NEW GENESIS
Capítulo 11
Nicole não poderia estar mais ansiosa. Ou nervosa. Nem ela própria sabia ao certo. Naquela quarta-feira, a garota e o jovem policial iriam tentar levar o monstro Pan até o Central Park, a fim de deixá-lo aproveitar um pouco de liberdade e para que pudesse ver as árvores e o céu á noite. Pan adorava observar a lua através de um buraco no teto do armazém, e Nicole se sentia mal por não poder levá-lo para passear mais vezes. Mas, como poderia ela andar com uma criatura de 7 metros de altura sem ser notada? Era impossível.
No entanto, tudo já havia sido arranjado pelo rapaz chamado Matt, a quem vinha ajudando a adolescente. Ele havia traçado uma rota segura até o Central Park, de um jeito que — talvez — Pan não fosse visto. Os dois iriam sair ás 22:30 da noite daquele dia, juntos, e tentariam levar e trazer o enorme e dócil monstro sem ter problemas. Mas é claro que ninguém planeja ter problemas. Porém, o plano parecia perfeito e, após um dia normal de aula, Nicole estava ajeitando suas coisas em seu quarto, nervosa. Mordia o lábio inferior e se perguntava se tudo aquilo era mesmo o certo a se fazer.
— O que eu estou pensando...? — A voz de Nicole soou em sua própria mente. — É claro que é o certo a se fazer. Pan merece ver lá fora... Vai valer a pena, vai sim.
Então, tendo arrumado algumas coisas essenciais como seu celular em sua bolsa, Nikki desceu as escadas lentamente, e viu seu professor aguardando no andar de baixo. Parecia preocupado e animado, ao mesmo tempo.
— Terá cuidado, sim? — Disse ele.
— Terei sim, Prof. William...
— Promete?
Nicole sorriu sem jeito. — Prometo.
O professor de olhos azuis retribui o sorriso parecendo um pouco mais confiante. Ele arruma os óculos com um dedo e dá caminho para a garota chegar até a porta.
— Não se esqueça de que se precisar de alguma coisa, é só me ligar. Eu sairei correndo e busco vocês! — Disse o adulto.
— Não acho que Pan caiba no seu Civic, professor. — Nicole brincou, sentindo um leve peso no estômago, sem saber por quê.
— Nós damos um jeito! — O professor abana a mão uma vez e começa a se dirigir até seu escritório. — Mas tome cuidado mesmo. Estarei aqui.
Nicole assentiu e se despediu, olhando depois para seu relógio de pulso. Os ponteiros marcavam 22:29. Então a garota de cabelos castanhos arrumou sua bolsa roxa em seu ombro e abriu a porta; e como ela esperava — e desejava, — Matt estava parado ali, na frente da casa, aguardando em silêncio. Os braços cruzados e uma expressão séria no rosto. A garota suspirou aliviada e caminhou até ele em silêncio.
Sem dizer palavra, o rapaz começou a andar até a frente do armazém; Nicole o seguiu. Chegando ali, o garoto de cabelos semi-compridos se volta á garota.
— Está pronta? — Ele pergunta, sério.
Nikki engole em seco e endireita as costas, tentando mostrar confiança. — Estou.
— Claro que não está. — Matt diz com descrença, o que faz a jovem piscar os olhos confusa. — Mas, nós vamos de qualquer jeito.
Um pouco surpresa com a declaração, Nicole diz, um pouco hesitante: — ...Ah, sim. Então... Qual é o plano?
— Bom, o certo é seguirmos normalmente o caminho até a Madison Avenue, então viramos á direita na 5th Avenue, seguimos mais um pouco, viramos a esquerda... E continuamos indo. É até que simples. — Foi o que o jovem policial respondeu.
— É muito bom ouvir isso... — Com alívio, Nicole arruma sua franja e se aproxima da grande porta do armazém. Enquanto ela retirava a barra de madeira que segurava a porta, ela escutou Matt dizer atrás dela:
— Eu só quero é ver a cara do grandão.
