Capítulo 11 – John Carvalho
Nunca imaginara que terminaria ali, sentado em uma cela sem acesso aos seus Pokémon ou a um telefone para falar com as pessoas que ama. E o pior: ainda não tinha a certeza do que estava fazendo ali. Fora preso baseado em quê?
Olhou para baixo e colocou a mão na cabeça. Encarou uma mancha escurecida no chão de cimento batido. Com bordas incertas e uma coloração estranha. Ele sabia que aquilo não era uma mancha de molho de tomate. O que teria ocorrido ali antes dele chegar? Ou pior: o que acontecia ali normalmente? Seria ele a próxima vítima?
Do lado de fora da cela era possível ver apenas uma parede branca e, acima do campo de visão, uma janela que era a única ligação da cela com o restante da delegacia – além da porta no fim do corredor. Ainda não estava na prisão, mas sim na cela temporária. Mas, ao encarar os ponteiros do relógio acima de sua cabeça que não parava de tique-taquear, a certeza que a prisão chegaria ficava cada vez mais próxima.
John Carvalho não estava sozinho. Dentro da mesma cela haviam mais duas pessoas: um homem de boina azul, regata branca e uma âncora tatuado no braço. Era poucos anos mais velho que John. Exibia um sorriso torto no rosto, quase perverso, enquanto mantinha os olhos fechados como se meditasse. Os braços cruzados e o pé encostado na parede, no estilo bad boy. Em seu pescoço um cachecol leve descia até a altura de sua cintura, tão azul quanto a cor de sua boina. Mais para a esquerda havia um rapaz de aparência madura, com seus trinta e tantos anos, cabelo vermelho como o fogo e uma inscrição tatuada no peito. John não soube identificar o que estava escrito, mas parecia muito com o grupo extremista de Houen que pregava a libertação dos Pokémon. Secretamente John desejou que estivesse enganado.
Não havia o que fazer ali. Não havia televisão ligada e nem barulho do rádio. John já não sabia identificar quantos dias estivera ali. Dois ou quatro. Já não importava mais. Os dias passavam em silêncio. Embora soasse estranho, ficara feliz após um dia inteiro de solidão quando os dois companheiros se juntaram a ele. Não eram de conversar. Poucas palavras foram trocadas e ele não sabia o motivo dos outros estarem ali.
Estava cansado. Gostaria de voar por Kanto nas costas de seu Charizard, como fazia quase todas as tardes ou para se deslocar de cidade em cidade. Não estava acostumado a ficar preso em um cômodo só e sem a presença da natureza ao seu lado. Não fora criado para ser preso, mas sim para ganhar os céus.
John almejava a liberdade. Sempre estava em busca de aventuras e novos desafios. Gostaria de provar ao mundo que ele era muito mais que apenas o neto do grande professor Carvalho e filho de um dos melhores treinadores do mundo, Gary Carvalho. Ele queria ser John, não John Carvalho, e dia após dia buscava um método de conseguir isso. Essa trilha arriscada que tomou em sua vida fora audacioso, mas ao que tudo indica lhe garantiria destaque aquém do avó e do pai.
Sorriu. Seu plano talvez não fosse o melhor, mas talvez estivesse dando resultados esperados.
Berros foram ouvidos do lado de fora, isso já não era novidade. Desde que chegara a cela, John sempre ouvia gritos de pessoas pedindo a sua prisão. Alguns, mais extremos, pediam a pena de morte. Embora fingisse não ter conhecimento do clamor público, John sempre sabia quando pessoas estavam chegando para falar com ele – ou com algum dos prisioneiros – no momento em que a gritaria era ouvida: isso queria dizer que a porta que dava acesso às celas fora aberta e som atingia seus ouvidos.
- John Carvalho, você tem visita.
A voz de Jenny quase não fora ouvida no clamor das pessoas. John surpreendeu-se, no entanto, quando ouviu as grades de sua cela foram abertas. Desde que chegara ali não havia tido um encontro sequer em que lhe tiraram da cela para falar com seus poucos visitantes, mas agora sua sorte estava para mudar.
Enquanto aguardava a grade inteira se deslocar, John notou que seu companheiro de cela não mais meditava. Estava em pé, olhando diretamente para ele. O sorriso perverso dera espaço para um enorme sorriso que John não soube identificar como felicidade ou de zombaria.
- É a sua chance de dar a volta ao mundo, rapaz. Não estrague isso.
John não tivera tempo de responder. Jenny já entrava em sua cela e o encaminhava para fora, não ligando para o que o jovem de cachecol falava.
O caminho foi mais longo do que John esperava. Passou pela porta que limitava o espaço das celas; caminhou por corredores e mais corredores internos dentro da delegacia; subiu escadas; pegou um elevador discreto e, por fim, passou por mais duas salas antes de chegar a um andar tranquilo, com poucos funcionários.
Jenny o encaminhou para uma sala vazia. No canto havia garrafas de água, bolachas, jarra de café e até alguns bombons. Ela apontou um lugar para John sentar, na cadeira ao lado da mesa central – que, para sua surpresa, estava com pokébolas em cima. Suas pokébolas.
- Fique à vontade.
A policial saiu e deixou John sozinho. Ele agarrou a pokébola com um adesivo de chama em cima e a jogou. Dela saiu um Charizard. Não um Charizard qualquer, mas sim o seu Charizard. Correu para ele e o abraçou. Seus olhos encheram de lágrima. Estava certo: definitivamente aqueles eram os seus Pokémon.
Um sorriso tímido cortou o ar da sala. Mais uma pessoa estava ali dentro com ele. John desvinculou-se de Charizard e contemplou a visita inesperada em sua cela:
- Espero que esteja pronto para partir, garoto.
E, embora não soubesse ainda, John estava embarcando em mais uma jornada – talvez a mais importante de toda a sua vida.
