Capítulo 11 – Corações Partidos
Lay a whisper on my pillow
Leave the winter on the ground
I wake up lonely, there's air of silence
In the bedroom and all around
Touch me now, I close my eyes and dream away
It must have been love but it's over now
It must have been good but I lost it somehow
It must have been love but it's over now
From the moment we touched 'til the time had run out
(Roxette: It must have been love – Tourism – 1992)
Goten e Mai estavam no parque da cidade, juntos, desde que haviam se encontrado na porta da Corporação Capsula. Ela estava deitada sobre o peito dele, acariciando um de seus ombros, e ele não conseguia deixar de achar aquela situação muito... estranha. Não tinham conversado muito, apenas ficaram se agarrando sentados na grama, e, apesar de ser muito bom, dos beijos dela serem deliciosos, ele se sentia chateado.
Parecia que estavam fazendo algo errado. Ela começara aquele dia como namorada de Trunks, era estranho que agora estivesse com ele. De repente, ela falou:
- O Trunks estava com a menina de três olhos? Com a bizarrinha?
- Não chame ela assim, Mai.
- Ela te traiu, Goten!
- Ela não era minha namorada, Mai. Mas você e Trunks eram meus amigos e ficaram juntos nas minhas costas. Praticamente rindo de mim.
- Você não sabe por que eu fiquei com ele e pedi para esconder de você?
- Foi você?
- Foi – ela disse, encarando-o – eu tinha medo de te perder... de você deixar de gostar de mim e eu... me arrepender.
Goten passou a mão no rosto. Não sabia como dizer aquilo. Mas o fato que sentia-se cada vez mais decepcionado com Mai. Ele encarou os grandes olhos pretos da menina antes de começar:
- Você não acha que agindo assim você estava jogando com nós dois ao mesmo tempo?
- Mas... eu não tinha certeza...
- Então não começasse nada, Mai... ou abrisse o jogo. Comigo e com Trunks. Eu quero saber agora: de qual de nós você realmente gosta?
Ela começou a chorar. Goten teve o ímpeto de consola-la, mas, por um instante, achou que aquelas lágrimas tinham mais a ver com o arrependimento de ter perdido Trunks do que qualquer outra coisa. Então ele perguntou:
- É dele, não é?
Ela apenas assentiu, com a cabeça. E então disse:
- Mas eu não imaginava que ele fosse terminar... terminar gostando daquela outra lá. Como você gosta. Eu perdi vocês dois! Ao mesmo tempo!
Ela soluçava, inconsolável, e Goten a abraçou, segurando-a junto ao peito. E então, ela não pôde aguentar o remorso e confessou:
- A mensagem... a mensagem pedindo o beijo... fui eu quem escrevi. Trunks não fez aquilo.
Goten se sentiu paralisado e frio. Soltou-a de repente.
- Como você... como você pôde fazer algo assim, Mai? Como teve coragem de fazer isso comigo? Você sabe o que eu sentia por você? Eu era fascinado pelo seu jeito. E, no fundo, sabia que você estava jogando comigo. Mas eu não imaginava que sua cartada final fosse essa: partir meu coração. Eu não percebi imediatamente... mas nada me deixava mais feliz que estar com a Tchai. Eu sentia alegria com ela cada vez que ela conseguia melhorar o nível dela no treinamento. Eu gostava de vê-la sorrir. E eu acho... eu acho que ela também gostava de mim. E eu joguei isso tudo fora, Mai... tudo por causa de uma mentira tua.
- Goten... me perdoe. Eu agora só tenho você.
- Não, Mai – ele se levantou e pegou a mochila no chão, colocando-a no ombro – você agora não tem mais ninguém. Aproveite bem a sua própria companhia.
Ele virou as costas para ela, e em vez de se teletransportar, levantou vôo meio sem rumo. Não queria ir para casa e nem sabia o que queria. Voar poderia arejar seu pensamento, fazê-lo tomar alguma decisão.