Ele pareceu divertido, e isso animou a garota. Logo, ela empurrou as portas o mais silenciosamente que pôde e se esgueirou para dentro, tentando enxergar a grande criatura acinzentada ali dentro. Não demorou para seis esferas brilhantes laranja aparecerem no ar. Pan estava olhando diretamente para Nicole, daquele jeito tranqüilo e manso dele. Nicole então respirou fundo e o chamou.
— Pan? Vem aqui... Nós vamos passear.
O monstro inclinou a cabeça enorme para um lado, sem entender. Foi então que Matt também entrou no armazém, e começou a empurrar as portas para os lados, abrindo espaço para Pan conseguir sair.
A criatura pareceu estar começando a entender, e surgiram vários dentinhos brilhantes no escuro, o que mostrava que Pan estava aparentemente sorrindo, contente. Mas nada fez e continuou a olhar para Nicole, como se esperasse ela tomar uma decisão, ou até como se estivesse pedindo permissão. A garota de olhos verdes sorriu e caminhou para trás, chamando-o com as mãos.
— Pode vir, Pan... Nós vamos dar uma voltinha! — Disse ela alegremente.
Pan então pareceu começar a se levantar, mas hesitou. Enrolou a enorme cauda em volta do corpo e choramingou, pousando a cabeça no chão do armazém.
— O que houve...? Qual o problema? — Nicole caminhou para frente de novo, insegura e confusa. Pan não queria sair?
— Acho que ele pensa que nós vamos deixá-lo ir embora simplesmente. — Comentou Matt, aparecendo do lado da garota. — Ou isso, ou ele não quer ir mesmo.
— Isso quer dizer que Pan gosta de ficar aqui? — Pensou Nikki, olhando para a criatura apreensiva em sua frente. — Olhe, Pan... Não se preocupe. Eu fico feliz que você goste de ficar aqui comigo, mas nós só vamos dar uma volta e logo voltamos para casa! É verdade!
O monstro coberto de espinhos levantou levemente seu focinho comprido e a observou. Então Nicole continuou:
— Nós vamos levar você para um lugar legal! Tem árvores, um lago... Grama! E você pode ver a lua de lá!
Pan já pareceu mais animado só de ouvir "árvores", mas á menção da palavra "lua", ele começou a ronronar e fazer aquele som no fundo da garganta. Seus olhos laranjas brilharam e ele levantou seu focinho do chão completamente.
— Venha com a gente! — Chamou ela mais uma vez. — Vai ser divertido!
Enfim, Pan cedeu. Apoiou as enormes garras no chão e começou a se suspender lentamente, indo para frente com o corpo curvado e o pescoço reto. Com o focinho apontado para frente ele se aproximou curiosamente das porta abertas, enquanto Matt e Nicole andavam para trás para dar espaço a ele.
— Será que ele vai conseguir sair? — O rapaz perguntou um tanto apreensivo.
— Se ele conseguiu entrar, consegue sair, não é? — Respondeu divertida a garota, olhando para Matt.
— Pfft, vai saber...
Pan abaixou o corpo o máximo que pôde e passou a cabeça e as patas pela porta, como se arrastasse com as quatro patas. Abaixou as costas e inclinou os enormes espinhos das costas para trás; as aparentemente lanças roxas de suas costas moviam-se livremente conforme a vontade da criatura. Ele facilitou a própria passagem e se empurrou levemente para fora usando as patas dianteiras, tirando então de dentro do armazém as patas traseiras, uma de cada vez. Por fim, veio arrastando a cauda, quando finalmente seu corpo todo estava fora da proteção de seu lar.
Matt arregalou os olhos sem perceber, e Nicole percebeu que era devido ao fato de que aquela era a primeira vez que o rapaz via Pan completamente livre e de pé, sem estar deitado e enroscado como um gatinho no armazém. O monstro cinzento ergueu-se completamente e abriu as mandíbulas, sentindo o ar de lá fora, e apoiou o enorme ( e desproporcional ) corpo na sua cauda grossa e comprida. Vendo-se dali, parecia um gigantesco e bizarro dinossauro.
