Capítulo 10 – O Fim De Uma Era
"Este é o último adeus
Estes sonhos quebrados foram resignados
Estamos aqui para o nosso último boa noite
Estes sonhos quebrados foram resignados"
The Last Goodbye – Lacuna Coil
Demorou algumas frações de segundo para que Hermione se desse conta de que era a última música do show – o último show. A última música da turnê.
A última música do Paradise Lust com Harry Potter.
Ela não pôde conter um suspiro.
- Bem... Essa é a última música. Espero que tenham curtido essa noite tanto quanto nós. Muito obrigada por terem vindo. E... Até... um dia. – A balbúrdia que a multidão fez em seguida abafou os protestos de sua mente, que lhe diziam que suas palavras eram, ao mesmo tempo, falsas e verdadeiras. Falsas porque os membros da banda não desfrutavam tanto do concerto, visto o que teriam de fazer em seguida, e verdadeiras porque ninguém não sabia quando voltariam aos palcos.
Hermione abriu um pequeno sorriso amarelo dois segundos antes que os instrumentos começassem a tocar a canção.
O ritmo cardíaco acelerava progressivamente a cada acorde tocado. Contudo, conseguiu se controlar quando levou o microfone aos lábios e começou a pronunciar os versos.
Como era de praxe, cantar lhe acalmou, mesmo que não totalmente. Conseguiu tirar os pensamentos sombrios do primeiro plano de seu cérebro, deixando-os sussurrando bem baixo. Mas eles ganharam forças quando, no meio da música, foi a vez do solo de guitarra e, inevitavelmente, seus olhos bateram em Harry.
Pela enésima vez na vida, fascinou-se pela paixão que ele tinha pela música, demonstrando-a ao tocar. A iluminação sobre ele destacava sua figura. Os olhos fechados, as mãos percorrendo o instrumento totalmente conscientes do que faziam. Não era um solo rápido, mas com certeza era um dos mais bonitos e, pior, um de seus preferidos.
Algo perfurou seu coração. A dúvida, que durante o último mês apareceu vez ou outra, retornou com força total. Tinha mesmo que fazer aquilo? Tinha? Tinha que tirá-lo da criação – sua criação – da qual ele tanto se orgulhava?
No meio do solo, o olhar dele cruzou o seu, e ela andou em sua direção, forçando um leve sorriso. Sem se conter e embalada pelas vozes mentais, Hermione passou o braço direito pelos ombros masculinos, inclinou seu corpo e apoiando sua cabeça na dele.
Fechou os olhos com força. Naquele exato momento, soube que não dava mais para voltar atrás, não havia outra opção. E, por isso, naquele abraço ela tentou transmitir o máximo do antigo carinho que eles compartilharam um dia, mesmo que aquele homem não fosse mais o mesmo. Porque, ainda sim, continuava a ser seu melhor amigo. Sempre seria seu melhor amigo.
Será que um dia você vai me perdoar pelo que estou prestes a fazer, Harry?
Mas, nos versos seguintes, ela conseguiu abstrair-se mais uma vez. Até que outra ponte a fez perceber que faltava apenas mais uma estrofe e a repetição do refrão para que a música acabasse... A última.
Dessa vez, a perturbação interna alcançou um nível mais duro. Não apenas seu coração batia dolorosa e aceleradamente, como suas mãos tremiam, o ar vez ou outra ameaçava escapar dos pulmões, os olhos ardiam, alertando-a para lágrimas que se encontravam desesperadas para sair. Nem iria se surpreender se a expressão de seu rosto explicitasse algo, mesmo que ninguém ali fosse de fato capaz de compreender algo – porque todos achavam que tudo estava bem.
Precisava se controlar, não poderia enlouquecer. Tomara sua decisão, agora era a hora de arcar com as consequências.
Sentindo as pernas fraquejarem, Hermione segurou o microfone com a mão direita o mais forte que podia, enquanto a esquerda mantinha-a de pé, apoiada no pedestal do microfone. Com a ânsia de choro aumentando cada vez mais, ela apertou os olhos e recomeçou a cantar.
