Capítulo Dez – Aconteceu na tarde de Natal

— Eu devo admitir, Mione, isso foi maravilhoso – Gina falou entre risos, entrando na cozinha atrás de Hermione. – Hermione?

Hermione congelara no instante em que entrara na cozinha. Girou nos calcanhares no momento que Harry passava pela porta, e o olhar divertido dele desmanchou-se ao encontrar o olhar assombrado de Hermione. Ela então murmurou uma única palavra, um nome. Sua voz saindo tão baixa que podia ser apenas sua respiração.

— Monstro.

Os olhos de Harry se arregalaram em choque. Aparentemente nenhum deles se lembrara de que o antigo elfo doméstico da família Black estaria nas cozinhas pronto para despejar a verdade sobre Sirius.

— O que faremos? – Gina perguntou, o tom de voz baixo, enquanto Rony entrava na cozinha.

— Distraia-os. Não os deixe entrar nas cozinhas. – Harry falou e Gina e Hermione apressaram-se para sair do recinto, imediatamente. – Eu vou manter Monstro fora do caminho. – ele acrescentou para Rony, que franzira o cenho, intrigado.

Rony saiu e fechou a porta atrás de si no mesmo instante em que Harry convocava o elfo; Monstro apareceu com um sonoro 'pop' à sua frente, Dobby em seus calcanhares.

~ PdN ~

Tiago observava o lago congelado sem realmente o ver. Seus pensamentos vagando no que acontecera naquela manhã. Ele ainda não conseguira entender.

Num momento, estava curioso sobre quem seria Vitinho, alguém que ele julgava que não fosse conhecer. A impressão de que Rony desmanchava-se de ciúmes sobre a situação Vitor-Hermione sendo a única coisa que passava por sua mente. E no momento seguinte, ele estava sendo empurrado contra a parede mais próxima.

Por cerca de um milésimo de segundo ele chegara a considerar a hipótese de que era Lily quem o estava empurrando. Não seria uma ideia ruim, ele se pegou pensando. Mas logo em seguida ele percebera que não podia ser. Por mais que a cor dos cabelos e a altura fossem praticamente as mesmas, Tiago sabia que não era Lily. Poderia reconhecê-la por diferenças menores. Porque é a minha Lily, ele justificou a si mesmo.

E então, ele soubera que era Gina ali. E quando as costas dele bateram descuidadamente na parede fria de pedra, o momento ficara ainda mais estranho. Ele não sabia se ela pegara muito impulso ou o quê, mas o fato é que quando a parede impediu que ele fosse mais para trás, os dois ficaram muito próximos. Próximos demais, na opinião dele.

Tiago puxou o blusão para mais perto, remexendo-se desconfortável, encostado na árvore à beira do lago. Ele lembrava-se claramente do que viera a seguir.

Os dois se encararam e tudo ficara mais estranho ainda, pensando agora.

Talvez fosse o fato de que ela e Lily eram estranhamente – muitos usos dessa palavra hoje, Pontas – parecidas, talvez fosse qualquer outro motivo; o fato é que ele não pudera desviar o olhar. Nem ela, aparentemente.

Ele poderia tê-la beijado, se quisesse. De tão próximos. Mas não o fez.

O tempo parecera parar.

Ele pudera ver cada sarda no rosto dela. Algumas tão claras que quase se perdiam misturadas na pele alva. Era uma composição delicada, muito delicada. Os olhos, castanhos com um toque de mel. O ruivo do cabelo chegava a brilhar.

Ele riu nervoso. Se contasse isso para qualquer um dos Marotos, ouviria categoricamente que era sobre Lily. Exceto pela parte dos olhos, claro.

Abaixou a cabeça e encarou seus cadarços. Estava arranjando problemas. E não apenas com Lily, ele imaginava. Suspirou, sem ter mais o que fazer.

— Pontas? – uma voz chegou docemente aos ouvidos dele, e ele virou o pescoço tão rapidamente que poderia ter se machucado. – Você está, ahn, bem?

— Ah... – ele deu breve olhada para o lago outra vez antes de voltar-se para Gina. – Estou bem, sim.

Ela passou por ele e encostou-se à árvore ao lado dele, as mãos no bolso da capa, sob o olhar atento dele.

— Tão bem que decidiu dar uma volta pelos jardins congelados de Hogwarts e evitar todo mundo? – ela perguntou, olhando-o firmemente.

— Não estou evitando todo mundo. – ele respondeu, e silêncio instaurou-se entre eles por alguns momentos, antes de Gina voltar a falar, agora olhando para o lago.