Não fosse pelos seus braços desproporcionais e corpo magro, Pan podia até se passar por um dinossauro. Mas também haviam seus espinhos e chifres ameaçadoramente afiados... Enfim, foi descartado o pensamento. Nicole sorria de alegria ao ver o contentamento de Pan a observar as casas ao redor com tranqüilidade. Da última vez que esteve livre, o monstro estava perdido na cidade durante um blecaute, e estava muito assustado. Desta vez, parecia insaciavelmente curioso.
— Aqui, vem! Por aqui! — Matt quebrou o silêncio, segurando no braço de Nicole e a puxando, para ver se Pan os seguiria.
O monstro estava até distraído com os arredores, mas escutou a voz do jovem e olhou para baixo, notando que seus dois amigos humanos estavam se afastando. Pan choramingou e seguiu, colocando uma pata traseira na frente de cada vez, causando um pequeno tremor no chão. Nicole, enquanto estava sendo puxada, colocou um dedo na frente dos lábios pedindo que Pan fizesse silêncio; e a criatura compreendeu, pois logo parou de choramingar e ficou a somente seguir os dois jovens pela noite, através das ruas escuras e silenciosas.
Nikki rezava para que ninguém estivesse acordado aquela hora e que não olhassem pela janela. Mas tudo parecia tranqüilo enquanto os dois jovens e o monstro seguiam seu caminho. Pan causava somente pequenos tremores pois parecia estar sendo cauteloso, e Matt olhava para os lados para garantir a segurança de todos. Mas, por dentro, também estava contente em ver toda aquela curiosidade na criatura amistosa. Os três continuaram a caminhar silenciosamente pela avenida deserta, enquanto Pan olhava para todos os cantos, sentindo como se o mundo todo fosse algo novo e divertido.
Não demorou muito para que todos chegassem até o famoso Central Park. Nicole viu as árvores antes de Pan e apontou para frente, chamando a atenção do seu monstro dócil que a seguia. Pan levantou o focinho e cheirou o ar, abrindo as mandíbulas e mostrando os dentinhos naquele divertido sorriso e ficou a ronronar, enquanto parecia ansioso para seguir em frente. Matt rolou os olhos e sorriu, mas foi pego desprevenido quando a garota agarrou em seu braço e o puxou para frente, se apressando em direção ao parque. A criatura seguiu, não cabendo em si de contento e chacoalhou levemente o chão quando deu seus passos até a área verde de Manhattan.
Então, ali estava Pan entre as árvores de diversos tons de verde, as observando como se fossem coisas de outro mundo; ele farejava as copas curioso, e fungava nas árvores para ver as folhas balançarem. Isso fez Matt e Nicole rirem, enquanto eles seguiam a trilha do parque, sem tirar os olhos da alegre criatura que se projetava acima das árvores, quase todas menores que ele.
Tudo parecia estar indo tão bem... Pan parecia estar tão feliz...
Mas, em algum lugar longe dali, um homem adulto de óculos esfregava a ponte de seu nariz, aborrecido e tentando não ceder a seu cansaço; quando então diversas luzes e palavras começaram a piscar e apitar nos monitores do aparente laboratório que ele se encontrava. Isso 'despertou' o homem, que se levantou da sua cadeira e arrumou o seu óculos de aro retangular.
— O que é isso? Relatório! — Exclamou o homem, passando na frente dos vários monitores que apitavam e piscavam, refletindo no jaleco branco dele.
Um outro homem que parecia um tipo de cientista se aproximou rapidamente dos monitores e digitou números e seqüências nos teclados, e arquejou quando um resultado se mostrou na tela.
— O que foi? Fale logo, incompetente! — O homem alto e severo vociferou, se aproximando da tela que mostrava o resultado.
Em questão de segundos, dezenas de outros cientistas e assistentes tinham entrado na sala, e cada um tinha ido até um monitor. Todos os monitores agora mostravam a mesma tela.
— É o... É... O GE-001, senhor! — O assistente falou, tirando seus óculos, os olhos arregalados.
