- Mas o que é isso, Joanne Ulhoa???

- Ah pai, vai se ferrar! Eu gosto dela!

- Essa guriazinha é perversa, escuta o que eu tou falando!

- Oh ohohohohoho! Olha só quem fala? Quem passa atestado médico pra riquinho faltar trabalho? Quem libera paciente sem medicamento obrigatório? Ai meu paizinho, você é hilário. – a reação do pai de Jojo não foi muito boa ao ver que a filha estava falando com Erin no telefone e muito menos por receber aquele insulto costumeiro. Jarod se colocou entre os dois.

- Papai, se você tocar na Jojo, eu juro que não respondo em minha sã consciência!

- Você defende essa bastarda é?

- Quem fez a idiotice foi você!

- Oh muito obrigada pela ajuda, Jarod...! – Jojo saiu da sala irritada com a vida. Odiava discussões em que seu nascimento era o centro das atenções.

- E-eu não quis dizer... – balbuciou Jarod enquanto seu pai vestia o jaleco e colocava as coisas em sua pasta.

- Se essa menina continuar com essas ligações pra essa... essa... – Jojo gritou algo lá fora, parecia ser: "Vai pro inferno! Eu ligo pra quem eu quiser!" – Não debaixo do meu teto! – a cabeça da garota apareceu na janela da cozinha.

- Sou eu que pago essa maldita conta telefônica!

- E sou eu que ponho comida na sua mesa!

- Mas deixa paciente morrer na maca esperando!

- Olha aqui sua fedelha, não questione a minha profissão! Você é só uma ajudantezinha de legista! Não sabe nada de lidar com pacientes de verdade!

- E você precisa aprender a respeitar o MEU trabalho antes de falar do seu! Porque se não fosse EU, você estaria fora daquele Hospital de tanta gente que manda pro necrotério e...

- Chega!!! – gritou Jarod vermelho de raiva. – Papai, cai fora daqui!

- Não fale assim comig... – Jarod socou a mesa do café e muitas coisas pularam quando ele fez isso. O Dr. Ulhoa engoliu em seco e saiu sem mais palavras, Joanne ficou espantada pela reação do irmão mais velho. Suas pernas tremiam do outro lado da janela e seu queixo se contraiu um pouco.

- Escuta aqui, Joanne... – disse Jarod controlando a irritação. – Eu te amo, ouviu? Mais do que minha vida. Mas quando vocês dois começam a brigar, isso me tira do sério! Já não basta ter agüentado ele e sua mãe brigando o tempo todo, eu vou ter que agüentar você?

- Ta... Prometo não discutir com ele com você por perto... – e o mais velho sorriu cinicamente. – Você sabe que aquele idiota me tira do sério também, não? – entrando na cozinha e indo abraçar o irmão enorme. Jarod era grande e forte, seu abraço sumia com Jojo e suas mãos eram pesadas. Como ele conseguia manusear um bisturi com tanta eficiência era o grande orgulho e mistério que Jojo ainda iria descobrir. Jarod era o seu herói no campo médico, cada coisa que ele falava para melhorar a performance da garota na maca ou qualquer conselho de profissional era seguido à risca por ela.

- Mas que merda, Jojo... Ele conseguiu acabar com a vida da tua mãe... E tá fazendo o mesmo com a sua...

- Nhá, eu agüento! – rindo como uma criança travessa e socando o ombro do irmão, sentiu seus dedos dormentes após o golpe, acariciou-os com cuidado e fez cara de dor. – Caçamba, até pra bater em você dói!

- Haha, quem mandou ser fraquinha?

- Eu não sou fraquinha! Tomo minhas vitaminas todo dia... Além do mais... Quem se atrever a mexer comigo, eu peço pro meu irmãozão bater no coitado, haha...

- Eu não admito esse tipo de relacionamento!

- Pai, estamos no horário de trabalho, por favor! – disse Joanne verificando se todas as gavetas estavam com a numeração correta com a das fichas. O Dr. Ulhoa circulava a grande sala fria do necrotério com impaciência. – Quando a gente estiver de almoço, vamos gritar à vontade lá fora, aqui não.

- Não brinque comigo, garotinha! Não brinque! Ouviu?

- Sim, alto e claro. Esse lugar dá eco, caso não tenha percebido...