Cantou porque era o que a fazia se esquecer dos problemas. Cantou como uma tentativa para afrouxar o nó no peito. Cantou como nunca em toda a carreira. Cantou porque era o que um show como aquele merecia.
Mas não pôde mais pronunciar mais uma palavra sequer pois os instrumentos pararam, anunciando o fim do concerto.
A multidão irrompeu em aplausos ensurdecedores. Ela esticou a coluna, ainda segurando o pedestal, deixando escapar um longo suspiro. Forçou um sorriso, dizendo a si mesma que era o último que fingia, o último daquela hipocrisia.
Como aquela noite estava cheia de últimos...
Na hora do agradecimento, ela soltou sua mão da de Harry no ar, exatamente como ele fez consigo no ano anterior, logo nos primeiros momentos que começou a perceber sua mudança. Em seguida, saiu do palco, enquanto o resto ainda interagia com os fãs, tampouco ligando para que os outros pensariam.
Chegando ao camarim, o silêncio contrastante atingiu-lhe brutalmente. Para piorar, a equipe a encaravam com intensidade, as expressões tensas e nervosas. Concluiu que a sua não estava muito diferente.
Nick prontamente ficou de pé, aparentando preocupação.
- Vou perguntar de novo: tem certeza de que quer fazer isso? – perguntou, aproximando-se.
- E responderei do mesmo jeito: já não dá mais para voltar um passo. – disse, desviando-se dele. – Eu só preciso sentar.
- Tudo bem.
Sentou no sofá mais próximo, fechou os olhos e abaixou a cabeça. Inspirou e expirou inúmeras vezes num ritual para se acalmar. Aquele momento pedia o máximo de sanidade possível e não poderia descontrolar-se na hora errada.
Ergueu a cabeça no exato momento em que ouviu sons do outro lado da porta. Forçou seu rosto a expressar tranquilidade, algo que vinha treinando desde os Estados Unidos.
Ginny foi a primeira pessoa a entrar. Ela abriu um sorriso amarelado ao ver os companheiros e depois se acomodou, murmurando sem som "Eles estão vindo".
O irmão dela veio em seguida, aparentando estar bem mais animado e tranquilo. Hermione não soube dizer se era verdade ou apenas fingimento.
- Wow, que ótimo! Fechamos a turnê com chave de ouro. Eu só gostaria que tivesse sido na Inglaterra, não na Holanda... Enfim, é perto. – dizia sem parar. – Aliás, quando é que esse DVD vai sair, hein? Aposto que vai sumir das prateleiras das lojas assim – e estalou os dedos.
- Relaxa, Weasley, acabamos de filmar o negócio. – Draco apareceu por trás. Ultrapassou o ruivo e pôs seu instrumento sobre uma das caixas localizadas no canto. – Preciso de bebida.
- É o quê? Um porre de comemoração? – A voz provocou um calafrio na espinha de Hermione. Ela sentiu algumas pessoas ao redor dela se retesarem, mas elas pareciam normais, tranquilas, como se nada estivesse prestes a acontecer.
Harry entrou no local carregando sua guitarra pela parte superior. Guardou-a e acomodou-se ao lado do baixista. Pelo meio sorriso nos lábios, parecia bastante satisfeito com o resultado do show – o que fez algo dentro de Hermione despencar desconfortavelmente.
- É preciso após um ano de trabalho duro. – o baixista ergueu uma lata de cerveja num brinde. Parecia bem tranquilo consigo mesmo. Mas Draco Malfoy era o mestre da atuação.
Os minutos passaram lentamente. As pessoas tentavam agir normalmente, mas era possível ver o quão forçado estavam sendo. Se Hermione conseguia perceber isso, imagine Harry... Ainda mais quando todos deveriam estar felizes com o fim da turnê e com o espetáculo que tinham acabado de dar.