— Apenas me evitando, então?

— Não. – ele respondeu calmamente, e ela virou a cabeça para olhá-lo novamente. – Claro que não. Apenas... Muita coisa, sabe? – ela concordou com um aceno da cabeça. – Você veio até aqui só pra saber se eu estava bem? – perguntou, descruzando-os braços e colocando as mãos no bolso.

— Não. Na verdade... eu queria conversar com você. Sobre hoje de manhã. – ela falou delicadamente, e Tiago percebeu que o assunto era delicado para ela também.

Ele não esperava que ela fosse tão direta, na verdade. Sabia que chegariam ao assunto, mas talvez não tão rápido.

— Quem ouve você falando acha que aconteceu alguma coisa. – ele falou displicente, e a expressão dela até então suave tornou-se séria. Ela cruzou os braços.

— O que foi aquilo? – perguntou calmamente.

— Eu que lhe pergunto. Por que raios vocês saíram daquele jeito da cozinha?

— Não estou falando sobre sair da cozinha, Pontas. – ela retrucou. – Estou falando sobre a próxima parte.

Ele ficou em silêncio, e ela esperou que ele respondesse.

— Eu não faço ideia. – ele respondeu finalmente, recolhendo os ombros. Ela soltou o ar ruidosamente.

— Por que é que vocês têm que ser tão parecidos? – perguntou de supetão, voltando o olhar para o lago novamente.

— Como?

Ela manteve-se em silêncio por um momento antes de responder.

— Você e Harry... são muito parecidos. – disse por fim.

— Quer dizer então que você é minha nora? – ela piscou, e depois sorriu tristemente.

— Sua nora? – perguntou em tom de deboche, olhando-o divertida. – Só se você tiver outro filho do qual não estamos sabendo. – respondeu.

Ele manteve-se em silêncio, lembrando-se do que conversara com Harry na noite anterior. Resolveu não comentar nada sobre ela não ter mencionado Dino.

— E então, por que você não é minha nora?

— Porque eu não tenho nada com o seu filho.

— E por que você não tem nada com o meu filho?

— Por que você não tem nada com a Lily?

Tiago olhou-a em silêncio.

— Ok, você ganhou – respondeu depois de um momento. – Você se parece um pouco com ela, também. – acrescentou num sussurro. Gina quase não foi capaz de ouvi-lo. Ela suspirou.

— Tudo é sempre tão complicado quando envolve um Potter?

— Nesse quesito? – ele perguntou, sorrindo. Desencostou-se da árvore e estendeu a mão na direção dela, indicando o castelo com a cabeça. – Apenas quando envolve ruivas.

~ PdN ~

Lily abriu lentamente a porta do dormitório do sexto ano. Queria falar com Harry, mas não o encontrara em nenhum outro lugar. O dormitório parecia vazio quando ela entrou e deixou a porta bater atrás de si.

— Harry? – ela chamou, mais para certificar-se que não havia alguém por ali. Ninguém respondeu.

Com um muxoxo de desapontamento, ela virou-se para sair, mas seu olhar recaiu sobre o porta-retratos que Harry mantinha na mesa de cabeceira. O retrato que ela vira ali na primeira noite, dela e de Tiago.

Caminhou até o porta-retratos e o pegou, admirando-o. Deu por si sorrindo ao observar a si mesma e Tiago dançando felizes na foto, não muito mais velhos do que ela era agora, e colocou-o no lugar. Olhar Tiago sorrindo apaixonadamente para a Lily da foto dera-lhe uma pontada no peito, e ela suspirou pesadamente. O episodio daquela manhã ainda fresco em sua memória. Voltou-se para sair do quarto e andou na direção da porta. Antes que pudesse alcança-la, no entanto, a porta se abriu, dando passagem para um jovem moreno de óculos e cabelos muito arrepiados. Infelizmente, não o que Lily estava procurando.

Os dois se encararam por um momento. Pela expressão de Tiago, ela era capaz de afirmar que ele claramente não estava esperando encontrá-la ali. Sorriu, então, passada a surpresa inicial.

— Procurando por mim, Lily querida?

Ela bufou e revirou os olhos. A última coisa que precisava – e queria – agora, era conversar com Tiago Potter.

— Procurando manter distância de você, Potter. – respondeu, andando na direção dele a fim de sair do dormitório. Parou, no entanto, quando chegou até ele, que dera um passo para o lado de forma a ficar exatamente entre a porta e ela, impedindo a passagem da ruiva.

— Isso não é manter distância, Lily meu bem.

— Não me chame assim, Potter.

