A Substituta

Autora: Érika

"Saint Seiya" é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.

Capítulo 5 - Parte 1



Em Asgard, Hilda acabara de salvar os guerreiros-deuses do khoma, embora um deles ainda se encontrasse em estado delicado. Ademais, ela também resgatara uma pessoa que não era propriamente seu servo, no entanto, era devoto de Odin e auxiliara Athena anteriormente. Dir-se-ia que ele havia morrido naquela batalha, todavia, enquanto Hilda rastreava os cosmos de seus guerreiros para tentar trazê-los de volta, terminou percebendo a presença de outra energia, a qual recordava muito vagamente e, devido a isto, pôde ajudá-lo. Neste momento, quase todos estavam reunidos próximo à estátua de Odin, já que fora ali onde Hilda buscara refúgio e força para cumprir o seu dever. Contudo, quase poder-se-ia dizer que não havia sequer uma alma naquele local, posto que todos estavam calados, não se escutava nem mesmo a mais leve respiração, somente um silêncio sepulcral pairava naquele lugar, ainda que fosse um paradoxo tamanha quietude em um espaço no qual nove pessoas achavam-se agrupadas.

Entretanto, era noite, alguns flocos de neve caíam sobre aquelas pessoas, mas a despeito da temperatura extremamente baixa, nenhum deles parecia importar-se, insensíveis a qualquer sensação exterior. Porém, internamente, cada um experimentava uma certa comoção, oriunda de suas dúvidas e questionamentos. Além disso, à medida em que a escuridão intensificava-se, eles tinham a impressão de que eram os únicos naquele mundo, antes deles não houvera ninguém e depois nunca mais haveria; somente o vento uivava e a desolação no ar lembrava-lhes que a Terra continuava sua rota inexoravelmente, o que apenas reforçava a incapacidade do ser humano para modificar o que já acontecera e o vácuo de sua existência.

E em meio à obscuridão incansável, eles não conseguiam fixar seus pensamentos em coisa alguma, unicamente sentiam, seus corações impregnados de sentimentos indefiníveis ; sentiam tudo e quase nada, e conheceram a si mesmos em um espaço de minutos que assemelhavam-se a horas inextinguíveis. Nunca poderiam precisar com exatidão o quanto aquele momento durara, os instantes logo convertiam-se em uma angustiante sempiternidade da qual eles não queriam libertar-se, ou talvez nem sequer tenham tentado.

Não obstante, entre todas aquelas figuras de olhares apáticos e espíritos desnorteados, alguém destacava-se: uma moça muito magra, senhora e avatar daquele pobre país esquecido. Sua postura majestosa normalmente chamaria a atenção por si só, mas nesta ocasião específica, esta impressão fortificava-se porque ela reluzia uma armadura absolutamente magnífica e que, outrora, séculos atrás, pertencera ao próprio Odin. E mesmo Hilda não sendo a reencarnação dele, todos pareciam considerá-la realmente uma deusa, sobretudo porque seu status efetivamente era elevado. E para complementar, ela sustentava em sua mão direta a imponente espada Balmung, o que a tornava um ser quase etéreo.

Sem embargo, seus olhos refletiam inquietações, já não parecia uma mulher celestial, agora voltava a ser simplesmente uma jovem de vinte e cinco anos, com responsabilidades que outras pessoas de sua idade jamais teriam . E só via claramente a névoa de melancolia que a rodeava, o sentimento fez-se tão enérgico que ela se sentia sufocada, quase seria capaz de dizer que essa tristeza tornara-se surpreendentemente concreta, podia até mesmo tocá-la. Então, teve um desejo muito forte de ir embora, já começava a perguntar-se quem eram aqueles guerreiros e por que não conseguia reconhecê-los, porém, seu corpo estava estático, não entendia em que circunstância perdera sua essência, mas em algum recôndito profundo de seu interior, Hilda tentava compreender como deixara escapar o que um dia ela fora. Só podia enxergar sua alma cruamente, e ela não sorria, mas também não tinha lágrimas, era oca como todos aqueles guerreiros à sua frente, insignificante como suas próprias vidas.

Mas eis que, de repente, a lassidão passou quando ouviu-se uma voz ainda um pouco infantil, apesar de a interlocutora já ter vinte anos. Hilda e os outros puderam distinguir nas sombras uma garota de cabelos exageradamente abundantes, levemente obesa, com olhos muito grandes, como se quisessem devorar o universo. Viram-na acenar e chamar pela irmã, também puderam notar a incredulidade em seu olhar (certamente por ver que Hilda estava acompanhada dos supostamente falecidos guerreiros-deuses). Ela corria com dificuldade, a neve fazia-lhe pesada, o que ocasionava alguns tropeços.

Tentando conter a opressão que afligia seu peito, Hilda finalmente andou em direção a Fler e conseguiu ampará-la de uma possível queda. Embora um pouco imatura, a princesa de Asgard sempre fora perspicaz, portanto, imediatamente reparou o clima tenso que pendia sobre eles:

- O que houve, irmã? O que você tem? - perguntou Fler preocupada.

- Não sei. Sinto-me um pouco estranha - murmurou Hilda. Mas parecendo lembrar-se de algo, perguntou: - E você? O que faz aqui? Já é muito tarde, além disso, está muito frio.

- Eu poderia dizer-lhe o mesmo. Só que estou intrigada. Eles... são reais? Ou é uma alucinação? Espíritos? - Fler apontava os guerreiros, enquanto seu rosto evidenciava sua admiração.

- Eles realmente estão aqui, Fler - respondeu Hilda.

- Mas como é possível? - insistiu Fler.

- Melhor conversarmos amanhã - disse Hilda evasiva.

- Todos parecem tão lúgubres... - comentou Fler.

- Deve ser o tempo, a noite, este país. É muito deprimente mesmo - disse Hilda sem entrar em pormenores. Após dizer isso, ela voltou-se para os guerreiros e viu que pelo menos um deles já não se mostrava triste, seu semblante iluminara-se subitamente, e ela sabia a razão: a presença de Fler. Agora sim Hagen estava vivo novamente. Assim mesmo, era só ele, os outros continuavam distantes.

Hilda deu de ombros e com sua bela voz ordenou:

- Vamos para o palácio. É ilógico ficarmos aqui congelando até a medula.

Todos assentiram e, deste modo, encaminharam-se até o castelo das governantes de Asgard.

Mais tarde, a neve, com seu pesado manto branco, cobriu toda a noite; aquela terra agora apresentava a similitude de um sonho, sua brancura infinita matara a negritude. Tão somente por hoje.