O ar frio batendo no seu rosto enchia seus olhos de lágrimas, mas ele sabia que também havia lágrimas de tristeza. Pensou em Tchai. Sentiu-se tolo e cretino por não ter acreditado nela. Então, ele pensou que poderia, quem sabe, consertar as coisas. Procurou o ki dela com a mente e logo o encontrou. Lá estava ela, aquele ki enigmático e forte, apesar da insegurança. Ele sorriu para si mesmo, e, então, percebeu: havia um outro ki conhecido muito próximo ao dela.
- Maldito cretino falso e aproveitador – ele rosnou, percebendo o ki de Trunks, pressentindo que o ex-amigo agora também estava encantado por Tchai.
"Esse safado" ele pensou "eu tenho certeza que ele está adorando a fragilidade dela. Ela é tudo que Mai não é... e agora que acha que eu não gosto mais dela, ela é presa fácil para a lábia dele... Trunks, você me paga!
Pensou em ir até onde os dois estavam, mas teve uma ideia melhor. Havia alguém com quem ele sempre podia contar numa hora dessas...
Ainda no ar, pôs os dois dedos na testa e pensou "Gohan!"
Se havia um equívoco no pensamento de Goten era a ideia de que Tchai seria presa fácil para os encantos e a lábia de Trunks. Depois do primeiro beijo, que ela correspondera, ela simplesmente o afastou e disse:
- Isso é um tremendo erro.
Ele ficou olhando-a, boquiaberto, e disse:
- Como assim?
- Você acha que pode simplesmente chegar aqui e dizer "Ah, Tchai, a Mai me traiu, o Goten acreditou, e agora vamos ficar juntos..."
- Mas... mas você me beijou!
- Errado. Você me beijou, E pode ser que eu tenha correspondido porque nunca tinha beijado ninguém e me pareceu uma boa oportunidade de ganhar um beijo de um cara bonito.
- Viu? Você me acha bonito! – ele disse, com um sorriso pretensioso.
- Acho. Mas prefiro o Goten. Sempre preferi, aliás. Você sabe disso. Eu gosto dele, e não deixei de gostar por causa da intriga que a vaca da sua ex fez comigo.
Trunks pareceu murchar diante dela.
- Qual o problema, Trunks?
- Eu... eu não entendo.
- Não entende o quê?
- O que ele tem que eu não tenho?
Ela o puxou para uma praça perto da casa dela e sentaram-se um diante do outro num banco e ela pediu que ele repetisse a pergunta, então, respondeu:
- Você jura que quer eu eu fale? Ok, vamos por partes: ele reparou que eu estava sofrendo quando ninguém ligava. E ele não ligou para o fato de eu ser bizarra, como todo mundo me chama. E ele me defendeu de um bullie... e ele treinou comigo e graças a ele eu agora sei manipular meu ki. Ele ia me ensinar a voar, sabe... mas infelizmente isso vai ser adiado por tempo indeterminado.
- Eu posso te ensinar a voar!
- E eu, ainda assim, vou preferir ele a você.
- Mas... ele provavelmente foi atrás da Mai.
- Verdade. Quanto a isso eu não posso fazer nada... e acho que você realmente não vai querer ser prêmio de consolação, não? Só porque ele talvez fique com a Mai não vou ficar com você só de raiva. Embora para um primeiro beijo, você tenha sido realmente muito bom. – ela sorriu.
- Podemos ser amigos, ao menos?
- Sempre. Eu me divirto com a sua falta de noção – ela riu – Eu deixaria você me dar um beijo na testa, mas tem um olho nela e isso seria meio nojento...
Os dois riram e ela então disse:
- E tem uma outra coisa. Ninguém desgosta de uma pessoa assim, de repente... eu acho que, embora ela seja uma sebosa irreparável, você ainda gosta da nojentinha da Mai.
- Tá de brincadeira... nunca mais quero ver aquela cara falsa na minha frente.
- Mas vai ver, você não tem outra opção. Ela mora na sua casa e estuda na sua sala. A não ser que ela tenha uma capa de invisibilidade, você vai continuar vendo-a por um bom tempo...
- Eu posso falar para os meus pais colocarem ela pra fora...
- Você não é ruim assim...
- Não mesmo. – ele disse, dando um sorriso triste. – acho que eu vou nessa.
Ele pegou a mochila no banco, jogou um beijo para ela de longe e voou.
