_

Mais tarde naquela noite, nas horas deitada ao lado de Saeed, Lisa fechava os olhos e nada dizia, apenas punha mentalmente o dedo indicador cruzado sobre os lábios, pedindo mentalmente para que toda a felicidade que fluía do seu corpo se calasse, porque a memória do beijo que trocara horas atrás com House já lhe era o bastante. Porque um único beijo casto a fizera sentir sensações há muito tempo perdidas. Porque sabia que ele estava ali, do outro lado da cidade, sentindo o mesmo, e que na manhã seguinte, ao se encontrarem toda a memória do momento compartilhado se estilhaçaria feito cristal.

_

Do outro lado da cidade, na penumbra da sala de estar, House focava a parede nua a sua frente, preso à memória escura dos olhos de Lisa Cuddy; do tilintar dos seus saltos pelo hospital, da alegria convicta que emanava do seu sorriso; e da sua sutil presença, que após anos separados, voltou a açucarar sua vida.

Ele sabia que ela ainda nutria sentimentos por ele, e o fato dela ter retribuído o beijo, mesmo estando comprometida, só serviu para reforçar as suas certezas.

Servindo-se de mais uma dose de Bourbon, House torturava-se com a idéia de outro homem ter a mulher que beijara algumas horas atrás, nos braços. Ele a queria de volta, e agora sabia que poderia tê-la, mas ainda assim temia a machucar como já fizera diversas vezes. Tragando a bebida em um único tiro, ele cogitou a possibilidade de não mais retornar, não mais fazê-la refém da sua infelicidade, mesmo sabendo que a sua partida, o seu grande ato de amor, seria recebido como a mais pura covardia.

_

O dia amanheceu em Princeton com algumas nuvens nubladas, mas para Lisa Cuddy, especialmente naquela manhã, o dia não poderia estar mais belo. Após levar uma Rachel ainda sonolenta para a escola, ela seguiu direto para o PPTH. De certo o dia estava realmente lindo, mas Cuddy não poderia deixar de lamentar a existência de uma reunião com o conselho marcado para aquela manhã.

Ao sair da reunião, a Dean dirigiu-se o mais rápido possível para um restaurante nas proximidades do PPTH, afinal quando um investidor marca uma reunião de última hora, ela não pode dar-se ao luxo de faltar.

Já passara das 15h quando Cuddy retornou do almoço com os investidores. Ela ainda encontrava-se indignada com a capacidade que alguns homens possuíam de subestimá-la.
Atrás de um bom motivo para procurar o paradeiro de House, Cuddy seguiu para o posto de enfermagem, a fim de assinar alguns papéis inteiramente desnecessários.

- Brenda, onde está o Dr. House?

- Desculpa Drª, mas ele não foi visto pelo hospital hoje. Algum problema?

- Oh, não... Está tudo bem.

Tanto quanto Lisa Cuddy sabia que seria uma situação complicada falar com House após o incidente no estacionamento, ela queria resolver de uma vez por todas o provável desconforto que viria a se instalar entre ambos.

Decepcionada, e porque não, magoada, Lisa Cuddy abrigou-se em seu escritório por todo o resto da tarde. Ela conhecia toda a dificuldade de House em partilhar sentimentos, mas no fundo, ela acreditava que ele de fato estava se esforçando para fazer as coisas diferentes. Droga, eles mereciam uma segunda chance, mas fugir não era a melhor forma de obtê-lo.

No final da noite, após retornar para o conforto e calmaria de sua casa, tanto quanto Cuddy desejava ligar para House, ela não estava disposta a dar o braço a torcer.
Aquela noite, Cuddy teve um sono turbulento, sem sonhos.

_

Na manhã seguinte as coisas não ocorreram de modo muito diferente.
Alguns documentos para serem analisados, muitos telefonemas urgentes e o
fechamento de contratos. Foi depois do almoço que um Wilson meio que
receoso invadiu a sala da Dean of medicine, exigindo explicações.

- O que aconteceu?

- Como?

- Desculpe Cuddy, mas é que o House ontem faltou ao trabalho e você nem sequer questionou.

- Sou a chefe do House, não a babá, Wilson.

- O que aconteceu entre vocês?

- Você sabe que está sendo inconveniente certo? – disse Cuddy, claramente desconfortável com aquela conversa.

-C'mon, nós somos amigos...

- Nós... Beijamo-nos.

- Wow, isto é fantástico! E então?

- Então nada.

- Como assim, ''nada''?

- Advinha: Ele tomou aquele chazinho de sempre.

- Chazinho? Como assim? – perguntou Wilson, confuso.

- Chá- de- sumiço.

-Oh shit! De novo?

- Sim, previsível, não? Veja Wilson, assim fica fácil desgostar dele. O
House ajuda à beça, com todo esse joguinho de chove-não-molha.

- Ele deve estar confuso, passou por muito sofrimento nos últimos anos.

- Sofrimento não é desculpa para imaturidade. Caramba, ele não pode fazer o que quer e bem entende cada vez que já estou recomposta do despedaçamento que sofri nestes últimos anos.