- Olha aqui menina! – puxando o braço dela para si. A força machucou o antebraço e uma fisgada no músculo avisou a Joanne que ele estava realmente nervoso. Pensou em algo pior que dor, pensou na infância... – Eu proíbo você de ver aquela outrazinha... Proíbo! Você ta pensando o quê? Tá seguindo os passos da sua mãe é? Achando que pode ser como ela? Você vai é acabar como ela se não me obedecer! – o sibilo da voz do pai fez Joanne ter nojo de si mesma. Ele estava muito perto e o hálito de café invadiu suas narinas.

- Então quer dizer que amar outra garota é algo horrível pro senhor? Tão horrível quanto trair a esposa com uma aluninha do colégio ao lado...?

- Não me provoque, Joanne! – ele vociferou e um respingo de saliva caiu em seu rosto, Joanne estava prestes a ter um ataque histérico.

- T-tá, okay, me larga...

- Não me ignore!

- Ta, okay... Vai ter plantão hoje? Preciso daquele seu livro de Radiologia, sabe?

- Escuta aqui! Você VAI me obedecer! Não quero essa sua namoradinha aqui, não quero ver você recebendo visitas ou ligações! Filha minha não é sapatão!

- Ahn... – o pai largou seu braço e ela sentiu que ficaria um hematoma ali... Esfregou o braço para poder circular o sangue melhor. Quando o Dr. Ulhoa estava para sair do necrotério, ela gritou: - E pai meu não é inescrupuloso, machista e quadrado! Se bem que... O senhor anda tomando cerveja demais ultimamente? Ta gordinho pacas! – o pai virou-se na mesma hora e voltou vociferando, mas Jarod chegara naquela mesma hora com uma maca ocupada. O olhar que deu para o pai fez o Dr. sair para o corredor.

- Você sabe como provocar hein? – disse decepcionado para a irmã.

- É legal! – rindo e bem longe dele, a maca n° 5 estava entre eles.

- Pare com isso, irrita...

- Que peninha... – já com caneta na mão e verificando a ficha de óbito do ocupante da maca. Tirou o pano do rosto e reconheceu. – Nossa...

- O quê? – disse Jarod já retirando da estufa os instrumentos necessários.

- Meu professor de Matemática...

- Quê?! – o irmão esganiçou e olhou para o senhor na maca.

- Sr. Wellington... Deu Geometria Analítica no colegial... Pow... – e voltou a ficha sem emoção alguma. Jarod olhou bem para a irmã e percebeu na hora que ela estava demonstrando o terrível comportamento do pai. Fria, calculista e robótica. Balançou a cabeça em reprovação.

- Se é pra levar a guria, seja discreta e nas escondidas, okay?

- Ahn... ta, okay... – esfregando mais o braço e pegando um lenço umedecido na bolsa para limpar a saliva que estava no rosto, esfregou tanto que marcou o queixo com vermelhidão, Jarod não pode conter isso e preferiu fazer o que podia para desviar a atenção da irmã: trabalho.

- Ele morreu às 15:29...

- Por que demorou tanto para descer?

- Burocracia lá em cima... – Jojo deu um suspiro pesado e gemeu de dor ao se virar.

- O que foi?

- Minhas costas... Acho que é a hérnia que arranjei, eita bendita mochila pesada. – riu sem graça olhando para o objeto, voltou sua atenção para tirar o lençol e fazer o exame visual completo.

- Jojo você não ta bem... – e ela continuava a fazer o exame sem dar resposta, deu a volta na mesa e pegou alguns instrumentos para ter um resultado mais apurado.

- Insuficiência respiratória... – concluiu um tempo depois... – Tá na ficha que foi enfisema... É, esse cara fumava demais... Aliás, todos os matemáticos fazem isso né? Povo doido...

- Jojo, você ouviu o que eu perguntei?

- Jarod, estamos na hora do trabalho, perguntas pessoais só depois do expediente...

- Me responde por favor... Você não tá bem...

- Não, não tou bem... Eu sei disso e isso não foi uma pergunta...

- Por que não me fala o que ta acontecendo...?

- São quantas horas? Tenho vigília às 19:30 lá no 4° andar... E você? Tem jeito de você cuidar daqui sem eu estar...?

- Só troco na hora do intervalo de enfermeiras... Você ta fugindo do assunto!