Ela ficou olhando ele se afastar e disse para si mesma:
- As gurias da sala iam morrer de inveja se soubessem que ele me beijou...
Goten apareceu na sala da casa de Gohan, que tinha um laptop sobre a mesa e conferia um ensaio que apresentaria no dia seguinte, como qualificação para seu pós-doutorado em biologia. Ele levantou os olhos pretos quando o irmão surgiu diante dele e sorriu.
- Cadê a Panzuca e a Videl? – perguntou Goten, ao sentir que o único ki da sala era o do irmão.
- A Videl hoje dá aula o dia inteiro. A Pan está na creche, mas deve estar chegando daqui a pouco, o senhor Piccolo foi buscá-la. E o que você está fazendo aqui a essa hora? Achei que estava treinando com aquela menina... como é mesmo o nome? Tea?
- Tchai!
- Isso! A filha do Tenshin Han!
- Não sei de onde vocês tiraram isso... ela tem pai e mãe...
- E moram na minha rua e eu os conheci... E tenho certeza que Tchai não pode ser filha do Doutor Steve Black...
- Por que não?
- Ele tem olhos azuis, a mãe dela, olhos verdes...
- Isso eu notei.
- E ela tem um terceiro olho, preto, no meio da testa, certo?
- Ela diz que é uma anomalia rara...
- E eu te digo que isso é uma invenção e geneticamente seria impossível que o terceiro olho dela fosse preto. Já estudou isso? Recessividade e dominância?
- Sim... mas o que?
- Um homem de olhos azuis e uma mulher de olhos verdes não tem, em todo seu DNA, genes para criar um olho preto na testa de ninguém.
- E por que ela seria filha justamente do Tenshin?
- Porque ele é o último de sua raça. Não existe mais ninguém na terra que descenda do clã dos triclopes. Simples assim. Não há outro que possa ser pai dela.
- E ela nem desconfia? Por que a mãe faria isso?
- Tenshin não abandonaria um filho ou filha – disse Gohan – você não dele se lembrar dele direito mas eu me lembro. Nunca conheci ninguém mais íntegro e honesto que ele. Talvez apenas nosso pai. Ele não deve saber também... e não seria justo que nós contássemos. Não somos fofoqueiros.
- Mais essa agora...
- Mais essa? Qual a outra, além dessa?
Goten suspirou e contou a história deles desde o início, e Gohan ouviu curioso. Era estranho seu irmão, ainda tão baixinho porque não vivera o último estirão de crescimento sayajin, falando sobre uma potencial namorada e sobre beijar a pequena Mai. Céus, ele estava ficando velho.
- Bem – disse o irmão – sua primeira providência deveria ser fazer as pazes com Trunks. Ele é seu melhor amigo.
- Isso, nunca.
Gohan coçou a cabeça e disse:
- Então, fale com ela. Conte o que sente. Confesse.
- Você acha que isso daria certo?
- Não sei. Mas você só vai saber se tentar. – ponderou o irmão.
- Trunks passou a tarde com ela.
- Você está aqui há quase uma hora e nós não estamos namorando – brincou Gohan e o irmão riu. – não tente fazer isso agora... não se atropele. Fale com ela amanhã.
Goten sorriu e pensou que o irmão tinha razão. Menos chateado, ele se despediu e pôs os dois dedos na testa, para voltar para casa no Monte Paozu. Tinha sido uma montanha russa de emoções, aquele dia.
Enquanto isso, Trunks chegava à Corporação Capsula e dava de cara com Mai, que o esperava. Ele passou direto por ela, que ficou olhando o ex-namorado indo na direção do quarto, chateada. Foi para o seu quarto de cabeça baixa, chorosa, e no caminho passou por Vegeta, que estranhou aquilo e foi até o quarto do filho:
- O que você fez com a Mai? – ele perguntou de forma inquisitiva.
- Nada. Ela fez a si mesma. Terminamos. Pode ficar tranquilo que você não vai ser avô tão cedo – brincou o garoto, vendo o pai fechar a cara.
- Espero que saiba o que está fazendo, garoto... – ele saiu e Trunks se atirou na cama, olhando para o teto.