— Deveria chama-la de que? Senhora Potter? – provocou-a.

Ele pode ver a vermelhidão subir pelo rosto dela, os olhos cheios de fúria.

— Esse não é o meu nome. – ela retrucou, irritada. – E saia da minha frente.

— Não é seu nome ainda. – ele comentou, ignorando a segunda parte do que ela lhe falara.

— Saia da minha frente. – ela repetiu, cada vez mais vermelha. Tiago Potter a tirava do sério, inferno.

— Por que está tão nervosa, Lily? – ele respondeu, dando um passo para o lado quando ela também o fez, intencionando circulá-lo.

— Potter – ela falou, levantando o rosto para encará-lo, a expressão séria. – Apenas saia da minha frente.

Ele observou-a, sem sequer dar o menos indício de planejar sair do lugar.

— Por que tanta agressividade, Lily?

— Tem certeza que quer saber? – ela perguntou num tom de voz baixo e controlado, mas ele ainda podia ver a impaciência nos olhos dela. E algo mais que ele não foi capaz de decifrar.

— Tenho. – ele respondeu simplesmente, parecendo até muito calmo. Ela encarou-o friamente por alguns segundos, medindo as palavras.

— Eu não acredito que eu tenha me casado e tido um filho com você por pura e espontânea vontade, Potter. Isso pra mim é algo inconcebível. Eu não suporto você, e não acho que isso vá mudar.

— Pergunte ao Harry se não.

— Ele não tem nada a ver com isso!

Ele riu nervoso, e passou a mão pelo cabelo. Ela bufou novamente.

— Muito pelo contrário, Lily. Ele tem tudo a ver com isso. Não sei se você já fez as contas, mas ele nascerá em apenas quatro anos.

— Então eu tenho quatro anos antes de ser enfeitiçada para me casar com você? – as palavras saíram antes que ela pudesse se refrear. No momento em que as disse, sabia que estava errada. Ela conteve-se para não levar as mãos para tampar a boca.

As palavras dela o atingiram como se fosse um tapa. Os dois encararam-se em silêncio por alguns momentos, nem um fantasma do sorriso de Tiago passeando pelo rosto dele.

— Se você acha que eu faria algo do tipo você realmente não me conhece, Evans. – ele falou, finalmente. O tom de voz calmo, porém claramente ferido.

— Eu... – ela falou, a voz falhando, desviando o olhar do dele. – Eu não acho. Eu sinto muito, me desculpe.

Ela então apoiou as mãos nos braços dele e girou-o, a fim de passar por ele e sair do dormitório, querendo sair dali o mais rápido possível.

E então, antes que ela o soltasse, num só movimento ele levou as mãos ao rosto dela e, segurando-a firme e delicadamente pelo pescoço, as pontas dos dedos roçando na nuca dela, ele a beijou levemente.

O encostar dos lábios dele nos dela causou arrepios na base da coluna dela, e naquele momento a ruiva não ousou se mexer. E então, tão suavemente quanto ele a beijara, ele se afastou.

— Desculpas aceitas, Lily – ele falou num sussurro rouco, arrepiando-a novamente, e passou por ela, saindo do cômodo.

Apenas quando o bater da porta quebrou o encanto do momento foi que ela abriu os olhos, perguntando-se quando é que os fechara, e respirou profundamente, só então percebendo que prendera a respiração. Sentou-se na cama mais próxima, sentindo-se tonta, a e levou a mão direita aos lábios, que formigavam.

~ PdN ~

Harry abriu o Mapa do Maroto pelo que achava já ser a centésima vez e observou o escritório do diretor. Dumbledore não estava lá, como em todas as outras vezes nas quais abrira o mapa desde aquela madrugada. Ele não fazia ideia de onde o diretor estava ou quando voltaria e muito menos de como entrar em contato com ele. Não sabia se Dumbledore simplesmente apareceria em algum momento e mandaria o trio de volta para sua época ou o quê. Estava confuso e não sabia o que pensar; pensava em muitas coisas ao mesmo tempo. Faria um bom uso de uma penseira, ele imaginou.

Correu então os olhos pelo mapa até chegar ao escritório de McGonagall. O pontinho que indicava a vice-diretora estava lá. Ele sabia que ela era sua melhor opção no momento, mas decididamente não sabia como abordar a diretora de sua casa. "Boa tarde, professora, se lembra dos meus pais? Estão aqui, então os mande de volta para o passado, se não for muito incômodo da sua parte." Não, não era uma boa abordagem, ele bufou para si mesmo.