- Converse com ele. Apenas... Conversem. – disse Wilson, batendo em retirada. Ele sabia que tanto quanto House e Cuddy se amavam, eles eram orgulhosos o suficiente para não assumir suas fraquezas e inseguranças na frente dos outros.

_

Dois dias. Dois dias seguidos que Gregory House não comparecia ao trabalho, atitude esta que já era de se esperar. Preocupada, Cuddy fez dezenas de ligações, e o máximo que conseguira foi o tom sarcástico da sua secretária eletrônica. Após várias tentativas fracassadas, veio o derradeiro telefonema.

- Você morreu ou o quê? – ela esperou por uma resposta que não veio.

- House? Por favor, diga algo.

- Me desculpe. - Disse House, simples assim. Numa voz sumida, desligando logo em seguida.

Cuddy já sabia que não iria ouvir explicações. Já havia sido um grande golpe de sorte, ele ter atendido ao telefonema. Recolhendo seus pertences, ela seguiu para o tão conhecido apartamento na 221B Baker Street, a procura de respostas.
As Ruas de Princeton estavam movimentadas, e o cair da noite trazia consigo a nostalgia dos dias não vividos. Lisa Cuddy observava o fluxo de carros ao seu redor, mas não conseguia concentrar-se. Há quanto tempo ela não sentia o ardor da paixão?
Quanto mais se aproximava do apartamento de House, maior era a certeza de que ela precisava dele. Pelo menos naquela noite melancólica, mas algo em si a dizia para não nutrir grandes esperanças.

_

Alcançando o apartamento de porta verde, Cuddy hesitou em tocar a campainha, mas ainda assim o fez. Do outro lado da porta, House sabia que era ELA. Só podia ser ela, para fazer a campainha soar firme e sutil ao mesmo tempo.

Abrindo a porta da frente, ele não a fitou nos olhos, apenas seguiu o seu caminho de volta ao piano, substituindo o ar que minutos atrás era povoado por uma melodia triste por outra cheia de significados.

Fora com surpresa que Lisa Cuddy ouviu a voz rouca e grave de Gregory House proferindo as primeiras palavras da canção. Raras eram as vezes que ele cantava durante a melodia.

Todas as linhas do meu rosto
Contam a história de quem eu sou
Tantas histórias de onde estive
E de como eu cheguei onde estou
Mas essas histórias nada significam
Quando não se tem ninguém com quem partilhá-las

É verdade... Eu fui feito para você

Eu escalei até o topo de montanhas
Nadei através de todo o oceano azul
Eu cruzei todos os limites e quebrei todas as regras
Mas querida, eu as quebrei por você
Porque mesmo quando eu estava destroçado
Você fez com que eu me sentisse um milionário

Yeah... Você fez e eu fui feito para você

Quando as últimas notas soaram pelo vazio do apartamento, Cuddy não sabia como reagir. Ela estava preparada para uma briga, para um show de negações e ironias, mas nunca para ouvi-lo tocar a história dos dois. Desconfortável pela atitude inesperada, ela proferiu alguns sons com a garganta, antes de finalmente quebrar o gelo que se instalara entre eles.

- House... Estava preocupada com você.

- Não precisa se preocupar, eu estou indo embora.

- C-como? House..

- Me desculpe, Lisa. Aquele beijo foi um erro. Foi impulsivo.

- Eu quis te beijar.

- Ainda assim, foi impulsivo. Amanhã entrarei com o aviso prévio.

- Então é assim? Você me beija, falta ao trabalho, eu te procuro, você toca uma canção e depois diz que irá partir novamente? Oras, cresça House!

- Você conhece o little greg o suficiente para saber que ele não pode crescer mais, Cuddles. E a canção... Não passa de mais uma como outra qualquer.

- Seria mais digno dizer que percebeu não me amar mais, do que fugir. – disse Cuddy, levantando-se para sair.

- Ou dizer que gosto ainda mais.

- Que lógica é essa? Você vai embora porque me ama?

Sem resposta.

- House, que droga é essa? N'um dia você me beija, no outro vai embora... Eu não te entendo.

- Pelo visto você é tão estúpida quanto aquele seu namoradinho, Cuddy. Quando a gente se vicia em algo, o primeiro passo é a conscientização, para depois vir à desintoxicação. Eu preciso me desintoxicar de você. – disse House, olhando para o chão, envergonhado por expor-se. - Vou embora para me livrar desse vício de te querer, mas não poder te ter...

- Você pode ter, House. Você realmente... Pode.

- Sou um merda, totalmente ferrado.

- Então... Me deixa cuidar de você.

- Eu nunca precisei de ninguém para cuidar de mim.

- Eu sei que nunca precisou, e supostamente nunca irá precisar. A gente não precisa de ninguém, House. O verbo não é esse PRECISAR, o verbo é outro. – Aproximando-se, Lisa chegou a tocar-lhe os lábios, mas House recuou.

Magoada, sentindo-se estúpida, Cuddy saiu do apartamento de House indo em direção ao seu carro. Ela não se permitiria quebrar em frente ao homem que acabara de beijar. Droga, ele havia se declarado, eles haviam se beijado, e agora ele a afastava... Ela não conseguia compreender toda a precariedade daquele relacionamento.