pensando e aquilo o fez sentir um puxão incômodo no estômago. Olhou para a janela, mas mal dava para ver os prédios lá fora. Os flocos caíam pesados e o ar quente embaçava os vidros.
- Então... como foi o Natal, o Ano Novo? – Misha perguntou, depois de um tempinho. Já estavam na avenida, mas iam devagar por causa do asfalto congelado.
- Ah, foi bom. – Jensen respondeu. – Poderia ter dado muito errado, mas saiu melhor do que a encomenda.
- Hm? – o professor fez, curioso. – Como assim?
- Ah, nada demais. – o loiro disfarçou. – Eu convidei o Sebastian para cear lá em casa. Foi bem divertido.
- Ele é uma figura e tanto!
- Não sei se o Sr. Beaver acha isso... – Jensen brincou.
- Ah, ele só se faz de durão, mas acho que ele adora o rapaz.
- Ou isso ou está realmente pagando alguma penitência. – os dois riram. – E o seu Natal, como foi?
- Bastante agitado, eu diria. – Misha respondeu. – Acho que meu tempo de Papai Noel está chegando ao fim. Meus sobrinhos logo, logo vão aprender a dura verdade sobre o Bom Velhinho.
- Uma dor inevitável. – Jensen disse, com uma voz triste. – E que acontece cada vez mais cedo.
- Infelizmente. – o moreno concordou. – Mas o que eu tenho certeza que não vai diminuir vai ser a capacidade deles de darem trabalho. A minha biblioteca que o diga...
Diante da expressão do aluno, Misha relatou o acidente acontecido.
- Por sorte a infestação estava só naquela estante. – disse. – Já me livrei da madeira toda e amanhã eles devem fazer um tratamento no restante dos móveis.
- E os livros? – Jensen perguntou.
- Ainda não parei para verificar todos, mas parece que não houve grandes danos. Está tudo uma bagunça!
- Ainda bem!
- Ora, parece que temos um amante de livros! – o moreno gracejou.
- Bom... – Jensen ficou vermelho. – Eu gosto muito de ler, de Literatura, essas coisas.
- Isso é muito bom, Jensen. – Misha disse, sorrindo. – Antes de entrar na faculdade de História, eu quase cursei Literatura. Meu amor pela História acabou vencendo, mas eu fiz algumas aulas extras durante o curso.
- Oh. – o loiro fez. Sentiu a admiração por ele crescer um pouco mais.
- É uma pena que Mark não dê aula para a sua turma. – o moreno emendou e foi como se um pouco do ar gelado lá de fora se esgueirasse pelos vidros. – Ele sempre reclama da falta de interesse dos alunos dele.
Jensen murmurou alguma coisa em concordância e eles ficaram em silêncio por algum tempo. Como se aquela fosse uma deixa, Misha ligou o som do carro. Um pequeno sorriso brotou nos lábios do loiro, porque da última vez tinha sido exatamente assim. A música era soul, alguma das divas do Jazz.
Sem que Jensen percebesse como, logo eles estavam conversando sobre Ella Fitzgerald, Etta James, Aretha Franklin, Norah Jones. Mais uma vez, os quilômetros até sua casa pareceram ficar para trás rápido demais e eles estavam em Flatbush.
- Sabe, Jensen, você me surpreende a cada dia, sabia? – Misha disse, quando o carro parou.
- Bom, eu espero que de uma maneira boa. – o garoto disse, meio encabulado.
- Em absoluto. – o professor sorriu. – Você é um garoto muito inteligente. É dedicado, pelo que eu vejo nas minhas aulas e no restaurante. E, eu não sei, você tem alguma coisa diferente dos outros garotos da sua idade. Não sei dizer o que é.
Jensen ficou em silêncio, sentindo o calor aumentar e uma vontade imensa de tirar o casaco. Sabia que seu rosto estava ficando vermelho, à medida que a respiração se acelerava. Não entendia o porquê de ele estar falando aquelas coisas.
- Ah, eu sinto muito! Não queria te deixar encabulado. – Misha disse, depois do longo silêncio do loiro. – É só que como professor, eu me sinto responsável por meus alunos, sabe? Meu desejo é que todos vocês se deem bem na vida, mas eu sei que nem todos conseguirão. E em alguns eu consigo ver algo diferente, como eu vejo em você. Só queria que você soubesse disso.
