Capítulo 10: O piano assombrado
Estavam num dos restaurantes de Baden, o pequeno vilarejo próximo à Academia. O almoço acabara de ser servido - uma generosa porção de espaguete à bolognesa, com muito molho e almondêgas. Todo o caminho até ali tinha sido feito entre conversas vazias e apenas formalistas e agora, os quatro encontravam-se calados, quase como se um clima de enterro tivesse se instalado entre eles.
Provavelmente, Lyncis e Draco ainda estavam remoendo a cena com Harry pouco antes. E o pobre Órion, que já encontrava-se ligeiramente deprimido antes, poderia pensar que estavam ali apenas por obrigação, ou que os três mais velhos estivessem chateados por ter de lhe fazer companhia. Era hora, portanto, de tomar alguma atitude.
- Então, Órion, como estão indo as aulas? - Arch perguntou, enquanto enrolava o spaghetti no garfo, quebrando afinal o silêncio da mesa.
O menino levantou a cabeça, surpreso por ver alguém dirigir a palavra a ele, antes de suspirar, com certo desalento.
- Tediosas. - ele respondeu - Eu esperava mais, especialmente das disciplinas de química e física...
- Você esperava poder usar o laboratório. - Lyn o cortou, séria - Dissemos a você que as coisas não eram exatamente como você imaginava, não disse?
- Bem, ele vai arranjar um jeito. - Draco respondeu pelo primo caçula, piscando o olho para ele antes de se voltar para Lyncis - Aliás, você devia ajudá-lo em vez de deprimi-lo, Lyncis. Não está sendo uma boa irmã.
Ela encarou o loiro com a sobrancelha arqueada, preparando-se para dar uma resposta malcriada, mas acabou por menear a cabeça, calando-se com uma nova garfada. Quem era ela para dizer alguma coisa, considerando-se que quase todos os sábados esgueirava-se pelos bosques que circundavam a Academia para praticar um pouco de tiro?
Draco sorriu, um tanto maldosamente, ao ver que a prima não responderia, antes de apoiar o queixo sobre as mãos, encarando os outros ocupantes da mesa.
- Bem, já que estamos falando de tédio, eu tenho uma história para contar sobre algo que está acontecendo na Academia e que talvez chame a atenção de vocês.
Arch cruzou os braços, encarando o primo com pouco caso.
- Você não está falando do ridículo boato acerca de um fantasma no teatro, não é?
- Por que ridículo? - Draco retrucou, divertido - Seria uma aventura interessante. Por que não combinamos de pegar o fantasma? Seria a solução para nosso problema de tédio.
- Porque fantasmas não existem. - Arch respondeu simplesmente - Muito menos um que gosta de Chopin.
Os irmãos Black observaram os primos, confusos.
- Muito bem, eu detesto interromper, mas de que fantasma estamos falando aqui? - Lyncis perguntou, intrometendo-se na conversa dos dois.
- Está correndo pela Academia uma história de um fantasma que anda usando o teatro à noite para treinar piano. - Arch respondeu - Provavelmente algum aluno decidiu treinar até mais tarde e...
- Você só está sabendo o que os alunos de música te contaram, Arch. - Draco cortou-o - Um casal está na enfermaria desde ontem. Foram atacados no teatro de madrugada.
- E o que um casal de alunos estaria fazendo no teatro de madrugada? - Órion perguntou com a voz fraca.
Os dois outros rapazes se encararam com meio sorrisos idênticos, enquanto Lyncis perguntava-se por que cargas d'água, com tantos lugares e tantas pessoas na frente de quem seu pequeno caçador fazer a revelação de sua inocência, isso tinha que acontecer justamente quando estavam na companhia de homens da família Black.
Aliás, não apenas por serem homens da família Black, o que já significava alguma fama. Não, tinha que ser NA FRENTE JUSTO DAQUELES dois Black.