Ainda na véspera ele e ela tinham ficado num amasso longo e muito gostoso ali mesmo no quarto. Tchai tinha razão numa coisa: Mai tinha um milhão de defeitos. Mas Trunks não conseguia deixar de gostar dela.
Goten chegou ao Monte Paozu e foi atrás do pai imediatamente. Goku estava preparando o equipamento de colheita, que seria no dia seguinte, e sorriu quando o filho apareceu diante dele.
- Amanhã despachamos alguns caminhões de legumes – disse o pai – e eu fico livre para treinar com o senhor Kaioh!
- Que ótimo. Posso ir com o senhor?
- Treinar?
- Isso. Mas só depois do horário de aula.
- Claro, filho... posso saber o súbito interesse?
"Preciso dar uma surra naquele cretino do Trunks" – ele apenas pensou, mas disse:
- Acho que está na hora de aumentar meu potencial, pai. O senhor sempre me disse que antes do estirão dos 17 anos é o melhor momento e que treinar com o senhor Popo nessa época o fez mais forte...
- Ok, filho... mas não pode pedir arrego!
- Nunca!
Tchai entrou em casa e ouviu os pais discutindo. Ela não aguentava e nem entendia mais aquilo. Passou direto para o quarto e ainda ouviu a mãe gritar:
- Você não sabe quem são esses caras, do que eles são capazes, Steve. Nem tudo na vida é dinheiro!
- Dinheiro foi o que te fez casar comigo, sua vagabunda.
- Você sabe que não foi isso... você sabe o que foi... você sabe que eu precisava...
- Sim, eu sei do que você precisava. Precisava de um imbecil que acreditasse no seu jeito inocente...
- Eu achava que você seria um bom pai! Um bom pai para minha... para nossa filha!
Um bom pai para minha... para nossa filha.
Tchai passou para o quarto. Sabia que seus pais estavam discutindo porque ela era contra ele sair do hospital e ir trabalhar com a tal organização red alguma coisa. Ela dizia que eles eram criminosos, e ele a acusava de ser ela mesma uma criminosa. Essa acusação era frequente... e a fazia cada vez mais se perguntar o que o pai vira na mãe e porque a acusava sempre de ser falsa, criminosa... de o ter enganado.
- Você deveria pegar aquelas malditas pistolas e sair assaltando por aí, sua vaca... não era isso que você fazia?
- Se não fosse por minha filha... eu já teria usado as pistolas para colocar uma bala na minha cabeça, Steve, na minha cabeça...
Minha...
Nossa...
Ela baixou a cabeça, reflexiva. Frequentemente a mãe se referia a ela como minha...
"Será que ele não é meu pai?"
Ela fechou os olhos. Não podia acreditar naquilo.
Steve saiu, batendo a porta, e Lunch soube que ele estava indo, certamente, a algum prostíbulo. Quando ele chegasse, bêbado, ela estaria refugiada no quarto da filha, que não ouvira chegar ainda. Mas tinha tempo para a sua pequena fantasia de ódio recorrente. Trancou o quarto como sempre fazia nessas ocasiões e pegou seu pequeno tesouro na gaveta. Pegou a capsula que tinha o desenho de pistolas cruzadas e apertou o botão, fazendo o par de armas aparecer. Segurou as duas, olhando-as fascinada.
Ela cruzou as pistolas diante do peito e sorriu, o mesmo sorriso malicioso que dava sua parte loura quando era dividida.
Anos atrás ela, na pele da ingênua Lunch morena, havia entregue todo seu registro de crimes para Steve, que era seu médico, confiando que ele manteria o sigilo. Na primeira ocasião depois do casamento em que ela quis pedir o divórcio e denunciar a farsa da sua cura, ele a chantageou. Ele poderia colocá-la na cadeia. Ele tinha todas as provas contra ela. E ainda a ameaçava com isso, ainda a mantinha presa a ele: "Você só sai desse casamento quando eu quiser..."
Ela tinha sido refém dele todos esses anos, como antes havia sido refém da Princesa Serpente.
"Se eu pudesse, cada uma dessas pistolas poria uma bala na cabeça daquele cretino... mas ele é o único pai que ela conhece..."