Além disso, ainda havia uma parte de si se coçava para pegar uma pena e mandar uma coruja a Remo. "Caro Remo, se lembra do natal de 1976? Eles vieram dar uma voltinha aqui, venha dar um olá." Não, claro que não. Além do mais, Remo estava incomunicável; ou pelo menos a Sra. Weasley reclamara de algo do tipo na última carta que mandara à Rony.

E se isso já acontecera, então Dumbledore sabia que estava acontecendo de novo, é claro. E sabia que deveria estar no castelo! Merlin, onde o diretor se metera?

E como os mandariam de volta antes que tudo viesse à tona?

— Merlin – resmungou – que inferno.

— Ei, a vida não está tão ruim assim. – Gina comentou, sentando-se na poltrona ao lado. Harry apenas levantou os olhos do mapa para olhá-la, sem falar nada.

Os dois se encararam por um momento silencioso, no qual Harry procurava as palavras para expressar sua decepção com a falta de presença do diretor, mas apenas conseguia pensar em palavras que indicavam como ela estava incrivelmente bela. Resolveu que seria melhor não falar nada, e então agradeceu silenciosamente quando ela voltou a falar.

"Nem sinal do diretor?" – ela perguntou.

— Não, nada. – Harry suspirou. – E na verdade eu já estava pensando em qual seria o melhor jeito de contar à McGonagall.

— Eu posso ir com você, se você quiser.

— Eu... agradeço, Gina. – ela lhe sorriu, e ele admirou o sorriso dela por um momento até perceber que talvez o tenha feito por tempo o suficiente para que ela percebesse. Abaixou a cabeça novamente para o mapa, o monstro em seu estômago dando cambalhotas e rindo dele, quando algo no mapa chamou sua atenção e ele levantou a cabeça rapidamente para ela, que franziu as sobrancelhas para a expressão dele. – E se sua proposta ainda estiver de pé – ele falou, levantando-se, e hesitou por um momento para então estender a mão na direção dela – temos um lugar para ir.

Ela aceitou a mão que ele oferecia, usando-a como apoio para se levantar. Os dois haviam dados apenas alguns passos em direção à saída da sala comunal da Grifinória, quando Harry notou o olhar de Hermione em si, do outro lado do cômodo, Rony e Sirius ao lado dela.

— Mione – ele chamou – acho que você provavelmente vai querer vir também. – quando a morena se levantou, Rony e Sirius trocaram olhares confusos, para o que Harry respondeu apenas: - Dumbledore.

— Harry – Gina chamou baixinho enquanto Hermione cruzava a sala, fazendo com ele se virasse para ela – você tem certeza que quer que eu vá? Porque você e Hermione...

— Sim, eu tenho. – ele a interrompeu, e ela sorriu, apertando a mão dele com um pouco mais de força em resposta. Ele sorriu no mesmo momento em que Hermione chegou ao lado deles. Mas ao contrário do que Gina pensou, ele não estava sorrindo de volta para ela. Estava sorrindo porque só então percebera que ela não soltara sua mão.

Os três passaram pelo retrato da Mulher Gorda – que estava ocupada bebendo com sua amiga Violeta e não fez nenhum comentário sobre eles – e dirigiram-se ao escritório do diretor. Foram em silêncio pelos corredores até chegar à gárgula que guardava a escada de Dumbledore, disseram a senha e apressaram-se pela escada. Pararam, então, em frente à porta do escritório, e Harry bateu, esquecendo-se de tudo o que pretendia falar.


N/A: Miiil desculpas pela demora infinita – sim, eu sei que disse que pretendo postar a cada 15 dias – mas tive aulas e provas até dia 20 de dezembro, e depois viajei por causa das festas de final de ano e só agora estou finalmente em casa, de férias e com tempo pra me dedicar às minhas fics. Sei que postei o capítulo da minha outra fic antes do natal e teria postado essa também, mas o capítulo não estava pronto quando postei a outra, então... não sumi! Não se preocupem :)

Pretendo postar uma song em breve, James&Lily, então logo mais notícias minhas! Hahah mas não fiquem muuuito animados, uma das fics que eu beto vai entrar em revisão completa e então eu e o autor teremos aparentemente um trabalho infinito. Se alguém aí lê Underground: A Elite, sabe do que eu estou falando.

Review sem login: yinfa Espero que tenha gostado desse capítulo, até mais!

No mais, espero que gostem do capítulo, que eu sei que não foi lá muito grande, e espero reviews! Até logo :) Tentarei não demorar, então se sentirem minha falta, reclamem! Abraços.