Ele indagou à amiga num momento em a equipe estava mais dispersa. Ron, por exemplo, tinha saído da sala, assim como Dean e Anna.
- O que está acontecendo aqui?
O coração de Hermione deu um salto. Era a hora.
- Preciso falar com você, Harry. – disse sem rodeios, exigindo de cada canto ínfimo de seu corpo o máximo de coragem possível.
- Ok. – ele franziu o cenho, intrigado.
- Isso não está mais dando certo. Nós... e você...
Ela respirou profundamente pela enésima vez naquele dia, repassando tudo o discurso ensaiado ao longo dos dois últimos dias.
- O último show podem ter acabado, mas a turnê ainda não teve seu fechamento. – começou com a voz firme. – E é o que acontece agora.
"Lembro que quando começamos essa banda, estabelecemos que nossa música viria de dentro de nós, nossos corações e, acima de tudo, da nossa amizade. Infelizmente, essa amizade não é mais a mesma. Ninguém aqui mais vê as características que te elegeram como nosso líder, e sim outras que jamais pensei em ver no meu melhor amigo. Nos tornamos pessoas que mal se falaram durante um ano e, quando falamos, foi apenas para entrar em conflito. Sua atitude e comportamento não condizem mais com a banda.
"É óbvio que algo aconteceu contigo, e você resolveu guardar tudo para você, ignorando nossa existência. Seja lá o que for começou a te afetar, e você começou a descontar em nós, o que acabou por nos afetar também.
"Acontece que o Paradise não é algo que o resto de nós cinco estamos dispostos a desistir, principalmente por causa de uma pessoa, mesmo que essa pessoa seja aquela que nos uniu. Sua criatividade e seus valores não combinam mais com os nossos. Essa decisão não é algo que nos deixa orgulhosos, mas você não nos deu outra opção. Chegamos a um nível em que não dá mais para resolver a situação conversando e, por isso, estamos certos de que não podemos mais continuar com você.
Harry ficou em silêncio durante alguns segundos, provavelmente processando o que foi dito. Hermione se retesou, de repente sentindo apreensão pela resposta dele.
- Então... é isso que vocês decidiram? – ele perguntou, a voz calma e um tanto cautelosa.
Hermione fitou o rosto dele. Não conseguiu explicitar o que estava expresso ali, e isso foi apenas mais uma prova por que a amizade particular deles não poderia mais continuar.
- Todos vocês? – o olhar dele varreu os rostos dos presentes. Alguns balançaram a cabeça. – E o que posso fazer se é a decisão conjunta? – ele suspirou. – Mesmo que seja eu... Mesmo que... Acho que, no fundo, você tem razão. Teria feito o mesmo se fosse qualquer outro aqui. Só não queria que as coisas tivessem atingido tal nível.
- Nenhum de nós queria. – Hermione falou. – E, bem... Você deveria ter pensado nisso.
Rapidamente os olhos dele voltaram-se para seu rosto. Harry a fitava como se fosse a primeira vez que o via. Num raio, uma faísca de raiva surgiu, revolvendo seus mares verdes, preparando-os para uma tempestade – uma tempestade da qual Hermione não queria fazer parte.
Então, tão rápido quanto veio, tudo sumiu. O guitarrista ficou de pé e, sem olhar para trás, saiu da sala.
O silêncio que se seguiu foi pior do que o que Hermione encontrou ao sair do palco.
Por sua vez, ela, com os olhos ainda grudados na porta, não conseguia interpretar o que acontecia dentro de seu corpo. Toda a maré de sentimentos fortes e intensos que a incomodaram durante a última música parecia ter evaporado. Os olhos secos tampouco demonstravam ter sofrido pressão de grossas lágrimas minutos atrás, seu coração não apertava no peito cada vez que batia e a dor parecia ter sido anestesiada. Um torpor bizarro.
Para não dizer que não sentia nada, apenas o pesar controlava suas emoções, e isso porque era apenas um reflexo do que era visto nos rostos dos outros. Era apenas um sinal de respeito, nada mais.