Fechou os olhos e recordou aquela última visão que tivera do seu amado Tenshin, 16 anos antes. Ver parte do seu rosto refetido no de Tchai era o que lhe dava toda força para seguir em frente...
Ano 767 – Madrugada nas montanhas do norte.
Ela não sentia frio, porque estar diante daquela demoníaca Rainha-Serpente era como estar diante de fogo vivo. Mas tremia de puro medo. Parecia que a noite era mais escura e fria diante dela, como se a sua simples presença tornasse qualquer chance de felicidade impossível.
- Não vai falar nada, Lunch? Eu sei que você sabe quem eu sou e, principalmente agora, você sabe quem você é. Você é filha de Okan, que era minha Mógui preferida e de Ori, que morreu em dívida comigo. Os dois aliás, morreram sem me pagar. Só deixei que você vivesse livre até hoje...
- Porque não podia fazer nada comigo – Lunch disse, desafiadora e confiante - você não pode me submeter à sua escravidão a não ser que eu assim deseje. Ou que eu faça algum acordo contigo. Foi assim com meus pais. Meu pai não assinou seu pacto de sangue e minha mãe não me entregou para você. Vá embora.
A mulher-serpente riu sinistramente. Não seria fácil, e ela sabia disso. Mas tivera paciência até ali e podia ter paciência por mais tempo.
- Você não se pergunta por que eu estou aqui agora? Por que não te procurei há um ano, dois... eu sempre soube onde você estava.
Lunch hesitou. Não queria que a resposta fosse o que imaginava.
- Não sei por que veio agora... mas quero que vá embora.
- E se a criança que você espera tiver a mesma maldição que você? Isso eu posso fazer. Enquanto uma gota de sangue mógui correr nas suas veias ou nas veias da sua descendência, eu poderei usar meu poder para isso. Você sabe o que é um mógui, Lunch?
- Um espírito...
- Errado. Uma criatura. Uma criatura cuja vida foi dada por um demônio. Eu criei sua mãe, mas ela foi filha de ninguém, porque nós, demônios, temos poder de criar vida que espelhe a nossa, mas não somos pais e mães... A sua mãe me serviu quase mil anos antes de se apaixonar... antes de encontrar sua humanidade...
- A minha mãe me amou...
- Exatamente. E amou seu pai, como você ama aquele homem que dorme preso a um feitiço meu. Isso eu posso fazer, por um tempo, principalmente com homens. Posso prendê-lo num sono repleto de pesadelos por muito tempo... ainda que o fato dele ter uma mente forte o proteja quando está acordado, eu posso enfeitiçá-lo enquanto dorme e sua mente permanece vulnerável.
- Deixe Tenshin em paz! – ela começou a chorar – ele não tem nada com isso... ele não merece isso.
A Rainha-Serpente riu. Estavam chegando onde ela queria.
- Então... ele é aquilo que você mais ama agora... e a única pessoa que você realmente amou na vida e que te ama... e você sabe que eu poderia realmente chegar a tê-lo como meu escravo, se ele soubesse que o preço seria salvar você e a criança que está no seu ventre, que ele ainda não sabe que existe...
- Você não faria isso!
- Faria... ah, faria. E você sabe que eu faria. E que ele iria de bom grado para salvar você. Ele sacrificaria a vida dele, a liberdade dele... ele perderia tudo por você.
Lunch caiu de joelhos. Tenshin não podia saber da existência da Rainha-Serpente. Mas ela não podia, de forma alguma, ceder à ela no estado que estava. Precisava salvar os dois, Tenshin e a criança. Então ergueu os olhos para a Rainha-Serpente e disse:
- Livre-me da maldição e deixe que eu crie meu filho ou filha em paz. Eu sei o que te faz feliz: vingar-se dos meus pais, que escaparam de você.
- Você acha que eu sou Shenlong, que distribui desejos de graça? Não vejo vantagem nenhuma para mim...
- Eu abrirei mão de Tenshin. Eu irei para longe dele. Eu serei infeliz e miserável por isso, tenho certeza, e nunca vou me recuperar. Mas em troca da minha infelicidade, ele e a criança que espero terão paz...
A Rainha-Serpente riu com vontade.
- Isso é o que você acredita... Mas esse arranjo me agrada, com uma única condição.