— O quê?! — O homem endireitou seu corpo e arregalou os olhos. — Diga de uma vez, o que tem o GE-001?
Voltando a digitar no teclado, o mesmo cientista que atendia ao superior manteve-se em silêncio até outra tela aparecer. — Foi identificado! Apareceu, senhor!
— Onde? — Ansioso, o homem de óculos se apoiou na mesa e observou a tela com avidez. Logo sua pergunta foi respondida quando outro assistente, posicionado na frente de um monitor mais á esquerda disse, fazendo com que o desconhecido abrisse um sorriso perverso:
— New York, Doutor! Está no Central Park!
— Você tem um relógio aí? — Matt perguntou, estando sentado um banco com os braços atrás da cabeça.
— Tenho... São 23:50. — Respondeu Nicole, indo se sentar ao lado dele. Os dois estavam observando Pan cheirar os canteiros de flores e observar o reflexo da lua no lago a tremular tranquilamente. A garota bocejou brevemente e se encolheu, sentindo frio. — Ah, eu devia ter trazido uma blusa...
— ... Está com frio? — Ele perguntou, olhando para o lado onde Nicole estava.
— Um pouco.
Matt descruzou os braços que estavam atrás da cabeça e se moveu muito ligeiramente para mais perto da garota, dizendo um simples 'hm' enquanto o fazia. Nikki levantou uma sobrancelha para ele, sorrindo, mas o rapaz não fizera mais nada. Então, ligeiramente atrevida, Nicole se inclina para ele e se encosta em Matt, muito devagar. O rapaz de cabelos castanhos médios piscou e olhou para ela, depois dando um sorriso metido e se inclinado do mesmo modo, repousando um lado do rosto no topo da cabeça da jovem bem lentamente. Os dois ficaram ali daquele jeito em silêncio, enquanto o vento suave da noite balançava as folhas das árvores e Pan ficava sentado, desta vez observando a própria lua cheia no céu sem nuvens.
O coração de Nicole batia acelerado e ela sentia as mãos tremerem. Sem pensar muito, ela culpava o vento e o frio do parque, enquanto mantinha-se do mesmo jeito. Matt não dizia nada e somente olhava além do parque, aproveitando do silêncio.
Mas o silêncio não durou muito.
— Nós estamos vendo-o, central. Quais as ordens? — Um homem de uniforme verde escuro falou em um rádio no topo de um dos prédios que cercava o parque.
— Tragam-no de volta. Tragam o GE-001 de volta a qualquer custo. — O som metálico da voz ríspida do homem de óculos retangulares foi ouvida pelo rádio. Outro soldado apareceu do lado do primeiro.
— Aquela coisa é enorme. Tem certeza que vamos conseguir abatê-lo? — Disse o soldado, carregando um rifle nas mãos.
O outro somente olhou para o segundo uma vez, disse "Sim, senhor" no rádio e se levantou, colocando seu capacete com visor escuro. Ao se levantar, um símbolo bordado no uniforme mostrando as letras "GC" em um logo trabalhado encontrava-se no ombro dele.
— Nós vamos tentar. E todos sabem o que vai acontecer se não conseguirmos. — Respondeu o soldado já de capacete, pegando seu próprio rifle de sniping.
Lá embaixo, no parque, Pan estremeceu. Olhou para os lados e começou a choramingar, levantando-se e olhando em volta. Os arredores estavam tão silenciosos quanto antes. Nicole olhou para ele, preocupada.
— Pan? O que foi?
A criatura cinzenta deu um passo em direção aos dois que estavam sentados no banco e continuou a choramingar. Nicole estendeu uma mão a ele e tentou acalmá-lo, sem ter certeza de qual era o problema. Mas Matt de repente arregalou os olhos e arquejou, se colocando de pé em um pulo.
— NÃO! VAMOS EMBORA DAQUI! NÃO É SEGU...
Então um tiro de rifle passou assobiando a centímetros do chifre de Pan, que tinha abaixado a cabeça para ser acariciado por Nicole. A bala acertou o chão e levantou uma pequena nuvem de terra e grama, e o monstro entrou em pânico. Mesmo que disparado com um silenciador, o som sutil do tiro tinha sido perceptível, e sentindo como se seu estômago despencasse, Nicole percebeu que estavam em perigo.