E por quê? A raiva explodiu dentro dela. Por que se encontrava daquele jeito? Ela tinha acabado de tirar Harry da banda, ou melhor, tirado-o de sua vida. E ele foi, por mais de uma década, seu melhor amigo. Melhor amigo, não um qualquer.
Definitivamente havia algo errado com aquela tranquilidade. O quê?, a raiva perguntava.
Seu olhar passeou pelos rostos dos companheiros, uma voz dizendo a si mesma que era aquele tipo de mágoa que deveria estar sentindo. E simplesmente não conseguia – e por isso mesmo não conseguia se ver como parte daquele grupo, do mesmo jeito como ele deve ter se visto, um estranho numa terra estranha.
Um tanto alheia aos seus movimentos, apenas parte de si percebeu que seus pés a fizeram levantar e ir em direção à porta. Ao cruzá-la, algo lhe atingiu. Era uma espécie de dor, mas não a dor que ela deveria sentir, que queria sentir, o que fez a raiva permanecer acesa como uma leve chama.
Começou a andar pelo corredor sem rumo, ainda bastante imersa em suas divagações. Encontrava-se a alguns passos da sala onde estava quando um estrondo a fez parar de chofre e virar para trás.
Ron vinha andando, parecendo um leão correndo para pegar sua presa, perigoso e letal.
- O que foi que você fez? – gritou parando em frente a ela.
Atrás da porta que ele quase pôs ao chão com a voracidade com a qual abrira, o resto da equipe da banda começou ir para o corredor.
Ainda naquele torpor estranho, Hermione não se sentiu tão afetada pelo ruivo. A raiva, por sua vez, crescia de um jeito um tanto independente dentro dela, num canto obscuro.
- Fiz apenas o que a banda escolheu por fazer. – respondeu um tanto fria. – E você sabia disso.
- Sabia, mas não concordava. E também não esperava que fosse por o plano em prática. – ele disse entre dentes, tentando controlar a ira.
- Fala como se eu fosse a culpada da saída dele. – Hermione cruzou os braços, começando a se sentir afetada pela própria raiva.
- Mas foi você quem deu a ideia! – o ruivo exclamou, inclinando-se levemente para frente.
Mais uma dose liberada dentro da vocalista.
- E acha que só por isso acha que eu realmente quis expulsá-lo? – devolveu num tom mais alto. – Eu já não te disse isso? Já não deixei os motivos claros para você semanas atrás? Não vou mais discutir! Já foi feito! E não há nada que você possa fazer. – e girou nos calcanhares, recomeçando a caminhar.
- Acha que é a dona da verdade, Hermione? Acha que é a única a dar algum tipo de opinião? – ele alfinetou andando atrás dela.
Era o mesmo discurso de antes. Foi o suficiente para desbloquear a raiva completamente e fazê-la invadir cada fibra do corpo da cantora. Como Ron era teimoso! Pior que uma criança.
E aí ela percebeu algo – ou a irritação foi a responsável por isso.
Parou e virou-se para trás de novo, pondo as mãos na cintura.
- Sabe o que é isso? É você tentando mostrar ao mundo que tem uma opinião! E sabe o que eu acho que é o motivo? É que eu e Harry sempre fomos os aclamados! Claro que a mídia nos via como o Trio de Ouro do Paradise Lust, mas Harry e eu tivemos um destaque a mais, nós éramos os chamados para as entrevistas porque eu era a cantora e ele, o guitarrista. Além disso, ele também era o compositor. E você, você se sentia excluído, isolado. É apenas um ataque infame de inveja! Mas posso te dizer uma coisa, Ronald? É uma atitude extremamente egoísta. Você não é a banda, e mesmo tendo sido contra a decisão final, nada mudaria! Porque a banda escolheu. Ponha isso logo na sua cabeça: a banda escolheu, não apenas eu!
Os olhos de Ron se arregalaram de choque durante algumas frações de segundo antes que estivesse gritando de novo.