- Que condição?
- Você sairá dessa casa essa madrugada, sem se explicar nem se despedir... eu manterei ele e o pequeno num sono enfeitiçado até que você esteja longe... e esconderei seu ki para que ele não te encontre... eu manterei livres da maldição você e sua filha, sim, eu sei que é uma menina. Mas se em algum momento você fraquejar, você o procurar... será você a pagar o preço. Não importa o que haja, o tempo que passe... se você voltar a beijá-lo, estará condenada a me servir por mil anos no meu castelo. Do mesmo modo que sua mãe me serviu no passado.
- Eu aceito – disse Lunch – mas preciso pegar minhas coisas...
- Tudo bem. Eu tenho a eternidade para esperar, sempre.
Ela correu para dentro da casa, sem se importar em fazer barulho. Sabia que ele não acordaria. Correu para guardar tudo nas capsulas e se vestiu apressadamente, pegando a jaqueta e o capacete para a longa viagem de moto que enfrentaria. Antes de sair, no entanto, se aproximou da cama, onde ele dormia, parecendo angustiado no seu sono. Certamente eram os pesadelos da Rainha-Serpente. Ela se inclinou sobre ele e deu um beijo leve em seu rosto. Uma lágrima pingou sobre o rosto dele e desceu rolando até seus lábios. Ele se agitou no sono, mas ela tocou de leve os lábios dele com os dedos e sussurrou:
- Te amarei para sempre, Tenhsin...
Saiu, levando tudo que trouxera para a vida dele, sabendo que não poderia olhar para trás. Enxugou as lágrimas antes de ligar a moto e partiu, sem saber exatamente para onde iria.
Quando Tenshin e Chaos acordaram, já passara muito do meio-dia. Tenhsin sentou-se na cama, assustado, e viu o vazio ao seu lado. Apavorou-se. Sabia que acontecera alguma coisa... e sabia que ela fora embora. Não passara a noite em pesadelos dos quais não conseguira acordar por mera coincidência.
Ele e Chaos vasculharam a propriedade, vendo que não havia sinal dela. Ele voou o mais alto que pôde e esquadrinhou cada centímetro do vale, procurando aquele ki voluntarioso da Lunch loura ou o ki suave da Lunch de cabelos negros. Não estava ali, não estava no vale... não estava em parte alguma. Ele gritou, frustrado, numa explosão de ki que expressava toda sua frustração. Sabendo que a perdera, mas não entendendo porquê.
Depois disso, passou dias, meses, sentado, olhando para o nada. Tinham sido tão felizes, mas tudo acabara. Chaos, passou então a cuidar da plantação sozinho, graças a seus poderes e apenas observava o amigo sem saber bem como lidar com a tristeza dele. Era estranho porque ele estava ficando barbado e seu cabelo, que ele raspara a vida inteira, agora estava um dedo crescido. Não podia ver o amigo perdido daquela maneira. O forçava a comer, usava seus poderem para "apagá-lo" e fazê-lo dormir... mas não podia fazer nada em relação à garota. Ela se fora, e Tenshin precisava se conformar com isso. Um dia, logo pela manhã, tomou coragem e sentou-se diante dele, sério.
- Tenshin... você precisa sair dessa ou vai morrer.
Ele deu de ombros. Tanto fazia viver ou morrer. O garoto olhou nos olhos dele e disse:
- Eu duvido que ela tenha ido embora por sua causa. Deve haver outro motivo. Mas se você ficar aí sentado emagrecendo e definhando... você nunca vai saber o que aconteceu. Você precisa reagir, meu amigo... ou vai morrer sem saber porque ela o abandonou.
Ele se levantou e voltou a seus afazeres. As palavras dele ficaram ecoando na cabeça de Tenshin e ele passou o resto do dia pensando que realmente precisava descobrir o que acontecera. Lunch não o deixaria daquela forma, sem explicação, à toa. Começou a pensar que precisava realmente reagir. Descobrir o que acontecera com ela. Onde ela estaria.
