N/a: o epílogo nada mais é que a história vista pelos olhos de Gary. Ele vêm preencher algumas lacunas, e ajuda a visualizar tudo de forma contínua. Imaginem aquelas cenas meio que fora de foco, em preto e branco, como lembranças, sabem? huahuahua

SOMBRA DO PASSADO

EPÍLOGO

Gary chegou em Las Vegas às 23:00. A cidade do pecado. A cidade perfeita pra ele. Parou para tirar dinheiro, estava com mal-estar e uma maldita irritação na garganta. Droga de ar-condicionado, pensou distraído. Encostou-se a uma parede, uma imensa sensação de vazio. A perspectiva de voltar para sua casa, fria e fechada há duas semanas não lhe agradava. Abriu a carteira para guardar o dinheiro e seus olhos recaíram em uma foto 3x4. Um garotinho, os cabelos castanhos e lisos, um sorriso que mostrava um dos dentes faltando. A sensação de vazio pareceu aumentar. Lembrou-se de Jaloo, um menino nos seus oito anos que não parava de seguí-lo em Trípoli. Aaron teria 8 anos...

Gary fechou a carteira com violência. Caminhou um pouco, abrindo os botões da camisa. Sentia-se sufocado. Caminhou, pensando para onde iria. Estava em Vegas, a primeira coisa que pensou foi um cassino. Não, aquilo não lhe distrairia. Virou uma esquina, procurando por um bar qualquer onde pudesse esquecer-se dos problemas e do mundo. Toma apenas três doses e começa a se sentir estranho. Nunca foi fraco para bebida, mas aos poucos ele sente que o calor que sente aumenta, e a respiração fica pesada. Naquela noite, nem o álcool está ao seu lado...

Baixa a cabeça, desesperado. Então, seu último recurso surge: Nicole. Ela sempre o ouve. Parte para o apartamento dela, lá chegando 1:30. Mas quem abre a porta é Jimmy. Os dois discutem. Por que tudo não pode ser como sempre foi, apenas ele e Nicole? Cospe na cara de Jimmy. Nicole segura o namorado, tentando controlá-lo. Diz que levará Gary em casa, mas é uma despedida. Gary deve deixá-los em paz. Jimmy insiste em ir também, mas Nicole fica firme em sua decisão. Gary assume uma atitude conformada, primeiro a bebida e agora Nikky. Por que não? Voltam em total silêncio. Ela vai embora, e ele deixa-se ficar por algum tempo, parado no escuro do jardim. Então entra na garagem, larga a mala no chão e pega o carro. Vai até uma avenida movimentada mesmo àquela hora, entra em uma galeria 24 horas e compra uma câmera.

São 3:30 quando ele coloca a câmera sobre o painel do carro e começa a filmar o vídeo. Sente-se tão mal que o fôlego mal dá para completar as frases. Ele deixa a fita na gaveta de entregas 24 horas da locadora que Nicole passa todas as semanas. Entra no carro, uma dor de cabeça tão forte que tem quase certeza que o crânio vai se partir com a pressão. Seus pensamentos continuam sóbrios, mas o corpo não responde direito. Pega a estrada. A tontura impede-o de dirigir direito. Alguns motoristas buzinam. Ele pensa em apenas uma coisa: vou morrer. Lembra-se da pistola que sempre carrega, das armas que consegue com tanta facilidade. Não. Não irá morrer por um cano de arma. Prometeu a si mesmo que não morreria pela arma de ninguém, nem mesmo a própria. Uma espécie de orgulho que sempre carregou.

Os primeiros raios de sol começam a clarear o horizonte, produzindo um jogo de cores no céu do deserto cinzento.

Gary continua a dirigir, sem pensar em mais nada especificamente, a fraqueza do corpo finalmente afogando a mente.

Ele vê algo no deserto.

Aaron.

Gary chora. Por que Aaron foge? Por que lhe abandonou? Sem saber, o menino levou-o junto naquele dia. Gary destruiu a família e a si mesmo.

Ele sabe que não pode alcançar Aaron, mas nada mais lhe resta a fazer. Desce do carro, a expressão desesperada. Não vai morrer pelo cano de uma arma. Mas talvez... já estivesse morto há muito tempo.

FIM