- Ta, estou sim... Algum problema...? – com a lanterninha apontada para os olhos sem vida do ex-professor de Matemática.

- Jojo... – e desistindo de falar o que queria, voltou a sua atenção ao morto. – Cadê a sonda de remoção...? – ela apontou para o armário ali atrás e continuou a cutucar o morto no pescoço e braços.

- Droooooga... – chutou a máquina de refrigerantes no Hall principal do Hospital. Estava muito tarde para alguém passar por ali e o vigia noturno estava cochilando na sua cabine lá fora. Precisava de chá gelado, urgentemente. Só um gole e tudo iria embora, os pensamentos, as impressões, a terrível sensação de que estava corrompida... mas foi a melhor noite de sua vida, como poderia então... – Vai logo... – bateu com a mão no lado da máquina e ouviu um clique. O plantão das enfermeiras do começo da manhã passou por ela silencioso. Uma semana naquele dia. Não tinha nem vontade de ligar, estava em estado vazio completo. Nem em Deus estava acreditando tanto... A lata caiu e escapou da sua mão, amassando a borda. – Deve ser castigo né? – disse ela baixinho recolhendo a lata, abriu e sorveu um pouco do líquido num gole só.

Dito e feito. Ela esqueceu a maioria dos problemas quando tomou um pouco de chá...

O ruim foi ter que tirar o bocal dos lábios e perceber que a realidade era bem pior quando resolvia esquecer dela.

Claire gostava das coisas em seu lugar, as fichas do 4° andar estavam revisadas, menos aquelas que Joanne recolhia para averiguação. Ainda bem que naquela semana não teve tantos casos especiais, não gostaria de estragar seu bom humor com Exames de Delito... Incrível como a garota legista estava maleável aqueles dias... Sorrindo muito, se ocupando com coisas mínimas e ajudando no que pudesse... Se fosse alguém de fora, Claire diria que Joanne era muito aplicada ao seu trabalho e levava à sério suas responsabilidades, mas Claire era Psicóloga e se uma coisa que ela conseguia ver de longe, era alguém desesperado, gritando silenciosamente por atenção enquanto desviava seus temores e aflições no trabalho...

- Hey psicótica...

- Vai se danar... – a resposta foi um tanto.. interessante, pensou Claire ajeitando o jaleco e pegando o outro maço de pastas. Sorriu e passou pelo corredor como se nada tivesse acontecido. Pelo menos agora Jojo reagia às suas provocações.

O corredor era grande e frio, as paredes lisas e com tinta branca que brilhava com a limpeza. Por isso amava aquele hospital, sabiam muito bem como limpar paredes... Entre esses pensamentos e amaldiçoando o chão que pisava por estar com rastro de cera líquida, Joanne passou por duas macas vazias no corredor perto do necrotério e por uma placa de informações gerais. No 1° andar estava o seu motivo principal de ter pesadelos à noite: "Oncologia".

Não conseguiria mais suportar aqui, a quem estava enganando...?

Bem, Erin é quem não deveria estar enganando em nenhum momento.

Chegou em sua sala, e verificou as pastas do final de plantão, nada para aquele dia. Teria um tempinho pra descansar e dormir, estava um pouco sonolenta e cansada, mas não queria parar, queria continuar a trabalhar até ter uma convulsão... Ela sorriu com a imagem dela mesma tendo ataques epilépticos naquele chão e como seu jaleco ficaria sujo de poeira, fez uma expressão de nojo e foi até o telefone interno que tocava com um bip suave, tomou um pouco do chá e atendeu.

- Dra. Ulhoa... – disse uma voz de atendente, ela nunca sabia o nome delas. – Telefone para senhorita na linha 2. – ela só sorriu e apertou a tecla.

- Ulhoa falando...

- Jojo, vem pra casa! – exclamou Christopher seu irmão mais velho em um tom bem alarmante. Mas o seu coração nem sequer sofreu algum tipo de alteração.

- O que foi? – dando um suspiro impaciente e ajeitando a latinha de chá perto do seu guardador de copos.

- Papai ta maus! É o coração de novo, desmaiou na cama...!

- Manda ele aqui pro Hospital, oras... –e olhou atentamente para uma sujeirinha perto do porta-copos.

- Você não ta entendendo! Ele ta muito mal, quer ver você antes que... que... – a voz do irmão morreu com um princípio de choro constrangedor.