Tenshin finalmente pareceu despertar. Então ele se lembrou de todas as brigas entre uma parte e outra e de como dessa vez nada disso havia acontecido. Decidiu que não iria sentar e morrer. Mas não ia sair atrás dela, deixando Chaos ali, sozinho. Já vivera sem ela, aprendera a viver sentindo a falta dela. Ele podia expandir sua consciência... buscá-la sem precisar sair pelo mundo. Ele tinha uma vida, e precisava retomá-la, com ou sem ela. E seguir em frente, quando descobrisse o motivo daquilo tudo.
Levantou-se, decidido e foi até o banheiro. Precisava tomar um banho e fazer a barba, além de raspar o cabelo, como sempre fizera. Nesse momento Chaos entrava em casa e o viu, olhando-se no espelho, passando a mão na barba e encarando o cabelo crescido:
- Eu devo estar bem diferente... – olhou para Chaos e disse – vou dar um jeito nisso.
Chaos sorriu. O amigo estava de volta.
Lunch chegou à antiga cidade do Leste e estranhou as obras e a mudança de nome, mas percebeu que numa cidade em plena reconstrução haveria muitas oportunidades. Só precisava de uma que a ajudasse a se sustentar para ter sua filha.
Ainda tinha algum dinheiro guardado, então, podia ir a uma cafeteria ter uma refeição decente. Depois do almoço ela pensaria em alugar um quarto, então, arrumaria um emprego e viveria ali. Havia boas escolas, bons hospitais...
De repente, alguém chamou seu nome. Gelou. Não podia ser nenhum dos antigos amigos de Tenshin ou dela... precisava apagar o passado se quisesse ficar longe dele.
Mas era um médico. O que mais se dedicara ao seu tratamento.
Ele puxou assunto e perguntou como ela estava. Ela mentiu que estava curada. Ele ficou curioso, como acontecera? Ela mentiu, dizendo que, de alguma forma, havia se curado sozinha durante uma viagem. Ninguém deveria, jamais, saber a verdade.
Então ele a levou para o hospital, para uma bateria de testes. E não era por ser um bom médico: aquela cura seria um passaporte para uma carreira melhor. Ele tinha fama de carreirista, mas ainda não conseguira grandes resultados na organização de saúde de Satan City. Atribuir a seu tratamento aquela expressiva cura poderia garantir esse resultado.
Quando pegou o exame de sangue dela e constatou a gravidez, sabendo que ela estava desempregada, uma ideia surgiu na sua mente. Acreditava que estava diante daquela moça ingênua que conhecera. Se ele a tivesse sempre por perto, de forma que pudesse controlá-la, a história de cura inexplicável seria substituída por outra, de uma terapia de sucesso que resultara numa mulher completamente curada e equilibrada.
Quando ela aceitou casar-se com ele pediu apenas uma coisa: queria mudar de nome. Precisava deixar definitivamente o passado para trás.
E assim, Lunch se tornou Lucy Black.
Notas:
1. No fim, deu tudo errado para nossa Paola Bracho. Quem nasceu para Mai nunca será uma Usurpadora!
2. Trunks e Goten: não sabem de nada, inocentes. Tchai é muito mais esperta que parece. E sabe o que quer. E já sacaram que ela vai deduzir que tem alguma coisa suspeita entre seus pais... e que tem a ver com um certo senhor de três olhos.
3. Lunch foi mantida presa, à força, à base da chantagem. O homem precisava da história da cura dela, e fez tudo para mantê-la. Até agora, mas, com a Red Ribbon no circuito, tudo mudou.
4. Eu confesso que a cena da Lunch deixando o Tenshin sem poder se despedir é uma das coisas mais tristes que eu escrevi na vida. E o Tenhsin deprê me deu pena de escrever.
5. A música do capítulo é bem triste, e não dava para ser de outro jeito. É o ponto de vista do Tenshin.
Deixe um suspiro no meu travesseiro
Deixe o inverno para trás
Eu acordo sozinha, existe um ar de silêncio
Na cama, por todo lado (por todo lado)
Toque-me agora, eu fecho meus olhos
E fico sonhando
Deve ter sido amor, mas agora acabou
Deve ter sido bom, mas de alguma forma eu o perdi
Deve ter sido amor, mas agora acabou
Desde o momento que nos tocamos até nos separarmos