- C-certo... – Jensen balbuciou. – Eu, eu... obrigado, Sr. Collins.
Misha franziu a testa ao ouvir o garoto chama-lo pelo sobrenome.
- Jensen, o que eu disse foi como professor, mas como... amigo, se eu posso usar essa palavra, também. Você entende isso, não?
- Aham. – o loiro balançou a cabeça. – Foi só o costume.
Dessa vez o professor sorriu. Jensen engoliu em seco e se preparou para descer do carro. Não queria mais ficar ali, sua cabeça estava girando. Apanhou a mochila que estava entre suas pernas e tinha acabado de levar a mão na maçaneta, quando viu o movimento na varanda da casa. A luz estava acesa e não foi difícil reconhecer seu pai, principalmente pelo cambalear irregular.
- Jensen? – Misha chamou, vendo o loiro congelar de repente. – Você está bem?
- Eu, hm... – o garoto teve que fazer uma pausa, tentando se acalmar. – Eu posso esperar aqui mais um pouco?
- Claro, mas... eu posso perguntar por quê?
Jensen relanceou os olhos para o pai, que tentava abrir a porta de casa, e depois voltou-os para o professor. Passou a língua pelos lábios, nervoso.
- É o meu pai. – ele apontou com a cabeça. – Se ele me vir descendo de um carro a essa hora, pode ser que fale alguma coisa.
Misha encarou Alan Ackles, que finalmente conseguira destrancar a porta, com o cenho fechado.
- Jensen, porque você tem medo do seu pai? – perguntou. – Ele já foi violento com você, com sua mãe?
- N-não. – ele respondeu. – Pelo menos até hoje. É que desde que ele perdeu o emprego, ele tem bebido muito. Geralmente ele só chega em casa e vai direto dormir, mas algumas vezes ele fica meio explosivo. Reclama das coisas, resmunga...
- Ele já fez alguma ameaça? – Misha perguntou, a voz transparecendo a preocupação.
- Não. Não exatamente.
- Como "não exatamente"? – ele inquiriu.
- Bom, acho que o senhor sabe do meu irmão, Joshua, que morreu em um acidente. – Misha aquiesceu. – Ele e meu pai eram bem próximos. Quando nos mudamos para cá e eu me assumi, meu pai mudou comigo. Não que ele tenha me rejeitado, mas ele se distanciou mais. E agora, com esse problema da bebida, ele sempre resmunga coisas sobre como preferia que eu tivesse morrido no lugar de Josh, que eu tenho que tomar vergonha, dar exemplo para minha irmã...
Jensen parou de falar, sentindo a garganta apertar-se. Além de Jared, ninguém mais sabia daquelas coisas. Na maior parte do tempo, ele tentava ignorar o que o pai dizia. Tentava justificar o comportamento dele com a crise pela qual passavam. Mas as palavras estavam sempre lá. A lembrança do olhar de desprezo que Alan lhe dirigia voltava à memória vez ou outra.
- Jensen... – Misha disse, estendendo a mão para tocar o ombro do garoto. – Eu sinto muito. Às vezes as pessoas não conseguem lidar com os problemas de uma forma racional. Mas se você se sentir ameaçado pelo seu pai, de qualquer maneira, não pode ficar quieto.
O loiro encarou os olhos azuis do mais velho. Eles eram firmes, lhe transmitiam uma sensação boa, de segurança. Balançou a cabeça para indicar que tinha compreendido.
- E qualquer coisa, você sabe que pode conversar comigo, não sabe? – outro balançar de cabeça. Misha abriu o porta-luvas e apanhou um bloquinho de papel, tirando logo em seguida uma caneta do bolso. – Esse é o meu número. Pode me ligar a qualquer hora, se precisar, ok?
Jensen pegou o pedaço de papel com dedos trêmulos.
- Obrigado... – murmurou. – Misha.
- Não é nada. – ele disse, abrindo aquele sorriso que aquecia o ambiente e voltando a tocar o mais novo no ombro. – Lembre-se sempre do que eu lhe disse: você é especial.