- Ahn... Não...? Tou trabalhando, se ele quiser, que venha aqui... – e desligou o telefone interno sem ressentimento nenhum, tomou o último gole do chá e jogou a latinha na lixeira. Esticou o corpo para espreguiçar e sentou na poltrona velha da sala de espera. – Sonim... – disse para ninguém e inclinou para deitar a cabeça no encosto de braço... Fechou os olhos e sentiu aquela leveza de estado de espírito, como se nada no mundo pudesse atingi-la diretamente... O corpo foi amolecendo até ela perder o foco nos olhos, pois já estavam pestanejando sem parar, suspirou alto em cansaço e cruzou os braços na frente do busto. Dormiu. E não precisava nem mais acordar.

Prontuário 174 do dia 25 de abril.

Joanne riu um pouco para a folha na mão. Sentou-se na cadeira de metal com o esfregão cheio de um desinfetante de cheiro forte, rosto vermelho e suado. Acabara de limpar sua sala toda, e mais a parte da sala de operações. Estava atônita e a sensação do vazio era maior ainda. Seu professor segurava a pasta com um cenho franzido.

- Pelo procedimento padrão, você tem direito à 3 dias...

- Eu não vou tirar folga por causa disso...

- Joanne, isso é uma obrigação sua... Era o seu pai...! – o médico Simmons não se conteve com a passividade da garota.

- Não, não era... Deixou de ser há muito tempo... – e ela levantou e continuou seu serviço de limpeza no resto da sala...

A portinhola de madeira abriu calma, o cheio de poeira e óleo de peroba infestava o lugar apertado, desconfortável e rude, mas parecia seguro ao seu ver...

- Vinde ao Senhor e Ele te mostrará o caminho, filha... – disse o padre no começo da manhã do mesmo dia.

- Ahn... Padre, me perdoe... Eu não... ahn... não me confesso desde ahn... acho que desde seilá... Acho que nunca vim me confessar na vida e peço desculpas por isso...

- Não sou eu que devo julgar, Joanne... Apenas me fale o que te aflige...

- Sabe quando você sente necessidade de questionar Deus?

- Isso faz parte de nossa natureza... Você se pergunta o quê?

- O que eu faço aqui e ahn... especificamente porque eu nasci...

- A vida é uma dádiva Joanne, temos que agradecer por esse presente de Deus...

- Eu não tenho que agradecer muita coisa. Pra quem eu devo dedicar à minha vida? Pros mortos? – sua voz estava baixa e um tanto raivosa no momento – Tudo que faço de bom é pra eles... Acho... Não sei! Qual é a razão disso?

- Deus nos mostra Seus propósitos por meios que não podemos entender, menina... Você é nova, ainda irá aprender como funciona...

- Esse é o problema, EU SEI como funciona! Eu estudei esse tempo todo pra saber como funciona, mas eu não sinto! Não consigo sentir! Eu faço formulações como sentir, eu listo as características ao sentir algo, por Deus Padre Norrigton, eu contei 6 tipo de reações voluntárias e involuntárias do meu corpo durante o funeral do meu pai. 6!!! E uma que não estava lá listada era chorar...!

- Joanne, por favor...

- Eu não chorei, eu tive um princípio de gastrite nervosa, até cheguei a vomitar, mas eu não chorei! Era o meu pai! E eu não chorei! – ela dizia meneando a cabeça junto com um gesto raivoso do braço.

- Você precisa ter calma...

- Mesmo?! Deus ta de greve?

- O que é isso menina?

- Tipo... a droga da linha de atendimento ao consumidor nunca funciona!

- Joanne Ulhoa! Respeite o seu Criador, seu Pai e seu Deus, você está na Casa Dele! – ela engoliu o orgulho maltratado e a raiva passageira, virou os olhos e acabou percebendo em algo escrito com caneta vermelha no canto do confessionário, uma letra floreada e duas iniciais "A e L" e uma frase "Deus está em todo Amor, pois ele é o próprio Amor." – Joanne... Você está num momento sensível e difícil... Eu aconselho ficar com seus irmãos, sua família... Vcs encontrarão as respostas que procuram juntos...

- E se elas nunca apareçam... - o padre ficou em silêncio. – Padre...?

- Eu não sou o mais indicado para falar sobre isso... – ele abriu a janelinha de madeira quadriculada e apontou para o altar. – Mas sei que alguém aqui ainda te ouve quando você reclama...