- Órion, meu amigo, eu diria que já sei o que fazer com seu tempo livre enquanto espera pelos laboratórios terem as portas abertas para sua genialidade. - Arch apoiou os cotovelos sobre a mesa, descansando o queixo nas mãos cruzadas - Temos que começar a sua educação sentimental.
Se até ali o caçula da família estivera ligeiramente pálido, ele agora acabara de tomar um tom de rubro-pimentão, especialmente porque a frase do primo evocara uma cena que até ali fora cuidadosamente evitada por sua mente desde que tinha chegado à Academia e que ligava-se especialmente à filha caçula do tio Remus.
Lyncis, entretanto, interpretou aquilo de outra maneira e decidiu ir em socorro do irmão.
- Ok, rapazes, acho que é o suficiente por hoje, ele vai precisar de uma ligeira preparação psicológica para encarar o curso de vocês. - ela voltou-se para Draco - Esse casal na enfermaria, como você sabe deles?
- Eu estava na enfermaria tomando um remédio para gripe antes de ir encontrar vocês. - o loiro respondeu, dando de ombros - Pelo que entendi, encontraram eles completamente apagados no teatro e até agora não descobriram o que tinha acontecido. E eles ainda não acordaram.
- Mas eles devem acordar logo, não é? - Órion perguntou, ansioso - Estão cuidando deles, não?
- Eu não sei o que eles têm exatamente, então, não posso dizer que eles estejam para acordar. - Draco retrucou - Mas não se preocupe, Órion, não precisa ficar tão nervoso. Você ainda não está no estágio de levar alguém para o teatro, então não vai acontecer nada com você. Antes disso, eu e sua irmã já teremos descoberto o que está acontecendo.
- E quem foi que lhe disse que eu pretendo ir ao teatro ou a qualquer outro lugar com você, Malfoy? - Lyn respondeu, sem saber se ria do disparate ou se dava mais um fora no rapaz só para variar um pouco o seu dia - Se depender de mim, esse fantasma pode continuar treinando Chopin à vontade.
- É realmente uma lástima. - Draco observou, pensativo - Mas a esperança é a última que morre, não? Embora eu deteste clichês, acho que vou me apegar a esse agora.
A morena revirou os olhos, agora já um tanto quanto ligeiramente irritada, enquanto Arch escondia seus pensamentos tomando um demorado gole de suco e Órion pensava em alguma intrincada equação química para calcular tão logo estivesse sozinho.
- Faça o que quiser. - Lyncis respondeu - Mas lembre-se que eu sei me defender muito bem.
- Meu maxilar já o sabe muito bem. - ele retrucou, sorrindo - Não se preocupe, não cometerei o mesmo erro duas vezes.
- Do que vocês estão falando agora? - Arch perguntou, interessado, ao notar uma certa comunicação entre os olhares de ambos.
- De nossas prévias relações até alguns anos atrás. - Draco foi quem respondeu - Mas não se preocupe, Arch, qualquer dia talvez eu conte para você.
Lyn apenas rilhou os dentes, relembrando com clareza e péssimo humor uma certa cena ocorrida em um corredor, muito tempo atrás. Não queria lembrar daquilo. A repulsa e o ódio que sentira ainda podiam fazer seu sangue ferver com facilidade.
Fez uma anotação mental nesse momento. Mais tarde, iria dar um pulo na esgrima para procurar alguém do clube em que descontar toda aquela bola de neve que vinha acumulando dentro de si nos últimos dias e que de repente viera parar na garganta quando do encontro com Harry mais cedo.
E ela quase sentia pena de quem quer que fosse ser seu adversário. Quase.
Claymore Hills era inspetor da Real Academia há mais tempo do que podia se lembrar. Fora responsável por algumas das expulsões mais celebradas da história da instituição, escondera mais segredos e mais detalhes da vida entre aqueles muros que qualquer pessoa poderia imaginar possível - e, por incrível que pareça, lembrava de cada um dos alunos que tinham passado por suas vistas.