— Eu errei. — Recarregando o rifle, o soldado de capacete se posiciona para outro tiro. — Tenho que acertá-lo bem do lado da cabeça, como disse o Doutor.
— Tem pessoas ali! — Aponta o outro soldado.
— E quem se importa? — Responde o soldado disparando mais uma vez.
Desta vez o tiro errou pois Pan deu passos desesperados para trás, esbarrando e derrubando uma árvore que estava atrás dele. A criatura berrava assustada, e Matt tentava empurrá-lo sem sucesso, e fazê-lo correr. Nicole tinha se levantado em um salto e estava apavorada, vendo a cena que se desenrolava em sua frente.
— CORRA! — Gritou Matt, despertando-a do transe de pavor. — CORRA, QUE ELE IRÁ ATRÁS DE VOCÊ!
Engolindo em seco e tremendo, foi o que a garota fez. Ela se virou e começou a correr pelo parque, olhando por cima do ombro. Pan rugia de terror, mas Matt conseguiu fazer com que ele olhasse para onde Nicole corria, e ela acenou para a criatura, que começou a segui-la com desespero. O jovem policial veio logo atrás.
— O que está acontecendo? — Pensou horrorizada a garota enquanto corria. A situação a lembrava desconfortavelmente da noite do blecaute. — Alguém... Alguém viu Pan... E estavam atirando nele... Oh, meu Deus...
Saindo do parque, Nicole correu para as ruas de onde vieram, e não demorou para luzes nos prédios começarem a ser acesas. As pessoas estavam despertando. Pan corria atrás da garota, e se embrenhou entre as ruas entre os prédios, sendo seguido por Matt, que cobria a retaguarda.
— Está fugindo por entre os prédios! — O segundo soldado gritou para o rádio, e a resposta conseguir ser mais alta ainda.
— O QUE ESTÃO ESPERANDO? VÃO ATRÁS DELE!
Em pânico, os três fugiam pela noite, correndo o mais rápido que podiam e tentando não chamar a atenção de quem os perseguia. Nicole estava sem fôlego, mas sempre olhava para trás para ter certeza de que Pan a seguia, e de que Matt também os acompanhava. Chegando em uma rua um tanto estreita e mal iluminada, o jovem policial parou de correr.
— O que está fazendo? — Perguntou a garota, sem fôlego.
— Vão por essas ruas da esquerda, e sigam em frente. Chegarão logo. — Matt andou até ela e Pan, que tinha parado e se encolhido de medo.
— E você?
— Eu vou voltar e tentar descobrir quem nos viu. Tenho que fazer alguma coisa.
— Não! É perigoso! — Nicole arregalou os olhos, assustada.
— Pare de perder tempo. — Ele respondeu friamente. — Alguma coisa deu errado hoje, e se você não quer que as coisas fiquem piores, volte logo para casa. Ande. Eu encontro você depois.
— Mas...
— Sem mas! — Matt disse bruscamente, e incentivou Pan a voltar a andar. — Vai logo!
Nicole assentiu hesitante e correu, colocando-se na frente de Pan. Os dois correram pelas ruas, e Matt voltou para trás, enquanto mais e mais luzes se acendiam nas casas e prédios.
Alguns minutos depois, Nicole conseguia ver a casa do tio á distância. Por um milagre, não havia sido seguida, então se apressou e levou Pan até a entrada do armazém. Com as mãos tremendo ela abriu as portas e chamou sua criatura para entrar, arfando com pressa. Um silêncio mortal tomava conta da rua, e o monstro cinzento começou a se espremer para dentro do armazém, apressado e assustado. Caminhando em silêncio veio o Prof. William que, sorridente, recebia os dois.
— Olá! Como foi? Se divertiram?
Nicole tremia dos pés á cabeça e assim que Pan adentrou o armazém, correu a encostar as portas.