- Por que foge tanto do assunto...?

- Ahn, seilá... não importa...

- Você fica me escondendo as coisas, isso sim!

- Haha, obrigada... – as duas se beijaram por um tempo, Erin a olhava diretamente nos olhos, mas Jojo sempre fugia para algum lugar que a acolhesse, as mãos de Erin nas suas, talvez... Um detalhe na camisa dela, ou até a cicatriz que a garota tinha no queixo como ela também tinha...

- Como é que você consegue ser tão fria e robótica...?

- Ahn, sou legista, ta lembrada?

- Nhá. – Erin ficou desarmada e mais irritada com a situação. Parecia que Jojo queria só escapar das perguntas.

- Nhá, hehe...

- Quando você vai perceber que isso tá te destruindo...?

- O quê? Medicina Legal? – Erin bufou impaciente e se afastou, Jojo sentiu o frio de não ter a mão dela na sua. Era uma sensação de vazio intenso que só passava quando Erin colocava as mãos nela novamente.

- Não, fingir que está tudo bem...

- Eu já te falei sobre isso...

- Falou e eu entendi, mas... – e pegando o rosto de Jojo só para ela encarar. – Droga, Jojo! Eu sei o que você ta escondendo!

- Se sabe, então não precisa perguntar né? – respondeu ela com uma cara de manha. Erin foi mais enérgica e sacudiu seus ombros um pouco.

- Acorda e olha para mim! Pare de fingir que não sabe! Eu... Droga Jojo, eu tenho esse dom, essa maldição de ver através das pessoas... De ver que você ta é se machucando e se escondendo pra não poder mostrar o que realmente sente...

- Ahn... esse papo ta ficando filosófico demais...

- Olha para mim...! Olha pra... – e Jojo olhou nos olhos dela e teve vontade de chorar. Erin fazia isso com ela, uma olhada apenas e o mundo que Jojo construía para manter tudo certo na sua vida desmoronava com aquele gesto. – Por que você ta chorando?

- Porque... porque... porque você sabe o porquê...! – e as lágrimas a irritavam por causa da sensação amarga no fundo da garganta, do aperto no coração. De saber que não estava ali e que Erin nunca estava ali. Não para ela.

- Você ta fazendo de novo... Fugindo do assunto, da sua vida, de querer ser alguém... Se enterra nas coisas pra poder ser feliz e não consegue ver que isso não é felicidade! É fingimento! Você ta vivendo pelas pessoas e não por si própria!

- Talvez eu goste que seja assim...

- Mas por quê tem que ser assim...? Se uma coisa que eu aprendi é que a gente deve valorizar 1° a nós mesmos pra depois respeitar os outros... E você faz o contrário! Sequer vê o que está acontecendo em você! Não vê que está sofrendo, nem nada! Como consegue...?

- Talvez eu goste de ser assim... É diferente pra mim, Erin... Pra tudo... Eu não vejo muita razão de viver pra mim mesma, moça... Eu prefiro ver os outros felizes, eu fico satisfeita quando alguém tá feliz pelo que faço e bem, o que faço não alegra muita gente então... – respirou fundo e olhou de novo para os olhos claros de Erin, realmente havia alguém ali atrás que estava apenas testando suas palavras e mais: o mesmo alguém era alguém que ela tinha muito medo de conversar. - Eu não vejo razão de ser assim... Felicidade pra mim é algo estranho de se pensar...

- Se é diferente para você, eu não quero me acostumar com isso... – e Jojo já sabia o que aquela conversa iria causar em seu coração, se é que já não causava, como um mini trator esmigalhando cada centímetro de músculo cardíaco e entupindo veias e artérias ali dentro, invisivelmente e lentamente. A verdade que sempre pressentira. Erin nunca estivera ali como deveria ser. – Não quero estar com alguém que não se valoriza... – e o silêncio foi o anúncio que a conversa não iria seguir mais para as duas... Jojo virou na cama e murmurou uma boa noite para Erin sem muita vontade, fechou os olhos e tentou sufocar o desespero do choro vir no seu peito. Ajeitou o cobertor e fungou um pouco para desobstruir o nariz para respirar melhor. Odiava chorar na frente de pessoas e mais ainda de pessoas que não conhecia muito bem, como Erin.