Jensen esboçou um sorriso, acenou a cabeça novamente e abriu a porta do carro. O ar frio lhe envolveu, mas por dentro ele se sentia quente, quase febril. Abriu a porta devagar e encostou-se nela ao entrar. Conseguiu ouvir o barulho dos pneus do carro de Misha deslizando devagar pelo asfalto. Colocou a mão no bolso do casaco e sentiu o papel com os números rabiscados. O professor tinha dito que ele era especial. E aquele pedaço de papel era como se fosse uma prova. Era como se fosse um tesouro.
J & M
As duas semanas seguintes passaram voando. Misha se assustou quando percebeu que faltavam só mais alguns dias para o retorno das aulas. Na verdade, só tinha se dado conta disso quando recebeu o recado da secretária da escola, avisando da reunião de planejamento pedagógico. Tinha ficado envolvido demais na recuperação da biblioteca.
Surpreendentemente, ele estava bastante animado com a ideia de fazer ele mesmo a estante. Passara dias desenhando como o novo móvel seria. Queria fazer algo um pouco diferente das que seu pai tinha construído, mas que combinasse com as antigas. Entremeio os desenhos, ele também estava ocupado separando os livros que precisariam ser reformados dos que não tinham mais jeito e dos que tinham escapado ilesos. Reorganizá-los também não seria nada fácil.
Quase todos os dias ele ia jantar no B & S. Gostava de jantar e depois ficar rabiscando projetos para a estante, ou conversando com Jim. Também gostava de levar Jensen para casa depois do expediente. Por alguma razão, estava se apegando ao garoto. Talvez fossem seus gostos parecidos, talvez fosse o jeito como eles conseguiam conversar tão facilmente.
Desde aquela noite, Jensen não tinha mencionado o pai, mas Misha às vezes se pegava preocupado com aquilo. Até tinha considerado levar a questão à orientadora da escola, mas resolveu esperar e observar mais um pouco. Talvez ele mesmo pudesse resolver tudo.
Naquela quinta feira, o professor estava terminando de arrumar as madeiras que tinha comprado na garagem – que tinha servido como oficina para seu pai durante muitos anos – quando a ideia lhe veio. Sim, parecia perfeita. Poderia ajudar Jensen de duas maneiras diferentes.
Mais tarde, depois de ter jantado, trocado ideias com seu amigo, Misha esperou por Jensen, muito animado. Já nem estava nevando mais, mas mesmo assim ele continuava levando o rapaz para casa sempre que aparecia no restaurante. Esperou até chegarem ao carro para falar.
- Jensen, eu tenho uma proposta para lhe fazer. – disse, abrindo um sorriso.
- Proposta? – ele perguntou, os olhos verdes surpresos.
Misha abriu a boca para dizer o que era, mas uma batida abafada atraiu a atenção dos dois homens. Dois faróis brilharam na entrada do estacionamento, forçando-os a cobrirem os olhos até que o carro se aproximasse e parasse. Depois de alguns segundos, o professor reconheceu o porsche preto.
A porta abriu-se e Michael Rosenbaum desceu, vestindo um elegante terno cinza chumbo por cima de uma camisa rosa bebê e muito sorridente.
- Jen! – a voz ecoou pelo estacionamento vazio, enquanto ele vencia a distância entre eles. – Surpresa!
Nota da Anarco: Uau! Esse capítulo rendeu, hein? Finalmente uma aproximação real entre Misha e Jensen. Muito lindo o nosso moreno preferido preocupado com o bem estar do Jens. Gosto cada vez mais do Seb e desconfio que o pobre Chad vai sofrer barbaridades na mão dele. rsrs E que final foi esse? Misha querendo fazer uma proposta (hm...), mas é interrompido pela chegada do Mike delicinha. Super climão pro Jen, entre o amor platônico e o quase namorado. Hahaha Beijos! :*
Nota do CassBoy:Demorou, mas saiu! Era pra ter sido postado perto da época do Natal, mas as festas, alguns compromissos sociais e a falta de vontade de escrever atrasaram tudo. Mas pelo menos eu acho que compensou, né? O maior capítulo até agora, acontecimentos importantes... e nossos dois lindos finalmente se aproximando mais! Mas e agora, com o Mike chegando na área? Jensinho está entre a cruz e a espada, coitado! Leitorinhos queridos, perdão pela demora, obrigado pela paciência! Não desistam de mim, rsrsrs. CassKisses!