— ... O que... O que aconteceu? — O professor perguntou, começando a ficar assustado. — Onde está seu amigo?
A adolescente estava cansada e com frio, e piscava repetidamente, tentando conter algumas lágrimas de nervosismo que tentavam escapar de seus olhos verdes. Abraçando seus próprios braços, ela gemeu. — D-deu tudo errado...
— C-como assim? Por Deus... Venha para dentro, vamos! — Demonstrando muita preocupação, o professor tirou seu casaco branco e o colocou nos ombros da jovem, a guiando para dentro da casa.
Um silêncio desagradável tinha se instalado na grande casa de madeira nos próximos 15 minutos que se passaram. Não havia tido nenhum sinal de Matt, e Nicole estava sentada na poltrona, nervosamente segurando o celular, esperando algum chamado. Havia explicado a situação para o professor, que escutou tudo com atenção e pareceu muito entristecido. Ele tinha ficado muito preocupado e disse que estava feliz que ela e Pan tinham voltado em segurança; e que Nicole deveria ter calma, pois ele tinha certeza de que Matt estaria bem.
Mesmo assim, a jovem estava muito nervosa. Nem tinha se dado ao trabalho de arrumar os cabelos e ainda estava com a jaqueta branca do professor sobre os ombros, enquanto aguardava sentindo um aperto no coração. E se culpava, se culpava por tudo... Se apenas não tivesse tido essa idéia idiota, ou pelo menos não tivessem saído naquela noite...
Interrompendo os pensamentos dela, houve três batidas na porta, quebrando o silêncio. Nicole e Prof. William levantaram os rostos.
O adulto, estando de pé e mais perto da porta, adiantou-se e foi atender; mas não antes de lançar um olhar preocupado á garota que fitava a porta com ansiedade. Ele abriu a porta lentamente, e Matt se encontrava no portal. Estava cansado, parecia aborrecido e parecia ter machucado uma perna, pois entrou mancando na casa, sem esperar ser convidado.
— O que aconteceu? Se machucou? — Nicole correu e o levou até o sofá devagar. Ela estava aliviada em vê-lo, mas preocupada mesmo assim. O professor fechou a porta e se aproximou também.
— Nah, isto não é nada. — Matt disse ao se sentar. — Uma estupidez. Tropecei quando estava voltando. Uma vergonha.
Nicole ficou em silêncio por um minuto, até que conseguiu rir muito brevemente.
— Eu estava pensando que você tinha levado um tiro.
— Que nada. Isso aqui é muito mais constrangedor. — Respondeu o jovem policial, levantando a barra da calça e revelando um grande arranhado no joelho.
— Eu vou trazer água oxigenada e esparadrapos, um momento! — O loiro falou e se apressou até onde estavam os materiais. Por algum motivo, Matt o encarou agressivamente enquanto o professor saía, lançado um breve olhar do casaco nos ombros de Nicole até onde o adulto se retirara.
— Você... Você conseguiu descobrir alguma coisa...? — Nikki perguntou tocando levemente na beirada do machucado, sentindo pena de Matt.
— Ai. — Ele disse, e Nicole afastou a mão, preocupada. — Não doeu, eu estava mentindo. Enfim, por mais ridículo que pareça, não. Não descobri nada. Estou realmente patético hoje.
— Não diga isso. Você fez muito. Se não fosse por você, Pan não teria visto lá fora. — A garota de cabelos castanhos disse, fitando Matt nos olhos. — S-se bem que eu acho que Pan nunca mais vai querer sair, agora...
Matt suspirou.
— Não fique assim. Não foi culpa sua. Eu só queria saber quem foi que estava atirando em nós.
— Não foi a polícia?
O rapaz de olhos azul petróleo balançou a cabeça. — Não. Estavam chegando lá na hora que voltei. Nem sabiam de nada, pelo jeito. Não esperei que me vissem, e voltei direto para cá.
Nikki suspirou também, e o Prof. William voltou trazendo os esparadrapos e a água oxigenada. Matt olhou para ele e zombou:
— Você é um doutor ou um cientista?