Ele também ouvira falar do boato do fantasma do teatro. E, como nenhum dos outros inspetores parecia fazer muita questão de acabar como o casal que agora encontrava-se na enfermaria, ele fora o único que aceitara vigiar o lugar.
Um cavaleiro solitário, à guarda das portas douradas da casa das artes.
Já estava ali há bastante tempo, mas até agora, nada de realmente interessante ocorrera. Tudo continuava muito silencioso. Mas continuava lá, paciente. Sentado no chão, as pernas cruzadas em forma de borboleta, ele esperava em meio ao breu.
Nesse momento, na torre principal da reitoria, o relógio deu duas badaladas. E, nesse momento, uma melodia suave e melancólica começou a tocar.
A princípio, Hills imaginou se não cochilara e sonhara com aquilo. O som começara de maneira completamente repentina. E ele tinha certeza que ninguém passara por ele.
A música vinha do teatro.
Pé ante pé, o inspetor aproximou-se das portas, empurrando-as. As vigas rangeram de leve, mas a música não cessou. Ao contrário, a cada segundo, a melodia parecia mais alta, quase como um desafio. A Terceira Sonata para piano de Chopin. E estava sendo tocada no piano.
Mas não havia ninguém ao piano.
Uma névoa esbranquiçada perpassou pelos pés de Claymore, mas ele não percebeu. Estava ocupado demais, os olhos fixos sobre o palco, onde a sonata evoluía, cada vez mais rápida e dinâmica. Foi então que ouviu vozes. E passos. Havia um acento adocicado no ar e, aos poucos, ele sentia-se sonolento, tonto.
Fazendo força, ele deu um passo para frente.
A canção agora entrava em seu movimento final. O cheiro tornava-se cada vez mais forte. Havia agora pequenos pontos de luz ao seu redor, mas, sempre que ele buscava focar naqueles pequenos halos, eles pareciam sumir, correndo de seu campo de visão.
Foi quando ela surgiu. Os cabelos longos balançando por um vento inexistente, um sorriso triste nos lábios pálidos. Não existia cor em seu pequeno corpo, exceto pelo cravo vermelho e sanguíneo, que ela ostentava preso ao vestido.
A música terminou. E a última coisa que ele percebeu antes de perder os sentidos era que o cravo não estava preso ao vestido. Mas cravado em seu coração...
AEWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWW!!!!!!!!!!!!!!!!
Capítulo novo, capítulo novo! Ficou pequeno, mas, em compensação, já comecei a trabaçhar no próximo. Quem sabe ele já não sai semana que vem.
Primeiro, vamos tirar as teias de aranha daqui com o extintor... Depois, peçamos desculpa ela demora em excesso e por todas as escusas que dei. Mas foram desculpas válidas... Andei tendo vários bloqueios, não para escrever, mas com essa história em si (mais embaixo vocês terão notícias interessantes...), depois comecei a estagiar, a faculdade não dá trégua, fica doente, sára, fica doente de novo, pc frita os miolos...
Mas, enfim, depois de uma tarde chuvosa e nada para fazer, finalmente, SAIU!!!! AEWWWWWWWWWWWWWW!!!!
Quero agradecer a cada um de vocês pela paciência e pelas palavras de apoio. Se eu sumi por tanto tempo como Silverghost, é porque em breve eu terei grandes novidades para anunciar por aqui.
Ou melhor, não exatamente AQUI... A verdade é que SS é minha aposentadoria como escritora de fics dos marotos. Mas uma série de coisas originais está vindo por aí, e manterei vocês informados de tudo. Faz um ano que trabalho em um projeto grande, do qual sou uma das administradoras e apesar de não ter escrito tanto em SS, lá eu escrevi como louca...
E em breve, vocês verão o resultado.
Seja como for, estou a mil. Acho melhor aproveitar o clima para continuar escrevendo...
Beijos e espero que tenham gostado! MUiTO, MUITO obrigado por todo o apoio, pessoal, eu amo vocês!
Silver.