- É isso o que você acha? E ainda tem a capacidade de falar sobre egoísmo! É você quem está sendo a egoísta aqui, achando que só porque ocupou o lugar de líder que é a dona do mundo! Mas espere só até todos verem quem você realmente é. Aí eu quero ver se ainda vai ter alguma coisa.
- Incrível como você me põe como a vilã aqui! Como se eu tivesse sido a culpada do péssimo clima da banda, como se eu tivesse começado a agir como uma forasteira, como se eu tivesse me afastado dos meus amigos, ignorado-os, desprezado-os. Aliás, quem era Harry Potter mesmo? – disse, carregando as últimas palavras de sarcasmo.
- E era por isso mesmo que você deveria tê-lo mantido aqui! Porque era justamente a hora em que ele mais precisava de nós! – Ron parou e inspirou profundamente, procurando calma. Ao voltar a falar, sua voz estava com um volume mais baixo; seus olhos fixaram-se no rosto dela. – E você... Você nem ao menos viu um mísero pedaço da verdade. Nenhuma faísca. E ainda teve a coragem de expulsar Harry...
A última dose de raiva foi descarregada nas veias de Hermione, fazendo seu sangue borbulhar.
- Se você se importa tanto assim como o seu amiguinho, por que não vai atrás dele? Duvido que ele vá te contar por que diabos resolveu se rebelar contra os amigos!
- Quer saber? Eu vou mesmo! Porque não aguento mais essa sua hipocrisia!
- Ótimo! Você sabe onde fica a porta! – urrou, esticando o braço para indicar a saída.
Ron lançou-lhe mais um olhar fulminante antes de sair andando a passos largos.
Assim que as íris castanhas de Hermione recaíram sobre os rostos dos outros, viu o que tinha acabado de acontecer. O Paradise não perdera apenas seu compositor, como também seu baterista.
Um banho de água fria apagou a ira, não deixando qualquer resquício. Um suspiro escapou-lhe, e a dor novamente marcou sua presença. Mesmo assim, ainda não era a que ansiava sentir.
Começou a afastar-se de novo. Caminhou pelo corredor no mesmo sentido de Ron, porém parou ao encontrar uma porta que levava aos fundos da casa de shows. Abriu-a e logo desabou sentada numas caixas velhas empilhadas. Com mais um suspiro, enterrou o rosto nas mãos e fechou os olhos com força, deixando tudo o que aconteceu nos últimos minutos ser totalmente processado.
Nem soube quanto tempo ficou ali, não importava. Até que houve um momento em que novas mãos, maiores e quentes, envolveram as suas e as afastou. Mas não ergueu a cabeça, e uma das mãos foi parar em seu rosto, puxando-o para cima. Encontrou olhos castanhos acolhedores, repletos de preocupação e compreensão.
Sentiu uma pancada no peito. O ar escapou dos pulmões.
- Nick... – murmurou, a voz quase morrendo.
- Shhh. – ele fez, pondo seu indicador esquerdo nos lábios dela. – Você não precisa se explicar.
- Mas eles... Eles... – ela engoliu em seco, a gravidade do que tinha acontecido ainda afetando-a. – Eu perdi meus melhores amigos de uma vez só. – disse trêmula. – E eu... Eu nem sei direito o que estou sentindo. Quer dizer, eu deveria estar triste, não é? Deveria estar magoada, não? Mas não é isso que sinto... Eu não sei...
O noivo acariciava sua face.
- Você está perturbada com o que aconteceu. Já é alguma coisa, se é que está preocupada.
- Não! – ela exclamou bruscamente, o olhar desviando-se durante uns instantes do loiro. – Não é assim que eu deveria me sentir! Eles são... eram... meus melhores... Por quê? Por que estou assim?
- Você está confusa, é isso. Não está pensando direito. E é perfeitamente compreensível. Não se culpe, minha linda. – Nick dizia com a voz suave. Continuava a acariciar-lhe, e sua outra mão estava entrelaçada na dela.