O adulto sorriu. — De um modo engraçado, ambos. Mesmo que não tenha me especializado na área médica, acho que sei enfaixar um arranhado.
O garoto bufou e olhou para um lado. Pegando a água oxigenada, Nicole despejou algumas gotas no machucado. Matt não fez menção nenhuma de reclamar de dor, e nem se moveu enquanto o professor enfaixava o joelho dele. Após o tratamento, o loiro de olhos azuis se endireitou e olhou para o relógio.
— Minha nossa... Já são 01:30 da manhã... Vocês dois precisam ir dormir.
Nicole e Matt olharam para o adulto, ambos estranhando o plural na frase, mas mantendo-se em silêncio. Mas não demorou muito e o jovem policial, agora com a perna esquerda enfaixada, fez menção de se levantar.
— É melhor eu ir.
— Ah, ora essa... — Começou o adulto. — Pode passar a noite aqui. Não pode, Nicole?
A garota não conseguiu evitar detectar um tom divertido e provocante na voz do professor, como se ele estivesse se divertindo ligeiramente. Mas ela sabia que era pelo bem de Matt que ele falava. E por ela, não havia problema algum.
— Eu acho que... Acho que é melhor, sim. — Quando Prof. William tinha sugerido que ele ficasse, Matt já havia achado estranho, mas quando ouviu a garota confirmar, inconscientemente levantou ambas as sobrancelhas.
— Posso ficar? — Perguntou ele em seguida, sem querer soando um pouco mais suave do que o normal.
Nikki assentiu.
— ...Obrigado. Ia ser mesmo um pouco ruim pra mim voltar desse jeito...
— Não tem problema! Pode repousar no quarto que eu estou utilizando, eu posso dormir aqui no primeiro andar esta noite... — Começou o professor, mas ele foi interrompido.
— Não, não. Eu vou dormir aqui embaixo. — Matt falou com firmeza. Depois voltou-se para Nicole. — E você, nem adianta bancar a educadinha e pedir para que eu vá dormir no seu quarto. Já está me fazendo um favor, e você é que precisa descansar direito.
Nicole bufou levemente, mas sorria. — Tudo bem, eu não ia mesmo.
— Sei — Brincou o garoto, indo se ajeitar no sofá.
— Precisa de alguma coisa? — O professor perguntou educadamente.
— Não. Só preciso descansar.
Prof. William então assentiu e se retirou, levando de volta os esparadrapos e a água oxigenada. Nikki estendeu uma almofada para Matt, que a olhou por um momento e pegou a almofada, colocando-a onde ia apoiar a cabeça para dormir. Ficaram em silêncio por alguns instantes.
— Terei que ligar para o meu velho amanhã, explicar o sumiço... — O rapaz de cabelos castanhos escuros falou, já deitado.
— Você não contou pra ele? Digo... Que ia sair?
— Não. — Respondeu Matt sem nem se abalar. — Mas eu sei que ele vai ficar furioso comigo. — E riu em seguida.
A adolescente balançou a cabeça e suspirou. Olhando pela janela por alguns instantes, ela pensou sobre o que tinha acontecido. E agradeceu por Matt ter estado ali com ela.
— Escute, eu quero te agrade...
— Não precisa. — Mal Nikki começou a falar, já foi cortada pelo rapaz. — Vá dormir, princesa.
— Ora! Que folgado. — Ela pensou, franzindo as sobrancelhas, divertida. — Está bem. Boa noite.
— Boa noite. — Respondeu ele, olhando-a suavemente enquanto parecia estar se entregando ao sono. Nicole não sabia se ele estava fazendo isso de propósito ou se estava muito cansado mesmo, e não ficou ali muito tempo para pensar nisso. Com um pouco de pena dele, ela se levantou e se afastou, subindo as escadas lentamente para chegar até seu quarto.
No corredor do segundo andar, o professor a aguardava.
— Nicole. — Ele falou baixo. — Não quis ser presunçoso nem atrevido em convidar seu amigo para passar a noite, mas... Eu pensei que faria você se sentir melhor, e que seria mais seguro.