Ao contemplá-lo de novo, Hermione se deu conta de que ele estava ali para ajudá-la, confortá-la. Permitiu que ele a abraçasse com força e depositou sua cabeça num dos ombros dele. Seu cheiro começou a fazê-la sentir-se um tantinho melhor.
- Aposto que você vai querer adiar, não é? – A pergunta a fez afastar-se ligeiramente dele.
- O quê? – franziu a sobrancelha.
O homem abriu um pequeno sorriso.
- O casamento, meu anjo. Acho melhor adiarmos, não é? Afinal, como acabou de dizer, você perdeu seus melhores amigos e planejava colocá-los como seus padrinhos, não? – ele pegou uma das mechas do cabelo dela e enrolou-o o dedo.
- Nem tinha pensado sobre isso. Mas não posso fazer isso com você, Nick. Além disso, do jeito que minha vida está, é a única coisa que me fará feliz de verdade.
- Não fará se a lembrança do que aconteceu hoje estiver presente. E não suportaria vê-la mal por isso. Posso esperar, Hermione, claro que posso. Por você, eu posso. – ele beijou-a na testa. – Então, o que me diz? Pelo menos pense antes de mais nada.
Abriu um leve sorriso. Como poderia pensar que o mundo estava um caos quando um noivo tão maravilhoso estava logo a sua frente?
- Pensarei. Agora, se você não se importar... Eu queria ficar um tempo sozinha, sabe, para absorver isso melhor.
- Tudo bem. – o empresário pegou sua mão, beijou seu anel de noivado e ficou de pé. – Esperarei aqui para voltarmos para o hotel.
- Não precisa. Eu preciso... andar por aí. Nos encontrarmos no hotel, é melhor.
E foi o que ela fez. Depois de Nick ir embora, levantou-se e saiu da casa de shows. O hotel não era muito longe dali, e nas redondezas também havia um parque. Foi para lá e ficou andando sem rumo com o lado passivo ligado. Deixava seus pensamentos fluírem como bem entendessem, sem seu consentimento, e seus pés a levassem em qualquer direção.
A noite, mesmo fria, era agradável, tranquila, o que contrastava com o que tinha acabado de acontecer. Isso apenas reforçava o torpor de Hermione, que ainda continuava, e ela nem sabia o motivo de sua presença. Ele havia envolvido-a num bolha de conforto, confundido suas emoções; um mecanismo criado por seu corpo para que não fosse atingida de fato pelo colapso total.
Resolveu voltar quando a temperatura caiu ainda mais. Com os braços abraçando o corpo, Hermione andou para o hotel. Ao ver sua fachada, reduziu o passo e mudou um pouco a trajetória, de modo que alguns arbustos que circundavam o lugar pudessem escondê-la.
Naquele momento, um homem que vinha pelo caminho oposto ao dela entrou na marquise iluminada do hotel, revelando cabelos ruivos. Ron continuava com o semblante fechado de antes. Sua cabeça virou ligeiramente para a esquerda, lançando um olhar gélido ao passar ao lado de uma figura alta de cabelos negros, que carregava bagagem em direção a um táxi parado bem na frente. Harry, por sua vez, ignorou totalmente o outro, continuou andando e jogou os objetos na mala do carro. Parecia um tanto irritado ao contornar o automóvel, o que deu Hermione a chance de vê-lo sob a luz do hotel. Segundos depois, partia dali também.
A cena não simbolizava apenas um rompimento na banda. Era o fim do Trio de Ouro. Era o fim de uma era.
N/A: Então, não foi só o Harry que saiu né :P Mas é claro que isso tinha que acontecer, afinal, a fic precisa de ação. Vejam pelo lado bom, a primeira parte finalmente acabou! Agora vem a segunda, que, acreditem, é muuuuito melhor do que essa. Ela começa oficialmente com o cap 11. Mal posso esperar! =D Espero que vocês também não. Beijões :)