A garota ficou surpresa e respondeu falando baixo também: — Ah não, professor... Foi o certo a se fazer. Eu agradeço muito... Você tem sido muito responsável por tudo e por mim, professor Will.
Isso o animou um pouco, mas o sorriso dele logo murchou, e o adulto pareceu tentar as palavras certas para contar algo, mas por fim mudou de idéia e decidiu somente dar um aviso.
— Escute, tenha cuidado. — Sua voz soou ligeiramente estranha é séria; o que era estranho vindo dele, que estava sempre contente e eufórico. — As pessoas que viram Pan... Não devem ser mesmo amigáveis. Eu recomendo precaução.
— ... S... Sim, claro... — Levemente surpresa, a garota concorda. — Você acha que é alguém em especial?
A pergunta foi arriscada, e Nicole sentiu algo desconfortável no ar.
Mas o professor logo sorria de novo, e fez um cafuné nos cabelos já bagunçados dela.
— Eu não sei... Só sei que você precisa ir dormir! Estou vendo que alguém vai se atrasar para a aula...
— Ah, tá... Desculpe!
Então a jovem entrou em seu quarto após dar boa noite ao professor. Ela vestiu seu pijama e arrumou sua bolsa no armário, pensando em tudo que tinha acontecido. Um calafrio constante e desconfortável tinha tomado conta dela... E foi algo que foi intensificado após o aviso do professor. Porém, Nicole estava cansada demais para pensar mais nisso tudo e deitou-se, caindo no sono em pouco tempo, entregando-se ao cansaço.
Um som alto e um estrondo ecoou pelas paredes do laboratório quando um homem bateu com as duas mãos na superfície de uma mesa. O som foi seguido de um frio e desconfortável silêncio em que ninguém dos 20 cientistas que se encontravam ali disse nada. Curvado sobre a mesa com os punhos cerrados, estava o mesmo homem de óculos de aros negros retangulares que estivera na frente dos monitores á procura incansável de algo chamado estava com o cabelo ligeiramente bagunçado e uma das lentes de seu óculos faiscou assustadoramente quando ele levantou o rosto, encarando agressivamente todos os assistentes ali presentes.
— Nós sentimos muito, senhor... M-mas... O GE-001 realmente fugiu... — Disse um dos homens de jaleco branco. Provavelmente foi o único que teve coragem de se pronunciar diante do superior.
— Eu só me pergunto... — Endireitando o seu corpo alto e de ombros largos, o Doutor começou a falar com a voz fria e controlada. — Eu só me pergunto como... COMO FOI QUE CONSEGUIRAM PERDER UMA CRIATURA DE 6 METROS E MEIO EM MANHATTAN?! — Vociferando de raiva, ele se projetou sobre os assistentes e todo o seu ódio frio parecia acertá-los como uma navalha.
— N-não sabemos, Dr. Carter! Sinto muito — O assistente da primeira fileira disse, encolhendo-se diante do homem mais alto em sua frente. Todos os outros cientistas estavam ou olhando para baixo, ou estavam com os olhos arregalados, temerosos.
— Pois dêem um jeito de encontrá-lo. Agora. — E o Doutor se afastou dos outros, mantendo-se em frente de outros monitores. Todos os cientistas se afastaram e, em seguida, o soldado com o rifle adentrou a sala, ainda vestindo o uniforme verde e o capacete.
Dr. Carter agora estava de costas para o resto, apenas assistindo as seqüência de letras e números que piscavam nas telas e refletiam nas lentes de seu óculos. O soldado pigarreou.
— Estou mandando uma equipe de busca aos arredores, senhor. Encontraremos o experimento assim que possível.
O homem severo levantou seu rosto e falou, sem sequer se virar: — Eu espero. Vasculhem tudo. Procurem em todos os lugares, revirem Manhattan se for preciso! Os testes não podem continuar sem o espécime aqui! — O soldado bateu continência e o Dr. Carter sorriu enquanto a luz da tela brilhava em seus óculos. — Pois você sabe, cavalheiro... Que o GE-001 é somente o começo.
